Algo muito estranho aconteceu no iFood nesta terça (2). Milhares de restaurantes, em várias cidades do Brasil, foram vandalizados e tiveram seus nomes trocados por ataques ao PT e à esquerda, propaganda anti-vacina e ovações a Jair Bolsonaro (sem partido).

Pelo Twitter, o iFood disse que “o incidente foi causado por meio da conta de um funcionário de uma empresa prestadora de serviço de atendimento que tinha permissão para ajustar informações cadastrais dos restaurantes na plataforma, e que o fez de forma indevida.” A empresa afirma que seus sistemas não foram invadidos indevidamente e que não houve vazamento de dados dos clientes.

A história está mal contada. Em nota à Folha de S.Paulo, o iFood informou que o problema afetou 6% da sua base de restaurantes. Considerando que, segundo a própria empresa, ela tem 270 mil restaurantes parceiros, estamos falando de pouco mais de 16 mil restaurantes vandalizados num espaço curto de tempo. Como isso é possível? Via @iFood/Twitter, Folha de S.Paulo.

Os impactos da Transparência no Rastreamento em Apps (ATT, na sigla em inglês), recurso do iOS 14.5 que obriga aplicativos a obterem o consentimento expresso do usuário para rastrear suas atividades no celular, têm sido grande. Segundo a empresa de publicidade digital Lotame, o ATT custou US$ 9,85 bilhões a Facebook, Snap, Twitter e YouTube no terceiro e quarto trimestres, uma baixa de 12% no faturamento esperado. Via Financial Times (em inglês, com paywall).

Esse episódio joga duas verdades nas nossas caras:

  1. As pessoas se importam com privacidade. Diversas análises apontam que uma ampla maioria, ao ser apresentada ao pedido do ATT, nega que aplicativos rastreiem suas atividades. Pode não ser a maior preocupação de muitos, mas quando a opção é dada às claras, sem pegadinhas, a preferência quase unânime é por privacidade.
  2. Os “esforços” em privacidade que Google, Facebook e outras empresas de publicidade segmentada fazem são, se muito, maquiagens — ou, como argumentei nesta coluna, uma espécie de “greenwashing” da privacidade. Se fizessem diferença significativa, esta seria refletida nos relatórios financeiros trimestrais, coisa que jamais ocorreu.

Eu não tenho nada a ver com o que quer que o FB [Facebook] esteja fazendo relacionado ao metaverso, além do fato óbvio de que eles estão usando um termo que eu cunhei em Snow Crash. Não houve qualquer comunicação entre mim e o FB e nenhuma relação comercial.

— Neal Stephenson, autor de Snow Crash e criador do termo “metaverso”.

Em 1992, Neal Stephenson cunhou o termo “metaverso” em seu romance Snow Crash. Quase três décadas depois, a palavra virou a nova obsessão do Facebook, o que obrigou o escritor a se posicionar.

O metaverso de Snow Crash é um ambiente viciante, violento, que libera os piores impulsos das pessoas, mas ao mesmo tempo é um entretenimento barato e a base da economia de um país devastado pela pobreza e violência, controlado por empresas. (Tipo o filme Ready Player One, de Steven Spilberg.) Não é à toa que o Facebook não procurou Neal para promover o seu metaverso. Via @nealstephenson/Twitter (em inglês).

Achados e perdidos #40

Todo sábado, pego uns links que acumulei ao longo da semana e que, embora curiosos e/ou interessantes, não renderam nem notinhas, e os publico num compilado que chamo de “achados e perdidos”. É um conteúdo mais leve, curto, quase lúdico — a cara do fim de semana.

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Causou estranheza, no anúncio do Fairphone 4 5G, a ausência do conector de 3,5 mm para áudio. Afinal, a (empresa) Fairphone quer ser referência em sustentabilidade. Para complicar um pouco mais, a Fairphone anunciou na mesma ocasião um par de fones de ouvido sem fio, uma categoria que se tornou muito popular desde o lançamento dos AirPods originais da Apple, ainda que sejam um desastre ambiental por não ter baterias substituíveis. A bateria não segura mais carga? Joga fora e compra outro.

A Fairphone alega que seus fones de ouvido são mais sustentáveis que os outros. Em comunicado enviado à imprensa, afirmou que usa 30% de plástico reciclado nos próprios fones e na caixa e que o ouro usado no produto vem de fornecedores certificados. O texto reconhece que a baixa longevidade das baterias é “o maior problema” em fones sem fio, e o ataca “aumentando significativamente a vida útil da bateria”, a um nível sem paralelo na indústria.

