Aleksandar Mandic

Foto de Mandic, de moletom preto, óculos e cabelos grisalhos. Na legenda da foto, seu nome e a inscrição "O primeiro empreendedor digital".

Como eu faço o Tecnocracia? Tenho um arquivo no Google Docs onde elenco alguns assuntos que me chamam a atenção e eu acho que, em algum momento, poderíamos falar a respeito. De vez em quando, eu leio algo que acho que se encaixa em um dos assuntos, abro o arquivo, colo lá e sigo minha vida. Em outras vezes, ouço de alguém conhecido(a) uma história ou uma informação que se encaixa naquele mesmo assunto. E vou juntando links, frases, histórias e informações, como se fosse uma caixa de recortes. Quando está maduro o suficiente, eu separo tudo num novo arquivo e vou costurando as referências todas e encontrando algumas novas — a pesquisa só para quando eu gravo — até ter um roteiro que eu acho que fica de pé. O Ghedin edita1, eu gravo e vai ao ar.

No começo do ano, eu tinha feito a anotação de um possível episódio sobre o Mandic. No começo da pandemia, ele documentou como ficou 41 dias internado com COVID-19. Foi bem grave, chegou a ficar em coma. Ali, bateu na trave. Depois da alta, o Mandic começou a publicar um post e outro de novo no hospital, fazendo exames. Até que surgiu a palavra quimioterapia. A ideia era tentar gravar uma conversa para fazer um episódio sobre a história dele — aqui no Tecnocracia você já percebeu o quanto eu insisto nessa coisa de guardar, ouvir, registrar. A gente não dá muito valor para memórias assim no Brasil, enquanto os EUA tem prateleiras inteiras nas livrarias contando essas histórias.

Não deu tempo.

Eu tenho a teoria de que a gente tem que homenagear as pessoas em vida. As pessoas precisam saber o quanto são admiradas, o quanto elas impactaram a vida dos outros, que outros tomaram ações baseadas no que elas fizeram.

Ninguém escapa da morte. Uma hora vai ser eu, outra vai ser você. Como dizem os ingleses, é a única certeza da vida, junto com os impostos. Há, porém, uma teoria que defende que ninguém morre de verdade até que seja esquecido por todo mundo. O episódio dessa quinzena do Tecnocracia vai usar essa teoria de pilastra.

A gente vai lembrar o Mandic para que seja mais difícil esquecer o que ele fez e o quão importante ele foi para o mercado de internet no Brasil. O quanto todos nós, que ganhamos dinheiro com a internet, de alguma forma devemos um pouco a ele. Daqui a duas ou três décadas, quando alguém desavisado tiver a curiosidade de entender quem foi a primeira pessoa a ganhar dinheiro online neste país, a dúvida o levará à figura bem-humorada, generosa e às vezes turrona de Aleksandar Mandic. Se não deu para homenageá-lo em vida, a gente vai fazê-lo para que ele não seja esquecido depois da morte.

Ainda que não tenha havido tempo para uma última, eu entrevistei e falei com o Mandic vezes o suficiente nos últimos 15 anos para conhecer bastante sobre a trajetória dele. O Tecnocracia é um podcast quinzenal que, quando um dos grandes se vai, prepara uma elegia para que você entenda por que é importante a gente lembrar de quem pavimentou o caminho em que nós andamos antes de nós. Eu sou o Guilherme Felitti.

Homem branco, de calça sarja e jaqueta marrom, com o braço apoiado no corrimão das escadas de um avião de pequeno porte, dentro de um galpão.
Uma das grandes paixões de Mandic fora da tecnologia era a aviação

Para começo de conversa, não era para os Mandics ficarem no Brasil. No começo do século XX, um homem chamado Dragan fugiu da antiga Iugoslávia, devastada pela guerra. Tentou a Itália, mas a coisa também estava feia lá. Surgiu a ideia de irem para a Argentina. Lá, conheceu uma mulher chamada Halina, nascida na Bielorrúsia, que tinha feito um caminho parecido: fugindo da guerra, sua família tentou morar no Paraguai, mas não se adaptou e mudou para a Argentina. Lá, o homem passou a trabalhar como estivador no porto de Buenos Aires, mas a vida não era boa. A situação na Europa tinha melhorado um pouco e o casal, não adaptado, resolveu voltar à Bielorrússia. Era 1939. Quando o navio passava perto do Recife, chegou a notícia: a Alemanha tinha invadido a Polônia. Estourou a Segunda Guerra Mundial. A vida de ambos seria por aqui mesmo. O casal fixou moradia no Brasil. Em 12 de agosto de 1954, nasceu Aleksandar Mandic.

