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Todo dia ela faz tudo sempre igual: trabalho em tempos de COVID-19

Um escritório moderno, com mesas e computadores, completamente vazio.

Além do cappuccino, do Vaticano e do fascismo, a sociedade moderna deve à Itália o conceito de empresa. Ainda que grupos de pessoas venham se unindo sob uma mesma organização para fazer comércio desde a Mesopotâmia, 3 mil anos antes de Cristo, foi durante o Império Romano que tomou forma a estrutura da empresa que conhecemos até hoje.

“Eles certamente criaram alguns dos conceitos fundamentais de legislação corporativa, particularmente a ideia de que uma associação de pessoas pode ter uma identidade coletiva separada dos seus componentes humanos. Eles ligavam as companhias à família, a unidade básica da sociedade. Os sócios — ou ‘socii’ — deixavam a maior parte das decisões gerenciais para os gerentes, que, por sua vez, operavam o negócio, administravam os agentes no campo e mantinham ‘tabulae accepti et expensi’, os livros de contabilidade”. Ainda que os romanos tenham dado a primeira forma, foram outros italianos que, baseado no que os romanos já tinham criado, aperfeiçoaram o modelo. Esse trecho é de um livro excepcional chamado The company: A short history of a revolutionary idea, de dois jornalistas da revista The Economist, John Micklethwait e Adrian Wooldridge.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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Uma pequena aula de história: depois que o Império Romano cai, o grupo que começa ganhar relevância na Itália são os mercadores, principalmente os concentrados na região de Veneza. É daí que vem a ascensão do Doge de Veneza, a autoridade máxima da República de Veneza. O poder que tinha no comércio marítimo fez de Veneza o centro comercial da Europa durante quase mil anos, o que ajuda a explicar a suntuosidade dos palácios e das igrejas que você visita hoje em dia após desviar das pombas que infestam a cidade. A necessidade de financiar muitas viagens comerciais para o Oriente obrigou Veneza a criar um modelo muito parecido com o praticado por fundos de investimento de risco: capitalistas se juntavam para colocar seu dinheiro em um projeto (uma esquadra em direção à Indonésia, por exemplo, atrás de temperos) e poderiam lucrar com comércio marítimo sem nunca terem colocado os pés em um barco. Começava aí o modelo que nos levou às sociedades anônimas que temos hoje, com empresas que abrem capital na bolsa.

Não foram só os venezianos que aperfeiçoaram o modelo romano de empresa. “No século XII, uma forma razoavelmente diferente de organização emergiu de Florença e outras cidades próximas: a ‘compagnia’. Elas começaram como empresas familiares, operando no princípio da responsabilização conjunta: todos os sócios eram responsáveis pelos valores dos seus bens no mundo. Dado que a punição para quem quebrava poderia ser prisão ou servidão, era vital que todos os membros da organização confiassem absolutamente uns nos outros. A palavra “compagnia” é composta de duas palavras em Latim, ‘cum’ e ‘panis’, que significam ‘amassar pão juntos'”, segue o livro do Micklethwait e do Wooldridge.

Como as companhias venezianas, as companhias florentinas se tornaram mais sofisticadas conforme o tempo foi passando, na tentativa de atrair investimento de fora do círculo familiar. No livro a dupla explica de onde vem o conceito de empresa e como ele foi evoluindo com o tempo até chegar no modelo atual. O livro é uma aula de história e toca em vários pontos que você não imaginaria. Por exemplo: a ascensão dos Medici em Florença e como a família, responsável pelo dinheiro dos papados, desencadeou o Renascimento. Não fosse a “compagnia” dos Medici, a gente provavelmente não teria tantas pinturas e esculturas do Michelangelo Buonarroti, por exemplo. Alguns outros assuntos do livro a gente já falou no Tecnocracia. O segundo capítulo inteiro explica como, a partir do século XIV, as companhias perceberam que era mais vantajoso se aliar aos governos para ganhar monopólios de rotas de comércio ou de atividade comerciais específicas — taí o caso da Companhia das Índias Orientais.

