Meu primeiro smartphone: dicas para aproveitar (e não se irritar) com o seu

Se você ainda não carrega um smartphone no bolso, é questão de tempo até se ver nessa situação. Com o aumento nas vendas impulsionado pelo barateamento da tecnologia e a substituição gradativa dos aparelhos mais simples, os dumbphones, trilhamos o caminho do smartphone onipresente. Neste post, trago tudo o que você sempre quis saber sobre smartphones mas nunca teve coragem de perguntar.

A IDC constatou um crescimento de 122% nas vendas de smartphones em 2013 no Brasil, o que o levou a superar os modelos simples em volume pela primeira vez na história — 52% contra 48%. Embora a estimativa para 2014 aponte para uma redução no ritmo, o segmento deverá crescer. A Abinee prevê um aumento de 61% na base instalada no país. No mundo, o Gartner diz que 55% de todos os celulares vendidos em 2013 foram smartphones.

Tem muita gente se aventurando com um smartphone pela primeira vez. É um universo novo, cheio de possibilidades — e dúvidas. Algumas, para o leitor regular do Manual do Usuário, podem parecer triviais. Para a maioria, porém, não são.

Este texto tem o objetivo de ser um guia de iniciação para os marinheiros de primeira viagem, um punhado de dicas compilado após consultas com pessoas que ainda não têm ou que acabaram de comprar um smartphone.

Se conhece alguém na situação, poderá poupar muito tempo, seu e dele, simplesmente encaminhando este artigo. Fiz um grande esforço para contemplar todas as dúvidas que comumente surgem no primeiro contato com um smartphone. Se ainda assim você sentir falta de alguma informação, por favor use os comentários.

O que é um smartphone?

Antes de entrarmos nas especifidades da questão, é bom esclarecer desde já o que é um smartphone.

Não existe um conjunto de diretrizes, ou características que, cumpridas, classificam um dispositivo como smartphone. Ele é, no geral, um celular com poderes que vão além de fazer ligações e trocar mensagens de texto.

As características mais distintas de um smartphone são seu alto poder de convergência e o sistema operacional que o move somado aos apps que ele pode receber.

Um smartphone consegue, diferentemente de um celular simples, acessar a Internet, fazer fotos, localizar a sua posição via GPS, tocar música e vídeo, entre outras coisas. Ele é uma máquina de convergência. Um celular simples, principalmente modelos contemporâneos, até consegue fazer uma ou outra, mas de modo mais restrito.

Todo celular, até aqueles mais simples de pouco menos de R$ 100, executa um sistema operacional. A diferença está nas capacidades dos que operam em smartphones. Eles geralmente desempenham mais funções e são abertos a apps de terceiros, que por sua vez estendem ainda mais o que esses aparelhos podem fazer.

Durante a fase de transição para os smartphones modernos, entre 2007 e 2009, havia certa confusão com featurephones, aparelhos que pareciam smartphones, mas não recebiam apps. Eles eram de uma categoria diferente? Até hoje alguns modelos desafiam essa organização, como o Asha 501, da Nokia. Esse modelo tem um punhado de características avançadas e até roda apps de terceiros, mas tudo de forma bem limitada. É um smartphone? Há quem diga que não, mas para mim não falta nenhum requisito para classificá-lo como tal, ainda que seja um smartphone mais ou menos — digno pelo que custa, mas como custa pouco…

Qual o melhor smartphone para mim?

iPhone 5, Lumia 920 e Xperia Z1.

Foto: Rodrigo Ghedin.

Este artigo é um belo guia semi-atemporal para escolher o melhor smartphone para você. Resumindo aqui, porém, a minha dica é: não economize.

Não quero dizer, com isso, que você deve entrar na primeira loja e levar qualquer smartphone pelo preço que for oferecido. Não é isso. O ponto é que, como em vários outros segmentos, no dos celulares inteligentes você também recebe pelo que paga. E, aqui, essa máxima é levada quase sempre ao pé da letra.

Algumas fabricantes lançam modelos simples com o apelo do “seu primeiro smartphone”. Não caia nessa. Aparelhos na faixa dos R$ 500 ou menos têm diversas deficiências que usuários experientes conseguem contornar com mais facilidade, mas que em mãos inexperientes podem ser bastante prejudiciais. Além de irritarem qualquer um, novato ou não.

Se puder pagar por um iPhone 5s, para que pegar um iPhone 4, hoje severamente limitado pelo iOS 7? Não faz sentido, salvo pela questão econômica. Entre esses dois extremos, dá para procurar por promoções e aparelhos com custo-benefício melhor que o iPhone 5s (e eu recomendo fortemente que você faça isso!).

Use o preço como um dos parâmetros na hora de escolher seu aparelho. Como em tudo na vida, os extremos quase sempre não são tão vantajosos e é preciso garimpar um pouco; se tiver a quem recorrer, pedir indicações para alguém mais entendido é outra boa tática a fim de fazer uma boa escolha.

Preparativos com a operadora e o mito da “Internet de graça”

Redes móveis no Android do Xperia Z1.
Foto: Rodrigo Ghedin.

Está com seu smartphone aí? Legal! Com ele vem também uma despesa extra no orçamento: o gasto com dados junto à operadora.

Sim, dá para viver apenas com Wi-Fi. Na maioria dos casos o acesso via Wi-Fi é gratuito, especialmente em estabelecimentos comerciais e, por isso, preferível a quem quer economizar — dinheiro e também bateria, já que essa forma de acesso consome menos energia que o 3G/4G. Tenha em mente, porém, que para desfrutar da conexão Wi-Fi na sua casa é preciso ter uma conexão doméstica paga (ADSL ou cabo) com um ponto de acesso sem fio. Hoje, a maioria das operadoras oferece o ponto de acesso gratuitamente.

O que tento desmitificar no parágrafo acima é a ideia de que o Wi-Fi se materializa do nada e fornece Internet grátis para qualquer um, em qualquer lugar. Não é bem assim.

Outro problema, mais grave até, é que o alcance do Wi-Fi é limitado fisicamente, e a disponibilidade, nem sempre farta. Por essas e outras, a abordagem “apenas Wi-Fi” limita um pouco o aspecto móvel do smartphone. E convenhamos: poder se comunicar e acessar a Internet de qualquer lugar é um dos pontos altos desse tipo de dispositivo, logo vale a pena investir um pouco em um plano de dados.

Se você fica muito tempo em trânsito e precisa estar conectado, vale a pena pegar um plano pós-pago. Além de velocidades mais rápidas, a franquia é maior, o que significa que você pode fazer mais coisas online sem ter a velocidade reduzida — quando a franquia estoura, geralmente as operadoras limitam a velocidade de acesso, deixando-a mais lenta que uma conexão discada.

É preciso analisar a sua rotina e quanto você tem disponível para gastar mensalmente com conexão. Converse com a sua operadora, veja se eles têm algum plano adequado às suas necessidades. Os preços têm caído e, em último caso, menos de R$ 1 por dia é o mínimo para bancar o acesso à Internet de um smartphone em um plano pré-pago — eles quebram o galho, mas oferecem franquias insuficientes até mesmo para um usuário leve-médio.

E o chip?

Os diferentes tamanhos de SIM cards.
Nano, Micro e SIM Card. Foto: photo4howi/Flickr.

Ainda se encontram smartphones com slot para SIM cards convencionais, os famosos “chips” das operadoras. A maioria, porém, já adota um padrão mais avançado — e menor –, o micro SIM. No mercado brasileiro, Moto X e os últimos iPhones (5 para cima) já deram o passo adiante e funcionam com o minúsculo nano SIM.

Se você já tem um SIM card convencional e adquiriu um smartphone com entrada para micro SIM, existem duas saídas. A primeira é cortá-lo, com uma tesoura mesmo ou usando um cortador especial para isso — que é mais seguro. A outra é comprar um Micro SIM junto à operadora e solicitar a migração do número. Um Micro SIM custa cerca de R$ 10; já um nano SIM pode custar mais caro, até R$ 40.

Como configurar o meu smartphone?

Um celular simples é fácil de configurar. Você espeta o SIM card (se tiver dificuldade nessa etapa, consulte o guia rápido que vem na caixa), liga ele, e pronto. Sem segredo.

Com um smartphone a história é diferente. Ele pede uma configuração mais detalhada, que depende de acesso à Internet. Até dá para pular essa etapa em alguns sistemas, mas acredite: fazendo isso, você terá apenas um celular simples com tela grande na mão, já que o acesso à loja de apps e outros recursos está vinculado a essa identificação.

Dependendo do sistema operacional escolhido, é preciso ter um tipo de conta, ou email. Android? Faça um email do Google, um Gmail. iPhone? Então você precisa ter uma conta no iCloud. Windows Phone? Vamos de Hotmail, ou Outlook.com. Não se preocupe se você não tiver uma dessas contas ainda, ou se tiver um email no Hotmail e estiver configurando um Android. Dá para criar novas contas no ato da configuração do smartphone.

Independentemente do caso, lembre-se sempre do seu email e senha. Eles são vitais para conseguir baixar/comprar apps, recuperar o smartphone em caso de travamento ou mesmo perda/roubo e outras situações delicadas. Sua senha é a porta de acesso para sua vida no smartphone — e em muitos casos ela vale mais que o próprio aparelho, então, atenção!

Configuração feita, o smartphone será povoado com dados obtidos a partir do email usado. O app de email puxará suas mensagens, a lista de contatos ganhará carinhas salvas anteriormente nessa conta, seus compromissos aparecerão na agenda. Se for um email secundário, um Hotmail que é pouco usado reativado apenas para configurar seu Windows Phone novo, não se preocupe. Todos os sistemas modernos permitem acrescentar contas extras, inclusive de empresas concorrentes. O que significa que, no nosso caso hipotético, você conseguiria trazer seus emails, contatos e compromissos do Gmail para o Windows Phone. Basta ir às configurações do sistema e procurar a área de contas.

Apps

Painel de apps na Apple Store de San Francisco.
Foto: Steve Rhodes/Flickr.

Do jeito que sai da caixa, o smartphone já é um ótimo computador que cabe no bolso. Mas ele pode ser muito mais, e boa parte desse potencial vem dos apps.

Um app (lê-se “épi”), abreviação de aplicativo em inglês, nada mais é que um programa. Eles são distribuídos em lojas controladas pelas empresas que fazem os sistemas — a exceção é o Android, que permite a instalação de apps “por fora” (sideloading) e a instalação de lojas de terceiros.

A instalação é bem simples, basta encontrar o app desejado e clicar no botão “Instalar”. Eventualmente a senha da conta atrelada ao smartphone é pedida — daí a importância de lembrar-se da sua!

Existem apps gratuitos e pagos, a cobrança fica a critério de quem desenvolve o app. Alguns sistemas permitem colocar créditos, como se fosse um celular pré-pago, mas garantido mesmo, em todos, é o cartão de crédito internacional. Como a cobrança em quase todos os casos é feita fora do país, é a forma de pagamento mais comumente aceita.

A manutenção desses apps é tão tranquila quanto a instalação, basta entrar no app da loja e, caso exista algum com atualização pendente, executá-la. Já é possível deixar essas atualizações no automático, o que é preferível. Atualizações costumam trazer correções de problemas, aperfeiçoamentos e até novas funções.

Cuidado com as compras in-app

Todos os principais sistemas oferecem uma modalidade de compra chamada “in-app”, ou seja, de dentro do app. É muito comum em jogos, mas também está presente em diversos apps, e pode ser uma armadilha perigosa.

Nessa modalidade, o app/jogo permite comprar elementos a partir de si próprio, de dentro do app/jogo. É uma prática que se alastra com força nos jogos móveis: embora gratuito, para liberar fases, personagens ou “dinheirinho virtual” é preciso desembolsar dinheirinho de verdade. Dependendo do jogo e do seu vício, a brincadeira pode sair cara.

Há casos em que esse mecanismo é usado de forma honesta, mas o mais comum são desenvolvedores que abusam, como ilustra a EA com Dungeon Keeper. Muita atenção, principalmente se você tiver filhos ou crianças pequenas que se apossam do seu smartphone para jogar. Histórias de crianças que gastaram fortunas comprando itens e roupinhas virtuais são mais comuns do que se imagina.

A surpresa (ruim): bateria

Conversei com algumas pessoas que nunca tiveram ou acabaram de comprar o primeiro smartphone (obrigado a todos!). A reclamação mais constante, de longe, foi sobre a autonomia da bateria.

