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O Brasil real não cabe nas discussões delirantes do Twitter

Pessoas de máscara e segurando guarda-chuvas em uma grande fila no meio da rua.

Em 1924, Oswald de Andrade, Mario de Andrade e Tarsila do Amaral eram três dos artistas mais relevantes do Brasil. Os três tiveram participação decisiva na Semana de Arte Moderna dois anos antes, um movimento artístico que desencadeou o Modernismo no Brasil ao questionar e reinventar alguns pilares nos quais a arte tradicionalmente se apoiava até então. O movimento reuniu escritores, poetas, pintores, escultores, músicos com o intuito de propor uma nova visão sobre o que era produzir arte e, principalmente, como se desvencilhar daquele modelo clássico trazido da Europa e regurgitado até então.

A arte produzida no Brasil desde a vinda da Corte Portuguesa, cheia de pintores que vieram tentar a vida por aqui, reproduzia muito o que era praticado na Europa sem adaptações radicais. Desde que um sujeito francês chamado Jean-Baptiste Debret desembarcou no Brasil quase uma década depois da corte portuguesa e se tornou uma espécie de pintor oficial do reino, a arte brasileira seguia as suas pegadas. Quando o Museu do Ipiranga estiver aberto (sabe-se lá quando) você vai poder ver isso expresso na tela “Independência ou Morte ou O Grito do Ipiranga”, do Pedro Américo, recriando Dom Pedro I declarando a independência do Brasil. Tudo é clássico: a composição, as cores, o tema, a maneira como o brasileiro é retratado como um capiau que não entende nada do que está acontecendo… Você pode achar que a tela do Pedro Américo é muito distante da Semana de 22; não é. A tela é de 1888, 80 anos depois do desembarque da corte e 34 anos antes do movimento modernista, o que serve para mostrar também como o Brasil é novo.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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O objetivo da Semana de 22 era quebrar esse classicismo e explorar novas linguagens artísticas, o que conseguiu sem sombra de dúvidas. O legado do movimento é inegavelmente forte. Participaram alguns dos nomes mais conhecidos até hoje da arte brasileira, como o maestro Villa-Lobos, o escultor Victor Brecheret, os pintores Lasar Segall e Di Cavalcanti e os escritores Manuel Bandeira e Menotti Del Picchia. Tarsila não participou diretamente da semana porque estava em Paris, mas continua, até hoje, como um dos nomes mais relevantes. O Modernismo começou na Semana de 22, mas não acabou ali. Nos anos seguintes, cada um à sua maneira, os artistas envolvidos seguiram experimentando processos de criação que buscavam algo novo. Os três do início do episódio — Oswald, Mario e Tarsila — entenderam que uma forma de quebrar essa inspiração exclusivamente europeia e criar uma linguagem local era entender o que já estava sendo feito em diferentes partes do Brasil. Não havia por que tentar inventar algo do zero quando já existia uma arte calcada na cultura popular brasileira. Com isso em mente, os três partiram em 1924 para uma viagem a Minas Gerais conhecida hoje como Caravana Modernista ou Viagem da Descoberta do Brasil.

“Essa turma tinha o propósito de construir uma identidade nacional, buscar a brasilidade, porque a Primeira República, até então, era marcada pela cópia, pela absorção do estrangeiro e do elemento internacional”, segundo Marcelo Cedro, historiador, doutor em ciências sociais e autor do livro JK desperta BH (1940–1945), em entrevista ao jornal mineiro Hoje em Dia. Na primeira viagem, o objetivo era entender melhor o barroco. Ao chegar em Belo Horizonte uma determinada noite, o grupo foi recebido por um poeta local que admirava o movimento, um sujeito chamado Carlos Drummond de Andrade.

A Caravana Modernista não foi uma única viagem. Pelos anos seguintes e com formações diferentes, grupos modernistas partiram para entender e catalogar expressões populares brasileiras que acabaram sendo reaproveitadas em obras publicadas nas décadas seguintes. Em 1927, Mario de Andrade fez um tour pela Amazônia e o Nexo detalha bem o impacto em sua obra. Em 1938, Mario de novo mandou uma equipe para catalogar expressões culturais regionais em Pernambuco e na Paraíba. Reprocessar algo tradicional e cuspir de volta algo retrabalhado é uma das bases (explicado de maneira rápida) do Manifesto Antropófago escrito por Oswald e Tarsila em 1928. Também em 1928 e também como consequência direta da Semana de 22, Mario de Andrade1 publicou o que talvez seja a obra mais famosa do movimento, o romance Macunaína que você leu no colégio e deve lhe ser mais simpático, já que, frente a outros livros mais intrincados e rococós, é mais fácil de avançar.

