Fundo azul, com uma chamada para um PlayStation 5 no centro. À esquerda, a frase “Ofertas de verdade, lojas seguras e os melhores preços da internet.” À direita, “Baixe o app do Promobit”.

O futuro do trabalho é trabalhar menos? Os experimentos com a semana de quatro dias úteis

Montagem sobre o aplicativo Calendário, da Apple, com a coluna da sexta-feira pintada de cinza — igual às de sábado e domingo.

Em abril, por uma coincidência de datas, o brasileiro teve duas semanas de quatro dias úteis consecutivas. Dois feriados, um na sexta-feira (15, Páscoa), outro na quinta (21, Tiradentes), deram a todos os trabalhadores um gostinho do que alguns profissionais já têm como rotina e que pode virar uma tendência no mundo corporativo.

A ideia não é nova, mas tem ganhado tração recentemente. No noticiário corporativo, notícias de empresas e até países, como o Reino Unido, Espanha, Islândia e Nova Zelândia, adotando ou iniciando estudos da jornada reduzida (sem reduzir o salário) têm aparecido com mais frequência, influenciados pelas alterações de rotina dramáticas exigidas para conter o avanço da pandemia de covid-19.

No Brasil, embora o movimento ainda esteja dando seus primeiros passos, já há casos registrados. Por aqui, NovaHaus, Templo.cc e Winnin já fizeram a virada. A Zee.Dog, adquirida pela Petz por R$ 715 milhões em agosto de 2021, é a maior do grupo dos que trabalham quatro dias por semana — a empresa tem pouco menos de 200 funcionários, segundo sua página no LinkedIn.

Foi numa dessas, lendo pela imprensa os experimentos de fora, que Luciano Braga, co-fundador e líder de ativismo e projetos sociais da Shoot, uma agência de publicidade de Porto Alegre (RS), resolveu levar a novidade para dentro de casa.

“Quando descobrimos isso na Europa, que estava acontecendo, a gente nem pestanejou. Falei ‘vamos fazer isso?’ e todo mundo meio que topou”, disse em entrevista ao Manual do Usuário.

Grupo de pessoas sorridentes em um lugar a céu aberto, com muito verde e céu azul. Luciano está ao centro, à direita, sentado em uma cadeira verde.
Funcionários mais energizados na volta do fim de semana. Luciano ao centro, sentado na cadeira verde. Foto: Shoot/Divulgação.

A Shoot nasceu há 12 anos, resultado da insatisfação de um grupo de publicitários com seu próprio mercado. “Pode soar paradoxal, mas agências [tradicionais] de criatividade, de propaganda, não têm tanto espaço para você ser criativo”, explicou Luciano. Além disso, eles queriam se dedicar a trabalhos mais alinhados às suas convicções. “Estávamos sempre incentivando o consumismo. Queríamos gerar impacto positivo na sociedade com a nossa criatividade.”

A gênese da agência ajuda a entender o pioneirismo na semana de trabalho encurtada. O tamanho da Shoot, também — hoje, são 12 pessoas, incluindo os donos, o que facilita a implementação do que Luciano chama de experimentos. “A gente chama de experimento muito por causa da ‘vibe’ de a gente vai mudar, vai ajustar coisas ao longo. Entender [o experimento] como um processo é algo muito importante.”

A Crawly, startup mineira especializada em dados fundada por João Drummond (atualmente CEO) e Pedro Naroga em 2017, é outra pequena (19 pessoas, com 5 vagas em aberto) que aderiu à jornada reduzida, mas por outro motivo — pelo menos, a princípio.

As posições de engenharia desfrutam do dia extra de folga semanal desde 2018, quando os fundadores viram no benefício um diferencial para recrutar desenvolvedores e engenheiros, perfil profissional em escassez no mercado já naquela época.

“Vimos que a produtividade [do time de engenharia] não tinha impacto negativo, então a gente implementou isso pra todo mundo”, disse João ao Manual do Usuário, ao falar da expansão do benefício a toda a empresa.

Isso ocorreu no início de 2021. Após um ano trabalhando apenas quatro dias por semana, os resultados têm sido satisfatórios em ambas as empresas.

Modo de fazer

Diminuir em 20% o tempo trabalhado demanda ajustes em processos eexpectativas, internas e externas.