É um grande choque mesmo. Sair de um aparelho que aguenta ficar dias, mais de uma semana longe da tomada, para um sedento por energia e que male má aguenta um dia sem ser recarregado exige mudanças drásticas na rotina.

Existem smartphones com baterias de grande capacidade, mas esses são exceções. O melhor a se fazer é aceitar a derrota e se acostumar a recarregar a bateria do smartphone uma vez por dia, de preferência à noite, enquanto você dorme.

Tem problema deixar o celular na tomada mesmo depois que a carga estiver completa? Não, o fornecimento de energia é cortado ao chegar a 100%. Tem problema recarregá-lo quando a bateria estiver pela metade? Não, as baterias atuais não têm efeito memória. Preciso dar aquela carga de 24 horas que o vendedor me orientou a fazer antes de começar a usar o smartphone? Por favor, não.

Muitos desses mitos sobre baterias são herança da época em que elas eram feitas com outra tecnologia, a de níquel-cádmio. Hoje, arrisco dizer que ela não está presente em nenhum celular moderno, nem mesmo os modelos mais simples e baratos. Todos usam baterias de íons de lítio, que não sofrem de efeito memória e são bem mais flexíveis quanto a padrões de recarga.

Se quiser mais informações sobre como otimizar a vida útil da bateria do seu smartphone, leia este post do Gizmodo.

As (chatíssimas) notificações

É fácil configurar as notificações no iOS.
Central de Notificações.

A instalação de diversos apps traz um efeito colateral que, para muitos, pode ser problema: as notificações.

A intenção, avisá-lo sobre novidades que estão rolando dentro do seu smartphone, é nobre, mas na prática o excesso de notificações, especialmente as menos urgentes, pode levá-lo à loucura. Afinal, qual a necessidade de saber que alguém retuitou um tuíte em que você foi mencionado, ou que deixaram um novo comentário na foto do seu primo em que você foi marcado no Facebook? Sim, você acertou: nenhuma.

Se estiver com um iPhone, domar as notificações é mais fácil. Nos Ajustes, entre em Central de Notificações. Essa área concentra tudo relacionado a notificações, de todos os apps. Dá para fazer um ajuste fino do que, onde e quando aparecerá no aparelho.

No Android e no Windows Phone, a tarefa é mais ingrata. Carentes de uma central similar à do iOS, o jeito é recorrer às configurações individualmente, dentro de cada app. Todos que emitem notificações têm opções para desativá-las. Dá mais trabalho, mas o resultado é igualmente tranquilizador.

O que deixar? Depende muito do seu perfil de uso. No meu caso, limito as notificações a apps que demandam, em tese, respostas imediatas, o que significa que basicamente apenas apps de bate-papo e mensagens, como SMS, WhatsApp e WUT têm esse privilégio.

Fique especialmente alerta com jogos: a maioria se utiliza desse recurso para lembrá-lo de jogá-lo (!) ou anunciar ofertas de compras in-app. Acredite: é bem frustrante pegar o smartphone após ouvir o barulhinho de notificação e ser apenas o Temple Run chamando-o para completar o desafio do dia.

Preciso mesmo de capinha e película?

Não precisa de película para manter a tela intacta.
Nexus 4, um ano de idade, sem película. Foto: Rodrigo Ghedin.

Grandes são as chances de você ter adquirido um smartphone que tenha a tela com Gorilla Glass — ou Dragon Tail. Ambas as tecnologias são revestimentos para o vidro que reforçam ele contra riscos e quedas leves.

Um erro muito comum é acreditar que a presença do Gorilla Glass torna o vidro indestrutível. Não. Às vezes, por uma queda boba, de alguns centímetros, ele pode estilhaçar. Embora sejam mais resistentes que o vidro nu, o que esses revestimentos fazem, principalmente, é proteger a tela contra riscos.

É por isso que, pessoalmente, desaconselho a aplicação de películas na tela. Elas reduzem a sensibilidade do toque, algumas até alteram a visibilidade graças a acabamentos foscos e, no fim das contas, funcionam como uma proteção em cima de outra proteção, o que, se você parar para pensar, não faz muito sentido.

Alguns justificam a utilização da película para evitar marcas de dedos, aquelas digitais feias. Mesmo com a camada oleofóbica que muitos smartphones apresentam atualmente, elas são de fato inevitáveis: ao fim do dia grandes são as chances da tela estar uma nojeira. Mas há uma solução menos invasiva: basta passar um pano específico, de microfibra, para ver essas marcas sumirem. Funciona tão bem que parece mágica.

Nunca usei película nos meus smartphones e eles não apresentam marcas permanentes — sou cuidadoso, é bom notar. Meu Nexus 4 (Gorilla Glass 2), esse da foto acima, foi usado ininterruptamente por cerca de um ano e continua como novo, com a tela intacta.

E a capinha? É outro acessório que eu também não uso, mas que… vá lá, para os mais desastrados pode ser uma boa. Ela costuma destruir o equilíbrio, a ergonomia e o design do aparelho, mas… ok, eu entendo.

Milhares de capinhas para iPhone.
Foto: Julien GONG Min/Flickr.

Mesmo sem partes móveis, o smartphone é um dispositivo sensível, miniaturizado e com uma face inteira de vidro. Dificilmente ele sai inteiro de quedas. As capas amortecem esses acidentes e ajudam a manter a integridade do aparelho. Algumas vão além e fornecem recursos extras, como maior autonomia para a bateria, ou mais espaço interno para salvar fotos e outros arquivos.

É uma defesa válida, só não confie cegamente nela. Casos de smartphones com capa que saem danificados após uma queda mais grave são fáceis de se encontrar. O ideal, mesmo, é tomar cuidado e evitar derrubá-lo por aí.

As vantagens de se ter um smartphone

Ter um smartphone implica em mais gastos, mais preocupação e o risco iminente de perdê-lo — e, com o aparelho, fotos e informações importantes. Racionalmente, talvez, não seja algo indispensável. Muita gente ainda vive, e bem, com dumbphones. Se for o seu caso, não se recrimine!

Para todas essas desvantagens, porém, o smartphone devolve a peteca com um punhado de benefícios que vão além da diversão. É, com o perdão do clichê, um computador de bolso. Com ele nos comunicamos de diversas formas, recebemos informações, nos localizamos e, já hoje, fazemos coisas bem futuristas como ter assistentes pessoais proativos e realizar pagamentos.

Familiares, amigos e conhecidos já me relataram o quanto se surpreenderam com a compra de um smartphone. Os menos ligados em tecnologia demoram a embarcar nessa por não ver uma utilidade específica para o aparelho em seu dia a dia. Mas elas aparecem. O smartphone é mais ágil que um computador e está sempre à mão; no mínimo, você acaba fazendo coisas nele que, antes, ficavam restritas ao computador, como ver o email, interagir em redes sociais e jogar. Disso para coisas maiores e mais úteis, é um pulo.

Ainda temos um longo caminho para consolidar o smartphone na sociedade e corrigir desvios comportamentais — aliás, mais uma dica: não seja o chato que vai no bar e fica bitolado no smartphone! Ele parece ter as características certas, e ter surgido no momento propício para abraçar nossas necessidades e servir de vetor para mini-revoluções. Quando alguém imaginaria, por exemplo, a utilização de um batalhão de smartphones para ajudar na previsão do tempo?

A adaptação ao smartphone costuma ser tranquila para quem vem de um celular mais simples, mas com essas dicas o processo tende a ser ainda menos doloroso. Reiterando, se ficou alguma dúvida, pergunte nos comentários. E divirta-se com seu novo smartphone!

Desenho do topo: autor desconhecido.

IrfanView, o melhor app para ver imagens no Windows

Minha barra de tarefas no notebook tem três ícones fixos: Windows Explorer, navegador padrão e um que, reza a lenda, é um gato vermelho atropelado na estrada. Esse último é o indefectível ícone do IrfanView, um simpático visualizador de imagens para Windows.

Não lembro quando exatamente descobri o IrfanView, só me recordo vivamente de ter simpatizado com o app logo de cara. Sua função, pelo menos superficialmente, é simples e limitada: abrir imagens. Fosse só isso ele já seria sensacional: é difícil surgir um formato que o IrfanView seja incapaz de lidar e, mesmo nesses casos, geralmente um plugin resolve a incompatibilidade.

Só que ele faz muito mais que isso.

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CES 2014: os principais anúncios, as maiores apostas e Michael Bay

A CES (Consumer Electronics Show) é o primeiro grande evento de tecnologia do ano. Em janeiro, emendado com as festas de fim de ano, expositores, profissionais de TI e jornalistas se reúnem em Las Vegas, EUA, para darem ao mundo um vislumbre do que provavelmente será o tom da tecnologia de consumo nos meses seguintes.

É um negócio enorme. Nesta edição, mais de 3200 empresas disputaram a atenção 150 mil pessoas que passaram por lá. E mesmo assim, ao longo dos últimos anos o evento tem perdido um pouco da sua força. Empresas maiores, como MIcrosoft, Apple, Samsung e Google, não aparecem, preferem anunciar novos produtos em eventos próprios ou mais focados. Faz sentido, dado que o volume de notícias numa CES é capaz de soterrar mesmo novidades que em outro contexto seriam o centro das atenções.

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Ultra HD, OLED, tela curva e apps: as tecnologias que estarão na sua próxima TV

Apesar de não formarem uma categoria que instiga substituições recorrentes pelos consumidores, as TVs têm sido palco de muitas experimentações, novidades e promessas nos últimos anos. Da alta definição ao Ultra HD, algumas características se consolidam e ajudam a vender mais, outras são solenemente ignoradas pelo público.

A CES, que acontece todo mês de janeiro em Las Vegas, EUA, costuma antecipar tendências. Em 2014 não será diferente. A feira começa daqui a alguns dias e fabricantes grandes e pequenas prometem trazer novas telas de altíssima resolução e recheadas de novos recursos.

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Guia de compras: como escolher o melhor smartphone para você

Associamos o fim do ano a várias coisas. Natal, família reunida, férias, viagem e… compras. Seja para representar o Papai Noel, seja para aproveitar o décimo terceiro, dezembro é sinônimo de compras e o comércio entra na onda com ofertas mais generosas — misturadas a algumas armadilhas.

Minha filosofia, pessoal e para o Manual do Usuário, é sempre ressaltar o custo/benefício. Não vejo muita vantagem em ter o melhor quando a situação não o exige. Claro, claro: não é o caso de se comprometer com equipamentos que não darão conta da demanda. O ponto é que nem sempre (quase nunca, na real) o gadget mais caro será o mais divertido, ou o mais útil.

Pensando nisso e nas compras de fim de ano que daqui até o dia 24 ficarão mais e mais frenéticas, surgiu a ideia de montar este guia de compras de smartphones, o gadget mais desejado e debatido do momento.

A intenção não é indicar modelos específicos*. O objetivo é dar explicações e orientações básicas para que você saiba o que está comprando, evitando levar um pepino para casa e ter aquela ressaca moral no dia 26.

* Mesmo com essa ressalva, no final deste artigo deixo algumas indicações.

A quem este guia de compras se destina

Várias pessoas tirando fotos com celulares.
Foto: Dave Lawler/Flickr.

Dia desses, na minha odisseia por um nano-SIM com plano pré-pago (é um martírio, acredite), pude observar como seres humanos comuns vão às compras nas lojas das operadoras. A menos que você esteja disposto a bancar um plano pós-pago, o simples fato de entrar em uma loja de operadora já se revela um erro. Os smartphones baratos não estão lá.

Mas relevemos esse detalhe. Durante a observação sociológica, notei um desconhecimento generalizado que, somado a atendentes que precisam bater metas de vendas, são mal preparados ou atuam com má vontade e que não se importam muito com o pós-venda, resultam em uma profusão de recomendações questionáveis de smartphones notadamente ruins.

Imagino que não seja esse o caso do leitor regular do Manual, então faça o favor de indicar este texto àquele parente ou amigo menos chegado em tecnologia. Ele irá agradecê-lo! E leia você também; de repente alguma dica bacana aparece e, tenho certeza, os seus comentários agregarão bastante às palavras escritas aqui em cima.