O empreendedor Mandic só nasceria 36 anos depois. Na adolescência, Mandic entrou num colégio técnico de eletrônica e, antes de completar 20 anos, já tinha emprego na multinacional alemã Siemens. Ali, ele cumpriu a trajetória tradicional do mundo corporativo. Foi subindo de posição, entregando projetos de sucesso, ganhando promoções para trabalhar na sede alemã até virar executivo. No fim da década de 1980, ele estava resolvendo um problema com o sistema de um dos clientes da Siemens, a montadora Volkswagen. Havia um computador gigantesco na fábrica da Volks que estava apresentando alguns defeitos de programação. Como ninguém no Brasil sabia ao certo o que fazer, a solução foi recorrer à operação alemã. Em um determinado dia, um técnico alemão usou uma conexão telefônica para entrar no computador gigante da Volkswagen e resolveu o bug. O sistema voltou a funcionar normalmente. Ali foi o momento zero do empreendedor Mandic.

“Eu falei ‘Nossa! Que legal, um técnico da Alemanha entra dentro do computador daqui!’ E daí eu me entusiasmei, eu falei ‘Puxa! Quero montar uma central aqui, que chamava o tal do BBS, em que os nossos engenheiros técnicos que viajam o Brasil todo pudessem ao invés de voltar para o escritório para corrigir um problema de programação, possam fazer remotamente isso aí.’ Expus a ideia lá dentro da Siemens, sugestões para melhoramento do setor, o negócio foi para a diretoria, todo mundo aprovou, ‘Puxa que legal, Mandic’. Aí o meu chefe virou para mim e falou: ‘Mas temos um probleminha aqui, nós não temos um computador para fazer isso aí, não temos o modem, não temos a linha telefônica e não temos a mesa, mas você está de parabéns e vai ganhar um bônus!’. Aí eu pensei ‘Aqui jaz um projeto’, porque o troço não ia se realizar.”

Ao contrário da Siemens, Mandic tinha todo aquele equipamento parado em casa. Se a multinacional não tinha interesse, então ele faria. Só faltava a linha telefônica. Estávamos em 1990. Jovens, linha telefônica há 30 anos era um bem, tipo carro e casa. Era tão caro e tão difícil de conseguir que você tinha que colocar na declaração de imposto de renda que tinha uma. Era a época das telecomunicações estatais — a Telebrás era responsável por levar a infraestrutura de comunicação pelo país. Uma linha custava cerca de US$ 4 mil e mesmo que você tivesse a grana não havia garantia que conseguiria. As concessionárias regionais da Telebrás, como a Telesp em São Paulo e a Telerj no Rio de Janeiro, faziam sorteios públicos. Tinha que ter a grana e a sorte de ganhar o sorteio para comprar uma linha. Ter duas linhas era um sinal de que os negócios da sua família iam bem. Mandic era sortudo: quando ele e sua então esposa se casaram, cada um já tinha uma linha telefônica. “Aí eu lembrei que quando eu casei, minha mulher veio com uma linha telefônica, tipo combo — veio a mulher e a linha junto. Eu falei ‘Está resolvido!'”. Um pouco de convencimento depois, o primeiro BBS da Mandic foi ao ar.

Um passinho para trás para entender que negócio é esse. BBS é a sigla de Bulletin Board System, ou sistema de quadro de avisos em tradução livre2. Em termos práticos, era um software em que você se conectava para enviar e-mail, ler notícias, jogar games online, baixar softwares e participar de fóruns e chats. É como se fosse um pai do portal de notícia, que, por sua vez, é uma espécie de pai bastardo das redes sociais. Como você pode supor, a experiência toda era muito limitada em comparação ao que temos hoje: as conexões eram lentas, as máquinas eram pouco poderosas e não havia muita coisa a se fazer que não fora dos círculos de entusiastas. O BBS do Mandic entrou no ar e ele avisou seu departamento esperando que seus colegas de trabalho se conectassem, já que o computador e a linha telefônica extra que ele tinha em casa funcionam como um servidor onde você se conectaria para interagir com os outros. O problema é que ninguém entrou. Quatro meses depois da estreia, quase nenhum colega de trabalho frequentava o BBS. Por isso, Mandic abriu para todo mundo. E aí começaram a aparecer os usuários.