Tem uma frase boa que define o que foi aquele momento da viagem mineira e como a gente o conecta com o assunto deste episódio: “Essa perplexidade já se revelara para Mário de Andrade durante a histórica ‘Viagem da Descoberta do Brasil’, realizada em 1924, Semana Santa dos modernistas e seus amigos, acompanhando o artista suíço Blaise Cendrars. Detendo-se em povoações e cidades históricas mineiras, para os modernistas tudo parecia novo e, ao mesmo tempo, muito antigo. A atitude paradoxal tem uma lógica. O distanciamento que a maior parte de nossos escritores manteve com a realidade brasileira fazia com que a paisagem da Minas barroca surgisse aos olhos dos modernistas como qualquer coisa de novo e original, dentro, portanto, do quadro de autenticidade cultural que eles procuravam”, dentro de um trabalho chamado Mário de Andrade: A viagem e o viajante da pesquisadora da UFRGS Gleidys Meyre.

Eu não consegui tirar esse episódio em que os modernistas “redescobrem” o Brasil quando acompanhei uma discussão que durou algumas semanas, sobretudo no Twitter e no LinkedIn, do “home office”, de como trabalhar em casa será o futuro das empresas, que escritórios deixarão de existir. Não consegui tirar da cabeça porque eu me senti em meio a um bando de artistas na virada do século XX arrotando todas as técnicas e máximas da escola europeia enquanto tinha uma cultura popular brasileira pulsante ativa sendo solenemente ignorada.

Homem com blusa, sentado em uma cadeira, com um computador com dois monitores à sua frente.
Uma realidade para poucos brasileiros. Foto: @purzlbaum/Unsplash.

Veja bem: eu não estou falando mal da escola artística europeia, que nos deu a maioria dos maiores pintores, compositores e escritores. O ponto é exatamente como a pesquisadora Gleidys sintetiza: “o distanciamento que a maior parte de nossos escritores manteve com a realidade brasileira fazia com que a paisagem da Minas barroca surgisse aos olhos dos modernistas como qualquer coisa de novo e original”. A discussão do “home office” é completamente descolada da realidade e reflete a bolha em que a gente vive. O Twitter não é a realidade brasileira. Para nos ajudar no processo de furar as nossas confortáveis bolhas, é sempre bom a gente colocar em perspectiva alguns dados que revelam o Brasil real. Não o Brasil mediado pela tela, ainda que ele seja cada vez mais importante — vide o episódio passado do Tecnocracia sobre a campanha política baseada em desinformação que colocou Jair Bolsonaro no Palácio do Planalto. Sempre que entramos nas nossas bolhas digitais corremos o risco de debater uma realidade que não existe. Ou que existe para um grupelho, do qual provavelmente fazemos parte. O Brasil real não está limitado nos nossos feeds. Então o que é o Brasil real? Na impossibilidade de uma caravana nos moldes da modernista, ainda mais durante uma pandemia em um país cuja política de estado parece ser a do “cada um por sim”, nesse episódio do Tecnocracia a gente vai, baseado em dados, tentar contextualizar o Brasil.

Não tenho a menor pretensão de montar um guia completo sobre a realidade brasileira — a ideia é pinçar dados de fontes confiáveis que nos ajudem a entender a complexidade que é a sociedade e a economia. Sim, o episódio não é dedicado exclusivamente à tecnologia. Mas não existe discussão no Brasil, seja tecnologia ou gastronomia ou astronomia ou cosmetologia, que não passe pela maneira como a sociedade e a economia estão organizadas no Brasil. O home office também não é a única discussão delirante que você encontra nas redes sociais — há tantos outros assuntos que guardam pouca relação com o que acontece do lado de fora da tela. Mas, desde o começo da quarentena, não houve uma discussão tão presente e tão delirante quanto.

Se a gente quer discutir Brasil, então a gente tem que saber o mínimo sobre o Brasil. Não é qual é a melhor moqueca, se é a baiana ou a capixaba, ou se a melhor chapada é a dos Veadeiros ou a Diamantina. São coisas ainda mais fundamentais. Para isso, farei um formatinho de quiz. Eu vou te dar uma pergunta e alguns segundos para você pensar e responder para si mesmo, para seu cachorro ou para a parede. No fim, o prêmio pelos acertos é somente aquele mal estar de saber que mora num país brutalmente pobre e desigual, olha só que alegria.

A primeira dúvida que nos guiará: quem é o brasileiro médio? Comecemos a falar, então, em população. O Brasil tem cerca de 211 milhões de habitantes, segundo estimativa do IBGE. A população brasileira vem crescendo num ritmo constante desde que os portugueses colocaram os pés por aqui. Os 211 milhões de hoje representam 20x mais do que o Brasil tinha no fim do século XIX. Isso não quer dizer esse ritmo de crescimento se manterá constante. Primeira pergunta: o IBGE estima que, pelas próximas décadas, a população brasileira continue a crescer até atingir um teto. Que teto é esse?