Visão panorâmica de um escritório antigo, com dezenas de homens em suas mesas e uma mulher apenas. Pé direito alto, foto em sépia.
Um grande escritório norte-americano do início do século XX. Foto: Early Office Museum.

O ponto principal aqui é: a gente está num momento bom para discutir de onde vieram as empresas e as duas razões que as levaram a se perpetuar. A primeira é que as empresas só começaram a durar mais de um século com o aval dos governantes, porque eles próprios tinham interesses monetários diretos na atuação delas. Um exemplo prático: James Lancaster comandou a primeira esquadra da Companhia Britânica das Índias Orientais em direção à Ásia. Quando voltou meses depois, com 500 toneladas de especiarias, o rei James I, um dos seus financiadores, ordenou que a parte dele das especiarias fosse vendida primeiro, o que impactou o lucro de todos os outros investidores.

Hoje, nós temos empresas com menos de 50 anos de idade que têm tamanho, capital e influência suficientes para peitar nações inteiras sem que esses governos tenham participação societária nelas. Os governos fazem vista grossa às afrontas legais dessas empresas, pois estão interessados no ramo de atuação delas — a simbiose que existiu entre o governo Obama e a Big Tech e a simbiose que existe hoje entre o governo Trump e a mesma Big Tech, principalmente o Facebook, são exemplos disso. O poder da Big Tech hoje é um caso emblemático de como os interesses da sociedade estão agora, na escala de prioridades, em um degrau abaixo dos interesses de um punhado de diretores e acionistas que, juntos, não chegam a sete dígitos. É uma discussão muito parecida com a das indústria do tabaco, das bebidas alcoólicas, da indústria do petróleo, das montadoras… A lista é longa.

A partir do momento que não usam seus poderes para reestabelecer o interesse da sociedade sobre o interesse privado, os governos se tornam coconspiradores das grandes empresas de tecnologia. Não é uma jogada à toa: os governos têm interesse em aproveitar desse poder enorme. Trump e a Besta do Palácio do Planalto, para ficar no exemplo mais escandaloso, sabem que políticas mais duras de Facebook e Twitter podem ter um impacto direto em seus futuros sucessos eleitorais. Mas isso é um assunto para outro Tecnocracia, que certamente virá.

A segunda razão pela qual é interessante rememorar a forma como as empresas foram formadas é que, lá na Itália quando as primeiras “compagnias” foram formadas, os donos já entendiam que, se todos precisam confiar absolutamente nos outros, era preciso ter comunicação constante. E a melhor forma de alcançar isso era colocar todos os funcionários dentro de um mesmo ambiente1. Nasceu ali o escritório.

Entre tantas panaceias que surgiram com a crise da COVID-19, uma das mais faladas é a provável migração do trabalho para o home office. Jamais precisaremos ir de novo ao escritório, os prédios comerciais serão transformados em residenciais, coworkings quebrarão, nosso equilíbrio entre vida pessoal e profissional finalmente será atingido… Alguns dos fatos que eu descrevi são reais: coworkings devem quebrar, mas mais pela overdose de negócios criados nos últimos três anos. Depois da cupcakeria, da paleta mexicana e o brigadeiro gourmet, os bairros de Pinheiros e Vila Madalena em São Paulo têm um coworking por esquina. Mas a maioria das afirmações prevendo o fim dos coworkings é mais um desejo íntimo que a maioria de nós, cansada de passar anos enclausurado dentro de um ambiente semi-hospitalar, torce para que aconteça.

A transição total para o home office não vai acontecer. De alguma maneira, a gente vai continuar replicando mais ou menos a mesma experiência surgida há séculos. Com algumas alterações.