Delimite para avançar

Só de modelos da linha Galaxy, da Samsung, deve haver algumas dezenas inundando nosso mercado. A estratégia da fabricante sul-coreana é preencher todas as faixas de preços possíveis. Por um lado isso a ajuda a vender mais — não será por R$ 50 a mais ou a menos que alguém deixará de levar um Samsung para casa — e para mim foi uma mão na roda na hora de encontrar exemplos na redação deste artigo :-)

Para você, porém, é confusão na certa. Até eu, que acompanho de perto esse mercado, vez ou outra sou surpreendido. Como na vez em que uma amiga veio me contar, contente, do Galaxy Win Duos que havia comprado. Prazer, Galaxy Win Duos. Quem é você?

Em menor grau, toda fabricante repete essa estratégia Gremlins. Nos próximos tópicos veremos como evitar as ciladas e garimpar os modelos realmente legais. Antes de nos aprofundarmos, porém, é preciso definir dois parâmetros básicos: preço e sistema.

Um punhado de smartphones na mesa.
Foto: Rodrigo Ghedin.

Há smartphones que variam de R$ 200 a mais de R$ 3.000. A lógica vale aqui: você terá uma experiência melhor com os mais caros. Mas ela não é absoluta, ou seja, dá para encontrar bons modelos em camadas inferiores. (A minha recomendação absoluta hoje, por exemplo, fica em torno de R$ 1.000.) Não é preciso se endividar para ter um smartphone legal. E, hey, salvo algumas exceções, celular é um luxo, no máximo uma utilidade. Não vá se endividar para ficar vegetando no Candy Crush ou reclamando de falta de grana no Facebook!

Além do valor que você está disposto a gastar, o sistema operacional é outro fator de corte importante. Temos, hoje, alguns no mercado:

  • Asha/S40
  • Firefox OS
  • Android
  • Windows Phone
  • iOS
Firefox OS rodando em smartphone da Alcatel.
Foto: Mozilla in Europe/Flickr.

Os dois primeiros, Asha/S40 e Firefox OS, ficam restritos à ponta de baixo da tabela — são aparelhos baratos e humildes, bastante limitados em recursos. Na outra ponta está o iOS: é impossível encontrar um iPhone decente por menos de R$ 1.500. Quem fica cheio de dúvidas é aquele que quer um Android ou um Windows Phone. Se for o seu caso, não se assuste. Há uma luz no fim do túnel e eu mostro o caminho até ela.

Números não dizem tudo, mas falam um bocado

Sempre bato na tecla de que números e configurações têm mais importância do que deveria na hora de se escolher um bom smartphone. É a experiência que conta no fim. O discurso continua válido, sempre, mas há um piso para tudo isso de modo que alguns números mínimos devem ser observados.

A maioria dos brasileiros acha importante ter um bom processador no smartphone, mas pouquíssimos sabem qual está dentro do aparelho que carregam consigo. É uma situação meio bizarra, mas é bom que essa preocupação exista. Você não precisa saber o modelo exato, quantos giga hertz ou qual a GPU que equipa o seu smartphone. As próprias fabricantes, como Qualcomm e Samsung, facilitam a nossa vida com nomes comerciais — mais fáceis de gravar e que atestam a qualidade do conjunto.

Antes que alguém pergunte: não há um tópico para bateria. Com pequenos desvios, hoje todo smartphone dura, se muito, um dia longe da tomada. Essa característica é sempre um choque para quem vem de um celular mais simples, mas é a vida. Existem modelos que se destacam pela grande autonomia, como o RAZR MAXX, da Motorola, e o Honor, da Huawei. São modelos de meia idade e que, hoje, não valem a pena.

SoC: o processador — e mais algumas coisinhas

Já que estamos falando de SoCs, comecemos por eles. SoC é a sigla para System-on-a-Chip, ou seja, um chip que traz, embarcados, a maioria ou todos os componentes vitais para que um dispositivo móvel funcione. Processador, GPU, antenas e módulos como Bluetooth e GPS vêm, em geral, no SoC. São informações importantes, sim, mas que em sua quase totalidade acabam “traduzidas” no jargão marketeiro das fabricantes e operadoras.

A fabricante de SoCs ARM mais popular, hoje, é a Qualcomm. Ela produz a linha Snapdragon que equipa os smartphones mais poderosos dos universos Android e Windows Phone. A linha atual é composta pelos Snapdragon 200, 400, 600 e 800 e algumas variantes recentes, como as famílias 410 e 805; ainda existem alguns modelos respeitáveis com o S4 Pro, do ano passado. Considere a “nota de corte” o Snapdragon 400: dele para baixo, grandes são as chances de você se decepcionar com o desempenho.

Para situá-lo, veja o que alguns smartphones interessantes disponíveis hoje usam:

  • Snapdragon S4 Pro: Nexus 4, Moto X, Xperia SP, Lumia 925, Lumia 1020.
  • Snapdragon 400: Moto G, Lumia 625, Galaxy S 4 Mini.
  • Snapdragon 600: Galaxy S 4, Optimus G Pro.
  • Snapdragon 800: G2, Xperia Z1, Xperia Z Ultra, Galaxy Note 3.

Se o smartphone desejado não usar um chip da Qualcomm, ele provavelmente cairá em uma das seguintes marcas/empresas:

  • Exynos, da Samsung: algumas variantes dos Galaxy S III, S 4, Note II e Note 3 usam o SoC da casa.
  • MTxxxx, da MediaTek: esta fabricante taiwanesa tem se destacado pela fabricação de bons chips a um custo muito baixo. Não por acaso, aparelhos pensados para bolsos sensíveis costumam trazê-lo embaixo do capô, como os RAZR D1 e D3,
  • Tegra, da NVIDIA: a última iteração, o Tegra 4, ainda não apareceu em um smartphone, só em tablets. A linha ficou um pouco queimada por, em versões anteriores, prometer muito e entregar pouco.
  • AX, da Apple: esses você só encontra nos iPhones. A versão mais atual é o A7, presente no iPhone 5s.
  • Atom, da Intel: rainha absoluta nos computadores, a Intel vem se esforçando para fincar sua bandeira no segmento móvel. Há poucos aparelhos com um SoC dela no mercado, sendo o mais bem sucedido até o momento o RAZR i, da Motorola.

Como escolher um bom SoC? Com ressalvas, a hierarquia dos modelos é um bom caminho. Existem diferenças entre Snapdragon 600 e 800, mas no dia a dia não é algo que se nota com facilidade. Mesmo o Snapdragon S4 Pro move aparelhos bem bons, como o Moto X, da Motorola. Essa trinca, somada ao Exynos 4 e 5, são o que o consumidor de olho em smartphones que não engasgam deve procurar.

Para quem está com restrições orçamentárias, o Snapdragon 400 e os MediaTek dual core são boas pedidas. Eles equipam o Moto G e o RAZR D3, respectivamente, dois modelos da Motorola que brilham no custo/benefício.

Memória? Quanto mais, melhor

Existem dois tipos de memória em um smatphone que devem ser alvos de atenção. A RAM é a memória que os apps e o sistema usam temporariamente. A memória interna é o espaço que “guarda” indefinidamente o próprio sistema, apps e dados do usuário — fotos, músicas, arquivos de texto e tudo mais que for gerado pelos apps.

Esta simpática animação dos anos 1990 conta como funciona um computador por dentro — os dois minutos iniciais. Para nosso intento, ela serve: repare, logo no começo, a distinção que o processador faz entre RAM (“sobe janela”, “abre o Internet Explorer”) e o HD (no nosso caso, a memória interna; outra tecnologia, a mesma finalidade):

Em questão de RAM, o mínimo aceitável no Android é 1 GB. Com 768 MB você se vira com algum sufoco ocasional em sessões mais intensivas com a abertura de múltiplos apps ao mesmo tempo. 512 MB? É fria. Talvez o Android 4.4 mude esse cenário, mas como não existe ainda no mercado Android de 512 MB com a última versão do Android, a dica segue válida neste final de 2013.

Para o Windows Phone, vale o mesmo. O sistema é mais fluído que o Android, o que significa que aparelhos com 512 MB de RAM, como o Lumia 520, não sofrem tanto quanto seus pares com o sistema do Google. Mas a limitação afeta a multitarefa e tem uma leve agravante: a restrição a determinados apps mais gastões na loja de apps. A Microsoft e os desenvolvedores se esforçam para otimizá-los, mas vez ou outra aparece um app que só roda em dispositivos com 1 GB de RAM.

Se você estiver de olho em um iPhone, Asha ou Firefox OS, RAM não deve ser motivo de preocupação porque… bem, porque não há escolha. Dos dois primeiros nem se sabe quanto trazem, mas suspeita-se que seja pouco pela (pretensa) leveza dos sistemas e por contenção de custos — memória custa caro. No iPhone, os modelos atualmente à venda vêm com 1 GB, com exceção do iPhone 4S, ainda comercializado, com 512 MB. Pela arquitetura e otimização que o iOS tem, são quantidades suficientes para se ter uma boa experiência, sem engasgos ou esperas intermitentes.

Em relação à memória interna, a variação é maior. Até o iPhone é oferecido em vários patamares, com preços bem salgados para apenas dobrar a memória disponível.

O mínimo que eu recomendaria, hoje, é 8 GB. No aperto, tendo que limpar fotos e música esporadicamente e se policiando quanto à instalação de apps e jogos. Com 16 GB já dá para viver com relativo conforto. Fartura mesmo é ter 32 GB ou mais, mas isso, só para bolsos abastados.

Uma saída para se ter memória sem ter que empenhar um rim no banco é apelar para cartões SD. A relação custo por mega byte é bem mais em conta. Problema? Nem todo aparelho oferece o slot correspondente. Atenha-se a esse detalhe se espaço for importante.

Tela: o que você vê (e o que não vê) é importante

Comparativo com tela comum e tela Retina dos iPhones.
À esquerda, tela do iPhone 3. À direita, tela Retina do iPhone 4. Fotos: Paul Hudson/Flickr.

Além de ser a interface entre você e o seu smartphone, a tela costuma determinar outra característica importante: o tamanho físico do gadget.

A variedade de tamanhos é generosa hoje, mas com uma ou outra exceção, telas menores significam configurações mais fracas. Quando a Samsung encolhe o Galaxy S 4 e acrescenta um “mini” ao seu nome, ela encolhe também a velocidade e a quantidade de memórias que vão nele. Telas muito pequenas, com cerca de 3 polegadas, significam smartphones ruins. Alguns Galaxy (Young Duos, Pocket), Xperia E, Optimus L3 II e L2 II… ultrapassam o tolerável. Não valem a pena, mesmo.

Existe algum pequeno poderoso? Sim, o iPhone, com tela de 4 polegadas e hardware capaz de fazer frente a qualquer outro smartphone disponível. Mas essa relação pouco usual cobra (bem!) seu preço. É um aparelho caro.

É de se notar, também, que o conceito de “grande” no universo móvel mudou um pouco nos últimos tempos. Hoje, graças a processos de construção mais precisos e bordas mais finas, smartphones com até 5 polegadas cabem sem sustos no bolso e podem ser manipulados com uma mão sem tanta dificuldade. Se tiver receio, vá a uma loja e mexa em um você mesmo, experimente-o no bolso (avise o atendente antes!), faça o teste. Acima disso temos os phablets e aí sim, com telas chegando a 6,8 polegadas, o risco de não caber em uma calça mais justa é real.

O tamanho da tela importa, mas a qualidade também. Veja a resolução, se for possível saber, descubra também a densidade de pixels da tela. Com qualquer coisa acima de 300 PPI você estará bem servido: nesse nível os pixels passam a ser indistinguíveis individualmente, o que se traduz em fontes mais suaves, menos fadiga ocular e mais beleza em fotos, vídeos e jogos. Aparelhos fisicamente grandes mas com resoluções baixas, como o Galaxy Grand Duos, da Samsung, são furadas.

Telas do Moto X e Nexus 4 lado a lado.
À esquerda, a tela super saturada do Moto X. À direita, a sóbria do Nexus 4. Prefiro a segunda. Foto: Rodrigo Ghedin.

Indo mais a fundo, entramos em uma área com a qual me importo bastante e que, não raro, é esquecida: a tecnologia empregada no painel. Vale a pena o trabalho que dá para entendê-la se você se importa com detalhes.

