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Opinião

Os três problemas do polêmico VAR, o árbitro de vídeo do futebol

Cabine do VAR, da CBF, desmontada no chão após tomar um chute do goleiro Gatito Fernandez.

Desde que o uso do árbitro de vídeo, ou VAR (do inglês “video assistant referee”), foi oficializado, em 2016, guardo comigo diversas ressalvas sobre o protocolo. Para não ser traído pela pressa, decidi esperar. Os sucessivos questionamentos a decisões influenciadas pelo árbitro de vídeo nos últimos anos, de campeonatos regionais à final da Copa do Mundo, confirmaram as minhas inquietações iniciais.

Divido a crítica ao VAR em três blocos, ou problemas: 1) a arbitrariedade dos lances capitais; 2) a centralidade do processo na equipe de arbitragem; e 3) a impossibilidade de progresso humano dentro desse protocolo — ou a desumanização provocada pela tecnologia. Some a isso a verdade inconveniente de que, apesar das promessas e de evidências engendradas com a tortura de estatísticas, o árbitro de vídeo sequer deixa o jogo “mais justo”.

Primeiro problema: Lances capitais

O protocolo do VAR parte de uma premissa objetiva: existem lances dignos de serem revisados e lances indignos de serem revisados. Em seu léxico, são os “lances capitais”. Uma falta leve sobre a linha da grande área (logo, pênalti), pode ser revisada. Uma falta leve dois metros antes da mesma linha, não. No papel, o protocolo não deixa dúvidas: o árbitro de vídeo só pode ser chamado em lances de gols, pênaltis, cartões vermelhos e para a identificação de jogadores.

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Muito bem! Com a definição anterior dos lances que podem ser revistos já feita, resta aos árbitros apenas aplicar o protocolo. Isso significa, implicitamente, que o árbitro sabe que terá suporte em quatro situações do jogo de futebol (supostamente decisivas, ou mais decisivas do que as outras), mas que em todas as outras só poderá contar com seus próprios olhos.

Objetivamente, isso causa um enorme problema, uma vez que a categorização dos lances potencialmente revisáveis é não apenas arbitrária (qual o critério para se definir o que são lances capitais?) como é também absoluta, ou seja, ignora o caráter relativo, contingente e simbólico dos lances não-binários (sim/não, dentro/fora) que soam secundários na aparência, mas ganham valor dentro do jogo jogado. Essa premissa, dos lances capitais, é absurda porque num jogo coletivo de invasão, como é o caso do futebol, um “lance capital” não pode ser determinado de antemão. No futebol, um lance se faz “capital” pelo seu efeito, não apenas pela sua causa.

Árbitro Nestor Pitana na cabine do VAR, revisando um lance na final da Copa do Mundo 2018.
Nestor Pitana revisa um lance no VAR na final da Copa do Mundo da Rússia, em 2018. Foto: FIFA/Divulgação.

Como um capricho do destino, este gargalo ficou nítido exatamente na final da Copa do Mundo masculina da FIFA, em 2018, primeira edição do torneio que contou com o auxílio do árbitro de vídeo. Perto dos 15 minutos do primeiro tempo, Antoine Griezmann, da França, caiu próximo à área e ao árbitro Nestor Pitana. Este, por suas limitações humanas, não percebeu que havia sido ludibriado — coisa que o replay mostrou claramente. Nesta falta (que não houve), Mandzukic, da Croácia, desviou para o próprio gol abriu o placar a favor da França.

Pelo protocolo, o assistente de vídeo não poderia ser acionado, uma vez que a situação não se enquadra na categoria de “lances capitais”, que citamos acima. Ou seja, uma falta inexistente, que resulta em um gol decisivo numa final de Copa do Mundo, não pode ser corrigida pelo vídeo, ainda que ele (e o mundo inteiro) soubesse que fora fruto de um equívoco. Para poupar o protocolo, houve até quem criticasse severamente o árbitro.

A única razão para a existência de um assistente de vídeo é enxergar aquilo que o olho humano não consegue ver. Quando o protocolo, por qualquer motivo, detecta um equívoco e admite nada poder fazer, então há um problema sério — e os problemas desse modelo são inerentes a ele.

Segundo problema: Poder moderador

O segundo problema do VAR me parece mais escandaloso. Todo o processo de revisão ou não-revisão está inteiramente centralizado na equipe de arbitragem. Além de restringir as situações de revisão (como vimos acima), o protocolo lança mão de um artifício tanto particular quanto perigoso: embora a decisão final seja “sempre do árbitro de campo” (falaremos disso abaixo), a decisão do que será ou não revisto está inteiramente nas mãos do assistente de vídeo.