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Pelos próximos 27 anos a população brasileira se manterá crescendo. Em 2047, o IBGE prevê que atingiremos nosso ápice populacional: 233,23 milhões de pessoas. Para comparação, a Índia tem 1,3 bilhão de pessoas — a gente nunca não deve chegar nem a um quarto de bilhão. O que acontece em 2047 para justificar isso? Aos números: nascerão 2,349 milhões de brasileiros, enquanto 2,364 milhões de brasileiros vão para a cova. Pela primeira vez na história do Brasil, os óbitos ultrapassarão os nascimentos, o que quer dizer que a sociedade brasileira passará a encolher. É um fenômeno visto em economias maduras — dado que estamos falando do Brasil, o eterno país do futuro, essa linha de chegada que sempre se afasta da gente pode se afastar outra vez e a projeção do IBGE ter que ser revista.

O aumento gradual da população até atingirmos o teto mudará a forma da pirâmide etária do Brasil: se em 2020 o gráfico parece de fato uma pirâmide, com os jovens em maior número formando a base, em 2060 veremos uma espécie de losango, com a faixa etária entre 60 e 80 anos como a mais popular. Se você nasceu a partir de 1980, é você (e eu também), bonitinho ou bonitinha. A sua geração deverá ser a mais popular no Brasil. O que implicará em problemas sérios para o sistema previdenciário, já que, numa pirâmide como a atual, existem muito mais jovens trabalhando para sustentar um público velho bem menor. Em 2060, teremos uma multidão de velhos (eu e você) tendo que ser sustentados por um grupo bem menor de jovens2. É a receita do desastre. (Que é outra forma de dizer que é preciso, sim, fazer reforma previdenciária, mas excluir alguns dos maiores beneficiados per capita do sistema, como funcionários públicos estaduais e municipais, é um tiro no pé inacreditável).

Essa mudança demográfica também esconde uma outra característica: as mulheres vão aumentar uma vantagem numérica sobre os homens que já existe hoje. Em 2020, o Brasil tem 4,7 milhões de mulheres a mais que homens. Em 2060, esse número estará em 6,3 milhões, aumento de 34% da diferença. As mulheres vivem, em média, 7 anos a mais que os homens no Brasil. Em termos de raça, o Brasil é, majoritariamente, não branco. Segundo o IBGE, 56% da população brasileira é parda ou preta (o IBGE usa os termos pardo, preto, branco e amarelo nos seus estudos). Esse é um número que vem crescendo de forma consistente — em 2000, por exemplo, o número era 43%. Uma dúvida justa que temos aqui é a seguinte: o quanto desse aumento é realmente do crescimento populacional e o quanto é de um movimento de empoderamento racial que estamos vendo na última década. As discussões sobre racismo e o papel dos negros na sociedade brasileira hoje são muito mais frequentes e ocupam espaços com alcance maior do que, sei lá, talvez sempre.

E quanto dinheiro ganha, mais ou menos, esse brasileiro médio? Para a segunda pergunta, a gente vai falar de renda: hoje, no Brasil, quantas pessoas vivem com cerca de R$ 400 por mês?

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Como foi seu chute? 30 milhões? 10 milhões? 80 milhões? Se foi algum desses, você errou. Segundo dados da PNAD Contínua do IBGE3, em 2018 eram 104 milhões de brasileiros que passavam o mês com uma média de R$ 413. O salário mínimo na publicação deste texto (agosto de 2020) é de R$ 1.045. Ou seja, em 2018 metade da população brasileira passava o mês, 30/31 dias, com R$ 413. Isso não quer dizer que todo o resto viva melhor. Existe um grupo de 10 milhões de brasileiros que adorariam viver com R$ 413. Eles representavam os 5% mais pobres da população e viviam com R$ 51 mensais. Deixa eu traduzir: em 2018, você tinha pouco menos de uma cidade de São Paulo (população de 12,2 milhões em 2019) de gente que vivia durante um mês com um ou dois pedidos que você faz por semana no seu aplicativo de entrega de comida. Eu sei, você trabalha um monte, rala diariamente, passa madrugadas em claro. Ninguém tira o seu mérito. Mas você não é o brasileiro médio. O brasileiro médio não tem grana para pedir hambúrguer toda semana.