É comum a utilização de painéis AMOLED, uma técnica com vantagens, mas que dentre as desvantagens satura bastante a tela — o preto é mais profundo e economiza energia, e as cores ficam mais vivas, mas fogem da realidade e sofrem com distorções estranhas, geralmente pendendo para o verde. Samsung e, em menor escala, Motorola são as que mais recorrem a ela. Há quem prefira essas telas saturadas e em modelos topo de linha, como o Galaxy S 4, os efeitos colaterais são bastante amenizados. De minha parte, fico com as mais neutras, mais fiéis à realidade, como as que a LG produz.

Muitos mega pixels não são sinônimo de câmera boa — mas podem ajudar

A câmera PureView do Lumia 1020 vista em partes.
Foto: Digital Trends.

Por anos a indústria apostou no aumento dos mega pixels das câmeras para forçar os consumidores a atualizarem suas câmeras digitais. Demorou para cair a ficha de que a resolução é apenas parte da soma do que faz uma boa câmera. Sensor, conjunto de lentes, software de processamento e outros aspectos também contam.

Smartphones sofrem com uma limitação física: por serem pequenos e finos, não dá para colocar sensores muito grandes, ou lentes elaboradas ali. Há exceções, claro, e a primeira que vem à mente é o Lumia 1020, com um sensor enorme de 41 mega pixels. Fugindo à regra (e ajudado por aqueles outros aspectos que também contam), é a melhor câmera móvel do mercado, de longe.

Outras que merecem destaque são as dos Lumias 920 e 925, Xperia Z1, Galaxy S 4 e iPhone 5s. Todas muito boas, considerando serem de smartphones. Partindo dessas, a qualidade das câmeras em outros modelos cai junto com os preços.

Em aparelhos mid-range, vale a lógica dos melhores  smartphones de um ou dois anos atrás: passam em situações com bastante luz natural, mas é preciso cautela em ambientes fechados e à noite. Nos abaixo dos R$ 800, esqueça: encare a câmera como um quebra-galho e nada mais para não se frustrar.

3G? 4G? Você vai mesmo precisar disso?

O último item numerológico da análise deve ser o padrão de conectividade, se o smartphone conversa com redes 3G ou 4G. A primeira tecnologia é bastante difundida, de modo que você só não a encontrará em modelos realmente simples, como o Asha 501, da Nokia. Em todos acima disso, é praticamente certo o suporte a redes 3G.

O 4G ainda engatinha, embora seja funcional em grandes centros e até algumas cidades do interior — em Maringá, Paraná, onde moro, a Vivo já oferece em algumas regiões-chave. Se você quiser usufruir da velocidade maior do 4G, é preciso ter um aparelho compatível.

O smartphone mais barato que compatível com redes 4G é o Lumia 625, da Nokia. Depois disso temos Moto X e Xperia SP, da Motorola e Sony, respectivamente. O Lumia 920 e 820, da Nokia, estão com preços bem convidativos devido à idade (foram lançados no começo do ano) e também são compatíveis. Praticamente todo topo de linha lançado nos últimos meses é certificado para o 4G nacional, como os novos iPhones, Galaxy S 4 (uma das variantes), Xperia Z1 e Z Ultra, Lumia 925 e 1020, BlackBerry Z10 e G2, da LG.

O campo minado das versões do Android

Easter egg do Gingerbread.
Android 2.3 em 2013 não dá! Foto: Rodrigo Ghedin.

Se naquele critério inicial você optou pelo Android, é preciso estender a análise para a versão que vem instalada no smartphone em vista.

A mais atual é a 4.4. Nenhum celular vendido hoje no Brasil sai de fábrica com ela, e apenas dois já ganharam atualização — Nexus 4 e Moto X. Essa versão é mais um aperfeiçoamento da linha Jelly Bean (4.1 a 4.3) do que uma totalmente nova; vem com recursos diferentes e muito úteis, como o discador inteligente e a centralização de serviços de armazenamento de arquivos na nuvem, mas não é primordial.

A dica? Não pegue nada anterior ao Android 4.1. Nessa versão o Google introduziu o Google Now, assistente pessoal pra lá de esperto, e o Project Butter, uma série de modificações internas que suavizaram o sistema. E não espere atualizações: com exceção de aparelhos de ponta, elas são raras. O mais comum é um smartphone nascer e morrer com a mesma versão do Android.

Não é muito difícil encontrar smartphones rodando Android 4.0 e, com um pouco mais de dificuldade, até o 2.3 Gingerbread. Fuja desses. Além do sistema defasado, diversos apps exigem no mínimo a versão 4.0 para rodar.

Calma que tem mais. Não bastasse a versão, o Android ainda traz outro “problema” na hora de escolher um smartphone: as skins das fabricantes. A natureza semi-aberta do sistema permite que Samsung, LG, Sony e outras modifiquem-no por inteiro. Isso significa que o Android como concebido pelo Google dificilmente é visto por aí. As variações são mais populares: temos o Android com TouchWiz (camada da Samsung), Optimus UI (LG), Sense UI (HTC) e Xperia UI (Sony).

Tenho uma opinião bem radical nesse ponto: nenhuma dessas modificações é boa. O Android puro é, de longe, a melhor experiência no sistema. E isso pesa, demais… Usar um Nexus e depois partir para um Galaxy ou Optimus é quase como usar dois sistemas distintos. Além da linha Nexus, que tem a bênção do Google no projeto e, por isso, vem com o Android livre de modificações, apenas a Motorola aposta em um sistema mais enxuto, mais limpo — as versões que equipam Moto X, Moto G e os RAZR D1 e D3 são acertadas, com algumas pequenas intervenções, todas bem felizes.

Nos EUA e em alguns poucos países onde o Google Play comercializa hardware existe a opção de comprar “Google Editions” de smartphones populares, como HTC One e Galaxy S 4. Elas extirpam o Android modificado das fabricantes e colocam, no lugar, a versão pura do sistema. Por aqui, ficamos na vontade.

Edições Google do HTC One e Galaxy S 4.
Foto: Gizmodo.

No lado Microsoft, o Windows Phone se apresenta como o meio termo entre Android e iOS — o sistema da Apple atualiza uniformemente em todos os aparelhos a partir de uma mesma data. Com a Microsoft, as atualizações são garantidas, mas dependem do aval das operadoras em cada país. Esta página mostra o status da última, no caso, a Amber. Você espera um pouco mais, mas tem a certeza de que seu aparelho será atualizado, diferentemente do Android onde essa questão é sempre uma loteria.

Cuidado com cópias e marcas sem tradição

Ao longo do texto cito alguns aparelhos para exemplificar configurações e as dicas mostradas, todos de marcas conhecidas. Não que essas sejam as únicas confiáveis, mas elas têm a seu favor o uso por milhões de pessoas e anos de estrada. É mais provável que essas deem menos dor de cabeça do que uma marca obscura que compra equipamentos prontos da China e faz apenas o rebranding por aqui, certo?

Ainda não tive contato suficiente com as nacionais (Positivo, Gradiente e CCE, para ficar em algumas), nem com marcas menos tradicionais (ZTE, Alcatel one touch, Huawei) para indicar aparelhos delas com convicção. Dependendo do preço e das configurações, que a essa altura você já deve estar apto a interpretar, podem ser bom negócio.

Smartphone estilo iPhone é fria!
“Smartphone estilo iPhone 5s” com screenshot do Android 1.6.

O que é sempre um mau negócio são as marcas piratas. Viu um smartphone que parece iPhone, mas roda Android? Fuja sem olhar para trás. Ainda que no papel as configurações pareçam boas, grandes são as chances de componentes de baixa qualidade terem sido usados e, com isso, que durabilidade e qualidade sejam pífias. Se a marca não respeita propriedade intelectual das outras, por que respeitaria o consumidor?

Onde comprar?

Quem tem plano pós-pago junto à operadora pode, de repente, conseguir algum desconto que compense na troca ou compra de um smartphone novo. No Brasil, porém, os planos pré são mais populares, o que nos leva para longe das lojas de Claro, Oi, TIM e Vivo.

O varejo vez ou outra coloca bons aparelhos em promoção. Sempre compare preços, usando ferramentas como Buscapé e JáCotei — essa última tem um gráfico bem interessante de variação de preços nos últimos seis meses. Os dois sites oferecem ainda alertas de preço, que avisam o consumidor quando determinado produto atinge o valor pré-definido por ele.

Gráfico mostra a variação de preço do Moto X.
Variação de preço do Moto X, segundo o JáCotei.

Você pode arriscar no MercadoLivre e similares. O risco, nesses locais, é dar o azar de lidar com vendedores desonestos, ou encontrar dificuldades na hora de acionar a garantia ou resolver outros imprevistos. Nas lojas do varejo é tudo mais fácil e amparável juridicamente. Use o Buscapé e o JáCotei, somado ao Reclame Aqui, para encontrar as com boa reputação, que atendem com agilidade e resolvem as reclamações dos clientes.

Uma exceção a essa regra é a dos usados. Especialmente em se tratando de iPhone, cujo preço não costuma cair nas lojas, pode ser uma via interessante — o meu, um iPhone 5, é de segunda mão; bem conservado, com pouco tempo de uso e saiu bem mais barato do que um novo. Smartphones Android e Windows Phone desvalorizam rapidamente na loja, então pesquise com atenção caso opte por comprar um usado. Nem sempre a diferença de valor torna a compra de um usado melhor negócio que a de um novo.

Algumas indicações de smartphones

A essa altura você já deve estar pronto para escolher um bom smartphone. Se apesar do conhecimento adquirido você ainda não se sentir seguro na escolha, pesquise. Use os comentários abaixo, procure fóruns de discussão. Há alguns bons espalhados pela web e outros tantos escondidos nos grupos do Facebook e comunidades do Google+. Apenas tome cuidado com grupos focados; não adianta muito pedir indicação de um bom Windows Phone em uma comunidade de fãs do Android. Dar um grito no Twitter também pode ser eficaz.

Para dar aquele empurrãozinho, separei algumas indicações abaixo. Elas não são absolutas, nem compreendem todos os bons smartphones disponíveis no varejo nacional. Considere-as como ponta pés iniciais: depois de ler as minhas justificativas, vá atrás de uma segunda, terceira, quarta opinião. Sinta-se livre para debatê-las lá embaixo, nos comentários. Sempre, sempre busque conhecimento — o ET Bilu sabe o que fala!

O melhor: Moto X

Moto X.
Foto: Motorola/Reprodução.

O Moto X é a nova Motorola condensada em um dispositivo. É um smartphone bem acabado, recheado de recursos (4G, boa câmera, tela legal, boa autonomia, ergonomia nota dez) e supera as expectativas graças à profunda otimização e alguns truques exclusivos, como as notificações ativas e os núcleos auxiliares — de linguagem natural e computação contextual.

Ele vem com o Android quase puro (e, agora, atualizado) e as poucas intervenções da Motorola são grandes golaços, como o assistente de migração, o Assist e o software simplificado da câmera. É fácil encontrá-lo por R$ 1.000, um preço baratíssimo para tudo o que ele entrega. O custo-benefício é imbatível e, importante, não traz comprometimentos de carona.

Pelo conjunto da obra, o Moto X é a minha indicação para esse final de 2013.

Considere também:

  • Nexus 4: mesmo com mais de um ano nas costas ainda segura a onda bem e está em processo de desova no varejo há meses, o que significa preços inferiores a R$ 800.
  • Lumia 920: apesar do peso (é um chumbo) e do Windows Phone, tem aparecido em promoções muito boas, abaixo dos R$ 1.000, o que é uma pechincha e se explica pelo fim da produção do modelo no país.
  • iPhone 5s: se dinheiro não for problema, a última versão do smartphone da Apple é ligeira, tem uma câmera melhorada, sensor biométrico e o acervo infinito de apps que fazem a fama do iOS.

A melhor câmera: Lumia 1020

Lumia 1020.
Foto: Nokia/Reprodução.

São 41 mega pixels bem utilizados pela câmera PureView do Windows Phone topo de linha da Nokia no Brasil, o Lumia 1020. O Windows Phone 8 ainda está um passo atrás do Android e do iOS, mas já oferece uma boa variedade de apps e vem amadurecendo rapidamente. Os apps de câmera, aliás, são encontrados aos montes e ajudam o usuário a fazer melhor uso do latifúndio de mega pixels disponível.

Não é o smartphone mais barato, nem o mais caro — o preço sugerido da Nokia é R$ 2.400, mas ele já chegou a R$ 1.900 em algumas lojas do varejo –, mas estamos falando da melhor câmera grudada em um smartphone que se pode comprar hoje.