Esta é, sem dúvida, a maior fraqueza do protocolo, e o é por uma razão muito simples: a eficiência do VAR, ao contrário do que dizem os entusiastas (com percentuais de acertos fantasiosos e outros artifícios), não se mede apenas nos lances em que o vídeo é acionado, mas também — e especialmente — nos inúmeros lances em que o vídeo, por imprecisão ou omissão, não é acionado. Isso dá ao assistente de vídeo uma espécie de poder moderador, capaz de controlar a narrativa do jogo como bem entender. Ele pode tanto convidar o árbitro a revisar lances absolutamente questionáveis, como também pode se abster em situações idênticas ou até mais graves (como vemos desde a Copa do Mundo, diga-se).

Esses lances, potencialmente revisáveis, quando ignorados aqui e ali causam fraturas tão grandes no jogo quanto aqueles que são de fato revistos. A diferença é que as omissões não entram naquelas estatísticas grotescas publicados para avaliar e endossar o desempenho do assistente de vídeo.

Dessa forma, dizer que a decisão final “é sempre do árbitro de campo” tornou-se muito mais um slogan, uma maneira perspicaz de amenizar a pesada mão do vídeo na decisão do árbitro, do que algo factual. O pré-requisito desse modelo é concentrar um enorme poder de decisão nas mãos de outro sujeito, anterior ao árbitro de campo — um deslocamento violentíssimo. No fim das contas, é ele (o VAR) quem controla a narrativa do jogo. A “decisão final” é um detalhe.

Terceiro problema: Desumanização da arbitragem

Foto, de cima, de uma central do VAR em jogo da Copa do Mundo. Várias telas com árbitros à frente. De pé, atrás deles, outro árbitro supervisiona a situação.
Foto: FIFA/Divulgação.

Por fim, me assusta não apenas a capilarização irrefletida do discurso pró-VAR, mas como não se discutem as consequências, especialmente humanas, decorrentes do protocolo.

O objetivo (aparente) desse protocolo é diminuir o percentual de equívocos da arbitragem com foco nos lances capitais. Se você preferir, este modelo almeja melhorar a qualidade da arbitragem. Mas, repare bem: melhorar a arbitragem não significa, necessariamente, um comprometimento para melhorar o nível dos árbitros. São coisas distintas.

Além de ajudar menos do que se alardeia por aí, o VAR expõe e desumaniza duplamente os árbitros de campo — a quem é totalmente subtraído o direito de errar. Nesse modelo, subsiste a frágil aposta de que a “tecnologia”, pela sua impessoalidade, é a solução para o humano, esse naturalmente limitado. Daí tratar-se de um modelo (supostamente) comprometido com a arbitragem, mas em nada com os árbitros.

Na verdade, assusta como o discurso da impessoalidade é defendido com tamanha ferocidade (“o VAR é o futuro!”, “não se escapa da tecnologia!”) sem que a mesma energia seja investida no desenvolvimento dos árbitros em geral. A profissionalização da arbitragem, um debate obrigatoriamente anterior ao da implementação do assistente de vídeo, é pouco discutida em geral, ainda mais em lugares como o Brasil. Aqui, espera-se que os árbitros, que sequer vínculo empregatício têm, tenham o mesmo percentual de acerto e a mesma fluidez no protocolo de profissionais de outros países que vivem do apito.

Onde está a comissão, via International Board, destinada ao debate ético e — literalmente — filosófico que está no coração da arbitragem e do próprio jogo de futebol? Ou a melhor solução disponível é um conjunto de bugigangas tecnológicas desprovidas de qualquer humanidade? Se for a segunda opção (e é), o que nos resta é repetir essas bobagens enormes do tipo “o problema nunca é o VAR, é quem o opera”. Essa narrativa cristaliza a ideia de que os acertos são da técnica e os erros, do humano. Ser humano é um problema na arbitragem com VAR. Não por acaso há essa obsessão pelos “nanoimpedimentos”(como batizou o Luiz Antonio Simas), pelas revisões cada vez mais mecânicas, repetidas à exaustão porque o árbitro sabe que não pode errar e acha, conscientemente ou não, que algo provavelmente se passou sem que ele visse.