“Aí eu vi que tinha perdido duas coisas quando começaram a usar, eu perdi o meu computador, meu computador ficou dedicado ao negócio, já não dá para usar ele, e perdi a linha telefônica, porque não dá para telefonar. Daí eu falei assim, ‘Bom, vou por uma segunda linha telefônica, mas de duas não passa’. Eu coloquei duas, eu nem sei como consegui essa segunda na época, se a gente fez uma vaquinha ou aluguei, não me lembro bem, mas colocou. Aquelas duas lotaram, eu coloquei quatro e a coisa foi indo.” Em um ano, o BBS do Mandic alcançou 400 usuários.

Isso, vamos lembrar, é antes da chegada da internet comercial ao Brasil. Na história, existe um marco que é a escrita. Tudo que aconteceu na história da humanidade antes da escrita é considerado pré-história. A escrita é o divisor porque nos deu uma forma de, aqui do futuro, olhar para trás e entender melhor o que se passava lá sem depender tanto assim de oralidade e estudos bioquímicos. Esse período da internet é a pré-história. A internet comercial só estreou de verdade no Brasil em 1995, quando a Embratel, que ainda era estatal e parte da Telebrás, ofereceu o primeiro pacote de acesso comercial. Então, 400 usuários em um ano, sendo que esse ano é 1990, é um número excelente.

Criança pequena ao lado de uma estante com equipamentos de BBS.
Filho de Mandic ao lado da parafernália do BBS. Foto: Arquivo pessoal.
Quando o negócio cresceu demais, Mandic abandonou seu emprego na Siemens para tocar o BBS. Foi uma decisão bastante arriscada por três razões. Primeiro que Mandic ganhava em dólar. Lembremos que estamos em 1990, primeiro ano de mandato de um sujeito chamado Fernando Collor de Melo. A política econômica era toda voltada para tentar debelar a inflação galopante, gestada durante os 21 anos de ditadura militar no Brasil, que corroía a moeda. A geração dos nossos pais sofreu imensamente com isso: os preços dos produtos no mercado acordavam valendo X e iam dormir valendo mais que X3. Abandonar um salário em dólar nesse cenário era temeroso. Segundo que ninguém nunca tinha ganhado dinheiro suficiente com essa coisa de conexão digital para usuário final, o chamado B2C, antes. Mandic seria um dos primeiros a tentar. Seu BBS já dava dinheiro — muitos dos usuários pagavam uma mensalidade baixa não para enriquecê-lo, mas para ajudar a comprar mais equipamentos que tornassem o serviço melhor. O de Mandic não era o único que já operava comercialmente: existiam também BBS como o Sampinha e o Canal VIP, mas ambos eram, nas palavras do próprio Mandic, “totalmente amadoras; o cara desligava a hora que ele queria, se você escrevia uma coisa ele te descadastrava”. Não entenda a frase como um ataque: Mandic, Sampinha e Canal VIP eram rivais, mas também amigos. Ele nominalmente citava situações em que ele e o fundador do Canal VIP, Paulo César Braine, se ajudavam em horas de aperto como o dia em que PCB foi até a casa de Mandic às três da manhã para resolver um problema de cadastro. Terceiro que Mandic tinha acabado de ser pai. Seu filho mais velho tinha um ano.

Ao abandonar a Siemens e montar a Mandic BBS, Mandic resolveu profissionalizar para não “ficar como camelódromo; a gente tem que fazer alguma coisa para as empresas começarem a entrar”. Mandic abriu empresa, mandou imprimir caixas de nota fiscal e passou a ofertar o serviço. Em 22 de abril de 1990 nasceu a primeira startup de internet do Brasil. Uma história que exemplifica a cabeça de Mandic: a ideia era ser um negócio profissional. Logo, começar a emitir nota fiscal pela nota 1 parecia uma coisa meio amadora. Por isso, Mandic jogou fora a primeira caixa de notas fiscais para dar a impressão aos seus primeiros clientes que já tinha centenas de outros. Outro sujeito admirável que 2021 nos levou conta uma história parecida: ao atender seus primeiros pacientes, Contardo Calligaris colocou umas bitucas de cigarro no cinzeiro e amassou as almofadas do divã para sugerir que já tinha pacientes. Anos depois ele descobriu que seu primeiro paciente sabia ser o primeiro paciente. Essa história está em um livro excelente chamado “Cartas a um jovem terapeuta”. Enfim, voltando.