Considere também:

  • Xperia Z1: o smartphone da Sony tem uma câmera de 20,7 mega pixels que, a exemplo do Nexus 5 (ainda indisponível no Brasil), também melhora com atualizações de firmware. O preço está na mesma faixa do Lumia 1020, mas as similaridades param por aí. Vem com Android, tela Full HD e tudo o que se pode esperar de um Android topo de linha hoje.
  • iPhone 5s: versão após versão é notável a melhora que as câmeras do iPhone apresentam. Na última, ela ficou mais rápida, sensor e aberturam aumentaram, um LED extra apareceu e as otimizações de software a deixaram capaz de tirar fotos ainda mais belas.

O melhor econômico: Moto G

Moto G.
Foto: Motorola/Reprodução.

O Moto G é intrigante. Com um hardware bem bom e preço de smartphone inferior, ele tem colhões para subverter o mercado. Antes dele, era difícil comprar algo digno de elogios por R$ 650. Não mais. Configurações atuais, desenho sóbrio e recursos que se não são os melhores do mundo, deixam os de smartphones da mesma categoria no chinelo, são a fórmula para se fazer um smartphone barato vencedor.

Considere também:

  • Lumia 625: se 4G for essencial para você, este Nokia é a opção mais em conta. Ele não tem configurações estelares; na realidade, elas são relativamente fracas. Mas chegando abaixo de R$ 700 em promoções pontuais do varejo, é a forma mais econômica de usufruir do 4G no Brasil.

O melhor para quem está no aperto: Lumia 520

Lumia 520.
Foto: Nokia/Reprodução.

Considerando o teto de R$ 500, o Lumia 520 é a melhor escolha. O Windows Phone é suave e o hardware fraco dos smartphones nessa faixa de preço não sente tanto seu peso. O acabamento é muito bom, chama a atenção e dá a sensação de que se trata de um aparelho de categoria superior.

Considere também:

  • RAZR D1: o valente smartphone da Motorola conta com suporte a TV digital, aceita dois SIM cards e, o que é mais importante, consegue domar o Android 4.1 (promessa de 4.4 para janeiro) com seu SoC MediaTek e 1 GB de RAM. A tela e a câmera são sofríveis, mas não dá para esperar muito.
  • Asha 501: quem tem R$ 250 na mão e a vontade de ter qualquer coisa melhor que um dumbphone de lanterninha, tem neste modelo de entrada da Nokia uma boa saída. Não tente forçá-lo a fazer muita coisa, o ideal é se contentar com os apps que vêm pré-instalados. Nesse termos, ele se comporta bem e consegue até impressionar em alguns pontos, como na sua bateria highlander. (Na última grande atualização o Asha 501 ganhou WhatsApp.)

Comprar um smartphone é um grande evento. Para a maioria dos que enxergam e fazem uso das possibilidades que esses aparelhos oferecem, ele se torna o gadget mais usado, aquele que está sempre por perto e a quem recorremos inúmeras vezes ao dia. Vale a pena pesquisar, se informar e tirar dúvidas antes de gastar algumas centenas de Reais em um.

Se as dicas acima não forem suficientes, ou se você ficou com alguma dúvida, não hesite em utilizar o espaço de comentários para esclarecimentos. Tem alguma dica extra, algo que faltou citar no post? Use o mesmo espaço para ajudar os outros.

Boas compras e lembre-se de visitar o Manual do Usuário no seu novo smartphone — o blog se adapta e fica lindão em telas pequenas :-)

Grupos de caronas no Facebook são úteis mas ficam à margem da lei brasileira

A imagem do cara de mochila nas costas à beira da estrada fazendo um joinha para os carros que passam é coisa do passado. Os caroneiros modernos usam não um, mas todos os dedos na hora de procurar transporte, e em vez do acostamento, recorrem à Internet. Os grupos de caronas no Facebook se proliferam e com uma mecânica simples e direta, baseada na confiança, têm servido de alternativa ao transporte convencional.

Os grupos costumam ser fechados e populares em cidades universitárias. Como muitos estudantes vêm de fora, boa parte deles de cidadezinhas próximas, a demanda é grande e encontra respaldo na oferta, também generosa.

Na cidade onde moro, Maringá, no interior do Paraná, há diversos grupos. Temos aqui a Universidade Estadual de Maringá e algumas outras particulares. Existem grupos específicos para as cidades próximas e alguns gerais, como o Caronas UEM. A dinâmica não varia, porém; em geral o interessado publica a origem, o destino e o horário de saída; quem se interessa pela carona ou deixa um comentário, ou manda uma mensagem privada. O inverso, ou seja, pessoas procurando caronas também existe.

Os valores são convencionados. Para Paranavaí, onde costumo ir com certa regularidade, o custo é R$ 10. A natureza desse pagamento, se é que pode ser chamado assim, é primordial para a análise dos aspectos jurídicos da prática. Afinal, os grupos de caronas no Facebook constituem uma ilegalidade?

Nesta matéria do Estado de Minas o diretor de fiscalização do DER mineiro, João Afonso Baeta Costa, afirma que sim:

“É proibida a cobrança de qualquer preço para fazer transporte de pessoas, se não for licenciado. Ainda que o objetivo seja apenas cobrir os custos do carro.”

O Código Brasileiro de Trânsito prevê como infração de trânsito o transporte remunerado de passageiros sem a devida licença:

Art. 231. Transitar com o veículo:

VIII – efetuando transporte remunerado de pessoas ou bens, quando não for licenciado para esse fim, salvo casos de força maior ou com permissão da autoridade competente:

Infração – média;
Penalidade – multa;
Medida administrativa – retenção do veículo;

O que está em jogo aqui é a própria natureza dessa “remuneração”. É consenso entre os caroneiros, pelo menos os com quem tenho contato na região, que o valor pago por quem pega carona serve para ajudar no pagamento das despesas da viagem — combustível, eventuais pedágios, depreciação do veículo. Embora nem todos se conheçam, é raro alguém sem amigos em comum e bastante recorrente a consulta a esses antes do aceite de uma carona, o que desvincula ainda mais a carona da ideia de prestação de serviço, onde não se faz diferenciação de clientes e tem-se por objetivo lucrar.

O Código Civil disciplina o contrato de transportes de forma complementar ao Código Brasileiro de Trânsito. No artigo 736, estabelece a exceção da carona:

Art. 736. Não se subordina às normas do contrato de transporte o feito gratuitamente, por amizade ou cortesia.

Parágrafo único. Não se considera gratuito o transporte quando, embora feito sem remuneração, o transportador auferir vantagens indiretas.

Argumentar que as caronas são gratuitas é um exercício complicado, ainda que o rateio não implique em lucro a quem oferece a carona. O que nos leva à figura do referido artigo e, consequentemente, à possível infração de trânsito. Está formada a confusão.

Pés no painel da caroneira.
Foto: Lauren Finkel/Flickr.

Conversei com alguns amigos advogados e entre eles não houve consenso. Uns acham que a carona não constitui ilegalidade, porém está sujeita às convenções do contrato de transporte do Código Civil. Uma minoria é mais taxativa e acredita que a carona, nesses termos, ou seja, envolvendo dinheiro (ainda que não de forma lucrativa), cai na tipificação de infração de trânsito do CBT.

Na minha visão, o contrato de transporte é um instituto diferente do da divisão de gastos, do rateio. O G1, nesta matéria sobre uma universidade do Piauí, consultou Ítalo Cavalcante, advogado especialista em leis de trânsito. Ele tem uma opinião parecida e a justifica dizendo que a prática se beneficia de uma interpretação mais extensiva da lei:

“Como os próprios participantes afirmam que não se trata de uma atividade com fins lucrativos, o grupo oferece apenas uma ‘solidariedade’ com a divisão da gasolina. As redes sociais ampliaram as formas já conhecidas de amizades e quando se interpreta a lei é preciso considerar essas novas formas de relações. A sociedade mudou e ao interpretar a lei é preciso levar isso em consideração.”

Não existe jurisprudência específica sobre esse cenário e, reforçando as palavras de Ítalo, parece que a nossa legislação ainda não prevê essa situação específica da carona solidária sem intuito de lucro que, em grupos de carona no Facebook, é regra.

Além da legalidade, importa ainda essa distinção para saber como lidar com eventuais imprevistos. Em caso de acidente, por exemplo, vale o que apregoa o Código Civil ou a Súmula 145 do STJ, que livra o condutor da responsabilidade civil caso o dano decorra de culpa simples?

O mais chato nessa história toda é que a carona compartilhada é um negócio bom para todo mundo. Diminui a quantidade de carros na estrada, propicia novas amizades ou contatos, é mais rápido e cômodo que viajar de ônibus. E é incentivada pela mídia porque… bem, porque é um negócio bacana em essência.

Na pesquisa inicial que fiz para esta matéria, o único alerta que encontrei sobre o aspecto jurídico dos grupos de caronas no Facebook foi o da já citada reportagem do Estado de Minas e nesta outra, da Tribuna de Minas — o DER mineiro parece obcecado com o assunto. De resto, só alegria:

A UnB tem até um projeto em andamento que visa facilitar a mediação entre motoristas e caroneiros.

O tema caronas no Facebook chama tanto a atenção nos polos universitários que serviços online que organizam as caronas têm surgido com certa rapidez. Minha Carona, UniCaronas, Carona Fácil, Caroneiros… Todos ilegais? Talvez aqui sim, não pela institucionalização do ato, mas porque alguns usam como bandeira o lucro possível de auferir na oferta de caronas. É um desdobramento da problemática principal tratada aqui e que, no momento, deixo de lado.

O bigode rosa que identifica os carros do Lyft.
Foto: Alfredo Mendez/Flickr.

Apenas para traçar um paralelo com um mercado similar, porém, amadurecido, vejamos o Zaznu, outro que será lançado em breve no Brasil. Em entrevista ao A Crítica, os fundadores dizem que o serviço se posiciona como alternativa a táxis, comparando-o ao Lyft e seus carros de bigode rosa de São Francisco, EUA. Além do Lyft, o Uber, que conta com investimentos do Google, é outro já bastante popular e que, por isso, passa por conflitos jurídicos constantemente. Há muitos interesses envolvidos aí, de muitas partes distintas.

As caronas compartilhadas são mais um ponto de disruptura proporcionado pela tecnologia, um que empurra o legislativo e o judiciário contra a parede e mexe com instituições estabelecidas — taxistas e empresas de transporte, por exemplo. A nossa lei positivista deve tratar o tema de forma objetiva, especialmente na esfera penal, que não dá brecha a analogias. Ele ainda não ganhou uma dimensão tão grande a ponto de incomodar (à exceção do DER de Minas), mas deve ser questão de tempo até isso ocorrer. E aí, nessa hora, nos restará ver de que lado nossos representantes no Congresso ficarão, ou se será possível chegar a uma solução que agrade a todos os impactados. Apostas?

Foto do topo: autor desconhecido.

As origens e implicações da selfie, a palavra do ano segundo o dicionário Oxford

A palavra do ano, segundo o dicionário Oxford, maior da língua inglesa, é selfie. O sistema da publicação que analisa 150 milhões de palavras mensalmente a fim de mensurar as mais usadas constatou um crescimento de 17000% no uso do termo em 2013.

Embora nova, a prática a que se refere a palavra selfie é das mais antigas. A exemplo de crowdfunding, o equivalente virtual à velha vaquinha; de add, sinônimo de fazer amizades em redes sociais; e de crowdsourcing, a boa e velha colaboração espontânea não lucrativa, selfie é a versão moderna do autorretrato, com leves alterações propiciadas ou impostas pelo meio digital.

A definição de selfie no Oxford, por ora disponível apenas na versão online do dicionário, diz o seguinte:

Uma fotografia que a pessoa tira dela mesma, tipicamente com um smartphone ou webcam, carregada em um site de mídia social.

Não se sabe exatamente quando o termo surgiu. O Oxford atribui a criação a uma discussão em um fórum australiano no ano de 2002, mas se extrairmos o “carregada em um site de mídia social”, suas origens remontam o século XIX, quando câmeras rudimentares e cuja portabilidade seria justificadamente questionada hoje começaram a aparecer, permitindo que os jovens descolados de então tirassem fotos do espelho. Era o caso da Grã-duquesa Anastasia Nikolaevna que, na ausência de Internet, mandava seus selfies aos amigos por carta mesmo.

