O filtro alucinógeno do Instagram colocou a humanidade no divã — e alguns no caixão

Mulher fazendo duckface ao tirar selfie.

Em 1988, James Cameron era um diretor em franca ascensão em Hollywood, mas ainda tinha a ingrata obrigação de provar que seus filmes de ficção futuristas tinham apelo ao grande público a ponto de virarem sucessos comerciais. Cinco anos antes, em 1984, ele já tinha dirigido O exterminador do futuro que, você sabe bem, virou uma das maiores franquias dos anos 1980 e ocupa um espaço na cabeça de muita gente até hoje. Aquele primeiro filme não foi de cara o sucesso estrondoso que ele imaginava que seria. Os resultados bons, porém, lhe abriram algumas portas, como o convite da Fox para filmar Aliens, o Resgate, uma espécie de continuação do enorme sucesso criado e dirigido pelo Ridley Scott em 1979. O primeiro Alien continua sendo um dos grandes clássicos de terror futurista do cinema e Cameron soube aguentar bem a pressão para dirigir a continuação e entregou um filme que, se não ultrapassou o primeiro, foi muito bem recebido e envelheceu bem.

Durante a filmagem do Aliens, Cameron pensava no que faria a seguir. Ao ver um filme da National Geographic sobre submarinos operados remotamente no fundo do Oceano Atlântico, ele se lembrou de uma pequena história que tinha escrito no colégio sobre um grupo de cientistas no fundo do mar estudando uma entidade aquática, uma espécie de alienígena subaquático. A ideia lhe agradou e ele decidiu que era esse o projeto que venderia para os estúdios assim que Aliens estreasse.

Transpor o tal alien subaquático para as telas seria um desafio. Na imaginação de James Cameron, a entidade era composta basicamente de água. Vamos lembrar que estamos em 1989 e computação gráfica ainda é um delírio — as possibilidades vistas por um grupo pequeno de gente do setor eram limitadas pela então rudimentar tecnologia disponível. Para ajudar a conceber o vilão na tela, Cameron contratou uma pequena empresa de efeitos especiais chamada Industrial Light & Magic (ILM), fundada em 1975 por um sujeito chamado George Lucas, responsável por uma franquia que talvez você tenha ouvido falar chamada Star Wars.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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Na ILM trabalhava outro sujeito chamado John Knoll, no colo de quem caiu a demanda de transpor para o filme o vilão composto de água. Não era um trabalho fácil: o monstro precisava parecer real o suficiente para que atores interagissem com ele sem soar muito falso. Mais do que se movimentar, o monstro de água teria que refletir a iluminação do ambiente onde estava inserido. Isso incluía refletir os rostos dos atores com os quais ele teria que interagir — óbvio, os atores não veriam nada na hora da gravação era aquela técnica de ver a cena na cabeça e atuar com o nada que todo ator ou atriz domina desde a ascensão dos efeitos especiais. A cena era tão desafiadora que Cameron a escreveu de uma jeito que, caso a ILM não conseguisse criar algo satisfatório, seria fácil destacá-la do filme.

O tal do John Knoll tinha um plano de ação. O primeiro passo foi fotografar o estúdio onde o monstro apareceria de todos os ângulos possíveis, o que lhe rendeu centenas de fotos com as mais diferentes iluminações. O segundo passo envolvia seu irmão. Nas horas vagas, Thomas Knoll, um estudante da Universidade de Michigan, estava trabalhando em um software que permitia a manipulação de imagens estáticas. John Knoll sabia disso, pois estava ajudando o irmão nos últimos meses, e pediu o software emprestado para costurar essas centenas de imagens e criar um ambiente digital no qual os programadores da ILM pudessem modelar o vilão. Vista hoje, a cena do primeiro encontro dos cientistas no fundo do mar com a entidade composta de água ainda é surpreendente:

Claro, são visíveis as limitações da tecnologia disponível na época — estamos falando do final da década de 1980 —, mas, no geral, ela é muito bem feita, não só pelo reflexo das luzes e dos rostos dos atores, como a interação entre eles. A uma certa altura, o monstro mimetiza a expressão de uma personagem e cria uma cabeça de água. Uma atriz coloca o dedo no cérebro dessa cabeça de água e parece real.