No primeiro ano da Mandic BBS, o negócio faturou no total US$ 3 mil, o que Mandic ganhava em dois meses na Siemens. O pioneirismo, porém, o colocou em uma situação confortável: dezenas de outros BBSs surgiram, e muitos deles entravam no Mandic BBS atrás dos programas e conteúdos que atrairiam clientes. Em 1995, quando a internet comercial estreou por aqui, a Mandic já tinha 10 mil clientes. Era, de longe, a maior operação de internet no Brasil. O quarto de hóspedes da sua casa, onde o BBS nasceu com uma linha telefônica, já tinha 90 linhas telefônicas. Com a chegada da internet comercial, o ritmo de novos usuários acelerou ainda mais. Três meses depois da estreia da internet, a base de clientes do Mandic quadruplicou para 40 mil clientes — para chegar a 10 mil, foram necessários cinco anos. O aumento não passou incólume aos clientes — a qualidade do serviço, uma das principais preocupações de Mandic, começou a cair.

“Daí eu falei o seguinte: ‘Ou eu tiro o máximo de dinheiro disso e em um ano eu vou fechar’, porque isso aqui não vai prestar para nada, vai virar um lixão, qualidade zero, ou eu acho um sócio-investidor, e sabe que sócio é uma praga, principalmente sócio investidor, porque você nasceu pobre e inteligente e ele nasceu rico e burro. Aí ele fica com a sua empresa e só trabalhou uma vez na vida: o dia em que ele te deu o cheque. De resto só vai lá para cobrar. Para você desmanchar uma sociedade é mais difícil que separar.”

Para sorte de Mandic, o sócio veio sozinho. Um dia tocou o telefone e uma voz do outro lado o chamou para conversar. Era a GP Investimentos, o braço de investimento do banco Garantia, fundado em 1993 por três sujeitos dos quais você já ouviu falar: Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira. Nenhum outro fundo investiu tanto em internet nessa primeira fase do que a GP. Além de Mandic, a GP foi a responsável por comprar uma pequena loja online de livros inspirada na Amazon chamada Booknet, que acabou virando o Submarino e, posteriormente, foi fundida com a Americanas.com na B2W. Mas o Mandic não sabia nada disso. Nunca tinha ouvido falar em GP, em Garantia, em Jorge Paulo Lemann… Mas ele precisava de um investidor e foi com um colega da Siemens, Antonio Lunardelli, à reunião na sede da GP. Foi o colega quem mandou a real: “Mandic, se você não vender para esses caras, eles vão comprar seu concorrente e você está ferrado, eles vão entrar”.

A questão era quanto pedir. Mandic e o colega tinham ideias bem diferentes de valor. O colega sugeriu pedir 10 milhões de dólares.

Mandic: “Eu não vou pedir, isso daqui não vale”.
Lunardelli: “Tem que pedir muito!”.
Mandic: “Legal, mas quem fala? Eu não consigo falar!”.
Lunardelli: “Deixa que eu falo”.

Na hora, quem falou foi o Mandic. O preço provocou um silêncio na sala. “Puxa, isso aqui nos assusta”, foi a resposta dos executivos da GP. Anos depois, Mandic diria que mesmo que ele falasse 500 mil dólares o susto teria sido o mesmo.

Segundo a GP, o número não se justificava. “Aí eu dei a tacada: ‘olha, se vocês querem o BBS, eu vendo para vocês baratinho. Se vocês querem o BBS comigo, são os R$ 10 milhões.

Sorriso para cá, sorriso para lá, a reunião terminou e Mandic e seu colega foram embora. No elevador bateu aquela expressão que Luciana Gimenez chamaria de “cold feet”: Mandic ficou com medo e queria voltar para baixar o valor. O colega o impediu. Passou uma semana, passaram duas semanas e nada. Mandic pensou: “bom, perdemos a venda, não é?” Um dia toca o telefone. Quando Mandic atendeu, eram eles. A Mandic BBS estava vendida.

Em janeiro de 1996, a GP Investimentos comprou 50% da Mandic por US$ 2 milhões e traçou um plano ousado para torná-la a maior empresa de internet do país. O investimento previa a compra de milhares de linhas telefônicas para ampliar a infra-estrutura de conexão.