“Open office”: onde as boas ideias vão para morrer

Em 1822, um sujeito chamado Charles Lamb escreveu uma carta para um amigo. Lamb trabalhava nos escritórios londrinos da Companhia Britânica das Índias Orientais. O tom da carta não era otimista. “Você não sabe como é cansativo respirar o ar dentro dessas quatro paredes, sem descanso, dia após dia, todas as horas douradas do dia entre dez e quatro da tarde”. No futuro, Lamba desejava “alguns anos entre a cova e sua mesa”. Soa familiar para você? No começo do século XIX a vida corporativa já esmagava a alma e os sonhos de milhões de pessoas pelo mundo, da mesma forma como esmaga a sua hoje. A descrição da carta do Lamb está numa reportagem longa da revista 1843 sobre o fim do escritório. Se você entende inglês, é leitura obrigatória — a 1843 é uma revista da The Economist e tem o acesso liberado, sem paywall.

“A carta do Lamb ressoa hoje já que, enquanto outros impérios caíram, o império do escritório triunfou sobre nossa vida profissional moderna”. Houve uma transformação lenta das “compagnias” italianas até o modelo praticado atualmente. Em 1911, o engenheiro Frederick Winslow Taylor escreveu um livro chamado The principles of scientific management em que definia algumas regras para fazer empresas operarem de forma mais objetiva. Foi o início de um movimento chamado Taylorismo. No escritório, o Taylorismo defendia que, dado que estudos da época mostravam que funcionários trabalhavam mais quando observados, a melhor disposição do mobiliário eram mesas coladas umas às outras em um grande galpão aberto. Era o começo do “open office” — e você achando que Google, Facebook e afins eram inovadoras. Só chefes tinham salas.

Dada a base, o escritório foi sendo aperfeiçoado nas décadas seguintes. De vez em quando, algumas ondas mudavam a organização do espaço. A partir da década de 1960, o “open office” foi perdendo espaço para um design que dava o mínimo de privacidade aos funcionários. Foi quando nasceram as baias e as salas de reunião. A moda continuou forte até o começo dos anos 2000, quando o Google abriu seu Googleplex no modelo de campus universitário e encheu a mídia mundial de reportagens mostrando o ambiente aberto e cheio de diversões que se tornaria o parâmetro para todas as empresas de tecnologia que se seguiram. O “open office” voltou com força, sem suas paredes e com um ambiente comum. Na tentativa de mostrar um desprendimento com a posição hierárquica, CEOs e presidentes alardeavam com orgulho que não tinham salas e que, em alguns casos, nem as mesas eram fixas. Você poderia chegar e trabalhar onde quisesse.

Algumas mesas e cadeiras; à direita, um balcão tipo de restaurante. No fundo, uma janela enorme.
Um dos muitos restaurantes dentro dos escritórios do Google, em São Paulo (SP). Foto: Rodrigo Ghedin.

Você vai encontrar algumas razões pelas quais o “open office” foi o design oficial dos escritórios das empresas de tecnologia. Havia a necessidade de mostrar que todos “são iguais”, ainda que a diferença de salários fosse astronômica e que alguns dos discursos não passassem de lorota — conheci o CEO de uma dessas grandes empresas no Brasil que não tinha sala, mas ocupava um canto isolado do escritório ao redor do qual não sentava mais ninguém. Havia a tentativa de explorar um conceito que os ingleses e os norte-americanos chamam de “serendipity” (me avisaram que Luciana Gimenez não participou do Tecnocracia passado. Não mais), ou como o acaso, o imponderável faz com que pessoas se encontrem e projetos profissionais ou relações pessoais floresçam.