O software do Thomas Knoll era tão bom que o irmão ajudou a transformá-lo em um programa completo de edição. Em setembro de 1988, John Knoll apresentou o software para a Apple e a Adobe. A Adobe gostou tanto que comprou a licença de distribuição exclusiva. O primeiro nome dado a ele foi ImagePro, mas, como já existia um homônimo no mercado, os irmãos o rebatizaram de Photoshop.

O Photoshop 1.0 foi lançado exclusivamente para a plataforma Macintosh em fevereiro de 1989 e a nossa percepção sobre a realidade nunca mais foi a mesma. O filme, chamado no Brasil de O segredo do abismo, foi lançado em agosto de 1989 com razoável sucesso: a bilheteria foi grande o suficiente para se pagar e dar algum lucro e, culturalmente, o filme hoje é considerado um clássico cult. Esse caso todo está bem detalhado em uma das minhas séries preferidas no YouTube, a VFX React. Tem vídeo novo todo sábado com artistas visuais, diretores, animadores e dublês reagindo e explicando cenas de filmes e séries. É demais.

O maior legado d’O segredo do abismo não foi a carreira do Cameron. Ele só queria confirmar seu lugar como um dos diretores mais inventivos de Hollywood e, no caminho, acabou ajudando na criação do software de edição de imagens mais popular da história. Longe de mim diminuir a carreira do cara — é impressionante como o James Cameron sempre conseguiu atingir nos patamares de influência e retorno financeiro ao longo da sua carreira —, mas o ponto aqui é outro.

De 1989, estreia d’O segredo do abismo, até hoje, nossa capacidade de criar algo que visualmente não existe se tornou gradualmente maior e, consequentemente, mais perigosa. Ao facilitar a edição de imagens, o Photoshop inaugurou a criação de mundos alternativos em escala industrial. Mas, naquele primeiro momento, nem todo mundo tinha esse poder — era preciso ter o mínimo conhecimento da ferramenta e um computador razoavelmente rápido. Isso mudou quando aplicativos de edição de fotos foram lançados para celulares, permitindo edições dramáticas com poucos toques na tela. Primeiro foram ferramentas simples, como redimensionar ou cortar. Mas, com o tempo, surgiram apps como o FaceTune que encapsulam objetivos: deixe-me mais magro, tire as minhas rugas, torn-me mais atraente, tudo com um filtro. Coisa simples, mas poderosa.

Essa facilidade em alterar a realidade espichou a escala de percepção dela. Em vez de só coisas explícitas, as edições passaram ocorrer nos detalhes ainda que substanciais. Perceber quando algo era claramente mentiroso se tornou difícil — as ferramentas de edição, somadas a tantos outros fatores, embaralharam a maneira como nós percebemos essas alterações e, consequentemente, a realidade. Aos poucos, aquela barreira que separava algo claramente fictício, como o monstro de água do filme do James Cameron, de algo real, foi esfarelando. A gente sempre projetou o que queríamos ver em nós na tela, até que o vetor se inverteu — ao nos vermos na tela do jeito projetado, começamos a pensar em formas de trazer a imagem para a realidade. A projeção pautou a realidade, não o contrário, o que resultou num impacto gigantesco na sanidade mental da humanidade.

Em nenhum outro lugar essa realidade alucinógena se manifesta de maneira mais maligna que no Instagram. O Instagram é, hoje, um universo completamente ficcional, e que, de tão influente, mudou o vetor e começou a moldar a realidade. Sem separar a ficção da realidade, milhões de pessoas se comparam a versões forjadas e altamente editadas de desconhecidos com influência, o que ajuda a alimentar um aumento assustador na depressão e no suicídio juvenil. Em 2018, o Royal Society for Public Health, do Reino Unido, ouviu mais de 1,5 mil jovens com idades entre 14 e 24 anos para entender o uso de redes sociais e o impacto na saúde mental. O app que mais trazia sentimentos negativos, como bullying, privação de sono, ansiedade, depressão, solidão e inconformismo com o próprio corpo foi o Instagram, seguido pelo Snapchat. “Esses sentimentos podem promover uma atitude de ‘comparar e se desesperar’ nos jovens. Indivíduos podem ver fotografias e vídeos altamente photoshopados, editados e posados e compará-los com suas vidas aparentemente mundanas”, diz o estudo.