Quanto mais? O texto não dizia, então perguntei. Em resposta ao Manual do Usuário, a Fairphone afirmou que “espera que a longevidade da bateria aumente em mais de 100%”, observando, porém, que esse número está diretamente relacionado à frequência de uso e de recargas feitas pelo usuário.

Aproveitei a oportunidade para perguntar das baterias, se elas são substituíveis ou se, após desgastarem, a única saída é jogar os fones fora. A resposta:

Esses fones de ouvido podem ser encarados como o primeiro passo em uma jornada para aumentar o nível de sustentabilidade neste popular segmento de áudio. Por isso, no momento, elas [as baterias] não são reparáveis, mas isso é algo em que estamos atentos para o futuro.

Continua estranho. Os fones de ouvido sem fio da Fairphone serão lançados na próxima segunda-feira (1º), por € 99,95 (~R$ 620).

Em agosto, o Basecamp anunciou que a sua próxima grande versão, o Basecamp 4, seria disponibilizada de modo diferente do tradicional. Em vez de prepararem todos os recursos e entregá-los de uma vez só, as novidades seriam implementadas aos poucos e, quando chegassem a um volume satisfatório, trocariam o “3” pelo “4” e boa.

Já foram duas rodadas de atualizações. A última, desta quarta-feira (27), trouxe dois recursos muito legais: tarefas recorrentes (uma omissão inexplicável até então) e lembretes (“Don’t forget”), que cria uma lista de notificações à parte e persistente.

A primeira safra, no início de setembro, trouxe uma renovada sutil no visual, duplicação dos componentes dos projetos e uma série de pequenas alterações e melhorias.

O Manual do Usuário usa a versão gratuita do Basecamp para se organizar.

Dotz e dados: As surpresas e dificuldades para excluir um cadastro via internet

Juliano1 tinha uma conta na Dotz, um serviço de pontos/cashback, e decidiu que não a queria mais. Ao tentar cancelá-la, caiu em um labirinto kafkaniano, repleto de perguntas esquisitas elaboradas a partir de dados seus que ele jamais compartilhou com a Dotz. “E pior: disseram que eu ERREI as respostas sobre minha vida”, contou, incrédulo.

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As coisas novas e as coisas boas do Facebook Papers

Na condição de leitor, fiquei paralisado diante da quantidade de reportagens publicadas desde a última sexta-feira (22) com base nos documentos vazados do Facebook pela ex-funcionária Frances Haugen, um esforço coletivo da imprensa batizado de “Facebook Papers”. É muita coisa.

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Post livre #292

Toda semana, o Manual do Usuário publica o post livre, um post sem conteúdo, apenas para abrir os comentários e conversarmos sobre quaisquer assuntos. Ele fecha na segunda-feira ao meio-dia à noite.

Toda quinta, na newsletter do Manual (cadastre-se gratuitamente), indico leituras longas/de fôlego (artigos, reportagens, ensaios) publicadas em outros sites.

Seria o máximo se esse trabalho fosse colaborativo, feito com a sua ajuda.

Indique nos comentários uma leitura longa da última semana, relacionada aos temas que costumam aparecer aqui no site, que você acha que deveria ser lida por mais gente. Vale em português ou inglês.

Em 2018, um pesquisador do Facebook desativou o algoritmo que monta o feed de notícias para 0,05% da base de usuários. Os sujeitos do estudo aumentaram em 50% a quantidade de posts ocultados e, com isso, a quantidade de posts de grupos, uma das poucas áreas ainda bem ativas no Facebook, aumentou no topo do feed. As Interações Sociais Significativas (MSI, na sigla em inglês) despencaram 20%. Há anos as MSI são a principal métrica que do Facebook usa para tomar decisões que afetam engajamento e o feed de notícias.

O pequeno grupo também passou mais tempo rolando o feed, o que poderia ser uma boa notícia ao Facebook — mais rolagem significa mais anúncios que significam mais dinheiro —, mas visto que todos os outros indicadores caíram, esse tempo extra não era do tipo que interessa à empresa. “As coisas estão piorando”, escreveu o pesquisador durante o experimento.