Aí começa uma outra fase da Mandic: a do foguete. Com o aporte financeiro e as metas quase impossíveis da escola 3G, a Mandic começou a se transformar de um BBS para um provedor de internet.

A questão é que um negócio é bem diferente do outro. O BBS tem uma abordagem mais fechada, o provedor trabalha no sentido contrário, de dar acesso a toda a rede. O primeiro passo era tornar o ambiente gráfico, aumentar a velocidade de acesso, permitir upload e download e começar a oferecer serviços online, como um email. E tinha também a questão comercial: para atingir o grande público, é preciso estar no maior número possível de praças.

Ao contrário de rivais como a Nutecnet (que depois virou o Zaz e, depois, o Terra) e o UOL, Mandic nunca gostou da ideia de ter filiais que oferecessem seu serviço de conexão. Essa é a principal explicação que ajuda a entender por que, ainda que crescendo como louco, a Mandic não conseguiu acompanhar Terra e UOL no jogo dos provedores. Um provedor precisa ter granularidade para conseguir uma base enorme de clientes que lhe deem lucro. Sem o bolso fundo do UOL, restou a Mandic improvisar. Na época, era comum que provedores distribuíssem milhares de CDs que configuravam o computador do usuário para aquele provedor. Em uma semana, o UOL comprou um anúncio de página inteira na Folha de S. Paulo (ambos eram do mesmo grupo) encartando o CD e explicando como usar. Na semana seguinte, na mesma página a Mandic estampava um anúncio idêntico sem CD que ensinava como se conectar pela Mandic usando o CD do UOL. A história, detalhada no livro “Bastidores da internet”, do jornalista e empresário Eduardo Vieira, rendeu a Mandic muitos clientes e um processo. Com essa e outras estratégias, a empresa saiu de 10 mil clientes em 1995 para 110 mil em 1999.

O faturamento anual na casa dos US$ 13 milhões era ótimo, mas estava bem distante dos US$ 200 milhões pretendidos pela GP. Por isso, em 1998, dois anos após entrar, a GP resolveu sair do negócio. Mandic saiu ao mercado em busca de alguém que a substituísse. Maior pontocom do mundo na época, a America Online (Aol) se candidatou — a ideia era entrar no mercado brasileira pela Mandic. A prioridade era da Aol, mas o negócio desandou. Quem acabou levando foi a argentina Impsat — a GP vendeu sua parte e Mandic aproveitou para vender uma parte sua. Ao fazer isso, o fundador ficou só com 25% do negócio, mas enriqueceu. Olhando pelo retrovisor, ele admitiu que a negociação, que o tornou minoritário, ainda que mantivesse seu cargo de presidente, foi um erro. Pela primeira vez como empreendedor, Mandic não tinha o volante — quer dizer, tinha, mas era cenográfico.

Nota de dólar, frente e verso, como propaganda para o provedor Mandic. No centro de uma das faces, o rosto de Mandic.
A publicidade pouco sutil do provedor Mandic.

A relação tensa durou quase dois anos. Em 1999, a Impsat exerceu uma cláusula no contrato que previa que, caso a controladora quisesse comprar os 25% restantes, Mandic era obrigado a vender. E, ao fazê-lo com gosto, Mandic se livrou de uma dor de cabeça e enriqueceu ainda mais. O timing foi excelente: um ano depois, a bolha ponto com estourou e os valores dos negócios despencaram. A Impsat transformou o Mandic em um site chamado O Site, que nem quem trabalhou com internet na época lembra direito. Mandic saiu na alta e tinha a conta bancária cheia para aproveitar o resto da vida. “Aí eu falei: ‘nunca mais eu trabalho com Internet na minha vida'”.

Dois meses depois, Mandic já tinha se juntado a Nizan Guanaes e Demi Getschko, o pesquisador conhecido como pai da internet no Brasil por ter realizado a primeira conexão da história do país, para criar o iG. O então presidente da Brasil Telecom convidou Mandic para um café e lhe perguntou se ele pensava em montar outro provedor. Mandic, de fato, pensava, mas algo diferente, que seguisse os passos do britânico Freeserve e não cobrasse pelo acesso. Com apoio de infraestrutura da Brasil Telecom, um dos maiores profissionais de publicidade da história do Brasil e dois dos pais da internet no país, o iG estreou em janeiro de 2000 com o diferencial de não cobrar o pacote de acesso, algo que se tornou padrão no mercado enquanto as conexões discadas sobreviveram. A história do iG é interessante e tem um monte de detalhes curiosos, mas a gente deixa isso para outro episódio futuro.