O sentimento de inadequação tem alimentado um aumento no número de procedimentos estéticos e cirurgias plásticas no mundo todo. Insatisfeitos com a realidade, muitos de nós, principalmente os jovens, estão escolhendo viver na ficção. Quando há uma fronteira clara entre um e outro, sem problema — há quem devore anualmente a série Senhor dos Anéis pelo prazer de se ver inserido naquele mundo fictício. O problema aqui é outro: para se manter o exemplo, é sair por aí empunhando uma espada e achando que sua missão é derreter um anel amaldiçoado num vulcão.

As redes sociais nos trazem, como padrão, uma noção distorcida da realidade. Mas nenhuma delas atinge o grau de realidade alucinógena do Instagram1. Vamos imaginar que, com o objetivo de garantir trabalho por décadas, todos os psicólogos/as do planeta se unissem em um conselho para criar algo que explorasse as maiores inseguranças de bilhões de pessoas. Ainda que fosse possível, eles não conseguiriam criar algo tão maléfico como o Instagram. O aplicativo é uma obra de arte se o objetivo é criar transtorno mental em escala planetária. O Tecnocracia dessa quinzena, o antepenúltimo da segunda temporada, vai falar sobre dismorfia corporal, cirurgias plásticas, suicídio e o papel do Instagram nisso tudo.

O motor por trás dessa experiência miserável é a comparação, o ato de ver o que o outro tem, o que te falta e se sentir desgraçado. A economia dos influenciadores é toda baseada numa propaganda polêmica da década de 1990 em que duas crianças cantarolavam que tinham uma tesoura do Mickey, enquanto os pequenos espectadores do outro lado da tela não tinham nada. A propaganda da tesoura do Mickey virou caso do Conar, mas, movidos pela mesma dinâmica, os influenciadores se transformaram em uma indústria gigantesca. São dois os principais pilares que comparamos nos influenciadores/as: o estilo de vida, no qual se incluem atividades e posses, e o corpo. Sobre o primeiro, não foi à toa que, no começo da quarentena pela COVID-19, tenha se abatido sobre os influenciadores uma crise relevante — presos em casa, era difícil convencer a multidão de seguidores que suas vidas não eram tão miseráveis (talvez com um sofá mais macio e umas comidas melhores) do que as dos milhões de sujeitos igualmente presos em casa do outro lado da tela. E dá-lhe malhação segurando a poltrona, brincadeira dentro de casa para tentar convencer ao outro — e, principalmente, a si mesmo — que sua vida continuava um sonho acordado durante a pior pandemia do século, como se o hedonismo estivesse blindado da saúde pública. Spoiler: não estava e, entre tanto esquete e barulho, a vida dos influenciadores se mostrou explicitamente similar à dos não influenciadores.

O foco que eu quero dar nesse comentário é o segundo fator: a comparação visual, a forma como mulheres e homens veem gominhos de abdome, lábios carnudos, bundas empinadas, braços lapidados e queixos do Fábio Junior e ficam, tal qual as crianças da década de 1990, com a tesoura do Mickey tão perto, mas também tão longe, desejosas por aquilo também.

O “derretimento” do Photoshop, de um software profissional da Adobe para milhares de apps de outros desenvolvedores que qualquer um pode baixar e usar (quase) de graça, é só um dos pilares desse movimento. Seria injusto falar sobre o reino alucinógeno do Instagram sem citar Kim Kardashian. O maior legado que Kim nos deixará não serão as cenas do seu reality show Keeping Up with the Kardashians, mas seu papel como espécie de pedra fundamental dessa cultura centrada no Instagram que vivemos. Quem primeiro entendeu o solo fértil para a autopromoção baseada em conteúdo centrado no próprio rosto e corpo foi Kim Kardashian. Se hoje você e/ou seus(suas) amigos(as) tiram dezenas de selfies com duckface atrás daquela perfeita para biscoitar, Kardashian tem seu quinhão de culpa.

Print de miniaturas de fotos recentes no perfil de Kim Kardashian no Instagram.
Imagem: @kimkardashian/Instagram.