O ponto é que, passados quase 20 anos dessa nova iteração do “open office”, dá para cravar que a ideia é ruim. Estudo atrás de estudo mostra que esse ambiente aberto em que todo mundo tem que aguentar os barulhos de todo mundo é péssimo para a produtividade. Primeiro que a suposta facilidade de interação é um mito. “Mesmo em espaços abertos com colegas próximos, pessoas que querem evitar interações têm uma enorme capacidade de fazê-lo. Elas evitam contatos visuais, descobrem a necessidade imediata de usar o banheiro ou caminhar ou se tornam tão enfurnadas em suas tarefas que desenvolvem uma surdez seletiva, talvez com a ajuda de fones de ouvido [nota do tradutor: quem nunca?]. Ironicamente, a proliferação de meios de interagir torna mais fácil não responder: trabalhadores podem simplesmente ignorar uma mensagem digital”, escreve Ethan Bernstein, professor da Harvard Business School, no artigo “A verdade sobre ‘open offices'”. Quando empresas analisadas por Berstein trocaram a arquitetura dos seus escritórios para o “open office”, as interações caíram 70%.

Se o problema fosse só o número de interações… “Em 2011, o psicólogo organizacional Matthew Davis revisou mais de cem estudos sobre ambientes corporativos. Ele descobriu que, ainda que o ‘open office’ incentivasse um senso simbólico de missão organizacional, fazendo com que funcionários se sentissem parte de uma empresa inovadora e relaxada, ele estava prejudicando a atenção, a produtividade, a criatividade e a satisfação dos trabalhadores. Comparado aos escritórios padrão, funcionários experimentavam mais interações não controladas, níveis mais altos de estresse e mais baixos de concentração e motivação. Quando David Craig fez uma pesquisa com mais de 38 mil funcionários, descobriu que as interrupções dos colegas eram prejudiciais à produtividade e quanto mais antigo o funcionário, mais ele sofria”, escreve Maria Konnikova numa reportagem da The New Yorker sobre escritórios abertos. Outro estudo mostrou que os ‘open offices’ são ruins para todos, mas especialmente para as mulheres.

O livro que eu li nos últimos anos que mais me influenciou no dia a dia chama Trabalho focado: Como ter sucesso em um mundo distraído, de um professor da Universidade Georgetown chamado Cal Newport. Já falei do livro no Tecnocracia. Nele, Newport argumenta que a atenção, tal qual o bíceps, tem que ser encarada como um músculo: tem que treinar para não atrofiar. Nossa atenção hoje já é disputada demais por todos os serviços online e, nesse contexto, os escritórios abertos jogam contra. Se você quer ser capaz de se concentrar em um assunto para desenvolver um trabalho significativo, tem que mergulhar sua atenção em espaços de até 1h30 totalmente centrado naquela tarefa. Fazer isso com a nossa atenção esmigalhada de hoje já é difícil. É preciso ter um ambiente fechado, privado, sem distrações, sem barulho desnecessário para te ajudar. É por isso que, até chegar o SARS-Cov-2, tudo indicava que o ‘open office’ estava em decadência. Houve quem defendesse que a baias estavam voltando. Daí todo mundo foi forçado a ficar em quarentena trabalhando e a panaceia apareceu. A próxima onda não envolve ambientes abertos ou fechados. Envolve o seu próprio ambiente.

A real do home office

Deixa um sujeito que trabalha em casa há três anos te esclarecer três pontos sobre o que é trabalhar de casa.

  1. Você não vai trabalhar de pijama. Sua tentativa vai durar algumas semanas, até você perceber que precisa definir uma rotina. O que leva ao “ponto 1.5”, que é: você não vai acordar às 10h da manhã. O que você não está vendo ainda é que, sem a rotina fixa, você vai estendendo o horário de trabalho cada vez mais para a noite. Chega um momento em que o expediente faz a curva e toma a sua rotina doméstica inteira. Se você não define horários rígidos de quando começar e quando terminar, você vai entrar num fluxo de preguiça e procrastinação e, ainda que reserve as 24 horas do dia, não vai conseguir terminar o que precisa.
  2. É bom ter um espaço isolado da sua vida pessoal onde você possa trabalhar focado. Sem sofá, sem poltrona no meio da sala, sem TV ligada, sem Netflix, Prime Video ou Globoplay tocando, de preferência com crianças entretidas com outra coisa que não seja fazer figuração na sua reunião.
  3. Essa não vale muito para agora, mas é bom sair de vez em quando. Antes da quarentena, eu ia trabalhar longe de cara duas ou três vezes por semana.