Aumenta-se a pressão sobre toda a equipe de arbitragem, para quem os equívocos, de qualquer natureza, passam a ser cada vez mais inadmissíveis em nome da lógica doentia da eficiência a qualquer custo. É por isso, se ainda não está claro, que há tantos diálogos entre os árbitros de campo e o de vídeo no Brasil: porque o direito ao erro aqui inexiste ainda mais, e os árbitros, cientes disso, tentam se proteger como podem. No médio/longo prazo, não me surpreenderia se este modelo levasse os árbitros ao esgotamento mental, exatamente em função da pressão desumana a que estão sendo submetidos.

Possíveis caminhos

Ao contrário de alguns colegas, acho frágil o argumento que diz que bastam “alguns ajustes” no protocolo, que ele será “aprimorado”. Não é disso que se trata. Na minha opinião, é preciso um forte deslocamento no protocolo. E isso significa debater seriamente a adoção de um sistema de desafios.

A definição de um lance capital não é absoluta nem feita “a priori”, é relativa e contingente, o que significa que o valor de um lance só pode ser medido em associação ao jogo jogado. E, melhor, pode muito bem ser medido por quem joga, não apenas pela equipe de arbitragem.

Ao invés de centralizar a abertura de uma revisão nos árbitros, por que não deixar com as equipes o direito de pedir revisões quando bem entenderem? Talvez na mesma lógica do tênis — imagino duas revisões por equipe, retirando uma para cada chamada equivocada. Esse simples deslocamento teria amenizado absolutamente todos os problemas citados acima. Da mesma forma, teria diminuído sensivelmente as frequentes reclamações do uso do VAR nos estaduais e Brasileirão. Para aqueles que acham que o assistente de vídeo também é um atrativo ao jogo (?), estaria aí um argumento importante, uma vez que a chamada das revisões deveria ser estratégica, por motivos óbvios.

Infelizmente, não acho que isso vá acontecer. Primeiro, porque seria uma admissão de erro. Depois, porque existe um interesse muito menor do que se pensa em deixar o jogo “mais justo”. E mesmo que houvesse, isso não significa, em hipótese alguma, exterminar o erro, tirar todo e qualquer traço de “impureza”, esterilizando a humanidade de quem está em campo.

O que está no centro do debate não é a “tecnologia”, é a humanidade presente no jogo de futebol. Quanto mais esssas bugigangas fugirem do humano, mais vão ser atormentadas por ele. Ser humano é contraditório, complexo, plural, limitado, fronteiriço… E é assim que a arbitragem precisa ser encarada. Se for encarada apenas pela técnica e por algumas das bugigangas que ela produz (por vezes para curar problemas que ela mesma criou), vamos continuar no limbo em que já estamos metidos.


Hudson Martins é graduado em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Juiz de Fora, em Ciências do Esporte pela Unicamp, mestre em Educação Física pela Unicamp e pesquisador no Laboratório de Estudos em Pedagogia do Esporte (LEPE).

Este artigo é uma versão editada do publicado originalmente na Universidade do Futebol com comentários do autor feitos no Twitter.

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17 comentários

  1. belo texto e reflexões meu caro Hudson, devidamente embasadas em cerca de 4 anos de observações; pena que o futebol é aparentemente ‘pra todos’ mas é verdadeiramente de posse de poucos, muito poucos, sem interesse algum em melhorias, que dirá o assumir erros que levam às melhorias; vide o tanto de idéia e dica muito boa que um Rica Perrone dá por exemplo, ou até mesmo as sugestões que esse tanto de analista da bola dá de graça todo santo dia pra melhorar esse esporte tão amado, e quanto delas são sequer pelo menos ouvidas, que dirá implantadas; precisou vir uma pandemia pro número de alterações de um time durante a partida poder aumentar; algo tão óbvio pra melhoria e mudança de um jogo; infelizmente, pra maioria das nossas paixões, pra vermos oque queremos ver fluindo na realidade, é preciso começar e implantar do zero, em algo bem ou um pouco mais nosso; quem sabe um dia não organizamos em qualquer várzea do país, alguns belos torneios, com o nobre intuito além da própria diversão, de vermos na prática essas sugestões suas e outras, testadas na realidade? quem sabe algum eco desses esforços e percepções não cheguem assim aonde realmente queremos vê-los acontecendo né? mas brigadão de novo pelas reflexões acima…

  2. “a decisão do que será ou não revisto está inteiramente nas mãos do assistente de vídeo.”

    É assim mesmo que está na regra e que funciona? Não me parece…

    Não entendi a parte sobre direito de errar também. O texto está contra ou a favor desse direito? Não foi isso então que aconteceu na final da Copa? O que não estou captando?