Como bem descreve a revista New Yorker, ela é a “paciente zero” para a “Instagram Face”, aquele conjunto entre expressão impassível, olhar no infinito, poros impecáveis, maçãs do rosto protuberantes, cílios longos, sobrancelhas grossas, nariz pequeno e lábios carnudos. Você já viu esse rosto incontáveis vezes, não só no perfil da Kim. O objetivo final, como define um maquiador das estrelas ouvido pela revista, é sempre se parecer com Kim.

Toda época tem sua Madonna, sua definição de beleza estética para aquele apanhado de décadas. Na Grécia Antiga as estátuas femininas eram sempre menos definidas que as dos homens. Na Idade Média, a mulher bela carregava traços e trejeitos angelicais, tentando refletir uma personificação da Madonna, mãe de Cristo. No Renascimento, a partir do século XV, as mulheres começam a assumir uma forma mais humana, com corpos não tão magros, mais expostos e com alguns traços sensuais — vide O nascimento de Vênus, do Sandro Botticelli. Em meados do século XX, o parâmetro era a voluptuosidade de Marilyn Monroe. A partir da década de 1980, o oposto total: os padrões inatingíveis eram as top models longilíneas, tão bonitas como magras — vide Gisele Bundchen. Kim Kardashian, com seu rosto fortemente maquiado e as poses sensuais explorando o corpo curvilíneo, é a Madonna da época em que vivemos. Aliás, Umberto Eco publicou um livro maravilhoso chamado História da beleza que explora como o conceito de beleza evoluiu nos últimos milhares de anos. A versão em português editada pela Record é linda, cheia de imagens dos quadros citados.

O Instagram é o habitat natural do “visual Kardashian”

Nascido como uma cópia do Foursquare, um app que permitia fazer checkins em lugares físicos que você visitava, o Instagram “pivotou” (ou mudou seu objetivo) para focar só em fotos. Ao fazer isso, ocupou um vácuo deixado pelo Flickr, que dominava o setor de fotos nos desktops — o das fotos mobile. Onde você publicaria as fotos tiradas pelo celular novo? Um dos principais atrativos desde o começo do Instagram foram os filtros que alteravam facilmente as fotos. O app surfou a onda dos celulares modernos até ser comprado pelo Facebook por US$ 1 bilhão em 2012. O preço parecia um abuso por um app que não dava um dólar de receita, mas hoje está claro a pechincha — calcula-se que, sozinho, o Instagram valha mais de US$ 100 bilhões.

Com seu foco visual, sua popularidade nos celulares e por depender tão pouco de texto, o Instagram foi a plataforma ideal para a ascensão de Kim Kardashian. Ser a referência estética de uma determinada época é ótimo para o bolso. Ao lapidar essa cultura do Instagram centrada em selfies e fotos super produzidas, Kim montou um império. Ganha dinheiro hoje de incontáveis outras maneiras que não os posts pagos no Instagram, cada um custando mais de US$ 700 mil. Existem programas de TV, linhas próprias de maquiagem e de perfumes, games online e um aplicativo de emojis chamado Kimoji.

E o que faz o povo em cujos ombros Kim alcançou sua popularidade? Vai tentar ser como ela, replicar aquelas características voluptuosas que a tornaram alguém tão conhecida, tão relevante, tão desejada. Uma pergunta fácil: quem nasceu com o corpo de Kim Kardashian? Suspeita-se que nem a própria Kim. E aí começamos a entrar em terreno perigoso. É normal que, com imagens do Instagram brutalmente diferentes das do espelho, experimentemos uma insatisfação com o próprio corpo. A intensidade dessa percepção, porém, pode se manifestar na forma de alguns transtornos mentais. O principal deles é o transtorno dismórfico corporal, quando há o foco obsessivo em um suposto defeito que só a própria pessoa vê. A dismorfia corporal se manifesta de maneiras muito diferentes. Pessoas que se acham acima do peso podem parar de comer ou forçar o vômito depois de refeições, algo que conhecemos como bulimia. Mas às vezes só deixar de comer não é suficiente. É preciso alterar de forma mais radical o próprio corpo para torná-lo mais “atraente”, mais adequado ao que se vê online. É só bater o olho nas estatísticas sobre procedimentos e cirurgias estéticas no mundo todo para notar que algo está acontecendo.

