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Na era da auto-exposição exagerada, silêncio não significa incompetência

Piscina olímpica da Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016, vista de cima, com parte das arquibancadas aparecendo na foto.

Este Tecnocracia vai contar três histórias diferentes que, à primeira vista, não têm relação entre si. No fim a gente amarra.

Primeira história

A cada quatro anos, o brasileiro se lembra que existem outros atletas além dos futebolistas1. O padrão foi quebrado em 2007, quando o espectador conheceu um sujeito de 21 anos com cara de bom menino chamado Thiago Pereira. Thiago foi a principal atração de um Pan-Americano no Rio de Janeiro festejado por ser o primeiro evento esportivo de grande escala em décadas no país. Você pode não dar muita atenção, mas o Pan é uma operação de guerra: mais de 5,5 mil atletas competindo em 332 eventos esportivos. É preciso o mínimo de organização e o fato de ter organizado um Pan de sucesso credenciou o Brasil para o nababismo da Copa do Mundo de 2014 e da Olimpíada de 2016 também no Rio de Janeiro. Ah, bons tempos em que tudo parecia cheio de potencial e beleza, sem que o brasileiro suspeitasse do 7 a 1 ou do investimento de bilhões de reais em complexos esportivos totalmente abandonados e obras de infraestrutura até hoje inacabadas. O Tecnocracia adora animar seus ouvintes logo no começo de cada episódio.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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Enfim. Voltando ao sujeito de 21 anos chamado Thiago Pereira. Naquele clima de euforia, o brasileiro viu, pela TV ou nas arquibancadas, a ascensão fulminante de um nadador que mostrava muito potencial. As oito medalhas (6 de ouro, 1 de prata e 1 de bronze) transformaram Thiago no atleta que mais ganhou medalhas numa mesma edição do Pan. É verdade que ele já tinha nadado na Olimpíada de Atenas três anos antes, sem resultados muito empolgantes. A pressão emocional na sua cabeça foi tão grande que Thiago saiu da piscina e vomitou. Normal, competir numa Olimpíada com 18 anos deve ser foda.

No Pan, a história foi diferente. O desempenho excelente fez Thiago ser festejado durante os meses seguintes como o grande nome da natação brasileira depois de Gustavo Borges. O Gustavo foi o principal nome de uma geração forte que apareceu na década de 1990: junto dele estavam Fernando “Xuxa” Scherer (que você deve conhecer d’A Fazenda) e Teófilo Ferreira. Thiago Pereira virou queridinho da publicidade, sua mãe virou figurinha constante em reportagens esportivas pelo jeito animado e exagerado como torcia pelo filho — e eu já vou dizer que, se meus filhos competirem num Pan, Mundial de Natação ou Olimpíada na vida, eu certamente serei ainda mais escandaloso. As expectativas aquáticas do Brasil estavam depositadas naquele sujeito alto, forte e com cara de bonzinho. Eram sobre aqueles ombros amplos que estava a responsabilidade de conseguir o que Borges, Scherer e companhia não conseguiram: uma medalha de ouro.

Chegou 2008 e a Olimpíada de Pequim. As provas seriam todas no Cubo d’Água, a instalação olímpica mais bonita que já vi (vi pela TV; já fui à China, mas não visitei o Cubo). Para encurtar uma história longa, o Brasil saiu do Cubo d’Água com o ouro no peito, mas não apoiado no peitoral de Thiago Pereira. Durante os jogos, do ponto cego do público em geral apareceu um outro sujeito com ainda mais potencial que Thiago Pereira: Cesar Cielo. O sujeito alto, loiro e bonachão foi arrebentando suas baterias nos 50 metros livres até chegar na final e, sem dar uma única respiração, atravessar a piscina inteira de ponta a ponta para conseguir a primeira medalha de ouro olímpica da história da natação brasileira. Depois de dedicar meses a outro nadador, o Brasil tentava entender quem era aquele sujeito que tinha entrado para a história sem que ninguém soubesse exatamente como.