A ideia foi descartada, e não é muito difícil encontrar problemas na execução do estudo. O principal, creio, é que embora a organização fosse diferente, essa fatia minúscula da base de usuários recebeu um feed de notícias criado pelos outros 99,95% que continuaram usando o Facebook sob os mesmos incentivos perniciosos. Talvez sejam necessários mais estudos para mensurar direito os impactos de um feed cronológico no Facebook ou em qualquer rede social. Via Big Technology (em inglês).

Outros documentos do vazamento mostram como as reações, que se somaram ao botão “Curtir” em 2016, foram instrumentalizadas pelo Facebook para manipular as emoções dos usuários e, com isso, aumentar o engajamento na plataforma. Em 2017, os emojis de reações eram cinco vezes mais potentes que o “Curtir” para rankear conteúdos no feed de notícias.

Em 2019, cientistas de dados do Facebook confirmaram que posts com muitas reações de “raiva” eram desproporcionalmente mais suscetíveis a conter desinformação, conteúdo tóxico e notícias de baixa qualidade.

A matéria do Washington Post revela todo o caminho das reações — hoje, elas não têm peso algum no rankeamento de posts — e outros artifícios que o Facebook emprega no algoritmo do feed para manter os usuários engajados, mesmo que — literalmente — pela força do ódio.

Como resumiu Frances Haugen, ex-funcionária que vazou os documentos internos do Facebook Papers, falando ao parlamento britânico nesta segunda (25.out), “Raiva e ódio é a maneira mais fácil de crescer no Facebook”. Via Washington Post (em inglês).

No mesmo dia em que uma torrente de reportagens baseadas em documentos vazados revelou histórias ainda mais comprometedoras do Facebook, a empresa divulgou seus resultados no terceiro trimestre fiscal e Mark Zuckerberg e outros executivos bateram um papo com investidores.

Dois destaques da conversa (PDF, em inglês):

  1. O foco da empresa Facebook passa a ser jovens adultos. “Estamos reformulando nossas equipes para tornar jovens adultos sua prioridade, em vez de otimizar para um maior número de pessoas mais velhas”, disse Zuckerberg. Os documentos vazados revelaram que o envelhecimento da base de usuários e a perda das novas gerações para rivais como TikTok e Snapchat são questões prioritárias para o Facebook. Espere ver ainda mais vídeos/reels no Instagram e o Facebook copiando os rivais como se não houvesse amanhã.
  2. Zuckerberg disse também que o Facebook investirá US$ 10 bilhões em metaverso — leia-se aplicações e ferramentas de realidade aumentada e virtual — e alertou os investidores de que esse negócio não será lucrativo pelo menos até o fim da década. A promessa, porém, é grandiosa: “O metaverso será um sucessor da internet móvel. Ele desbloqueará uma economia criativa incrivelmente maior que a que existe hoje.”

O Facebook faturou US$ 29,01 bilhões, sendo que 97,5% desse valor veio de anúncios. O lucro foi de US$ 9,2 bilhões, aumento de 17% em relação ao ano passado. Apesar dos bons números, eles ficaram levemente abaixo das expectativas dos analistas. Culpa do iOS da Apple, segundo a empresa.

O metaverso é a primeira tentativa do Facebook de criar algo desde o próprio Facebook, no longínquo ano de 2004. Seus outros grandes sucessos — Instagram e WhatsApp — foram aquisições de rivais em ascensão. Será que Zuckerberg é tipo aquelas bandas que ficam conhecidas por uma música só, as “one hit wonder”? Descobriremos em breve. Ou melhor, no final da década. Via New York Times (em inglês), Protocol (em inglês).

Começou nesta terça (26) a Adobe MAX, evento anual em que a Adobe anuncia novidades na sua vasta linha de produtos. Um dos destaques deste primeiro dia são as versões web do Photoshop e Illustrator. A ideia, porém, não é levar todo o poder desses editores ao navegador. Em vez disso, a Adobe quer facilitar o compartilhamento e a colaboração em arquivos. Com as versões web, um cliente ou colaborador não precisa dos aplicativos para abrir arquivos, fazer apontamentos, comentários e edições básicas. O Photoshop na web já está disponível, em beta; o Illustrator chega mais tarde. Via Adobe (em inglês).

Se você queria um verdadeiro Photoshop na web, o Photopea talvez seja a coisa mais próxima disso. E é gratuito (com anúncios).