Tabela com os procedimentos cirúrgicos estéticos no mundo entre 2014 e 2018.
Clique para ampliar. Tabela: Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética.

Segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética, foram 10,6 milhões de cirurgias e procedimentos estéticos em 2018, dado mais recente, no mundo todo, aumento de 10,4% em comparação a 2014. O Brasil lidera em cirurgia, com quase 1,5 milhão, e os Estados Unidos lideram em procedimentos (coisas mais simples, feitas em clínicas, como injeção de botox, por exemplo), com 2,8 milhões. O mais relevante à nossa discussão é comparar o aumento de determinadas categorias de cirurgias.

Entre 2014 e 2018, as cirurgias estéticas que mais cresceram entre as mulheres foram: aumento de bunda por transferência de gordura (55,7%), a remoção da papada do tríceps (41,2%) e duas nos peitos: empinar (42,3%) e aumentar com próteses (38,1%). Curiosidade: nenhuma cirurgia cresceu mais relativamente do que a ginecomastia, na qual homens tiram excesso ou moldam os músculos peitorais (incríveis 56,8%). Pelo lado contrário, enquanto as mexidas na bunda, no peito e nos braços cresceram, o interesse por cirurgia na pálpebra, nos ossos do rosto e no rosto caíram, resultado principalmente da explosão no uso do Botox e do aparecimento da harmonização facial, esse procedimento que é a cara da cultura Instagram por deixar todo mundo com a mesma expressão sempre. E qual é o recorte demográfico? “Sob pressão para aparecerem bem no Instagram, millennials inspirados nas curvas de Kim Kardashian ajudaram a quebrar um número recorde das ‘Brazilian butt lifts’ (já que Luciana Gimenez não ouve o podcast, eu traduzo para ‘levantamentos de bunda à brasileira’) e uma explosão no mercado de cirurgia plástica nos EUA em 2018”, diz a reportagem da CNBC citando dados exclusivos dos EUA. “O aumento da bunda com reutilização de gordura — tirar gordura não desejada de uma área como o estômago e adicioná-la no bumbum — foi o segmento de maior crescimento, aumentando 19% para 24.099 procedimentos em 2018, segundo o relatório anual da American Society of Plastic Surgeons”. Segundo médicos ouvidos pela reportagem, “os millennials em particular dizem aos médicos que querem parecer tão bem ao vivo como pelos filtros do Snapchat”. E aí temos a nossa conexão.

Ao fazerem uma revisão de mais de 40 estudos sobre a relação entre o uso excessivo de redes sociais e a percepção que se tem do próprio corpo, as pesquisadoras Francesca Ryding e Daria Kuss, do departamento de psicologia da Universidade Nottingham Trent, na Inglaterra, descobriram uma correlação significativa entre o engajamento com redes sociais, “em particular o uso passivo e focado em aparências”, e “uma maior insatisfação com o próprio corpo”. “Mais que isso, são claros aparentes paralelos entre insatisfação com a imagem do próprio corpo e sintomas de dismorfia corporal, particularmente em termos de comparações e prevalência de uso de redes sociais. É sugerido que as frequentes comparações durante o uso de redes sociais podem mediar o início de sintomas de dismorfia corporal, levando a um aumento no uso de redes sociais e à manutenção dos sintomas de dismorfia”. Ou seja: cria-se um círculo vicioso em que o uso exagerado de redes sociais abre caminho para a manifestação de dismorfia, o que, por sua vez, mantém nas alturas o uso de redes sociais, que mantém os efeitos psicológicos negativos da dismorfia ativos, e por aí vai.