De vez em quando a gente aposta no cavalo errado — e tomarei muito cuidado aqui para não diminuir a carreira do Thiago Pereira. Ele é um dos melhores nadadores que o Brasil já produziu, ganhou medalha olímpica de prata em Londres (2012), bateu inúmeros recordes. Sem dúvida, nenhum brasileiro foi melhor no medley, a prova que congrega os quatro estilos de natação: costas, peito, borboleta e crawl, nessa ordem. Thiago foi detentor da melhor marca mundial do 200 m medley. Os anais da natação brasileira guardarão Thiago Pereira.

O ponto é que a história nunca é absoluta, mas relativa. Todo atleta vai se desenvolvendo, tanto em termos técnicos como físicos, até atingir o que se chama de maturidade atlética. É quando o sujeito está bombando, no auge. Desde a infância ele ou ela se prepara para esse momento, em que tem infraestrutura, corpo preparado, técnica, entende a pressão emocional das competições. É quando se esperam os melhores resultados, aquelas marcas e títulos que, décadas depois, a(o) atleta vai explicar em detalhes para netos e netas até que eles não aguentem mais e mandem um “porra, vó(vô), de novo essa história?”.

Mesmo com todo o potencial, Thiago Pereira teve o azar de atingir sua maturidade atlética ao mesmo tempo em que apareceu o que se pode considerar uma das melhores gerações de natação dos Estados Unidos. Em dezenas de baterias, quem estava na raia ao lado do brasileiro era um sujeito chamado Michael Phelps, possivelmente o melhor nadador homem da história (tem uma disputa ali com o Mark Spitz e, talvez, com o Ian Thorpe). Entre as mulheres, a gente está vendo agora uma atleta que, à la Simone Biles e Serena Willians, tem tudo para ser a melhor da história — se coronavírus não impedir a Olimpíada de Tóquio, pode anotar que a Katie Ledecky vai arrebentar.

Não foi só a geração norte-americana. Menos de um ano mais novo que Thiago, Cesar Cielo planejava aparecer ao mundo na Olimpíada de 2008, mas ganhar corpo e experiência para competir a sério pela medalha de ouro só quatro anos depois, em Londres. O ouro de cara foi uma excelente surpresa. Ao atingir de primeira o que nenhum brasileiro jamais tinha conseguido, Cielo virou o maior nome da natação brasileira, posto que ocupará até que alguém consiga o que ele não conseguiu — possivelmente um bicampeonato olímpico.

Há outro fator determinante aí: a prova especialidade do Cielo, os 50 metros livres, é o filé mignon da natação. Mesmo quem nunca deu uma braçada na vida se entretém com aqueles oito atletas se jogando na água e batendo pernas e braços desesperadamente para chegar ao outro lado. Provas de velocidade são sempre as mais celebradas, seja na terra seja na água — você pode não entender nada de atletismo, mas sabe quem é o Usain Bolt e se entretém com as finais olímpicas dos 100 metros rasos. Pois bem: a prova do Cielo é os 100 metros rasos da piscina. A antecipação, a tensão da largada esperando o sinal sonoro, a adrenalina da corrida, o detalhe da chegada — todo mundo consegue curtir isso, ao contrário dos 400 metros de costas, por exemplo (uma das minhas provas preferidas já que meu estilo preferido é costas, consequência da corcunda que carrego desde a infância).

Cielo quase não frequentou o noticiário antes do ouro por ter feito escolhas diferentes: em vez de treinar no Brasil, foi para o Alabama, nos Estados Unidos, treinar com um sujeito especializado em velocistas chamado Brett Hawke. Escolheu as provas a dedo segundo seu roteiro de florescimento. Cielo nadou no mesmo Pan onde Thiago tinha aparecido ao mundo. Mais do que ganhar três medalhas de ouro e uma de prata , Cielo já dava sinais do que seria capaz: pela primeira vez, um atleta da América do Sul nadava os 50 metros abaixo da marca dos 22 segundos. O Pan foi mais uma etapa para um objetivo maior. Após o Rio de Janeiro, Cesão não aparecia em nenhuma publicidade. A única cobertura da imprensa que recebeu foi um longo perfil escrito pela revista piauí, em seus primeiros anos de vida, no qual a repórter Dorrit Harazim acompanhou os treinamentos e a vida de Cielo na Universidade de Auburn. Os anos posteriores a Pequim foram de arregaço. Nos três mundiais de natação após a Olimpíada, Cielo lavou o chão com os rivais e conseguiu o raro tricampeonato mundial nos 50 metros. Ninguém nadou mais rápido no mundo que o brasileiro. Em 2009, a consagração final: Cielo completou os 50 metros em competição no Clube Pinheiros em impressionantes 20 segundos e 91 milésimos, recorde mundial em piscina longa. É a marca da prova que mais durou na história da natação masculina.