Os três pontos envolvem limite: é preciso criar fronteiras claras e respeitá-las. Qualquer deslize te coloca nessa situação de “termino depois”, “mereço mais uma hora de descanso”, que periga torná-lo(a) altamente improdutivo(a) ou, no extremo oposto, te fazer um(a) workaholic que não para de trabalhar nunca. Em fevereiro, no mês anterior à quarentena, eu estava prestes a fechar um contrato de locação de escritório para a Novelo — e que bom que surgiu um outro assunto profissional urgente para tratar que atrasou a assinatura. Mesmo tendo uma casa confortável, trabalhar do lar tem data de validade: a minha durou esses três anos. Está durando um pouco mais agora por causa da pandemia, mas eu sou o primeiro a te dizer que, assim que voltarmos a uma “normalidade”, a Novelo vai mudar. É preciso ter um espaço exclusivo ao trabalho, de preferência que não se misture com seu espaço de descanso. É isso que a maioria das pessoas entusiasmadas com o “home office” não entendem. Quer dizer, não entendiam até começar a pandemia.

Pesquisa da Consumoteca realizada no começo de maio mostrou que 73% dos trabalhadores mais jovens (entre 18 e 25 anos) disseram que, quando a crise da COVID-19 passar, preferem não trabalhar tempo integral em casa. Ou seja: não demorou dois meses para que três quartos dos trabalhadores mais jovens percebessem que, em casa, trabalha-se muito mais quando não se tem rotina. Não acho que seja exclusivo dos jovens. É natural que trabalhadores mais velhos, principalmente os que têm filhos, sintam saudades dos escritórios. Os escritórios, como bem define o Wall Street Journal, são uma bem-vinda separação das vidas profissional e pessoal.

Tem outro ponto também: essa experiência que estamos vivendo agora não é o “home office” moleque, raiz. É, na real, fruto de uma crise sanitária global. Bilhões de pessoas tiveram que reagir à pandemia e se adaptar, às pressas, para trabalhar e ter aulas dentro de casa. O Governo do Canadá mandou a seus funcionários uma cartilha de princípios. O primeiro deles é: “você não está trabalhando de casa, você está em casa, durante uma crise, tentando trabalhar”. Claro que isso é uma minoria. Aí caímos em outra parte importante da nossa experiência atual com “home office”: a questão cultural. As ferramentas de comunicação necessárias para que tivéssemos essa discussão sobre “home office” existem, com uma ou outra limitação, há pelo menos 10 anos. Plataformas gratuitas de videoconferência estão por aí há muito tempo, a colaboração por plataformas de produtividade online existe com dezenas de funcionários debaixo do mesmo teto. A questão não foi tecnológica. A pandemia provocou uma mudança forçada em algo mais poderoso: a cultura corporativa.

Desde que você entrou de quarentena, quantas reuniões desnecessárias pelo Zoom teve? Dezenas, eu aposto, principalmente em abril. Com o começo do home office forçado, a cultura corporativa estava presente numa rotina atulhada de Zooms, webinars, reuniões desnecessárias… Foi esse o pano de fundo de um livro chamado Olá, preguiça, publicado em 2004 pela psicoanalista francesa Corinne Maier. “A crítica da cultura corporativa se tornou um instantâneo best seller internacional. Maier argumenta que, longe de ajudar a eficiência, escritórios são inúteis já que trabalhadores perder muito tempo indo a reuniões, repetindo os jargões e fazendo, de fato, muito pouco trabalho. Ela descobriu que poderia fazer tudo o que precisava em apenas duas horas de manhã”, explica a 1843. Foi esse o modelo replicado quase na íntegra remotamente. Com tecnologia. O problema não é a tecnologia, é a mentalidade.