Esse número é a decomposição da renda média domiciliar per capita que a PNAD Contínua avalia. Isso quer dizer que, em 2019, cada domicílio brasileiro teve uma renda mensal de R$ 1.439 — se você somar todas as fontes de renda de todos os membros da família (seja fruto de trabalho, benefícios sociais ou ganhos financeiros), é esse total que dá. É um número extremamente baixo, ainda se considerarmos que ele varia geograficamente. No Distrito Federal, por exemplo, é o mais alto do Brasil: chega a quase o dobro, R$ 2.685,76, influenciado muito pela máquina federal. No outro extremo está o Maranhão, com renda domiciliar média de R$ 635,59 por mês. É quase metade do salário mínimo.

Outra forma que não a geográfica para decompor da renda média do Brasil é a demográfica. Se considerarmos raça e gênero, nota-se um claro cenário: homens brancos ganham, na média, mais que o dobro de mulheres negras, segundo a pesquisa “Retrato das desigualdades de gênero e raça” do IPEA com dados entre 1995 e 2015. Em todos os cenários, homens e mulheres brancas têm não apenas renda maior do que homens e mulheres negras, como também mais anos de estudo. Em 2015, uma mulher branca no Brasil tinha, em média, 10 anos de estudo. A mulher negra tinha 9 e o homem negro, 7,6. Esses 9 anos de estudo para as mulheres negras em 2015 é a mesma taxa que as mulheres brancas atingiram em 2004. Ou seja: brasileiros brancos têm uma “vantagem” educacional de uma década sobre os negros, ainda que negros sejam a maior parte da população do Brasil.

O valor baixo de R$ 1.439 por domicílio esconde outro fato assustador: trata-se de uma média, o que significa que você tem uma multidão de pobres que ganham menos que isso e alguns poucos brasileiros muito ricos que puxam essa média para cima. Estamos, logo, a falar sobre desigualdade, o assunto definidor da sociedade brasileira ao lado da escravidão. Terceira pergunta: se considerarmos a população brasileira como uma pirâmide dividida por renda, quantos reais por mês sua família precisa ganhar para estar na metade de cima da pirâmide?

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Se sua família ganha, no total, mais de R$ 2.994 por mês, você pertence ao terço mais rico da sociedade brasileira, segundo o Datafolha. “O quadro revela, por exemplo, que quase dois terços (64%) dos brasileiros vivem em famílias que passam o mês com menos de R$ 2.994 — o que dá, na melhor das hipóteses, um salário mínimo por cabeça, considerando a média de três indivíduos por família no país”, segundo coluna do Fernando Canzian repercutindo o estudo do Datafolha. Esse gráfico (é bom lembrar que você pode ver os gráficos no post do Tecnocracia dentro do Manual do usuário) da pirâmide provocou uma discussão quente no Twitter após um post do Fernando Zeidan, professor de economia da NYU Shanghai. A principal questão é que o gráfico esconde algo perverso sobre a desigualdade no Brasil: domicílios que ganham, no total, mais de R$ 4,5 mil por mês pertencem aos 16% dos brasileiros mais ricos, mas, em comparação ao topo da pirâmide, essa faixa está mais próxima da base. Em termos mais simples: a diferença entre a classe média que ganha R$ 5 mil mensais e os milionários e bilionários é tamanha que essa mesma classe média está mais próxima dos pobres, aqueles que vivem com um salário mínimo e meio por mês, do que quem ganha, por exemplo, centenas de milhares de reais por mês.

Aliás, eu não lembro de um livro brasileiro nascido de uma tese que tenha sido mais premiado e elogiado nos últimos anos que o Uma história da desigualdade: a concentração de renda entre os ricos no Brasil (1926-2013), no qual o pesquisador do IPEA Pedro Ferreira de Souza investiga as razões para a desigualdade do Brasil usando dados desde 1926. Uma das conclusões da sua pesquisa é que o Brasil desenvolveu um perverso modelo em que a desigualdade se acentuou durante o regime militar. Antes, o 1% mais rico concentrava 17% das riquezas. Ao fim da ditadura, chegamos a cerca de 30%, mesmo patamar atual. “Nenhum país é tão desigual por tanto tempo sem ter se acostumado com isso. E nenhuma mudança vai acontecer sem resistência. A diferença de renda entre grupos sociais acaba se refletindo na capacidade de influenciar na pauta política e gera uma dinâmica muito problemática”. O pobre está preso no alçapão da pobreza.