Vamos tirar uma coisa da frente: longe de mim ser moralista sobre cirurgias plásticas. Não gosta dos traços do rosto? Do peito protuberante ou pequeno? Da calvície? Ciência existe para isso também. Da mesma maneira, não acho que a suspensão temporária da realidade seja um problema. Quando a vida se mostra violenta e non-sense demais, uma sensação constante para quem mora em um país em que o presidente politiza uma vacina durante a pior pandemia do século, é normal se refugiar em mundos ficcionais. Quem lê, joga vídeo-game, participa de mesas de RPG sabe disso. A Disney construiu um império com essa suspensão temporária da realidade e sempre foi muito cuidadosa para manter o que chama de “magia” dentro dos seus ambientes: nem os funcionários da Disney podem ver os humanos por dentro dos mascotes se trocando. Nos corredores dos parques, não tem um Donald andando com a cabeça desacoplada por que o humano dentro da fantasia de pato quer fumar um cigarro. O ponto principal é que ninguém, ao sair dos parques ou dos cruzeiros da Disney, acredita que existam ratos de 1,60 metros de altura andando por aí ou liguem para o cirurgião para implantarem no mês seguintes o bico do Pato Donald (muito embora muita mulheres tentem isso com as duckfaces nos apps de namoro). A gente sabe que aquilo é uma ficção, concorda em viver ali algumas horas e dias e voltar para a realidade depois.

A ficção que o Instagram conta, não. Ela continua, inabalável. Quando sua capacidade de discernir o que é um corpo humano de uma obra de Photoshop é perdida, essa comparação exagerada com um mundo ficcional pode levar a outro caminho, ainda mais definitivo. Às vezes, na percepção dos jovens o caso é tão grave que nem a cirurgia é suficiente — só a morte. Há um preocupante aumento no suicídio dos mais jovens na última década, movimento observado tanto nos Estados Unidos como no Brasil. Lá, a taxa de suicídios de jovens entre 10 e 24 anos cresceu 56% de 2007 a 2017, segundo relatório do Centers for Disease Control and Prevention divulgado em outubro de 2019. “Claro, Guilherme, só comparar com outras formas de morte e ver que não há nada de anormal”. Negativo, bonitinho. A taxa de mortes por homicídio nessa faixa etária caiu 23% de 2007 a 2014 e, a partir daí até 2017, subiu 18%. Por décadas, homicídios eram a segunda forma mais popular de morte dos jovens nos EUA, atrás apenas de mortes acidentais, como batidas de carro. Em 2010, pela primeira vez desde que os dados começaram a ser tabulados, o suicídio passou o homicídio e se consolidou na segunda posição.

Se analisarmos alguns recortes demográficos, os aumentos são ainda mais alarmantes, principalmente entre as meninas. Jonathan Haidt, pesquisador do departamento de psicologia da Universidade de Nova York, descobriu um aumento de 77% na taxa de suicídio de meninas adolescentes nos EUA, enquanto as cientistas do CDC Melissa Mercado, Ruth Leemis e Kristin Holland descobriram um aumento de mais de 50% na taxa de internação de meninas de 15 a 19 anos por auto-mutilação não fatal entre os anos de 2009 e 2015. Para meninas mais novas, entre 10 e 14 anos, o aumento foi de 200%. Vale dizer: em vez de dados autodeclarados, as duas pesquisas usaram informações diretamente dos hospitais. Ou seja: não é lero, é internação ou óbito reais.

Gráfico mostrando o aumento nas admissões em hospitais de meninas por auto-mutilação não-fatal.
Aumento nas admissões em hospitais norte-americanos de meninas de 10 a 19 anos por auto-mutilação não fatal. Gráfico: @JonHaidt/Twitter.

No Brasil, observa-se um fenômeno parecido: o número de brasileiros que tentam se matar com idades entre 15 e 29 anos saltou de quase 7 mil em 2011 para quase 35 mil em 2018, um aumento de cinco vezes. As meninas tentam suicídio muito mais que os meninos: em 2018, mais mulheres entre 15 e 29 anos se automutilaram tentando se matar do que homens de todas as faixas etárias, segundo boletim divulgado pelo Ministério da Saúde em setembro de 2019 com dados de dois sistemas do SUS: o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) e o Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM). No geral, porém, quem mais se mata são os homens. A epidemia de violência que o Brasil atravessa há décadas não é restrita ao número assustador de homicídios (1 assassinato a cada 10 minutos, segundo dados do Fórum de Segurança Pública) ou de estupros (1 a cada 8 minutos). Os brasileiros estão se matando num ritmo cada vez maior. Os dados do Fórum, a fonte mais confiável sobre a violência tão formadora do Brasil, podem ser baixados na íntegra.