Um dos poucos problemas internos citados por Luciano desde a mudança, implementada na Shoot em março deste ano, foi o de funcionários ansiosos por não saberem o que fazer com o dia de folga ou se sentindo culpados por ficarem à toa enquanto o resto da cidade trabalha.

Na agência porto-alegrense, os funcionários foram divididos em duas equipes: a de atendimento, que trabalha de segunda a quinta, e a de criação, que entra na terça e encerra a semana na sexta.

Segundo Luciano, isso ajuda no fluxo de trabalho. O atendimento entra primeiro, faz reuniões com clientes e define as demandas da semana, e depois a criação põe a mão na massa para fazer as entregas acontecerem. Na terça, primeiro dia da semana em que todo mundo está na empresa, acontece uma reunião geral.

Homem branco, de óculos, bigode e barba e cabelo curto meio ruivo, vestindo uma camisa polo azul em dois tons. Ao fundo, parede de tijolinhos desfocada com alguns quadros pendurados.
João Drummond. Foto: Crawly/Divulgação.

Na Crawly, todos folgam na sexta. Ou quase todos. Os sócios ainda trabalham cinco dias por semana — “esse quinto dia a gente usa para arrumar um pouco a casa”, explica.

A Crawly conta com plantonistas para atender clientes em casos de emergência, em um modelo similar ao que empresas de tecnologia costumam adotar para os fins de semana e feriados.

Fora esses ajustes pontuais, os clientes não reclamaram, segundo os dois executivos. “As entregas continuaram muito boas”, resumiu João, da Crawly.

Empecilhos

A incidência crescente de empresas abraçando a semana de trabalho de quatro dias pode dar a impressão de que tal avanço está ao alcance de todos. Thatiana Cappellano1, sócia-fundadora da 4CO, uma consultoria especializada em cultural organizacional, vê o movimento com cautela.

Mulher de óculos, cabelos encaracolados castanhos, vestindo uma roupa verde, com um colar discreto, sorrindo para a câmera.
Thatiana Cappellano. Foto: Arquivo pessoal.
“Nesse momento, fico um pouco desconfiada. A gente está vendo uma dificuldade muito grande na retomada do trabalho no pós-pandemia, com as empresas que foram para o modelo remoto numa queda de braço com os funcionários. Tem muita empresa obrigando o retorno ao 100% presencial. Se é difícil para os caras aceitarem modelo de trabalho flexível, imagina uma jornada menor”, explicou ela ao Manual do Usuário.

(Um traço comum na Shoot e na Crawly é que ambas já adotavam o modelo de trabalho remoto desde antes da pandemia, mesmo tendo um escritório central — no caso da Shoot.)

O grande empecilho, para Thatiana, não é produtividade. Os inúmeros experimentos, a maioria em empresas pequenas, mas alguns em grandes corporações, como a Panasonic e a Microsoft no Japão, provaram que é possível conciliar jornadas menores a um aumento expressivo da produtividade.

Ocorre que produtividade não é receita de bolo. “Se a gente consegue importar esse ‘modus operandi’ [de empresas bem sucedidas na semana de quatro dias], aí eu acho que a gente precisa refletir”, questiona Thatiana. “A cultura empresarial muda bastante nos países, em relação ao tipo de indústria e tudo mais.”

Outro risco apontado pela especialista, esse para o funcionário, é o de ter que trabalhar o mesmo tanto de antes em menos tempo, o que pode virar uma fonte de estresse. “A falta de priorização das empresas pode criar o caos se a gente não passar a entender o trabalho em termos qualitativos em vez de quantitativo.”

Pouco adianta reduzir a jornada semanal de 44 para 35 horas se nessas 35 horas o funcionário é sobrecarregado. Daí a importância do diálogo e da revisão de processos, como fizeram Shoots e Crawly — outro esforço mais fácil de ser feito em empresas pequenas.

Por isso, recomenda Thatiana, é importante que empresas que resolvam tirar um dia da jornada semanal tenham políticas claras relacionadas ao tema. “A política não garante [seu cumprimento], mas se existe uma, o empregado tem algo para argumentar”, diz ela, referindo-se a cenários em que a empresa passa a exigir mais que o combinado.

Modismo ou futuro?