Na Olimpíada seguinte, em Londres, Cesão não conseguiu defender seu título e levou medalha de bronze. Thiago Pereira conseguiu sua primeira medalha, de prata. Os ânimos eram diametralmente opostos.

Segunda história

Na metade da década de 2000, uma mesma história se repetiu em dois lugares distintos. Um pequeno grupo de colegas de trabalho, incomodados pela dificuldade em encontrar e publicar vídeos na internet, se reuniu para criar uma plataforma online focada em vídeos. O primeiro produto de uma mesma ideia apareceu em 2004, no Rio de Janeiro, quando os radialistas Ariel Alexandre e Edson Mackeenzy, colegas na Jovem Pan, colocaram no ar um site para publicação e visualização de vídeos chamado Videolog. O segundo produto dessa mesma ideia apareceu no ano seguinte, bem longe das terras cariocas. Steve Chen, Chad Hurley e Jawed Karim trabalhavam juntos no PayPal quando também notaram a dificuldade em achar vídeos online do que tinha acabado de acontecer. O trio se pôs a trabalhar e, em abril de 2005, inaugurou uma plataforma para publicar e consumir vídeos na internet chamada YouTube. O primeiro vídeo, publicado em 23 de abril de 2005, registrava Karim, o cofundador menos conhecido, em frente aos elefantes do zoológico de San Diego. São curtos 18 segundos que já entraram para a história da humanidade.

Foto de rosto de Edson Mackeenzy rindo.
Foto: LinkedIn/Reprodução.
Da Baixada Fluminense para San Diego, as diferenças são suficientes para decidir o destino de cada uma das ideias. Ainda que tenha surgido um ano depois que a “irmã” brasileira, o YouTube se tornou um dos maiores serviços online do mundo, responsável pelo surgimento de uma profissão (o youtuber), pela ascensão de milhares de influenciadores em micronichos, pela vista grossa ao uso de desinformação em nome do lucro e à infração de direitos autorais, pela intromissão em dezenas de democracias pelo mundo, seja pelas campanhas ou por youtubers que viraram políticos, e pela popularização da insuportável expressão “fala, galera”. Vista pelo retrovisor, os US$ 1,65 bilhão que o Google pagou pelo YouTube em 2006 parecem um troco de pinga. Em 2019, o site gerou quase dez vezes isso (US$ 15 bilhões) em publicidade. É um dinheiro que não vai todo para o Google — uma parte considerável é repassada aos youtubers. Ainda assim, trata-se de um negócio financeiramente saudável e crescente. O YouTube não vai desaparecer tão cedo.

As condições que tornaram o YouTube esse titã estão postas desde que Chan, Hurley e Karim tiveram a ideia de um site de vídeos. Para começo de conversa, o YouTube, com menos de um semestre de operação, amealhou US$ 12 milhões da Sequoia, o fundo mais tradicional do mercado de tecnologia. Quando Steve Jobs e Steve Wozniack trabalhavam numa garagem em 1978, foi um cheque de US$ 150 mil da Sequoia que deu à Apple seu primeiro escritório. Mesma coisa com a Atari, que inaugurou o mercado de videogames e para quem o próprio Jobs trabalhou. Mesma coisa com a Cisco, que desbravou o bilionário setor de hardware de conectividade. Mesmo coisa com Google, PayPal, Instagram, LinkedIn, Airbnb, Dropbox…

Mais que um fundo, a Sequoia é uma marca. Mais que o dinheiro, o círculo social dos fundadores e investidores foi fundamental. O YouTube é parte de um grupo conhecido no Vale do Silício como “PayPal mafia”, empresas que surgiram como decorrência da operação do PayPal. Foi o caso de funcionários que se encontraram trabalhando na carteira digital, como foi o do webdesigner Hurley e dos engenheiros Chan e Karim. Ou o caso também de gente que ganhou muito dinheiro com o PayPal e resolveu investi-lo em novos negócios, como foi o sócio Elon Musk — ao se tornar multimilionário pela venda do PayPal ao eBay, Musk investiu o dinheiro na criação da SpaceX e para entrar na Tesla, uma fabricante automotiva que já existia. O fato de fazer parte de um grupo tão unido ajuda não apenas para atrair dinheiro, mas também facilidades. E quando eu falo facilidades, não estou sugerindo nada ilegal: criar um negócio é difícil para caramba e é bom ter ao seu redor gente que já passou por aquilo para te aconselhar a tomar o melhor caminho.