Tá, mas qual é a culpa do Instagram no cenário? O assunto é sério e suscita cuidado ao imputar responsabilidades. “Mesmo com a preocupação sobre o aumento nas taxas de suicídio, pesquisadores não têm certeza das causas. Um aumento na depressão, uso de drogas, estresse e acesso a armas de fogo por adolescentes podem ser fatores que colaboram, dizem os especialistas. Alguns pesquisadores de saúde mental sugerem que o uso de mídias social pode estar alimentando o aumento de transtornos mentais e levando ao maior risco de suicídio, e alguns estudos preliminares ligaram o uso de celulares a ansiedade, depressão e deprivação de sono entre adolescentes”, diz a reportagem do jornal Wall Street Journal sobre o aumento das taxas de suicídios entre os jovens nos EUA. Para voltar a uma metáfora constante no Tecnocracia, as razões que levaram a esse aumento são uma sopa na qual o uso de celulares, mídias sociais e, especificamente, o Instagram, são ingredientes. O ponto é: estudo atrás de estudo indica que, a despeito do que diz o Facebook em sua própria defesa, o Instagram parece ser um dos ingredientes principais dessa sopa.

Primeiro exemplo: em 2019, Giulia Fioravanti, Alfonso Prostamo e Silvia Casale, da Universidade de Florença, separaram mulheres em dois grupos. Um parou de usar Instagram por uma semana, enquanto o outro manteve o uso normal. Ao fim do período, as pesquisadoras descobriram que o primeiro grupo “reportou níveis significativamente maiores de satisfação com a vida e afetos positivos” do que o segundo grupo, que continuou usando. “Enquanto o incremento de afeto positivo dependeu da comparação de aparência social, a satisfação com a vida aumentou independente da tendência de comparar a própria aparência com as outras. É possível que usuários que não estejam mais expostos ao feedback qualificativo direto sobre sua imagem no Instagram, seja ela da aparência, dos hábitos ou das opiniões, podem experimentar um aumento nos seus níveis globais de satisfação”. Os resultados com os homens não foram significativos.

Segundo exemplo: em 2016, os pesquisadores Joshua Hendrickse, Laura Arpan, Russell Clayton e Jessica Ridgway, da Universidade do Estado da Flórida, nos EUA, analisaram as atividades de estudantes mulheres da faculdade no Instagram e, depois, fizeram questionários para avaliar a percepção que elas tinham sobre o próprio corpo. Ao fim, os resultados mostraram que “atividades baseadas em fotos no Instagram predizem a necessidade de magreza e a insatisfação com o corpo por meio da variável mediadora de comparações relacionadas à aparência”. “Esses resultados sugerem que o uso de Instagram pode ser potencialmente danoso para indivíduos que engajam frequentemente em comparações com outros”, diz o estudo. Em 2020, há tem uma longa lista de estudos empíricos que sugerem uma consequência danosa à autopercepção do corpo pelo uso constante do Instagram. Pelos próximos anos, eu aposto meu braço direito (e eu sou destro) que dezenas de novos estudos deverão corroborar essas descobertas.

E o que faz o Instagram tendo essas evidências empíricas à disposição? Pouca coisa. Durante anos, a estratégia foi negar qualquer responsabilidade, assim como o Facebook, dono do app, também negou sua participação na manipulação da eleição norte-americana de 2016 num primeiro momento. A empresa se notabilizou por tomar decisões que não tirassem o “glamour” da ficção vivida lá dentro, ainda que fossem ações que combatessem crimes. É tipo a Disney deixar um sujeito que estrangulou alguém no parque sair impune para não atrapalhar a magia.

Em 2019, um centro de acolhimento que atende pacientes com HIV na comunidade asiática de Nova York tentou rodar uma campanha no Instagram sobre um remédio que reduz sensivelmente o risco de transmissão do HIV. O Facebook bloqueou, alegando que a mensagem era política. O Instagram só se move quando os indícios são explícitos. Em 2017, quando uma adolescente britânica de 14 anos se matou e seus pais culparam a influência do Instagram em sugerir conteúdos de automutilação e suicídio, o app, em vez de tirar o conteúdo do ar, colocou um filtro que o borrava. Era só clicar para continuar a ver. A falta de uma ação mais enérgica é parte da postura petulante defendida por empresas de internet de que não são editoras para censurar conteúdos dos usuários, o que desaguou no aumento de grupos neonazistas, antissemitas e racistas na internet e a radicalização de milhões de pessoas. Ao assumir a postura de “não editoras”, as plataformas acham que estão isentas, quando, na verdade, assumiram um lado: a vista grossa ajuda criminosos.