A Grã-duquesa Anastasia Nikolaevna fazendo um selfie em 1914.
Foto: Anastasia Nikolaevna/Arquivo pessoal (1914).

O selfie na era moderna

Na acepção moderna do termo, depois daquela aparição na Austrália o selfie teve alguns lampejos de popularidade aqui e ali, nem sempre de forma muito digna. No Urban Dictionary, o maior dicionário colaborativo de gírias e neologismos, a primeira entrada, grafada como “selfy”, data de 2005 e inclui um “por mulheres adolescentes” na descrição.

Por volta da mesma época, selfies foram associados ao MySpace em um momento em que o site começava sua transição de rede social mais popular do mundo a motivo de vergonha. No Flickr, o destino de fotógrafos digitais antes do Facebook e Instagram se estabelecerem, selfies eram motivo de chacota por parte dos fotógrafos profissionais. Em sites de imagens engraçadas as brincadeiras com selfies de espelho, geralmente em situações exageradas (tablets e notebooks tirando fotos) e misturada a outros atos questionáveis, como duck face, também eram e ainda são bem populares.

Foi no início dessa década, coincidindo com a massificação e aperfeiçoamento das câmeras frontais de smartphones, que o selfie fez sua passagem definitiva para o mainstream. Em um prenúncio da recente honraria obtida junto ao dicionário Oxford, no final de 2012 a revista Time incluiu selfie entre as dez palavras mais badaladas do ano. Ao longo de 2013 a explosão do termo pode ser sentida no dia a dia e, agora, visualizada no Google Trends:

O termo selfie no Google Trends.

Ajudado por apps como o Instagram, que já recebeu mais de 60 milhões de fotos com a tag #selfie desde que foi lançado, e o Snapchat, que pela privacidade que oferece acaba incentivando fotos mais pessoais, nota-se aí um filão que, inclusive, já vem sendo explorado de forma mais incisiva.

Da nova leva de apps focados em selfies, o Shots of Me é o que mais chama a atenção. Não pela sua qualidade ou base de usuários, mas por um dos investidores, o cantor Justin Bieber — ele próprio um grande criador de selfies.

Existem outros, como o Selfie, mas apesar de toda a empolgação com as fotos de si mesmos eu questiono, sem muito embasamento, até que ponto um app específico para fotos do seu rosto tem chances de vingar. Não existe um “Landscape” para fotos de paisagem, ou um “Instafood” para fotos de comida — ok, até tem, mas a finalidade é outra. Porém, se tem uma coisa que aprendemos nessa indústria vital é que não dá para duvidar de nada. Se um app que envia frases com até 140 caracteres vingou, por que não um repleto de fotos com o rosto das pessoas não vingaria?

Muito selfie faz mal, mas em doses modestas pode ser útil

Papa Francisco adere ao selfie.
O Papa Francisco também aderiu.

Embora qualquer pessoa de qualquer idade possa tirar uma foto de si mesma e subir para o Facebook, percebe-se uma ocorrência maior de selfies entre adolescentes e jovens adultos do sexo feminino. Não é difícil entender o apelo que essa forma de expressão tem: é o controle absoluto da situação, de como a pessoa sairá na foto, que leva a essa enxurrada de selfies. Fiquei mal nessa? Tiro outra. E outra. E outra, até acertar.

O que a princípio parece algo inocente e sem maiores consequências, no fim e em doses extremas revela-se mais um sintoma de uma sociedade que se alimenta do frágil reconhecimento em plataformas digitais e pode acabar em problemas mais sérios.

Alguns estudos dizem que, em grandes quantidades, a publicação reiterada de selfies pode gerar dependência, uma espécie de síndrome de Narciso moderna, e derrubar a autoestima. A recompensa rápida que likes e comentários elogiando as fotos proporciona forma um círculo vicioso que pode acabar em um vício patológico. E quando se atinge esse estado, as fotos ficam cada vez mais apelativas. É o que sugere este estudo de 2008, bem antes do selfie se popularizar.

Mulher fazendo um selfie.
Foto: Thomas/Flickr.

Além de fazer mal a quem publica, selfies em excesso também afetam quem está à sua volta. Neste outro estudo, desse ano, os resultados sugerem que fotos em excesso geram saturação em círculos que não o familiar e de amigos próximos — e em redes sociais eles vão muito além desses dois. O Dr. David Houghton, que liderou o estudo, explica melhor:

“Nossa pesquisa descobriu que aqueles que publicam fotos frequentemente no Facebook correm o risco de danificar relacionamentos na vida real. Isso ocorre porque as pessoas, com exceção de amigos próximos e parentes, parecem não se relacionar muito bem com aqueles que publicar fotos ininterruptamente deles mesmos.

Vale lembrar que a informação que publicamos para nossos ‘amigos’ no Facebook é vista, na realidade, por várias diferentes categorias de pessoas: colegas, amigos, família, gente do trabalho, conhecidos; e que cada grupo aparentemente tem uma visão diferente da informação compartilhada.”

Há espaço para críticas quanto às consequências do selfie em excesso, inclusive algumas bem rasas, beirando o preconceito, como esta da Carta Capital. Mas tal qual toda rede social, o fenômeno dos selfies é mais uma mudança de comportamento desencadeada pela Internet que ainda precisa ser melhor estudada e compreendida. Especialmente porque, apesar do receio, existem também fortes indícios de que há algo de positivo nisso aí. A psicóloga especializada em mídia Pamela Rutledge lista alguns deles neste artigo.

Se você faz coro aos que criticam a prática de pronto, prepare o teclado: já existe uma movimentação em torno dos braggies, fotos para fazer inveja nos outros. Quanto tempo até surgir uma rede exclusivamente para fotos do tipo?


Para aprofundar a leitura:

Foto de abertura: mpenafiel/Flickr.

Pagamento via celular: o que as operadoras já oferecem no Brasil

Não é de hoje que se fala em pagamentos por celular. Em várias partes do mundo, como Estados Unidos e alguns países africanos, esse método de pagamento já é realidade, com sistemáticas diversas, todas usando o aparelho como meio. As grandes bandeiras de cartão de crédito também já investem pesado nisso lá fora. E no Brasil? A matéria foi regulamentada nesta semana, marco que promete acelerar a migração dos cartões de plástico para os smartphones. A mudança, aliás, precede a nova lei.

Mês passado a Lei nº 12.865, que trata dessa questão, foi aprovada e publicada no Diário Oficial da União. Havia ainda a necessidade de regulamentação do Banco Central, que por sua vez precisava ser aprovada pelo Conselho Monetário Nacional. Tudo terminou bem e na última segunda-feira (4/11) o final feliz foi anunciado em um evento no Ceará pelo Presidente do BC, Alexandre Tombini.

Quais os objetivos da nova lei?

Os serviços afetados pela nova lei são três: pagamentos via celular, cartão de débito pré-pago e “moedeiros virtuais”, que são como contas correntes, mas que operam via Internet — pense em PayPal, PagSeguro ou Google Wallet.

Além de definir regras básicas para o funcionamento desses serviços, alguns já em operação por aqui e outros em fase de testes, a lei brasileira passa a oferecer algumas garantias aos usuários. Com esse conjunto de diretrizes, espera-se que tais serviços se popularizem no Brasil e deem mais agilidade à economia.

Outra esperança do governo é que a facilidade desses meios, comparada à burocracia da conta corrente tradicional, estimule o brasileiro a se livrar do dinheiro em espécie e abraçar a tecnologia. “É mais fácil esquecer a carteira que o celular”, disse um comerciante que já aceita pagamentos via NFC na Grande São Paulo. Números oficiais também dão uma boa ideia de como nós somos avessos à praticidade: quase 40% dos brasileiros adultos não têm conta corrente.

Cá para nós: é bem mais fácil criar uma conta no PayPal do que ir a um banco, levar aquela papelada toda, conversar com o gerente, descobrir que esqueceu um papel, voltar… O governo concorda e, pensando lá na frente, imagina um futuro em que contas atreladas a celulares serão usadas também para o recebimento de benefícios de programas sociais, como o Bolsa Família. Como a maioria das ofertas desse tipo de serviço independe de sistemas e tecnologias modernas, como apps e NFC, é uma aposta realista, pé no chão.

As instituições interessadas em prestar esse serviço terão que conversar com o Banco Central e se submeterem à supervisão dele no prazo de 180 dias. Elas precisarão, ainda, deixar uma espécie de caução no BC para garantir os valores depositados pelos usuários em caso de quebra, como instituições bancárias fazem.

As ofertas de pagamento móvel das operadoras

As maiores operadoras de telefonia móvel do Brasil se anteciparam bastante à legislação e estão testando serviços de pagamento via celular há algum tempo. Algumas até já comercializam soluções. Veja o que cada uma tem, hoje, ou oferecerá em breve nessa área.

Meu Dinheiro Claro

Logo do Meu Dinheiro Claro.Em parceria com o Bradesco, a Claro opera o Meu Dinheiro Claro. É preciso ir a uma loja física para fazer ou finalizar o cadastro, o que é meio chato. Além de ser cliente Claro, é preciso ter à mão CPF, RG e comprovante de residência.

Feito isso, o usuário pode transferir e receber dinheiro para/de outras contas do serviço, fazer compras em estabelecimentos credenciados, adquirir créditos para o celular e até realizar saques na rede de atendimento do Bradesco.

O funcionamento se dá através de um código USSD, o mesmo usado para conferir o saldo, o que significa que não há consumo de minutos ou dados nas operações. Digitando *444# surge um menu de opções e, para garantir a segurança, toda ação exige a entrada de uma senha de quatro dígitos. A maioria dos serviços é gratuita; apenas dois, transferência e saque, são cobradas. Pelo menos esses valores se convertem em bônus de minutos para falar com outros clientes Claro.

A seção de ajuda do site do Meu Dinheiro Claro traz orientações bem claras sobre como proceder a partir daí de acordo com a opção desejada. O serviço foi lançado mês passado em quatro cidades: Belford Roxo, São João de Meriti e Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, e Goiânia, em Goiás. A expectativa é que ele seja expandido para o Brasil inteiro no começo de 2014.

Oi Carteira

A Oi se gaba de ser pioneira nesse setor. Data de 2007 a primeira investida em pagamentos móveis, feita em parceria com a Cielo. Ao longo dos anos, o Banco do Brasil entrou na jogada e compõe, hoje, a oferta da empresa, o Oi Carteira.

O Oi Carteira é um sistema híbrido: dá para usar o celular para todas as ações permitidas (saque, transferência, compra e recarga de créditos), mas a Oi e o Banco do Brasil ainda mandam um cartão convencional de plástico para a casa do usuário. A operadora diz que seu sistema é “a única transação móvel aceita em larga escala no Brasil”, graças à Cielo — mais de um milhão de estabelecimentos com a maquininha dela aceita, também, pagamentos via celular com o Oi Carteira.

Diferentemente da Claro, a solução da Oi cobra uma tarifa mensal, de R$ 8, que se converte em créditos para falar ao telefone. Ela só é cobrada quando existe crédito suficiente na conta do usuário para cobrir o custo. Após a primeira recarga, é cobrada uma taxa de R$ 10 para a emissão do cartão. O plano contempla um saque gratuito por mês — os excedentes são mais baratos que na Claro, custam R$ 1 cada.

O funcionamento do Oi Carteira se baseia no SMS. São dois números, o 4004 e o 40040001. O site oficial informa exemplos de textos que desencadeiam as ações, e existe também uma animação que explica de forma didática os recursos disponíveis:

TIM Mobile Payment e Mobile Money

A TIM atua em duas frentes: uma em torno de pagamentos com celular via NFC, outra de pagamento via celular (conta virtual).

A primeira está em fase bem avançada. de testes. Eles começaram no início do ano e a previsão de lançamento comercial é para o primeiro trimestre de 2014. O TIM Mobile Payment tem um grupo de parceiros de peso: Itaú, MasterCard, Redecard, Gemalto, Bradesco, Visa, Motorola e LG. A TIM ressalta a importância da Gemalto devido à sua solução TSM, que permite a instalação remota e segura de recursos baseados em NFC e, segundo a operadora, é “fundamental” para o oferecimento desse tipo de serviço.