Mandic tinha um padrão em sempre falhar quando achava que ia se aposentar. Ao sair do iG, dois anos depois do lançamento, lá veio o impulso de curtir o próprio dinheiro, logo ignorado. Ele recuperou o próprio nome da Impsat e reabriu a Mandic focada em prover um serviço de e-mail para empresas, o Mandic Mail. Era o sujeito que mais conhecia de email corporativo no Brasil. Lembremos que era uma época anterior ao Gmail, que só chegaria dois anos depois. Mandic resumia a decisão com seu estilo bonachão: “Não sei que ideia de jerico eu fui abrir a Mandic de novo”. Mas abriu.

Pela década seguinte, a Mandic ofereceu e-mail corporativo e entrou no mercado de computação em nuvem. Em 2012, o fundo Riverwood pagou R$ 100 milhões pela empresa, o que deu mais uma oportunidade para que Mandic se aposentasse, dessa vez com um bolso ainda mais fundo. Novamente, Mandic falhou. Em março de 2013, lançou o Mandic Magic, um app que cataloga senhas de milhares de rede Wi-Fi pelo mundo. O app nasceu de uma necessidade pessoal de Mandic, que não queria mais anotar senhas no Excel. “Fiz para mim, não fiz para o mundo. Cinco dias depois de estrear, ele era o campeão de downloads no Brasil. Eu parei em primeiro lugar no ranking de downloads. Seis dias depois, era a Globo me entrevistando, eu saí em jornal.” Mandic tentava parar, mas tinha algo com o sucesso. O WiFi Magic, novo nome do app, foi seu último projeto profissional oficial. A imagem do seu perfil no LinkedIn era o mapa mundi mostrando centenas de redes mapeadas pelo app. Não é difícil encontrar gente para quem Mandic confidenciasse planos para novas ideias, novos negócios, novos projetos…

Mandic só conseguiu parar com a morte.

Talvez o que muita gente não entenda ainda é que o mercado de internet no Brasil foi feito de ondas. Hoje, criar uma startup é fácil. Você tem programas de aceleração, centenas de profissionais e empresas de sucesso nas quais se inspirar, fundos de investimentos enterrando dinheiro em qualquer ideia, empresas estabelecidas gastando grana para assimilar esses negócios. O grande problema hoje talvez seja a hipercompetição e todo mundo fazendo mais ou menos a mesma coisa em sua área.

Na década de 1990, não. Não existia nada disso. Empreender nessa primeira onda era algo reservado aos malucos, gente que abandonou empregos excelentes — além do Mandic e seu salário de executivo em dólares na Siemens, outro exemplo é o Marcelo Lacerda, que deixou para trás uma carreira internacional na engenharia aeroespacial para montar a Nutec no Rio Grande do Sul — sem qualquer garantia de que aquilo daria certo. Mais que se esforçar para manter uma empresa rodando, quem empreendeu nessa primeira fase tinha também outro papel crucial: o de evangelista. Se não aumentasse o público conectado, as chances do negócio dar certo se tornavam ainda menores. Esse é um traço que torna essa primeira geração diferente dos(as) empreendedores(as) que a gente vê hoje. Você pode ir a qualquer evento de empreendedorismo digital (antes da pandemia era mais fácil notar isso) e entender que todo mundo sai mais ou menos da mesma forma: carreira em consultoria ou banco de investimento, calça de sarja ou jeans, camisa branca ou azul claro, homem branco de barba bem feita, coletinho NorthFace sem mangas. Esse é o molde do empreendedorismo no Brasil depois de provado. Antes disso, o molde era mais porra-louca, digamos, e o Mandic era o principal exemplo disso. Um sujeito que marcava suas entrevistas e almoços com jornalistas diretamente. Que ajudou informalmente centenas de outros empreendedores. Que era uma das pedras fundamentais do setor e, ainda assim, não exibia aquele elã de auto-importância que se vê tanto hoje por uma galera que não conquistou metade do que ele fez.

Existe um outro traço definidor do Mandic. O mercado de internet é acostumado com gente que empreende até dar certo, ganha uma bolada e nunca mais empreende ou monta empresas que fazem a mesma coisa que a primeira. Não é raro ver gente que ganhou muito dinheiro voltando ao mercado como investidor, por exemplo. E isso não é acusação de maneira nenhuma: fazer uma ideia virar um negócio enorme já é difícil demais. O Mandic é o exemplo raríssimo de empreendedor que criou empresas em áreas diferentes e experimentou sucesso em quase todas. Claro, também houve fracassos — sua candidatura a deputado federal pelo DEM em 2010 foi um deles.