É nesse ambiente tóxico, que destrói a auto-estima de quem ainda não tem pronto o conceito de realidade, que nós deixamos nossos filhos e, principalmente, filhas livremente. Hoje, lemos notícias sobre as crianças que trabalhavam no começo do século em fábricas ou limpando chaminés com horror e espanto. Como foi possível acharem ou defenderem que crianças dedicassem a infância a atividades tão insalubres, perigosas, sem futuro? Em algumas décadas deveremos ter a mesma sensação ao lembrarmos o rombo que o Instagram causou na saúde mental dos adolescentes. Foi na mão de uma empresa sem qualquer cuidado com a saúde mental dos seus usuários que deixamos desenvolver a necessária noção do que é real e do que é ficção. Essa construção mal ajambrada pode desaguar numa insatisfação constante com o próprio corpo que faz a visita aos consultórios para cirurgias e procedimentos estéticos se tornarem frequentes.

Foto em preto e branco de uma criança trabalhando numa fábrica.
Foto: Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.

O problema aqui não é corpo. Nunca foi. Todo mundo gostaria de mudar uma ou outra coisa no próprio corpo — eu adoraria uma coluna nova, por favor. Mas a gente envelhece e não só aprende a viver com essas limitações como entende que a visão catastrófica de “não serei aceito por ter peito pequeno/pé chato/bunda de gaveta/coluna torta” é um problema muito mais de cabeça do que de corpo. Claro, a ciência está aí para ajudar, mas ela tem um limite. Mais que cirurgião, é preciso daqueles mesmos profissionais que têm trabalho garantido pelas próximas décadas: os terapeutas.

Foto do topo: Apostolos Vamvouras/Unsplash.

  1. Uma sugestão de leitura complementar: o subreddit r/InstagramReality. É o creme do delírio.

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5 comentários

  1. Olá! Conheci o podcast hoje por indicação de uma amiga. Muito bom! Parabéns pelo relevante trabalho!
    Justamente por ter-me admirado (positivamente!) com a qualidade do episódio é que gostaria de fazer uma observação: salvo engano, há um equívoco na informação de que, no Brasil, meninas se matam muito mais. Acessei o boletim epidemiológico pelo link do texto e, pelo que entendi, o gráfico mencionado no texto trata na verdade de violência autoprovocada e não de suicídio (figura 1): as mulheres se autolesionam muito mais do que os homens. Mais abaixo, na figura 3, estão os dados de suicídio: os homens se matam muito mais do que as mulheres.

    1. Patrícia, você tem toda razão. Vou editar o texto pra refletir que os dados do boletim são referência a automutilação com o objetivo de suicídio. Muito obrigado pela correção e fico feliz que tenha conhecido e gostado do Tecnocracia!

  2. Artigo como sempre maravilhoso e que demonstra bem a realidade, inclusive quando fala dos influenciadores. Agora tem ficado comum eles fazerem parcerias com cirurgiões plásticos e dentistas, então o padrão do corpo alterado só se expande. É a mesma coisa com o acesso constante à p0rnografi@: corpos e cenas montados totalmente diferente dos humanos reais.

  3. Compartilhei esse episódio nos stories e recebi muitas respostas, parece que meus seguidores concordam que o tema do podcast é um grande problema.

    Fiquei feliz em levar essa questão a mentes que ainda não tinham percebido isso.

  4. Aquele bom filme “Amor por contrato”, com a Demi Mooore e o ex Arquivo X, ainda que não tenha o foco em redes sociais, acaba também abordando esta mesma questão: nossas vidas parecem tão miseráveis quando comparadas a modelos 100% artificiais, qeu somos impulsionados a atingir aquele modelo custe o que custar, inclusive a própria a vida.

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