O TIM Mobile Payment funciona com NFC e se restringe ao pagamento por bens e serviços em estabelecimentos comerciais. Na hora de efetuá-lo, o comerciante insere o valor na máquina habilitada e o usuário apenas aproxima o celular dela. O valor é, então, cobrado da conta do cliente em um dos bancos parceiros — Itaú e Bradesco.

Já o TIM Mobile Money tem como parceiras a Caixa e a MasterCard. Ele é uma “conta pré-paga virtual” e se assemelha às soluções da Claro, Oi e Vivo: o usuário poderá fazer pagamentos, transferências e outras ações com o celular ou um cartão vinculado ao número do aparelho. A conta será gerida pela Caixa e o processamento dos pagamentos, pela MasterCard.

A TIM não dá, ainda, muitos detalhes nem um prazo para o início dessa operação, mas garante que graças às suas parcerias, quando estiver em funcionamento o serviço será aceito de pronto em mais de 1,5 milhão de estabelecimentos comerciais em todo o Brasil.

Zuum (Vivo)

Logo do Zuum.A Vivo, em parceria com a MasterCard, tem o Zuum. Assim como as ofertas da Claro e Oi, trata-se de uma conta pré-paga virtual atrelada ao seu celular e, a exemplo da Oi, com cartão de plástico — mas aqui ele é opcional.

Com o Zuum é possível fazer compras, transferir e receber valores e inserir créditos na conta pré-paga do celular. O cartão, que custa R$ 14,90, é opcional e garante R$ 30 em créditos para conversar. A transferência de dinheiro para outra conta Zuum custa R$ 0,99 e o saque, R$ 6,90 sem nenhum gratuito, como na Oi — aqui tem a tabela completa.

Cadastro e operações são feitos via USSD, pelo número *789#. Não é preciso levar documentos a um estabelecimento físico; apenas a aquisição do cartão e o depósito de dinheiro na conta Zuum exigem que o usuário vá a um lugar específico.

O Zuum foi lançado em maio de 2012 e funciona nas seguintes cidades: Osasco, Sorocaba, Mogi das Cruzes, Jundiaí e Guarulhos, todas de São Paulo, e Belo Horizonte, Minas Gerais. O site oficial diz que ele estará disponível para o resto do Brasil “em breve”.

A Vivo ainda tem uma parceria com o PayPal que permite adquirir créditos usando esse sistema de pagamento, a primeira do tipo no mundo envolvendo o PayPal e uma operadora — segundo a Vivo. É possível criar uma conta no PayPal pelo celular, via mensagens USSD, e além da recarga de créditos, comprar e receber dinheiro por ali também.

Como a regulamentação do Banco Central afeta essas iniciativas?

Antes, uma tabela comparativa com as tarifas dos três serviços já em operação:

Tarifas de pagamento via celular.

As operadoras responderam ao meu pedido para se posicionarem sobre a regulamentação do Banco Central. Ela afeta esses programas em testes ou já em funcionamento? Na prática, muda alguma coisa para os clientes? Aparentemente, não — as parcerias com instituições bancárias dão as garantias aos clientes exigidas pelo Banco Central e, assim, dispensam aquele procedimento de adequação pelo qual outras empresas independentes, como PayPal e PagSeguro, precisarão passar..

A Oi preferiu não comentar.

A TIM disse:

A TIM está analisando a regulamentação de serviços de pagamentos móveis estabelecida pelo Banco Central. A operadora entende que as novas regras passam, primeiramente, pelas instituições financeiras e irá conversar com seus parceiros para que os projetos em desenvolvimento se adequem ao que foi determinado.

A companhia ressalta que os serviços de pagamentos móveis são uma oportunidade de suportar o core business das operadoras de telefonia e – no caso da TIM – reforçar o seu posicionamento inovador, entregando ainda mais benefícios para os clientes e conferindo ao celular um novo uso mais abrangente. Por isso, está realizando projetos pilotos de pagamento com a tecnologia NFC – em parcerias com Itaú, MasterCard e Redecard e Bradesco, Visa e Cielo – e desenvolvendo um produto de mobile money (cartão pré-pago no celular), em conjunto com a Caixa Econômica Federal. Os lançamentos estão previstos para o próximo ano.

A Claro:

A Claro entende que a regulamentação da Lei para pagamentos móveis ajuda a estimular cada vez mais o acesso da população aos serviços bancários, especialmente o público não bancarizado. Um dos benefícios é a simplificação do modelo de cadastramento nas contas mobile, por meio de telefone ou via web.

Conversei com Maurício Romão, diretor de serviços digitais para B2C da Vivo, sobre o Zuum. Para ele a regulamentação do Banco Central dá mais tranquilidade às empresas que já atuam ou pensam em entrar nessa área de pagamentos via celular. O Zuum, uma joint venture, tem correspondido às expectativas e até superado algumas previsões, como o volume de gasto médio dos clientes. Romão espera que o Zuum e outros serviços supram a lacuna dos brasileiros que possuem renda, mas trabalham apenas com dinheiro em espécie, sem qualquer tipo de conta bancária.

É cedo para prever se o impulso das novas regras locais será sentido na prática, se os serviços de pagamento via celular terão a adesão do público e mudarão o cenário da economia nacional. Ainda existem incompatibilidades (não dá para transferir dinheiro entre operadoras concorrentes, por exemplo), e mesmo para vanguardistas ainda existe certo receio em aderir a essa nova modalidade. São os primeiros passos de algo que pode ter um impacto significativo na maneira com que lidamos com dinheiro.

Ilustração: Satoshi Kambayashi/The Economist. Agradecimentos ao Thássius pela revisão, valeu!

A odisseia da autopublicação: como lançar um ebook no Brasil

por Marcellus Pereira

Nota do editor: O Marcellus, amigo de longa data, está se lançando como escritor e após passar pela odisseia da autopublicação resolveu compartilhar suas experiências por aqui. O livro que serviu de “laboratório” para este artigo, Viagem a Pindorama, está sendo publicado em partes, gratuitamente, no seu blog.


Faz um tempo que ando afastado das redações digitais, desse corre-corre de notícias e rumores, levando uma vida mais calma e analógica. Mas eis que de repente o Ghedin me convida a escrever um artigo para o seu novo Manual do Usuário. Como velhos hábitos nunca morrem, aqui vamos nós!

Durante o meu “recesso”, acabei concluindo a trilogia árvore-filho-livro. Depois de mais de um ano de trabalho intenso, com a obra (literária) finalizada, veio o calvário de procurar e decidir onde publicá-la. Foi a partir desta experiência que nasceu este artigo.

O Processo Tradicional

Até pouco tempo, havia duas formas de se publicar um livro: convencendo uma editora de que a obra teria público (e, portanto, geraria lucro) ou investindo dinheiro do próprio bolso para uma “tiragem do autor”.

Dessas possibilidades é fácil perceber o poder dos editores: eles eram os donos das chaves douradas que abriam os portões do mercado editorial. Mas a dificuldade de ser visto e, principalmente, lido por algum deles era uma outra verdade conhecida desde os tempos de Gutemberg. (Ou vocês acham que o primeiro livro a ser impresso foi a Bíblia à toa? O autor tinha forte apelo popular…) Jack London, por exemplo, foi rejeitado 600 vezes. SEISCENTAS!

Impacientes e frustrados, a saída para os autores iniciantes era fazer uma tiragem do autor, também conhecida por “publicação independente” ou “autopublicação”. Como toda forma de burlar o sistema, essa também não era bem vista pelos intelectuais, o que continua até hoje. Convenientemente, esquecem que Proust, Thoreau, Shaw e até Anaïs Nin (fortemente recomendada) começaram com publicações independentes.

O grande problema da publicação independente era (e ainda é) o alto custo: nem todo mundo tem uma herança ou pode sacar o FGTS para investir no seu sonho. Mas como a tecnologia existe para resolver os problemas cotidianos, hoje temos…

Admirável Mundo Novo

…plataformas de publicação digital!

Com o avanço da informática, qualquer um pode escrever e publicar sua obra sem precisar empenhar um rim. E, de fato, há inúmeros exemplos de sucesso.

Amanda Hocking e leitoras, numa sessão de autógrafos em Londres.
Amanda Hocking (centro). Foto: Vivienne/Serendipity Reviews.

Vejamos a estadunidense Amanda Hocking. Antes mesmo de ter um domínio com seu nome, a moça já havia faturado US$ 2 milhões. Disso até fechar contrato com uma editora, foi um pulo.

Outro exemplo bem bacana é o do escritor Joseph Konrath, que era defensor ferrenho da publicação tradicional mas agora prega aos quatro ventos o evangelho da independência. E já foram mais de quinhentos mil livros digitais vendidos!

Aqui na terrinha, Bruna Brito foi descoberta pela Random House ao disponibilizar gratuitamente suas histórias, em inglês, no site Wattpad.

A internet abriu um mundo de possibilidades para os autores independentes e centenas de exemplos pipocam por aí semanalmente. Mas como, exatamente, um aspirante ao Nobel de Literatura poderia começar? Como estamos focados em livros digitais, ou ebooks, então o primeiro nome que vem à mente é a Amazon.

Amazon

Que tal ter seu livro vendido na Amazon?
Foto: Rodrigo Ghedin.

A plataforma de publicação independente da empresa, chamada Kindle Direct Publishing, requer apenas um cadastro e o upload do arquivo de texto e da capa (que você pode criar na hora, usando uma ferramenta fornecida pela loja).

Na Amazon você poderá escolher receber 35% ou 70% referentes aos direitos autorais. Parece bem óbvio escolher a última opção, certo? Só que há duas pegadinhas: seu livro não poderá estar disponível em nenhuma outra livraria digital pelos 90 dias seguintes, sendo que o contrato precisa ser renovado ao final desse período. Além disso, o valor mínimo do livro é de R$ 2,99 (na opção de 35%, o mínimo é de R$ 0,99).

Terminada essa parte burocrática, em 48 horas sua obra estará disponível para compra em Kindles do mundo inteiro. E por “Kindles” entenda não apenas os fantásticos leitores físicos, mas também o software que está instalado em milhões de celulares, tablets e computadores.

Se você é das antigas ou quer dar ao seu leitor a opção de ler em papel, a Amazon tem a CreateSpace, que disponibiliza sua obra via impressão por demanda, ou seja, o livro só será impresso quando o leitor fizer a compra. A obra é impressa nos EUA e terá que ser enviado ao Brasil, mas curiosamente o custo para o leitor não é assustadoramente maior que as opções de impressão por demanda nacionais — incluindo o frete!

Como se não bastasse, a empresa ainda lançou o programa Kindle Matchbook, em que seu livro digital sai mais barato se o leitor comprar a versão impressa. Quase no estilo “dois pelo preço de um”.

A Amazon é um universo à parte quando se fala em publicação e você pode ter uma ideia melhor dando uma olhada na página de ajuda deles. Há opção para quase tudo: desde como atualizar seu livro de forma transparente (e gratuita) para os leitores, até como publicar seu blog diretamente em dispositivos Kindle (infelizmente, apenas em inglês).

Pela minha empolgação, vocês já devem imaginar que esta seja minha opção favorita, certo?

Mas há outras, muitas outras. Por exemplo a iBookstore da Apple.

iBookstore (Apple)

A primeira vez em que experimentei um “livro” no iPad, foi uma experiência transformadora. Enquanto a Amazon encara o livro digital como… um livro, só que digital, a Apple quer transformá-lo num produto interativo. E se o designer (porque não basta ser autor) for bom, pode acabar criando obras-primas como esta abaixo:

A Apple fornece até uma ferramenta gratuita para que o autor possa se aventurar na produção desses ebooks anabolizados, o iBooks Author. Apenas um adendo: por “gratuita” leia-se “embutida no preço de um Mac”.

Obviamente, também é possível ter livros convencionais à venda pela loja da Apple. Aliás, um ponto importante: as vendas são feitas através do aplicativo iTunes e não diretamente como acontece no Kindle. E é preciso pagar uma taxa inicial de US$ 99,00. Ah, e seu livro precisa ser lido, analisado e aprovado na triagem que é feita com todo o conteúdo digital que é posto à venda pela Apple.

Google Play

O Google, aproveitando a imensa penetração dos dispositivos Android, não poderia ficar de fora e há algum tempo também vende livros na Play Store, permitindo a publicação independente. Lá o problema é a complicação: para se ter uma ideia, não consegui sequer fazer um teste…

E no Brasil?