O home office basicamente replicou o modelo com o qual estamos todos acostumados, pelo menos até bater a fadiga de Zoom, essa expressão que, em 2019, não faria o menor sentido. Alguns chefes continuam nessa pegada. Algumas empresas no Brasil, depois de instituírem o home office, mandaram de volta para o escritório divisões inteiras pela queda de resultado. Claro que existe uma sopa aí: tem tanto a falta de costume de muita gente trabalhar de casa como o fato de estar atravessando uma pandemia que acontece uma vez por século. Mas não dá para ignorar a inércia da chefia que, ao ver um impacto negativo no resultado, volta para o modelo original de trabalho mesmo com os riscos à saúde. Não existe uma fórmula mágica para home office. Depende da divisão, depende da cultura da empresa, depende do porte da empresa, depende da mentalidade do chefe. Eu aposto meu braço direito que, nos próximos meses, muita gente vai voltar aos escritórios porque o plano original de “colocar para trabalhar em casa de qualquer jeito” não deu certo.

Tal qual o Googleplex há 15 anos, os planos de Google e Facebook estão influenciando milhares de empresas pelo mundo que acreditam na lógica do “se eles conseguem, eu também consigo”. Não é assim, bonitinho. Existem dezenas de fatores a se considerar. Uma situação hipotética básica: partindo do princípio de que a empresa é obrigada a prover todas as condições para que o(a) funcionário(a) consiga desempenhar sua função corretamente, quem paga a banda larga dele ou dela? Se a banda larga dá pane, como aconteceu com a da Claro uma tarde inteira de maio em São Paulo, qual será a reação da empresa? Na teoria, o funcionário não poderá ser responsabilizado já que, como a empresa não custeia algo que é sua responsabilidade, o funcionário está livre para contratar o plano de banda larga que quiser, como o mais lento, por exemplo. Quem paga a cadeira? O monitor? Quem garante a ergonomia do ambiente de trabalho? Se o funcionário desenvolve uma Lesão por Esforço Repetitivo (LER) no home office, a empresa tentará alegar que não tem responsabilidade? Existem regulamentações que determinam a qualidade do ar e a temperatura dos escritórios. Você vai cuidar disso na sua casa?

Há um lado perverso que está sendo escondido pelo discurso de “daremos mais liberdade para nossos funcionários”: a migração de home office tende a diminuir os custos das empresas, repassando aos funcionários uma série deles. Peguemos como exemplo o Facebook: no seu anúncio, Mark Zuckerberg deixou claro que haverá renegociação salarial de quem escolher trabalhar de casa. O setor de relações públicas do Facebook se apressou em dizer que trata-se de uma prática comum: a empresa considera o custo de vida na cidade onde o funcionário vai e “ajusta” o salário a ele. A região de San Francisco é uma das mais caras dos EUA, senão do mundo. Com milhares de funcionários se realocando para cidades com custo de vida menor, os custos do empregador caem junto.

Essa migração já começou. Em maio, o valor médio dos aluguéis em San Francisco caiu 9,2%, maior queda desde 2013. Segundo a Zumper, o custo de regiões ainda mais caras naquele miolo, como Mountain View (onde está o Google) e Menlo Park (onde está o Facebook), caiu, na ordem, 15,9% e 14,1%. A política do Facebook foi criticada até por outros fundadores do Vale do Silício. David Heinemeier Hansson, fundador do Basecamp e criador do Ruby on Rails, escreveu um livro sobre trabalho remoto chamado Remote: office not required e sintetizou a política do Facebook em um tweet: “o Facebook vai seriamente diminuir o salário de alguém que se mudar (de cidade)? Isso é bárbaro” (no sentido de horrendo, não de fantástico, por favor).

A questão é ter como opção

Foto da área de trabalho/computador que Guilherme usa.
Home office, como o meu, tem data de validade. Foto: Arquivo pessoal.