Se formos olhar os dados de emprego, a perspectiva não é de melhora no curto prazo. Desde o primeiro trimestre de 2012, o desemprego no Brasil vem crescendo. No fim de 2014, eles eram 6,5% da força de trabalho brasileira acima dos 14 anos. Em 2016, já eram 13,7%. A COVID-19 agravou o problema: o IBGE calcula que, hoje, são mais de 40 milhões de brasileiros que estão e desocupados e fora de força de trabalho (estejam eles procurando emprego ou não), mas que gostariam de trabalhar. Um quinto da população total. Esse número, bom deixar claro, é pior do que parece por não incluir os informais, gente que trabalha sem carteira ou faz bico para pagar as contas. Também segundo o IBGE, os informais são mais de 38 milhões de brasileiros, sejam eles motoristas de aplicativos, vendedores de marmita ou entregadores de comida. Somados, os desempregados e os informais atingem cerca de 80 milhões de brasileiros, ou 40% da população. O cenário é ruim já que, na informalidade, não há qualquer tipo de rede de proteção social: se perder o emprego, o sujeito não tem FGTS, seguro-desemprego ou mesmo uma poupança para segurar as pontas. Já falamos aqui no Tecnocracia de um dado do Plano CDE segundo o qual o brasileiro tem, na média, economias para custear gastos por no máximo um mês. A informalidade no Brasil é tipo andar de bicicleta: se você parar, cai. E muita gente ainda vai cair, já que pesquisadores da Fundação Getulio Vargas (FGV) estimam que o desemprego, hoje na faixa dos 13%, vai terminar 2020 perto dos 18%, ao mesmo tempo em que a renda dos trabalhadores deverá encolher 15%.

É por causa dessa pobreza contínua que iniciativas como o Bolsa Família e o auxílio emergencial têm efeitos inegavelmente positivos, ainda que distribuam pouco dinheiro (na escala da classe média). O impacto do Bolsa Família (BF) já foi comprovado por seguidos estudos em diferentes centros de pesquisa pelo mundo: após estudar seus dez primeiros anos, o IPEA concluiu que cada R$ 1 investido no programa vira R$ 1,78 no PIB. Por fornecer uma renda para cidadãos que viviam na miséria, o programa tem impactos indiretos em tantas outras áreas: a pesquisadora Eliana La Ferrara, da Universidade Luigi Bocconi, na Itália, descobriu que o programa tem um efeito multiplicador que melhora não apenas o desempenho dos filhos dos beneficiados, mas também de outras crianças em uma mesma comunidade. Outros estudos mostram melhor na saúde e no planejamento familiar — gravidez, principalmente juvenil, menos frequente.

A quarta pergunta é sobre os efeitos do auxílio emergencial. Ainda é cedo para avaliar com a mesma profundidade do Bolsa Família, mas os R$ 600 tiveram um impacto inegavelmente positivo. O índice de miséria no Brasil caiu para o menor nível em quanto tempo?

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Quarenta anos. Desde a década de 1980 não havia uma redução tão drástica na miséria com um valor que, de novo, para a escala da classe média é pequeno. “Levantamento do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV) mostra que 3,3% da população vivia em junho com renda domiciliar per capita de US$ 1,90 por dia — o equivalente a R$ 154 mensais por membro da família. São 6,9 milhões de pessoas. Um mês antes, em maio, a proporção da população vivendo abaixo da linha de extrema pobreza era de 4,2%, o equivalente a 8,8 milhões de pessoas, conforme o levantamento, que se baseou na Pnad Covid, pesquisa do IBGE que acompanha os impactos da pandemia no mercado de trabalho brasileiro”. Essa pesquisa da FGV foi feita por um pesquisador chamado Daniel Duque.

Outra manifestação desse pobreza está na infraestrutura, seja ela de água e esgoto ou de telecomunicações. Em 2018, pouco mais de metade dos brasileiros tinha acesso a coleta de esgoto — 47,8% dos brasileiros despejam esgoto em fossas ou diretamente em rios e mares. Há uma brutal desigualdade regional no índice: em São Paulo e no Distrito Federal, quase 90% dos habitantes têm esgoto. No Pará e em Rondônia, o número não chega a 5%. Ainda que seja melhor, água tratada não é universal no país: 35 milhões de brasileiros não têm acesso a água tratada. A falta de saneamento significa que, no primeiro trimestre de 2020, o SUS teve que lidar com 40 mil internações que não existiriam se houvesse saneamento universal. Em conectividade, um em cada quatro brasileiros em 2020 está desconectado, o que, em termos brutos, quer dizer 46 milhões de brasileiros. Quem são eles? Três grupos demográficos se destacam: os mais pobres, os mais velhos e quem mora no campo. Os dados da TIC Domicílios, feita anualmente pelo NIC.br, mostram que menos da metade das classes D e E está online.

Fotos de rosto de modernistas brasileiros.
O Grupo dos Cinco do modernismo brasileiro: Anita Malfatti, Mário de Andrade, Menotti del Picchia, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. Montagem: Wikimedia Commons.

