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Em carta aberta, ex-funcionários do Facebook cobram outra postura da empresa ao lidar com discursos violentos de políticos

Zuckerberg no palco; ao fundo, letreiro diz "Combatendo notícias falsas".

Na última sexta-feira (29), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugeriu em um post nas suas redes sociais que responderia com violência as ações de cidadãos do seu próprio país que protestavam pela morte de George Floyd. O Twitter ocultou o post e limitou sua disseminação, alegando que ele feria suas diretrizes por “glorificar a violência”. O Facebook nada fez e seu CEO, Mark Zuckerberg, está desde então tentando justificar sua decisão, que precede o episódio e data de meados de 2019, quando o Facebook anunciou que não moderaria posts de políticos. A carta abaixo, assinada por algumas dezenas de ex-funcionários, explica muito bem a contradição desse posicionamento com os (supostos) valores da rede social e, em última análise, com os de qualquer país que se diga democrático. Ela foi publicada originalmente no New York Times.


A liderança do Facebook deve reconsiderar suas políticas em relação ao discurso político, começando pela checagem de fatos de políticos e rotulando explicitamente os posts danosos.

Como primeiros funcionários em equipes de diversas áreas da empresa, nós criamos as Diretrizes da Comunidade originais, contribuímos com código para produtos que deram voz às pessoas e figuras públicas, e ajudamos a criar uma cultura corporativa em torno da conexão e da liberdade de expressão.

Crescemos no Facebook, mas ele não é mais nosso.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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O Facebook em que entramos desenvolveu produtos para empoderar as pessoas e políticas para protegê-las. O objetivo era permitir o maior nível de liberdade de expressão possível, a menos que isso causasse danos explicitamente. Nós discordávamos frequentemente, mas todos entendíamos que manter as pessoas seguras era a coisa certa a fazer. Agora, aparentemente, esse compromisso mudou.

Nós não trabalhamos mais no Facebook, mas não o negamos. Também não o reconhecemos mais. Continuamos orgulhosos do que construímos, gratos pela oportunidade e esperançosos pela força positiva que ele pode vir a ser. Mas nada disso significa que temos que ficar quietos. Na verdade, temos a responsabilidade de levantar nossas vozes.

Hoje, a liderança do Facebook interpreta a liberdade de expressão como se não devesse fazer nada — ou quase nada — para interferir no discurso político. Ela decidiu que aqueles que elegem as autoridades devem ser mantidos em um nível inferior ao daqueles que governam. Um conjunto de regras para você, e outro para qualquer político, do seu prefeito ao presidente dos Estados Unidos. Isso expõe dois problemas fundamentais.

Primeiro, o comportamento do Facebook não corresponde ao objetivo declarado de evitar qualquer censura política. O Facebook já atua, como disse Mark Zuckerberg na sexta-feira, como “árbitro da verdade”. Ele monitora o discurso o tempo todo quando adiciona avisos aos links, enfraquece conteúdos para reduzir sua disseminação e verifica o discurso político de não-políticos.

Esta é uma traição aos ideais que o Facebook alega ter. A empresa à qual aderimos valorizava dar aos indivíduos uma voz tão alta quanto a do seu governo — protegendo assim os fracos, não os poderosos.

O Facebook agora subverte esse objetivo. Ele afirma que incluir avisos no discurso de um político é inapropriado, mas remover conteúdo dos cidadãos é aceitável, mesmo que ambos estejam dizendo a mesma coisa. Essa não é uma posição nobre em favor da liberdade. É incoerente e, pior, é covarde. O Facebook deveria submeter os políticos a um escrutínio mais elevado do que seus eleitores.

Segundo, desde o início do Facebook, pesquisadores aprenderam muito mais sobre psicologia de grupo e a dinâmica da persuasão em massa. Graças ao trabalho realizado pelo Dangerous Speech Project e muitos outros, entendemos o poder que as palavras têm de aumentar a probabilidade da violência. Sabemos que o discurso dos poderosos pesa mais que os outros. Ele estabelece normas, cria uma estrutura permissiva e, implicitamente, autoriza a violência, o que é agravado pela amplificação algorítmica. A liderança do Facebook tem falado com esses especialistas, com defensores e com organizadores, mas ela ainda parecem empenhados em deixar a rédea solta aos poderosos.

Então, o que achamos disso? Se todo discurso dos políticos é digno de notícia e todo discurso digno de notícia é inviolável, então não há linha que as pessoas mais poderosas do mundo não possam cruzar na maior plataforma do mundo — ou pelo menos nenhuma que a plataforma esteja disposta a impor.

O post do presidente Trump publicado na sexta-feira não só ameaça a violência do Estado contra seus cidadãos, como também envia um sinal para milhões de pessoas sugestionáveis ao que diz o Presidente. A política do Facebook permite que esse post permaneça no ar, intocado. Em uma era de tiroteios transmitidos ao vivo, o Facebook deve conhecer o perigo disso melhor do que a maioria de nós. A retórica de Trump, impregnada na história do racismo norte-americano, tem como alvo pessoas que o Facebook não permitiria repetir suas palavras de volta para ele.

É o nosso desgosto compartilhado que motiva esta carta. Estamos decepcionados em ver algo que construímos e em que acreditávamos que faria do mundo um lugar melhor sair dos trilhos tão profundamente. Entendemos que é difícil responder a estas perguntas em larga escala, mas também foi difícil construir a plataforma que criou estes problemas. Há uma responsabilidade em resolvê-los, e resolver problemas difíceis é o que o Facebook faz de bom.

Aos funcionários atuais que estão se manifestando: nós os vemos, os apoiamos e queremos ajudar. Esperamos que vocês continuem a se questionarem com a pergunta que paira nos cartazes de cada um dos escritórios do Facebook: “O que você faria se não tivesse medo?”

Para Mark: sabemos que você pensa profundamente nessas questões, mas também sabemos que o Facebook deve trabalhar para reconquistar a confiança do público. O Facebook não é neutro, nunca foi. Tornar o mundo mais aberto e conectado, fortalecer as comunidades, dar voz a todos — essas não são ideias neutras. A checagem de fatos não é censura. Rotular um chamado à violência não é autoritarismo. Por favor, reconsidere a sua posição.

Prossigam e sejam fortes.

Sinceramente, alguns de seus primeiros funcionários:

Meredith Chin, Adam Conner, Natalie Ponte, Jon Warman, Dave Willner, on behalf of Ezra Callahan, Chris Putnam, Bob Trahan, Natalie Trahan, Ben Blumenrose, Jocelyn Blumenrose, Bobby Goodlatte, Simon Axten, Brandee Barker, Doug Fraser, Krista Kobeski, Warren Hanes, Caitlin O’Farrell Gallagher, Jake Brill, Carolyn Abram, Jamie Patterson, Abdus-Salam DeVaul, Scott Fortin, Bobby Kellogg, Tanja Balde, Alex Vichinsky, Matt Fernandez, Elizabeth Linder, Mike Ferrier, Jamie Patterson, Brian Sutorius, Amy Karasavas, Kathleen Estreich, Claudia Park

Foto do topo: Anthony Quintano/Flickr.

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