Tente entender o que eu não estou defendendo aqui. Eu não sou contra o home office. Uma das violências mais cotidianas com as quais a gente já se acostumou é o trânsito. O trabalhador brasileiro gasta até 2 horas por dia em média indo e voltando do trabalho — esse dado é do Rio de Janeiro. Em São Paulo, a média é de quase 1h30. É muito tempo desperdiçado.

Um mundo ideal para evitar esses deslocamentos enormes seria trabalhar perto de casa. O problema é que em cidades como São Paulo, por exemplo, existem bairros de trabalho e bairros de viver. Existe uma concentração de empresas em determinadas regiões, como Faria Lima, Vila Olímpia e o Centro. Esse desequilíbrio força centenas de milhares de pessoas a diariamente encherem as ruas com seus veículos ou lotar o transporte público. Os mais pobres vão sendo empurrados para as periferias, onde o custo imobiliário é menor, o que significa deslocamentos diários maiores. Morar perto do trabalho em São Paulo, principalmente o trabalho nesses pólos, é um óbvio privilégio financeiro. Há também a concentração de empresas em outras cidades por questões tributárias. Você, em busca de emprego, já se perguntou por que tanta empresa de tecnologia está em Barueri? Talvez porque o fundador/presidente more em Alphaville, mas a razão mais provável é a alíquota de ISS mais baixa da região metropolitana de São Paulo. Em outras palavras: menos impostos. Aí surge a nação do fretado, esse exército de gente que acorda 4h30 para se arrumar, tomar café e ir dormir num ônibus em direção ao escritório a algumas horas de distância. O home office ajuda a resolver uma parte desse problema.

Mas não tem uma solução pronta. Home office é uma opção excelente para trabalhar, mas empresas devem continuar com seus escritórios — talvez em espaços menores. Há um fator que a gente não considera quando fala em trabalho remoto que é a socialização. A única coisa de que eu sinto falta do ambiente corporativo é parar o trabalho no meio da tarde para tomar um espresso e comer uma tapioca com gente querida. Do resto, não tenho saudade nenhuma, principalmente daquelas situações que fariam os roteiristas do The Office corarem de vergonha ou do Game of Thrones que ocupa mais o tempo do que a função primordial do seu emprego. Essa socialização é importante para saúde mental de todo mundo, especialmente os mais jovens. Pense no tanto de tempo que você passou, no escritório ou fora dele, com pessoas do trabalho quando você tinha 20, 21 anos e estava começando na carreira. Essa é uma fase da vida em que a socialização é importante. Não há home office ou happy hour pelo Zoom que preencha esse tipo de lacuna. Concordo 100% com a teoria do Scott Galloway, do podcast Pivot, de que o público mais jovem deverá preferir a vida do escritório. Você, já mais velho, casado(a) e que não aguenta barulho, pode preferir o escritório em dias específicos em que precisa se concentrar, por exemplo. De novo: quando passar a quarentena, uma das minhas decisões já tomadas é encontrar um novo escritório para a Novelo.

A questão do home office não envolve necessariamente apenas o ambiente físico, mas a quantidade de tempo que a gente passa nele trabalhando. Voltemos ao Império Romano, pai do modelo moderno de companhia. “Nossa divisão entre diversão e trabalho reverte à praticada entre os romanos. O que nós fazemos majoritariamente é trabalho e, quando não estamos trabalhando, estamos descansando”, explica a professora de clássicos da Universidade de Cambridge, Mary Beard. Na Roma antiga, como bem nota a 1843, era o contrário. O estado normal de diversão era chamado (em latim) de “otium”. Algumas vezes, quando você não estava descansando, você estava trabalhando, que é o “negotium”. A conclusão do artigo da 1843 é certeira: “Ainda que a palavra para negócios em inglês — ‘business’ — tenha uma aura embutida de ação e indústria, o latim ‘neg-otium’ — literalmente ‘sem prazer’ — carrega um quase relutante senso de prazer negado”. E isso, no escritório da firma ou no home office, não vai mudar tão cedo. Então levanta da cama, toma um banho, veste uma roupa e defina horários rígidos para trabalhar. Senão, você vai estar felicíssimo de não pegar trânsito, sem perceber que usa essas e todas as outras horas economizadas… trabalhando.