Posto o cenário, amarremos. Se a gente pegar um ser humano para representar a média da sociedade brasileira baseado nos dados descritos até aqui, então parece não haver discussão que vai ser mulher parda ou negra na faixa dos 30 a 40 anos, com 1 ou 2 filhos, que mora em uma cidade, provavelmente afastada do centro, e que ganha, mensalmente, perto de R$ 1,5 mil. Se a gente pegar dois domicílios assim, um deles não vai ter esgoto encanado e um deles terá alguém que ou está desempregado/a ou trabalha informalmente, sem carteira de trabalho. Se a gente pegar quatro domicílios assim, um deles vai estar desconectado da internet. Segundo dados da Anatel, essa brasileira média pode ter banda larga e o celular, se não for pré, tem uma conta do tipo controle, que é praticamente um pré-pago com boleto todo mês.

Em outras palavras: o Brasil é um país esmagadoramente pobre, desigual, injusto e com infraestrutura ruim.

Vamos voltar à discussão do home office que me fez lembrar dos modernistas viajando para conhecer melhor o Brasil. Da forma como construí o episódio, já está claro o quão desconectada da realidade é qualquer discussão sobre o “home office” ser o futuro do trabalho no Brasil. Vamos engrossar isso com dados. Segundo a PNAD Covid divulgada em julho pelo IBGE, o número total de brasileiros que conseguem continuar trabalhando de casa durante a pandemia, em uma rotina parecida com a do escritório, é de 8,7 milhões, ou 12,5% da força de trabalho. Vamos voltar a um dado da FGV sobre miséria. Em maio de 2020, a quantidade de brasileiros vivendo com menos de US$ 1,90 por dia era de 8,8 milhões de pessoas. Em 2020, enquanto o Twitter discute o home office, tem mais brasileiro na miséria extrema do que trabalhando de casa. Para um segundo para processar isso. Se essa informação não te convence de que essas bolhas digitais não refletem a realidade, então está na hora de procurar ajuda, amiguinho. Não sou eu quem vai te convencer.

Gráfico da PNAD Covid mostrando a evolução do percentual de trabalhadores isolados durante a pandemia.
Taxa de trabalhadores ocupados que continuam em quarentena caiu para o índice mais baixo desde o início da pesquisa (13,3%). Na primeira edição da pesquisa, eram 19,8%. Fonte: PNAD Covid/IBGE.

Outro dado da mesma pesquisa que mostra o Brasil real: o número de trabalhadores ocupados que continuam na quarentena caiu para o índice mais baixo no fim de junho (13,3%) desde o início da pesquisa — no começo de maio, o mesmo número era de quase 20%. Fora da bolha do “novo normal” do Twitter, o brasileiro que precisa trabalhar voltou ao batente possível (não remoto), mesmo no ápice da curva de contágio da COVID-19. Esses trabalhadores, que usam o transporte público, estão mais sujeitos à infecção e, consequentemente, à morte, como mostra um estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Os distritos com maior número de mortes por coronavírus estão relacionados de maneira mais intensa a locais com maior presença de autônomos, donas de casa e pessoas que usam o transporte público. (…) Os dados reforçam a percepção de que pessoas mais pobres, que tiveram que continuar se deslocando para o trabalho durante a pandemia, são as maiores vítimas”.

O impacto mais perverso dessa combinação entre miséria, emprego informal e falta de infraestrutura é na educação. Em uma situação normal, o brasileiro pobre tinha uma escola para ir, com graves problemas financeiros. Com a pandemia, os governos estaduais correram para adaptar as aulas para ensino remoto, com a transmissão de conteúdo por canais de TV públicos e o custeamento de planos de banda larga móvel. Mas a diferença de renda e infraestrutura é tão grande que, em São Paulo, por exemplo, menos da metade dos 3,5 milhões de crianças e adolescentes matriculados na rede educacional do estado tinham se logado no sistema de aulas. A própria secretaria previne: o dado se refere a quem fez login, não quem acompanhou as aulas. O número de alunos que mantém a rotina de estudos deve ser ainda menor.

Em suma, não tem ensino. Enquanto a classe média brasileira se preocupa com os 8,8 milhões em home office, essa digitalização da vida significa que uma multidão muito maior de brasileiros pobres, sem acesso à internet ou aparelhos minimamente decentes, se torna mais do que invisível — se torna excluído, tirado do jogo. Como você acha que os alunos de escolas públicas, que já tinham dificuldades de acompanhar os resultados dos alunos de escolas privadas com infras melhores e mensalidades astronômicas, vão se sair quando não há nem possibilidade de ter aula?