Se hoje milhões de brasileiros ganham dinheiro com a internet, é por que uma galera maluca há 30 anos acreditou, contra a desconfiança generalizada, que aquela tecnologia chamada internet um dia viraria um negócio gigantesco. Mandic era um líder desse grupo, o pioneiro entre pioneiros, o sujeito que ganhou muito dinheiro e um nome na história e, ainda assim, não parou de fazer, de criar, de ter ideias, de abrir negócios.

Se você ganha dinheiro com internet no Brasil hoje, tem uma dívida para com ele. A gente só caminha nessa picada porque sujeitos como Aleksandar Mandic abriram caminhos à base do facão décadas atrás. Onde andamos hoje é minimamente pavimento porque essa galera pastou lá trás.

Mandic, de cabelos e barba branca, óculos e sua camiseta do Superman.
Mandic, em entrevista ao Canaltech em 2015, com sua famosa camiseta do Superman. Imagem: Canaltech/YouTube.

A notícia da morte do Mandic desengatilhou um daqueles fenômenos bonitos de ver: centenas de pessoas passaram a compartilhar posts contando como tinham se encontrado com ele na recepção de um hotel, em uma palestra na faculdade ou no aeroporto ou como eles(as) tinham mandado um e-mail na cara de pau e Mandic tinha respondido como se já se conhecessem há anos. Gente que foi cliente do BBS ou do e-mail contando como entrou em contato com a empresa com uma dúvida ou um problema e recebeu a resposta do odono@mandic.com.br — era o próprio respondendo. Eu almocei algumas vezes com o Mandic naquela relação entre fonte e jornalistas. Nas últimas vezes, era ele quem marcava e não tinha assessores junto. Ele falava do negócio, mas claramente se entusiasmava falando de aviões, carros, outras empresas… Esses almoços nem sempre eram divertidos. Com Mandic, eram.

Nesse engessamento que a gente viu com a profissionalização do mercado, o Mandic era exatamente o oposto. Não tinha qualquer vaidade de parecer bonito ou arrumado para os eventos — durante anos, ia a todo lugar com uma camiseta de Superman. Deve ter feito dezenas de oficinas de media training, mas de vez em quando soltava umas frases ou contava umas histórias que arrepiaria qualquer profissional de relações públicas. Era público nos problemas que enfrentava: foi possível acompanhar o processo do câncer que o levou em seu próprio feed, com fotos bem-humoradas ou declarações de amor no Facebook. Num mundo preocupadíssimo em se perfazer, em se vestir de personagem, Mandic não tinha qualquer preocupação em fazê-lo. O personagem era ele mesmo. Essa onda de gente que tirou minutos do próprio dia para lamentar e compartilhar suas histórias dão uma ideia do impacto que ele teve em vida. Não só em vida.

Eu acho que não teria melhor jeito para terminar essa elegia ao Mandic do que ouvindo o próprio falar. Há alguns anos, eu, o jornalista Eduardo Vieira e um estúdio estamos preparando um documentário sobre a história da internet no Brasil. Em 2018, Mandic nos recebeu no seu apartamento no Morumbi para gravar uma longa entrevista. Foi uma tarde conversando e ouvindo as histórias — algumas delas estão aqui. A maioria estará no documentário final. No fim, ele pediu licença e voltou alguns minutos depois com um livro sobre ele. Dentro daquele humor tradicional, autografou um livro que não tinha escrito. Pediu para guardar com cuidado. Falou que era um dos poucos que sobrou e que tinha que guardar com cuidado. Desde a semana passada, mais cuidado do que nunca.

Duas fotos do livro do Mandic: à esquerda, a capa, com ele segurando um globo; à direita, página do livro com seu autógrafo.
Fotos: Guilherme Felitti.

Eu reservei uma frase daquela tarde, talvez uma que melhor defina o que foi o Mandic.