Ter esses “conselheiros” ao seu redor te economiza tempo e dinheiro monstruosos, já que você não vai, necessariamente, ter que aprender por enfiar a cara no asfalto. “Nós temos um curriculum coletivo muito bom. Você não está apenas associado com a companhia — você está associado com outras pessoas associadas àquela companhia”, resume Scott Banister para o New York Times, ex-membro do conselho do PayPal que, ao sair da empresa, fundou uma startup chamada IronPort, vendida para a Cisco por US$ 830 milhões em 2007. A teia de relações entre os membros da “PayPal mafia” e seus negócios foi bem documentada em uma visualização da Flexmize.

Na Baixada Fluminense, a realidade era outra. Sem background técnico, Ariel e Edson chamaram dois conhecidos para construírem a plataforma. Em 2003, a estrutura de venture capital para tecnologia no Brasil era praticamente inexistente. Essa revoada de investidores-anjo que você vê no LinkedIn começa, de verdade, a partir de 2011, com executivos que fizeram fortuna em grandes empresas, sejam elas de tecnologia ou não, reservando uma parte da grana para investir em novas empresas. A solução, então, foi apelar para o banco. A dupla queria emprestar R$ 1 mil para comprar um servidor específico, mas o gerente relatou que tinha dificuldades em como encaixá-los nas categorias de negócios já definidas pelo banco. Sem fundos de investimento e com a dificuldade dos bancos, a dupla usou o limite do cartão de crédito como primeira fonte de financiamento, algo de arregalar os olhos tanto quanto ir a um “protesto a favor” do governo durante uma pandemia de coronavírus.

Como o dinheiro para o VideoLog demoraria a vir, a dupla criou ” empresa em paralelo para produzir comerciais e vinhetas para outras rádios para o Brasil. (A empresa) nos manteve durante 4 a 5 meses. Colocamos AdWords e rendia um dinheiro bom. Fomos um dos primeiros a receber os cheques do Google”, diz Ariel numa entrevista ao autor em 2016. O site também recebeu oferta de infraestrutura do Click21, a divisão de internet da Embratel, o que já poupava uma grande fortuna — o maior gasto de qualquer plataforma de vídeos é com a banda consumida. O servidor, porém, era responsabilidade de ambos, por isso rasparam o crédito do cartão para comprar. Sempre bom lembrar que estamos em 2003: a Amazon Web Services — e, junto dela, a popularização da computação em nuvem — só seria fundada três anos mais tarde.

O VideoLog foi crescendo de marketing boca a boca e fechando parcerias que lhe dava infraestrutura mais parruda para aguentar o aumento da demanda. Em 2006, a Oi Internet ofereceu um acordo parecido com o da Embratel, mais o servidor. Foi mais ou menos na mesma época que outro fato definiu o destino do VideoLog: a apresentadora de TV Daniela Cicarelli foi filmada transando com o namorado em uma praia europeia e o vídeo se espalhou com a velocidade de um rastilho de pólvora. Era tanta procura que a infra do VideoLog não aguentou. Com o dinheiro da Sequoia e uma infraestrutura mais parruda pela escala global, o YouTube segurou e virou o epicentro do vídeo. Tanto que foi o YouTube que Cicarelli processou e conseguiu bloquear por alguns dias nos meses seguintes. “Se tivéssemos os US$ 12 milhões do YouTube, não sofreríamos o impacto. O site caía o tempo inteiro. Na hora da oportunidade, não tem como investir. O VideoLog tinha o dinheiro que movimentávamos”.