Foto do topo: Annie Spratt/Unsplash.


  1. Claro que existe um limite: a Companhia das Índias Orientais não ia enclausurar o almirante responsável pela sua esquadra num cubículo.

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4 comentários

  1. Ótimo como sempre!

    Algo que ganhou um estigma negativo de “inflexível”, “falta de autonomia” e “burocracia” é a ideia de bater ponto. Talvez seja tudo isso mesmo, mas como funcionário eu sempre preferi e agora faz mais sentido no mundo sem fronteiras entre trabalho/casa.

    Eu senti diferença na carga de trabalho em casa no início porque realmente houve impactos e ações emergenciais necessárias, mas logo voltou a normalidade pré-crise e horários comuns. O limite do ponto é até mais efetivo que o físico, porque meu computador nem desbloqueia sem bater ponto….em outras trabalhos tinha ainda aquele negócio de ver algumas coisas de noite em casa.

    Se o preço desse limite é precisar anexar um atestado ao ir no médico e tomar cuidado para fechar horas no mês, vou preferir paga-lo do que a cilada do “horário flexível” que é vendida como benefício.

  2. Como sempre, um excelente texto, Guilherme.
    Tenho 26 anos e trabalho em uma multinacional brasileira no setor de papel e celulose. Estou em quarentena há 3 meses e já fomos notificados de que continuaremos realizando o teletrabalho pelo menos até o fim do mês.
    Sinto na pele muito do que foi relatado no texto. À exceção dos fins de semana, é difícil definir um momento onde não estou trabalhando ou pensando que deveria estar. Mesmo à noite, quando estou tendo aula, é um olho no professor e outro no Outlook ou SAP.
    Torço para que não haja uma mudança em minha posição, pós-quarentena, que dite o teletrabalho de maneira fixa.

  3. Guilherme.

    Penso se não é o momento oportuno para por em prática uma versão 2.0 da ideia do Faria Lima (o prefeito, não a avenida) de uma cidade polinuclear, areas mistas compostas por residencias, comércios e escritórios(já existe um programa da prefeitura de São Paulo a respeito, mas algo tímido) a fim de reduzir o trânsito.
    Escritórios de coworkers com uma infraestrutura de comunicação decente, algo que ainda é deficiente em muitos locais, como na Faria Lima – a avenida, não no prefeito – incentivo para empresas “se espalharem” pela cidade tornaria a transição “Home Office da Pandemia” para “Home Office Por Opção” em algo valioso para todos: as empresas reduziriam o custo com aluguéis dado que sairiam dos pólos “Centro/Paulista/Faria Lima/Vila Olímpia/Berrini”, para os funcionários que trabalhariam em casa ou perto dela quando quisessem (os coworkers, no caso), e o mercado imobiliário com a valorização de áreas em toda a cidade (sempre levo em conta São Paulo pelo gigantismo).
    Se o argumento contra for a falta de vontade do Estado em todas as suas esferas em promover um programa desse tipo, eu concordo, mas o mercado imobiliário/iniciativa privada já provou que consegue fazer: a Berrini só é o que é graças a Brookfield (agora Tegra) que criou um bairro comercial ‘do nada’.
    Parabéns pelo programa e estava com saudades da Luciana e da expressão “bonitinho”, ausente no último programa.

    Até

    1. Eu tenho dúvidas se depende só da vontade do governo, Ricardo. A prefeitura de SP, sob o Kassab, tentou muito emplacar a Nova Luz e não deu em nada. Claro, estamos falando de uma área MUITO degradada e o plano tinha vários buracos, mas notou-se, na época, uma falta de interesse enorme das empresas de saírem desse eixo. Tem que considerar nessa equação que muita empresa não quer sair dali. Abs,

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