Enquanto a gente delira que a educação deu um novo passo em direção ao primeiro mundo, milhões de jovens brasileiros não conseguem estudar porque não têm notebooks, sinal de internet ou mesmo materiais básicos que a gente da classe média vê jogado pela casa, como lápis, papel e borracha, como mostrou uma reportagem da Folha publicada no começo de maio que mostra a história de Raphaela dos Santos, 4 anos, moradora de Paraisópolis. “‘Ela passa o dia aprontando e quer ir brincar com as crianças que moram aí em frente. Só fica quieta quando está com o celular na mão’, contou a mãe de Raphaela, Cindy Santana, 21. Como trabalha em um pet shop, que manteve o funcionamento durante a epidemia, ela deixa a filha durante o dia com a avó. A família ainda não recebeu o material didático que a prefeitura disse que vai enviar às casas dos alunos. Santana não sabia da distribuição do kit, mas disse achar que os livros vão ter pouca utilidade para a menina. ‘Ela não tem um lápis, uma caneta e não temos como comprar. Moramos em uma casa de um cômodo, com cinco pessoas, não tem espaço para ela fazer lição’”. Bonitinho, se isso não te aperta o peito, chama o IML e deita que você não está mais vivo.

Outra história da mesma reportagem. “Apesar de ter aulas a distância, Isac Souto, de 16 anos, acorda cedo todos os dias e caminha por cerca de dez minutos até a unidade de Paraisópolis da escola Alef Peretz, onde é bolsista. Para conseguir acompanhar as atividades de seu último ano escolar, ele ganhou um notebook do colégio, mas não tem internet em casa. ‘Eles me deram um chip de celular com um plano grande de dados, mas não é sempre que funciona. No começo, eu perdi algumas aulas porque não conseguia conexão. Então eles decidiram abrir a escola para que eu pudesse usar a internet’, contou”. O próximo sujeito que vier arrotar aquele papinho de meritocracia no Brasil, com histórias dessas que apertam o peito da gente, vai ganhar como prêmio o famoso “murro no meio dos cornos”.

Quer outro exemplo de outra fase mais avançada da educação brasileira? Reportagem do Uol, fim de abril. “Desde o início da pandemia tem sido assim: Luiz Menezes, 19, acorda e tenta se conectar ao Wi-Fi da Associação de Moradores da Nova Holanda, favela do Complexo da Maré. Os poucos minutos aos quais tem acesso à internet do vizinho são fundamentais para que consiga fazer download do material didático disponibilizado pelo pré-vestibular comunitário. Mas, quando a conexão não funciona, Luiz sabe que não terá como estudar por mais um dia”. Luiz Menezes vai prestar o ENEM para Ciências Sociais.

Num país pobre, brutalmente desigual e sem infra-estrutura decente, a digitalização de atividades “supérfluas”, como comprar, podia ser ignorada já que ainda existem tantas outras alternativas analógicas. Quando são as atividades obrigatórias que são digitalizadas, cria-se uma nova casta: a dos não existentes. Gente que, com renda baixa, sem moradia decente, sem esgoto em casa, com pouco estudo e em um país com educação majoritariamente pública, entra num círculo ainda mais perverso de exclusão com a incapacidade de fugir dessa vida pelo principal caminho: a educação. Os pobres sempre foram deixados para trás. Último quiz: quantas gerações os 10% mais pobres do Brasil precisariam para atingir a renda média?

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Nove, segundo estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCED). Repetindo: os 10% mais pobres do Brasil precisariam de nove gerações para atingir a renda média. Sabe a imigração italiana e japonesa para o Brasil. Faz tempo, né? Foram há quatro gerações. Um dos atalhos para fora dessa situação é a educação. Com essa digitalização atabalhoada, a porta é praticamente fechada.

Discutir home office, drones, realidade virtual e outros chavões tecnológicos como se eles representassem o principal problema da maneira como o brasileiro usa e convive com tecnologia é parecido com os arcadistas clássicos do começo do século XX repetindo que os modelos artísticos importados da Europa eram os únicos possíveis para o Brasil. Noventa e seis anos depois, pouco parece ter mudado. Mais que anacrônico e descolado da realidade brasileira, tal discussão perde totalmente o ponto central: nosso fetichismo tecnológico mal implementado pode tornar ainda mais miserável e desigual a vida já desgraçada de milhões de brasileiros, pobres e desamparados. A nossa realidade não é o Vale do Silício. A nossa realidade é a menina de Paraisópolis que não tem papel e caneta para estudar ou o jovem do Complexo da Maré que não tem internet para se preparar para o Enem. A conexão entre o que estamos passando agora e a Caravana Modernista do começo é a necessidade de olhar o que está acontecendo por aqui em vez de reagir a uma realidade que não a nossa.