    E achei que o texto não levou em consideração os próprios jogadores. E senti falta também das posições dos próprios árbitros.

    Bom, achei bem vindo o VAR e achei interessante acompanhar como as diversas ligas estavam usando. O que acho que falta é a manifestação sonora da arbitragem, como ocorre na NFL — acho que na NBA também, não tenho certeza.

    1. A revisão do lance é de responsabilidade do árbitro de campo e não do VAR, o VAR sugere a revisão em casos que ele detecta que o árbitro de campo não viu uma falta clara ou em casos que houve uma interpretação diferente entre o VAR e o árbitro de campo – e são nesses casos que ele vai pra cabine de VAR.

      O VAR só entra automaticamente na questão em caso de erro técnico – que dependem de medições como bola dentro/fora de campo, local de falta (que pode virar pênalti) e impedimentos – todo o resto é revisado pelo VAR e este chama apenas em caso de divergência.

      Eu não consegui ainda entender a ideia central do texto e nem da defesa do Ghedin de que isso “aproxima” o esporte das redes sociais algoritmizada, mas enfim.

      Um guia relativamente completo sobre o assunto foi feito pelo GE: https://globoesporte.globo.com/rj/futebol/noticia/guia-do-var-globoesportecom-explica-tudo-o-que-voce-precisa-saber-sobre-o-arbitro-de-video.ghtml

  3. Ótimo texto! Concordo em gênero, número e grau. Eu assisto vôlei, um esporte em que o nível do jogo jogado no Brasil é muito maior que o futebol (mais da metade da seleção brasileira multicampeã joga no Brasil, que inclusive atrai gringos e gringas de seleções de elite).

    Quando ia sair o VAR no futebol, eu achei que seria na sistemática do desafio, e para minha surpresa criaram essa aberração. No vôlei, além de você pedir desafio no lance específico, é como na sinuca, você tem que acertar bola X no buraco Y, ou seja, qual foi a infração. Por exemplo, no segundo gol anulado do último Flamengo x Santos, o técnico do Flamengo teria que ter pedido impedimento. Se ele pedisse mão, o impedimento sequer seria avaliado pelo VAR e ele perderia o desafio.

    Assim, o VAR é apenas mais uma arma estratégica do esporte, fazendo a disputa mais emocionante e estratégica. As vezes o técnico pede só para dar uma esfriada no jogo, por exemplo, o que é legítimo. Esse espectro onipresente do futebol é muito bizarro. Uma pena…

    1. Eu acho o oposto: o texto se apega a coisa “estranhas” ao jogo para justificar uma visão (nada de errado) e joga sob o VAR a responsabilidade de formação dos árbitros. É justo que se cobre a profissionalização da equipe de arbitragem antes dos protocolos do VAR, claro, mas o problema é outro se a discussão é essa. A sistemática de desafios poderia funcionar, mas não acho que mexeria na dinâmica do jogo como o autor acredita.

      Outra coisa, o VAR no futebol só é usado para lances interpretativos que tenham gerado opiniões diferentes entre a equipe de campo e a equipe de vídeo. Lances como impedimento, gol e saídas de bola são lances técnicos que o VAR analisa sempre, se o árbitro errou o VAR chama e diz que ele errou.

      Lances de interpretação (falta, cartão vermelho ou mão na bola) em que a equipe de campo e a equipe de vídeo tenham opiniões distintas é que são revisados na TV na beira do campo.

      1. Quais coisas “estranhas” ao jogo o texto se apega?

        O ponto central do texto, na minha visão, é justamente a dificuldade de se distinguir aquilo que é “técnico” do que é “interpretativo” e de definir a priori o que é um lance capital e o que não é. O exemplo da final da copa foi bem feliz nesse sentido.

        Acho que isso é ainda pior para duelos entre times de dentro e fora do “eixo”, como você falou no outro comentário. A injustiça da arbitragem não está apenas nos lances capitais, mas em faltas fora do lance ou inversão de posse de bola num lateral no meio do campo. Nessas pequenas disputas, o árbitro tende a favorecer o time da casa, o que vai irritando e minando o psicológico do time visitante. E para elas não tem VAR.

        1. A questão do que é técnico é bem delimitada, como eu disse, tem a tecnologia de linha de gol e a tecnologia de impedimento. Isso não é discutido, por exemplo, e o árbitro sequer vai ao monitor pra ver o lance. É o que o autor fala sobre os “nanoimpedimentos” que ele acha que não deveriam ser marcados (?) e que o VAR sempre interfere. Falar sobre isso é uma questão “estranha” ao jogo, porque a regra prevê que isso é impedimento e ponto (não tem um limite de tolerância, por exemplo).