Quem fez a redução da semana de trabalho não se arrepende e demonstra entusiasmo com o novo paradigma de trabalho.

“Sou bem crítico com o sistema capitalista e a forma como a gente se distribui para trabalhar”, diz Luciano. Para ele, a semana de quatro dias não é uma quebra do sistema, é simplesmente uma maneira, legal e factível, de dar mais tempo às pessoas. “Isso é o que todo mundo quer hoje, descanso e tempo. Óbvio que dinheiro, mas descanso e tempo.”

A Shoots, para o co-fundador, está desbravando um caminho que deve se tornar mais popular com o tempo. “No Brasil ainda é muito incipiente, vai demorar muito”, alerta, “mas não vemos como modismo, não. Vejo como caminho natural”.

João Drummond, da Crawly, acha que o modelo da semana de quatro dias deverá ganhar mais espaço que o do trabalho remoto. “Depende muito do modelo da empresa, de onde a empresa atua, se precisa de mais interação com o cliente, mas acredito que é um modelo que vá crescer, principalmente em empresas de tecnologia”, profecia.

Nas duas empresas, bons resultados já são mensuráveis — incluindo aquela meta que as motivou, o bem-estar dos funcionários. “Todo chega mais descansado, feliz e energizado para a semana”, gaba-se Luciano, da Shoot. “Somos muito mais organizados hoje do que há cinco meses, quando não tínhamos a semana de quatro dias. Acho que a empresa ficou mais madura, melhor, no processo.”

“Com esse dia extra todo mundo se beneficia bastante”, diz João, da Crawly. “Tem funcionários que passam mais tempo com a família, com filhos, por exemplo. A gente realmente acredito que isso gera mais qualidade de vida para os funcionários.”

Talvez, a julgar pelas experiências disponíveis e a cultura corporativa que vigora no Brasil, o mercado de trabalho bifurque e tenha de um lado mais pequenas empresas adeptas da semana de quatro dias e, de outro, as grandes com a rotina tradicional, de cinco dias.

“Os exemplos me parecem frágeis — aqui no Brail, pelo menos — para tomarmos isso como uma tendência”, avalia Thatiana.

“A gente vê na mídia duas ou três [empresas] com formatos muito específicos, ‘uma consultoria não sei quê de 12 pessoas’, ‘uma pequena empresa de serviços de 10 pessoas’. Não que não tenha dificuldades nem que não tenha seus méritos, mas é muito mais fácil fazer isso com 10 do que com 5 mil empregados.”

  1. Recentemente, Thatiana participou de um podcast Guia Prático sobre o retorno aos escritórios no pós-pandemia.

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10 comentários

  1. Ghedin,

    Acrescenta à lista aí a Gerencianet.com.br, fintech mineira que também anunciou, dias atrás, a semana de trabalho com 4 dias – sem quaisquer reduções salariais ou de benefícios.

    Abraços,

  2. o futuro do trabalho é trabalhar mais

    vão contratar uma pessoa para fazer o trabalho de 3 pessoas e essa pessoa vai ganhar 10% a mais de salário.

    simples assim.

    caso não aceite, há uma fila de mortos de fome para preencher a vaga

    ahahahahahaha

  3. Lembrei disso quando li O Ócio Criativo do Domenico De Massi. Eu penso que é possível. Venho analisando em nosso escritório a algum tempo a produtividade de alguns estagiários que fazem 6h e de colaboradores que fazem 8h e não vi uma diferença considerável. claro que isso poderá depender de pessoa e modelo de negócios.

    1. livro de 1995 cheio do papo furado do de massi
      só serviu pra ele ganhar dinheiro
      todo mundo continua trabalhando pra caralho

  4. Eu trabalhando 6×1 e lendo isso:
    “funcionários ansiosos por não saberem o que fazer com o dia de folga ou se sentindo culpados por ficarem à toa enquanto o resto da cidade trabalha.”

    Essa parte acaba me preocupando um pouco. Não seria o dia ideal para resolver alguma coisa na rua ou simplesmente descansar?

    Essa ideia de continuar com a mente no trabalho ou não se desligar me fez lembrar de uma série recente, Ruptura (Severance). Vale a pena assistir.

    1. Os supermercados funcionam 7 por semana, mas não significa que os funcionários trabalham esses 7 por semana.

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