Mais perto de nós, a Livraria Cultura tem parceria com a Kobo, fabricante dos leitores digitais mais bacanas e estilosos que seu rico dinheirinho pode comprar. E a Kobo tem a Kobo Writing Life, onde você pode publicar seus livros sem custos, mais ou menos como na Amazon.

Um diferencial interessante para quem está começando e não quer se preocupar com a parte técnica da coisa, é a formatação automática em ePub: você envia seu documento Word ou OpenOffice e eles cuidam da formatação. Em até 72 horas seu livro estará disponível.

A parte não tão boa é que o pagamento é feito duas vezes ao ano, apenas. Mas, por outro lado, o autor fica com 70% das vendas, para livros que custem entre US$ 1,99 e US$12,99.

A Livraria Saraiva foi um pouco além e criou sua própria plataforma de publicação independente: a Publique-se! Nela o autor fica com até 35% das vendas, pagos 90 dias depois do mês apurado. Mas nada foi dito sobre como será a promoção da obra pelo site, nem sobre como sair do contrato, mas ela não exige exclusividade.

Se você deseja apenas compartilhar o que escreveu sem maiores preocupações quanto a vendas e lucros, talvez uma alternativa interessante seja o BookSérie, uma espécie de Wattpad nacional. No site você pode enviar sua história para apreciação de editores e, caso seja aprovada, ela será “serializada” e publicada semanalmente, recebendo as críticas e comentários dos leitores.

A ideia é promissora, mas há um senão: ao contrário do Wattpad, apenas o pessoal do BookSérie pode retirar uma obra do ar. Portanto, se você for descoberto por uma Random House da vida, seu texto vai continuar lá no site, sem choro nem vela — a menos que o pessoal seja camarada e concorde em apagá-lo.

Há ainda vários sites de publicação independente que mesclam a produção digital com a “analógica”, ou seja, você pode vender tanto o livro digital quanto o impresso. O que é muito legal para impressionar a família, diga-se de passagem, mas também atinge um mercado que, por um motivo ou por outro, ainda prefere o cheiro de papel e tinta.
Entre esses, há três de destaque no mercado nacional: o Clube de Autores, o PerSe e o Bookess.

Os três, basicamente, oferecem o serviço de impressão sob demanda, em que o livro é efetivamente impresso apenas quando o leitor faz a compra. Isso não significa que também não convertam (e vendam) o livro em formato digital.

Neles, o autor tem o preço básico do livro, que varia de acordo com o tipo de capa, papel, encadernação etc, e sobre esse valor coloca o quanto quer receber a título de direitos autorais. Lembrando que, nesse caso, seria importante imprimir ao menos um livro para verificar a qualidade da impressão, do papel, da capa…

Até agora tudo são flores, certo? Você já deve estar louco para tirar aquele manuscrito da gaveta e faturar horrores na Amazon ou na lojinha da Apple. Parece um sonho prestes a se concretizar!

RÁ! Pegadinha do Mallandro!

Caindo na real

Moça lê um Kindle enquanto espera o trem do metrô.
Foto: Annie Mole/Flickr.

Eu sou do tipo pessimista, que sempre vê o copo 100% cheio, mas com apenas 50% do que realmente importa. Sob essa óptica, o Brasil é um país onde se fatura mais com livros que a Índia, por exemplo. Se levarmos em consideração a desproporção populacional, dá até para se animar. Por outro lado, aqui se vende menos livros que na Espanha, uma gleba menor que estado de Minas Gerais, com pouco mais de 47 milhões de habitantes.

Geralmente, o clima de “oba-oba” quando se fala em publicação independente vem dos Estados Unidos. O volume do mercado lá é absurdamente maior que o nosso: R$ 81,6 bilhões contra R$ 6,7 bi aqui (dados de 2011).

Para piorar, o volume de vendas de livros digitais, apesar de ter aumentado mais de 100% no último ano, ainda representa pífios 0,29% (contra 22% do mercado estadunidense). A própria Bruna Brito revelou que escreveu em inglês “para ser lida”. Portanto, não se engane: fazer dinheiro com literatura, especialmente no Brasil, é como faturar milhões sendo jogador de futebol. Há um Ronaldinho para cada dez mil Zé da Pelada.

Numa rápida conversa por email com Wagner Ribeiro, roteirista de Onda Zero e autor da ficção científica Código 7 Infinidade, confirmei o que já era muito comentado nos círculos de editores e escritores: o retorno financeiro de livros de ficção é baixo. Wagner, que também faz toda a edição, diagramação e as capas das obras, quando perguntado sobre a publicação “normal”, via editoras, me respondeu o seguinte:

“Não tentei buscar editoras e publicar direto em papel por entender que seria um caminho extremamente difícil para um iniciante, ainda mais no gênero no qual eu gosto de escrever. Também invisto no ebook por acreditar no formato, e na autopublicação.”.

Outro com quem falei, o engenheiro Landulfo Almeida, autor de As Duas Faces do Destino (que tem versão impressa e digital) contou como foi a procura por uma editora:

“Primeiro tentei achar um agente literário. Naquele momento esses profissionais eram poucos e difíceis de fazer contato. A maioria não me respondeu e quem o fez não estava aberto ao meu tipo de livro ou mesmo a novos autores.

Passei então a pesquisar as editoras e tentar descobrir quais publicavam livros cuja temática era semelhante à de minha obra, quais recebiam originais e de que forma. Consegui mandar o original, devidamente registrado na Biblioteca Nacional, para cinco editoras. Quase todas me retornaram após alguns meses indicando que não tinham interesse.

No ínterim, através das pesquisas na internet, fechei contrato com uma pequena editora que aceitava publicar os livros em parceria, dividindo os custos. Foi meu grande erro. Perdi tempo e dinheiro e não consegui publicar. Felizmente, nesse processo entendi melhor como o mercado funciona. Conheci alguns autores nacionais através da rede mundial e recebi uma dica sobre a Editora Novo Século e o selo Novos Talentos da Literatura Brasileira. O contato foi fácil e o retorno rápido. Fechamos o contrato pelo selo Novos Talentos. Sugiro que os autores iniciantes conheçam o programa, é muito interessante (o autor participa com parte dos custos de publicação). Estou extremamente feliz em fazer parte do conjunto de autores da Novo Século.”

A autopublicação vale a pena?

Essa é a pergunta de um milhão de dólares.

Pois bem, vamos a um exemplo pessoal, mais uma da série “aconteceu comigo”: uma editora se aproximou depois que enviei o original para apreciação. Apesar do tempo médio ser de meses, consegui uma aprovação em apenas dez dias! E quando a esmola é demais…

A proposta era a seguinte: a editora faria uma primeira edição com mil exemplares. Eles seriam vendidos, nas bancas, a R$ 36,00. Eu, o autor, teria que comprar 250 exemplares, ao custo de R$ 28,00 e receberia 10% do valor de venda dos outros 750 (ou seja, um lucro de R$ 3,60 por exemplar).

Fazendo as contas, eu teria que desembolsar R$ 7.000,00 e, caso toda a edição fosse vendida, teria um lucro de R$ 2.700,00 (mais R$ 2.000,00 caso vendesse meus 250 exemplares).

Vale ressaltar que a editora arcaria com os custos da capa, edição e diagramação. Mas, ainda assim, é um valor alto para quem está começando, por mais que acredite no potencial.

Partindo para a publicação independente, na Amazon, por exemplo, o investimento é mínimo, praticamente zero. No entanto, uma capa atraente é o melhor chamariz possível e um trabalho profissional gira em torno dos R$ 700,00. E ainda tem a diagramação e a edição.

Para tiragens sob demanda, no Clube de Autores, por exemplo, o valor final do livro (sempre considerando o mesmo exemplo, mas com papel um pouco melhor, 90g) fica em R$ 39,90 com um lucro de R$ 6,00 por exemplar. Claro, sem a editora você também fica sem os serviços profissionais, que terá que contratar por conta própria, e a distribuição.

A autopublicação, como tudo na vida, é uma faca de dois gumes. Mas é um caminho que eu, particularmente, estou propenso a escolher.

Dicas para quem quiser partir para a autopublicação

Para o aspirante a autor que chegou até aqui, uma dica: em algumas livrarias online, como a Amazon e o Clube de Autores, não é obrigatório que seu livro tenha um ISBN. Esse é o tipo de coisa, porém, que você deveria procurar — até porque se aparecer a chance de vender em livrarias físicas, elas vão exigir o ISBN.

O registro é simples: aponte seu navegador para o site da Agência Brasileira do ISBN e siga o passo-a-passo. O processo não é tão burocrático quanto você espera, as atendentes sabem o que estão falando e não te passam para outra pessoa inúmeras vezes, mas demora até 90 dias para o registro da obra e o tal número.

Outra coisa importante para se pensar é que publicar independentemente é mais ou menos como publicar um blog: muita gente ainda tem certo preconceito, afinal, blog não é jornal…

Se você gosta de escrever ficção científica, fantasia, romances-melosos-de-vampiros-que-brilham, sem problemas. Mas se a sua ideia é concorrer ao Prêmio Jabuti, esqueça: bater na porta de uma editora tradicional ainda é o melhor caminho.

Uma dúvida recorrente entre quem embarca nessa jornada solitária é quanto cobrar pela obra. Não há uma regra fixa e o que vale aqui não vale, por exemplo, para o mercado estadunidense. Mas a Saraiva tem uma dica preciosa:

Quanto cobrar por ebooks de acordo com a quantidade de páginas, segundo a Saraiva.

Eles têm vasta experiência no varejo, devem saber o que falam, não?

E para fechar com chave de ouro: exatamente como nos blogs, quem publica tem que ter a coragem de dar a cara a tapa. Se você acha que o nível de comentários nos maiores portais da internet brasileira é baixo, dê uma olhada nos comentários de livros na Play Store. Há gente que reclama de ter que colocar o cartão de crédito… e não é pouca. Inclusive, essa é uma das maiores dificuldades de se vender por aqui, mesmo estando no século XXI.

Ainda está motivado? Ótimo! Pergunte a cinco pessoas do seu meio profissional “o que é um Kindle?” Já vi muitos estudantes de Engenharia Elétrica e da Computação que não sabiam responder. Engenheiros e Analistas formados também. Isso é um fator limitante da penetração dos livros digitais, principalmente da Amazon, no Brasil. Está melhorando, mas o ambiente ainda é desolador.

Descontando os alunos da rede pública que entram nas pesquisas sobre “quem lê no Brasil”, temos aí um universo de mais ou menos vinte milhões de leitores que compram livros. E eles estão dispersos em assuntos que variam de ficção científica a esoterismo. Aliás, é consenso entre os editores que autor brasileiro só vende bem se for autoajuda ou gospel. Aventura e ficção, só importados. Pense nisso.

Nas palavras de Landulfo Almeida:

“Pesquise. Participe dos eventos literários, seja de forma presencial ou virtual. Acompanhe os blogs literários e as páginas das editoras. Consulte os autores já publicados, famosos e desconhecidos. Pergunte! Tem muita gente disposta a passar os conhecimentos e experiências adquiridas. Eu mesmo já respondi a várias pessoas que me contataram e muitas já me ajudaram. Se você ama escrever, não desista diante das dificuldades. É difícil publicar e ser lido, mas os prazeres superam em muito os obstáculos.”

Chegou até aqui? Puxa, então você deve mesmo estar interessado em publicar. Envie-nos o link da obra para que possamos dar uma olhadinha! E lembre-se: Moby Dick vendeu apenas 3715 cópias até a morte do autor, Herman Melville.

Imagem da capa: Press/Autor desconhecido.

Nas páginas abaixo você confere as entrevistas completas com Landulfo Almeida e Wagner Ribeiro, autores consultados durante a elaboração desta matéria.

As redes sociais estão nos deixando mais solitários. Como resolver esse problema?

É bem provável que você já tenha se pego rolando páginas sem fim de redes sociais no computador ou celular em uma noite de sexta-feira. E o pior é que, por um bom momento, aquilo bastou. Mas cedo ou tarde a insatisfação ou o cansaço, o que veio primeiro, bateu forte e você foi para a cama dormir. Deprimido, provavelmente.

Gasta-se muito latim para tentar entender por que a tecnologia tem nos deixado mais tristes e solitários. Um dos trabalhos mais amplos no assunto é o livro Alone Together: Why We Expect More From Technology and Less from Each Other, da socióloga norte-americana Sherry Turkle.

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