A realidade tecnológica do Brasil não é fadiga de Zoom. A tecnologia, embalada pelo discurso otimista da libertação nos últimos 15 anos, periga virar o contrário: um muro transponível apenas para quem tem dinheiro. É preciso fugir da armadilha que é blindar os mais pobres de acessar serviços obrigatórios para o cidadão, com o risco de criarmos uma espécie de casta “Dalit tecnológica”: uma multidão de pobres que nasceu na miséria e, sem conseguir estudar e trabalhar remotamente por estar desconectada, não tem nem mesmo a chance de fugir dela.

Foto do topo: Prefeitura de Caruaru/Fotos Públicas.

Edição 20#29

  1. Aliás, é bom deixar claro que, ainda que tenham o mesmo sobrenome e façam parte de um mesmo movimento cultural, Oswald e Mário de Andrade não eram parentes.

  2. O Brasil adota o modelo previdenciário de repartição, em que os trabalhadores da ativa financiam os benefícios dos aposentados.

  3. A PNAD é a pesquisa mais abrangente do IBGE, uma outra forma de dizer que não existe uma forma de entender melhor a vida do brasileiro.

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10 comentários

  1. A abordagem que você trouxe di show do milhão me lembrou da pesquisa “Os Perigos da percepção”, que entrevista pessoas sobre esses fatos em vários países e depois contrasta com os dados oficiais. Segundo a última pesquisa, de 2018, o Brasil é o 5o país cuja população mais desconhece a realidade local.

    Aqui o link https://www.ipsos.com/pt-br/perigos-da-percepcao-2018

    No site tem o quiz sobre a realidade brasileira.
    https://bit.ly/2SxVZT1
    Eu tirei tirei 7 de 10. Quanto vocês tiraram?
    Abraços!

  2. Oi Guilherme! Excelente podcast, um apanhado muito bem escolhido de dados sobre o Brasil de verdade.

    Confesso que eu tenho uma implicância purista com o termo “classe média”, que não é média de nata, mas representa provavelmente os 10% mais ricos do país. Os ricos no Brasil estão mais perto dos pobres que dos ultrarricos, como você disse. E por isso “classe média” é mais um termo sociológico, que reflete como os ricos se vêem entre os pobres e os ultrarricos. Mas eu tento evitar me considerar da classe média justamente porque esse termo me aliena da realidade brasileira.

    Obrigado por me lembrar, com dados, desse fato. Um abraço!

  3. Excelente episódio. Não dá pra ouvir uma vez só.

    Além disso, dessa vez foi realmente necessário vir conferir os links e o texto aqui no manual.

  4. Esse Tecnocracia é apenas a prova irrefutável de que a meritocracia é o refúgio dos canalhas, normalmente “libertários”.

    1. Minha maior irritação diária são os posts sobre um pobre que consegue entrar em uma universidade pública, seguido daquele “coachismo” de correr atrás e blabla. Deveria ser vergonha nossa como sociedade alguém sofrer para estudar, mas o mérito individual de alguém vira ferramenta na mão de liberal para manter a desigualdade intocada.

      1. Eu recomendo, se um dia você estiver de bobeira e querendo ler sobre sociologia, o livro “A ética protestante e o espírito do capitalismo” do alemão Max Weber. Nesse livro, antigo a ponto de ainda não existir as ondas neopentecostais nos EUA mas ainda muito válido, o autor mostra como a ética do trabalho associado como salvação do protestante “casou” muito bem com a ideia de merecimento que os capitalistas pregavam/pregam. A ideia de que “somos responsáveis” pelo nosso sucesso financeiro e podemos superar qualquer desafio com força de vontade, disciplina e trabalho duro é muito presente no protestantismo e, de certa forma, infiltrada no atual capitalismo brasileiro via igrejas da terceira onda (IURD, AdD, Mundial e outras). Naquela época (~1900, antes da primeira guerra e da grande depressão) o Weber já tinha identificado vários preceitos que se emaranhavam quando se comparava religião e economia/ideologia, não por nada o “neocon” atual é um religioso fervoroso e também um empresário liberal.

        Vale muito a pena ler o livro para entender que esse tipo de fenômeno (coach e outros) são derivados da própria gênese do capitalismo e da religião dos EUA (que hoje é influência direta da religião brasileira, vide o próprio Bolsonaro e Paulo Guedes).

  5. Quanto a questão do uso de tecnologias na sala de aula, lembram quando criaram uma lei que proibia o uso do celular nas escolas, e que os professores poderiam confiscar os aparelhos e tudo mais?

    Pois bem, agora está fazendo falta nesse momento.

  6. Um dos melhores podcasts que já vi. Sou fã do trabalho e ouço todos.
    Continuem fazendo esse grande trabalho.

    Um abraço

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