          Ainda ele ignora que um erro contra o Flamengo tem muito mais impacto midiático do que um erro contra o Botafogo – imagine se os dois gols anulados fossem contra o Flamengo? Iríamos ter horas de discussão na mídia sobre o tema – e mistura duas questões que são distintas: a profissionalização dos árbitros e a interferência massiva do VAR no Brasil. Você pode ter a primeira e melhorar a segunda, são excludentes.

          O protocolo doe acionamento VAR precisa ser mais claro pra quem assiste e comenta e, principalmente, pra quem joga e os árbitros precisam ser pagos pelas federações ou pela CBF para poderem se dedicar exclusivamente ao jogo.

          Todos os lances de falta são interpretativos, assim como o que se origina delas – gol, cartão vermelho etc – e somente em caso de divergência o VAR aciona o árbitro em campo.

          Você está certo sobre as pequenas faltas, o mais comum, até mesmo em problemas de compra de resultados, é exatamente que o árbitro inverta faltas e outras infrações pro time com mais poderio econômico. Mas existem inúmeros lances que poderiam ter sido mitigados em prol dos times menores se tivéssemos o VAR nos anos 90/00.

          1. Talvez a implantação do VAR e o aperfeiçoamento dos árbitros sejam mutuamente excludentes?

            Eu, que não acompanho futebol, vejo um paralelo nessa relação com a dos algoritmos de moderação nas redes sociais. Quando abusos acontecem nelas, algo hoje absolutamente corriqueiro, é comum as plataformas se defenderem dizendo que estão investindo em algoritmos para automatizar a moderação em larga escala. Tomara que consigam, mas não vejo isso funcionando porque a comunicação, ainda que apenas por texto, tem muitas nuances que uma máquina hoje não consegue captar. Para atacar o problema, antes é preciso reconhecê-lo como um de natureza humana, o que elas se negam a fazer.

            No futebol, ao focar no VAR/na tecnologia para “compensar” a baixa qualidade dos árbitros ou tornar o esporte mais “justo”, os dirigentes do futebol usam o mesmo subterfúgio de que a tecnologia seria capaz superar as imperfeições dos humanos que estão em campo. Só que é ainda pior que as redes sociais porque eles fazem isso ao mesmo tempo em que mantêm um discurso de fachada de que o árbitro humano é soberano, quando, na prática, o VAR do jeito que está posto enfraquece um bocado a autoridade do árbitro de carne e osso.

          2. @Ghedin

            Na UEFA os árbitros já são profissionalizados ou estão em via de se profissionalizar, a partir das suas respectivas federações. Em Portugal acho que a profissionalização data de 2013. Outros locais também tem quadros de árbitros profissionais. Todos essas federações usam VAR também. A discussão no Brasil está atrasada, como sempre, porque os cartolas estão mais preocupados com questões legais (como fugir dos impostos) e em vender talentos para a Europa com 18 anos ainda. Essa discussão – sobre o imperialismo europeu frente à América do Sul – eu acho que não cabe aqui (ainda) mas ela explica boa parte dos problemas que temos, tanto com o VAR como com a qualidade dos nossos torneios.

            Resumindo: o VAR não deveria ser protagonista, isso ninguém questiona, a questão é que no texto são levantados alguns pontos que eu não vejo como relevantes na discussão, principalmente sobre critérios técnicos.

          3. @ Paulo

            Se em locais onde a arbitragem é profissionalizada os problemas se repetem, vejo isso como um argumento a mais à crítica ao VAR no modelo atual.

            Na minha leitura do argumento do Hudson, a precariedade da nossa arbitragem acentua o problema, mas o que pega mesmo no VAR é que ele sobrepuja a autoridade do árbitro humano — pode ser o melhor árbitro do mundo, o problema continua existindo.

          4. @Ghedin

            Existem pesos e pesos, erros e erros. Não sei se já temos um levantamento sobre a quantidade de vezes que o VAR é acionado em jogos dos clubes com maiores torcidas vs. os outros. Mas um árbitro errado contra o Flamengo vai gerar uma quantidade absurda de reclamação – afinal é a maior torcida do país e o clube mais rico, com maior penetração e audiência em televisivos – do que quanto esse mesmo árbitro comete um erro contra o Botafogo, Inter ou Santos. Nesse sentido eu vejo o VAR muito mais como uma “muleta” do árbitro em campo para se precaver contra as perseguições e acusações que a imprensa esportiva e os dirigentes irão fazer do que necessariamente um esvaziamento da autoridade dele em campo.