Nos anos seguintes, o site cresceu, ainda que sem o amparo tecnológico ideal. No seu auge, o VideoLog atraía 5 milhões de usuários únicos por mês, o que, para 2007, era um número de respeito. A dupla rejeitou propostas de aquisição (uma delas chegou à mesa de ambos avaliando a plataforma de vídeos em US$ 2 milhões) e foi trocando de parceiro de conteúdo. Seu último foi o R7, portal da Rede Record. Em janeiro de 2015, após uma fusão mal negociada com a SambaTech, outra startup de vídeo nascida anos depois, e ao ver que o site andava há anos de lado, a dupla encerrou o VideoLog. A plataforma de vídeos que nasceu antes do YouTube não foi capaz de superar a maneira como as cartas estavam postas contra ela — num país com banda larga ainda ruim, sem estrutura de capital de risco ou investidores-anjo, sem uma forte cultura de empreendimento digital e sem outros negócios de internet fortes já consolidados e comprados por empresas maiores.

Terceira história

Quem é o empreendedor digital de maior sucesso do Brasil? É uma pergunta que exige o mínimo de contexto. Eu posso estar falando de quem mais ganhou dinheiro. Ou de quem criou a empresa de maior impacto, medido pela escala do produto/serviço. Não estou falando de nenhum dos dois. O maior empreendedor digital2 do Brasil é quem foi capaz de criar novos negócios sustentáveis seguidas vezes, de preferência diferentes uns dos outros. Criar um negócio é difícil para caramba, o que ajuda a explicar a história repetida que se vê no mercado de tecnologia: a pessoa cria um negócio, ganha projeção e vende. Em muitos casos, ela não volta ao mercado na posição de empreendedora, mas como apoio a quem está tentando. É comum, por exemplo, ver fundadores de empresas já vendidas, algumas de enorme sucesso, virarem investidores. É um caminho válido, claro: você usa a experiência acumulada durante a criação da própria empresa para guiar um terceiro e ainda ganha um bom dinheiro.

Existem alguns nomes que disputam o posto e eu aposto um container de Chicabon que você não conhece nenhum deles. Marcelo Lacerda, criador da Nutecnet, é um deles, um sujeito que abandonou uma carreira sólida em engenharia aeroespacial para tentar criar uma Microsoft no Rio Grande do Sul. Mas eu quero me focar em dois outros sujeitos com uma história muito parecida: Nivio Ziviani e Ivan Moura Campos.

Nivio Ziviani de óculos, rindo para a câmera.
Foto: LinkedIn/Reprodução.
Ivan Moura Campos segurando um microfone e olhando para o lado esquerdo da imagem.
Foto: UFMG/Reprodução.

Os dois seguiam uma carreira acadêmica de sucesso que começou muito antes da Arpanet estabelecer a primeira rede acadêmica de transmissão digital nos Estados Unidos. A partir de um certo momento, Nivio e Ivan tomam caminhos muito similares, principalmente no que diz respeito ao envolvimento com empreendedorismo digital. Ambos foram responsáveis por quebrar uma incômoda tradição das startups no Brasil: a falta de comunicação entre academia e mercado. Nos Estados Unidos, é comum que produtos e serviços pensados em pesquisas dentro das universidades sejam exploradas comercialmente. Pesquisadores viram empreendedores. Em internet não faltam exemplos, a começar pelo Google — o paper que detalha o algoritmo que elenca os resultados do Google, nascido como BackRub e renomeado para PageRank, nasceu do doutorado de Larry Page em Stanford. Você pode ler na íntegra o artigo em que Page e Sergey Brin explicam a tecnologia por trás do buscador que ambos fundariam meses depois.

No Brasil, há uma tradição de cisão entre academia e mercado para negócios digitais. No começo da internet brasileira, quem financiava novos negócios eram grandes empresas ou uma galera maluca que, contra tudo e todos, tentava, mesmo sem garantia de sucesso (vide Aleksandar Mandic, Jack London e o já citado Lacerda). Na última década, com o sucesso desses primeiros negócios, criou-se toda uma rede de investimentos para apoiar o desenvolvimento desses negócios. Quem monta uma startup hoje não é nada louco — é alguém que viu uma oportunidade grande de trabalhar muito em algo ainda não disponível ou de baixa qualidade e, quem sabe, ganhar uma grana lá na frente. Dos primeiros dias da internet brasileira aos últimos anos, há um mesmo comportamento: academia e mercado continuam separadas. Claro, você pode alegar que o Buscapé nasceu na USP, mas a gente não está falando de pesquisa acadêmica. Os quatro fundadores se conheceram na USP como poderiam ter se conhecido no Sebrae, no clube ou no futebol de quarta-feira.