Na verdade eu sempre fui meio um “lobo solitário” via os problemas e ia lá resolver, como eu gostaria que fosse, mas eu tinha muito e tenho até hoje isso de sonhar, então eu sempre dormia com um bloquinho do lado, acordava de noite e anotava, falava “Puts, isso aqui é legal”. Teve um tempo que eu usava um gravador. Deixei de usar porque às vezes eu não entendia o que eu falava à noite. Eu comecei a usar bloquinho quando eu tive uma grande ideia, falei: “Essa aqui é inesquecível”, daí eu não anotei e até hoje não me lembro da ideia. Esse negócio das ideias permanece até hoje, até hoje eu sonho com soluções. Minha mulher, quando a gente tem um problema em casa, ela fala: “Vai dormir, volta daqui a pouco” para voltar com a solução. Eu tenho um negócio de sonhar e falar: “Ah! Agora eu já sei como é que é!”

Para quem se define como “lobo solitário”, é impressionante a quantidade de gente ao seu redor que ele mobilizou durante décadas.

Mandic vai fazer uma falta enorme. O maior legado que ele deixa é algo que ele e sua geração nunca tiveram: um exemplo em quem se inspirar. E que puta exemplo o Mandic deixa. Que ele se mantenha vivo como a inspiração para centenas de empreendedores e empreendedoras que tentem ganhar dinheiro com essa coisa chamada internet no Brasil. Toda startup vai ter um pouco de Mandic.

  1. Se você é um(a) jornalista/escritor(a) que não gosta de edição, é bem provável que você esteja errado/a. Eu entendo, já tive uma fase da minha vida que não gostei. Edições, feitas por pessoas competentes e com referências, melhoram seu trabalho.
  2. Muito embora o Augusto Campos, criador do BR-Linux e um sujeito que acompanhou o processo todo in loco, tenha um bom argumento: BBS virou um termo por si só. Tanto que muita gente usava sem saber as palavras por trás das letrinhas.
  3. A Miriam Leitão tem um livro excelente que conta esse trecho da economia brasileira chamado “A saga brasileira”, vale a pena ler.

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7 comentários

  1. Parabéns pelo texto, Guilherme! Ouvi a sua leitura em formato de podcast e me lembrou dos velhos tempos de BBS, embora a Mandic BBS fosse uma experiência localizada de São Paulo.

    Eu vivi o mundo das BBS em Belo Horizonte, onde as maiores, se me lembro bem, eram BHNet, Horizontes BBS e Seven BBS. Eu era pré-adolescente na época, mas com uma linha telefônica extra e um computador “sobrando” de um upgrade, cheguei a montar a minha própria BBS que atendia ligações 24 horas por dia e trocava mensagens via Rede Brasileira de Teleinformática (RBT) com qualquer outra BBS do país, e ainda era de acesso gratuito para quem quisesse aparecer. Oferecia até e-mails, antes da internet comercial, por meio de troca de pacotes com o Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), que também eram gratuitos, mas demoravam até 24 horas para chegar porque precisava esperar as trocas de pacotes de mensagens, que eram feitas de madrugada.

    1. Ah, esqueci de comentar que, quando você mencionou PCB, se referindo a Paulo César Braine, a primeira coisa que me veio à mente, dado o contexto, foi o PC Board. Ele era um dos softwares usados para fazer BBS à época, embora o RA – Remote Access fosse o mais comum no Brasil. Não sei qual a Mandic BBS usava, pois nunca usei. Não morava em São Paulo e ligações interurbanas eram muito caras.

  2. Da pra perceber pelos feitos que era uma daquelas pessoas que uma o que faz e possui coragem e iniciativa. Não trabalha por dinheiro.

  3. Editor, apenas apague este post e corrija o nome do Stamatios no anterior por favor.
    O correto é: Stamatios Stamou Junior.
    Obrigado.

  4. Parabens pelo artigo. Tambem acompanhei a vida dele e concordo que é um orgulho e uma das principais referencias na historia da internet no Brasil.
    Penso que, novamente, o que o destaca é o fazer com amor, é a paixao que trazia por cada novo projeto.

    Dica de outro cara meio “visionario” e , pode-se dizer, tbm participante do periodo da bolha e que até hoje tem empresa na area: Stamatios Stamou Junio. Acredito que Stamatios tambem tem uma otima historia e é mais um apaixonado pelo que faz.

  5. Que viagem no tempo sensacional! Legal saber da produção do documentário.

    Lembro de ter vivido o final das BBS e ter usado a Mandic por alguns meses.

    P.S. Mais uma referência sensacional no meio do episódio. O trote da Telerj é um dos marcos da internet brasileira.

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