            Esse argumento, plausível pra mim, falta no texto, por exemplo. Se a preocupação é a soberania do árbitro em campo, precisamos discutir o que está ao seu redor – crônica, formação, dinheiro etc. Um árbitro que vá para a geladeira da CBF por um erro contra um time grande fatalmente tem uma perda monetária muito grande quando deixa de apitar os grandes jogos.

            Focar no VAR é frágil, pra mim.

          5. @ Paulo

            Ah, certamente. Não acho que o Hudson nem ninguém acredita que o VAR é a raiz de todos os problemas da arbitragem, apenas que, do jeito que ele foi implementado, pouco fez para tornar o jogo mais justo e além disso ainda criou novos problemas. (Novamente o paralelo com tecnologia/algoritmos me ocorre.)

          6. @Ghedin

            Mas aí, novamente, não vejo uma questão central do VAR e sim da dinâmica do esporte como produto. Claro que isso pode ser dito sobre tudo na vida, mas o esporte sofre uma interferência de países centrais e do dinheiro que, ACHO, só as artes sofrem também.

  4. Pra quem está no “eixo” (RJ/SP) e sempre esteve acostumado com erros muito mais favoráveis do que o oposto, é compreensível que exista essa relutância em um protocolo de verificação tecnológica que amenize o fator humano (casa, time do grande centro do país, comentaristas em sua maioria cariocas e paulistas, crônica esportiva pesando a mão em alguns erros e aliviando em outros) em prol da mecanização da decisão.

    Contudo, pra quem torce e vive fora de RJ e SP esse protocolo do VAR é a esperança que erra como o pênalti e posterior expulsão do Tinga em 2005 não ocorram novamente e decidam um campeonato no arroubo autocrático de um árbitro em campo.

    O Botafogo reclamou dos dois lances contra o Inter no final de semana e, ambos foram anulados corretamente. Em outros tempos, um empate sagaz sairia dali e o Inter, hoje, teria 14 pontos. Ou menos, uma vez que ontem o árbitro novamente teve de usar o VAR pra marcar uma clara mão na área do Palmeiras.

    Essa romantização do esporte por quem vive nos grandes centros é linda, mas garanto que o Galo mineiro troca na hora tudo isso pela possibilidade de ter prosseguido naquela Taça Libertadores de 81 onde o José Roberto Wright “operou”, como diriam os antigos, o Galo no Serra Dourada.

    E sim, eu sei que o autor colocou de maneira muito clara que a profissionalização dos árbitros é essencial ao esporte, o que eu concordo.

    1. Perfeito esse comentário. Como nordestino, também tenho ficado extremamente incomodado com essa romantização do esporte claramente vinda de quem vive o futebol apenas no Sul e no Sudeste. Acho ainda que um sistema de revisão com desafio só serviria para acentuar essa desigualdade.

    2. Para mim chega a ser incompreensível que o VAR não funcione no modelo dos desafios! A própria arbitragem – e, por consequência, os cartolas das federações- se beneficiariam de um esquema em que os times seriam soberanos na chamada daquilo que lhes parece fora das regras do jogo – ressalvando os lances de impedimento e gol/não gol, onde o critério é objetivo e o VAR funcionaria da mesma maneira de hoje.

      Nem de longe compro esse argumento de que o VAR torna as coisas mais justas para os times ‘fora do eixo’ – aposto, até, no oposto: no favorecimento do eixo, dado que os lances seguem sendo interpretados pelos mesmos árbitros de antes, acrescidos apenas de mais ângulos que podem tirar/aumentar as dúvidas ao gosto dos mesmos.

      Pra mim o que fica demonstrado com a estrutura do VAR atual apenas reforça o mau-caratismo que reina entre a cúpula do futebol ao redor do mundo. O acréscimo de recursos tecnológicos, algo que funciona em praticamente qualquer esporte, foi estragada pelo protocolo de centralidade na arbitragem que, ouso dizer, é único em todos os esportes.

      1. Jamais, para os times fora do eixo rio-sp o VAR consiste em uma possibilidade a mais de não serem prejudicados. Durante décadas os erros de acumularam em favor dos times de maior torcida, agora eles são distribuídos ao menos. Talvez falte um levantamento sobre isso, mas só nesse campeonato o Inter teria perdido entre 2 e 5 pontos sem o VAR, por exemplo.

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