Aí entram as trajetórias do Nívio e do Ivan. No fim da década de 1990, ambos estavam ligados ao Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) — Ivan já estava aposentado, Nivio era professor emérito. Em 1998, Nivio ligou para Ivan querendo lhe apresentar um projeto de mestrado que estava tocando com um aluno. O aluno, chamado Victor Ribeiro, queria fazer um sistema de busca e os códigos por trás eram bons o suficiente para pensar em um negócio. Para transformar o projeto em uma empresa, Nivio envolveu Ivan e o investidor Guilherme Emrich. Dali saiu o Miner, um buscador comprado pelo UOL um ano depois da sua estreia. Com as comissões pagas por lojas online, o Miner já operava no azul em seu primeiro ano e mandava tanto tráfego para o UOL que o portal quis hospedá-lo. Meses depois, entendeu que fazia sentido comprar e fez uma proposta que Ivan classificou como “irrecusável”3. Ninguém esperava uma saída tão rápida, mas não deu para ninguém reclamar.

No negócio seguinte, a dupla teria mais tempo para estruturar uma operação independente. Dois anos depois da Miner, Ivan, Nivio e Guilherme se uniram a outro grupo de pessoas: Berthier Ribeiro-Neto, Alberto Laender (ambos da UFMG), Marcus Regueira, do fundo FIR Capital, e alguns alunos de todos eles. A ideia era semelhante à explorada por Victor em 1998: aproveitar o vasto conhecimento de Berthier no campo de information retrieval, tecnologia base de qualquer sistema de buscas, para criar um outro buscador.

Berthier era — e ainda é — uma sumidade global no setor. Um livro escrito a quatro mãos com o chileno Ricardo Baeza-Yates chamado Modern Information Retrieval (“Recuperação moderna da informação”) é estudado até hoje em universidades pelo mundo. Além do papel técnico, coube a Berthier virar a cara da startup, nomeada Akwan (“ligeiro”, em guarani). Todos os sócios investiram US$ 500 mil do próprio bolso e a Akwan partiu. Dessa vez, não houve uma proposta de compra tão rápido. Com o estouro da bolha de internet, era preciso encontrar uma forma de ganhar dinheiro rápido, senão o negócio naufragaria, mesmo com todo o potencial acadêmico. Para convencer os principais portais do Brasil a usar seu sistema de buscas, o TodoBr, a Akwan dava acesso gratuito por alguns meses para mostrar a qualidade do serviços e convencê-los a contratar. O modelo engasgou no começo (o próprio Berthier admite que não tinha qualquer traquejo comercial), mas engrenou. Em quatro anos, a Akwan tinha 60 clientes, entre portais e grandes editoras. Sem muita ajuda externa, a startup operava no azul.

Quando conseguiram arrumar a casa, a Akwan recebeu o contato de um engenheiro brasileiro que trabalhava no Google querendo marcar uma reunião. “O Google tinha tecnologia e audiência, não precisava da gente. Pensei: ‘Vou recebê-los. Vou ser educado. Vai durar uns 50 minutos’.” Durou três horas e, dias depois, estava na mesa dos seis sócios uma proposta de aquisição pelo Google4. Seria a primeira compra do buscador fora dos Estados Unidos. Assimilado ao Google, a Akwan se transformou no centro de desenvolvimento para América Latina e Berthier virou o VP de pesquisa para América Latina.

Até a Akwan, a carreira de ambos em startups era praticamente unificada. É aí que elas bifurcam, como um Y. Há, no entanto, semelhanças nos caminhos dos dois. Cada um com seu grupo, Nivio e Ivan resolveram se aventurar no mercado de ciência de dados.

Em 2010, Ivan e um grupo de alunos fundaram a Hekima. Seis anos depois, Nívio, Alberto (da Akwan) e outros alunos da UFMG criaram a Kunumi. As duas se especializaram em criar algoritmos para ajudar empresas a lidar com grandes volumes de dados5. Em fevereiro, o iFood anunciou a compra da Hekima num modelo que o mercado conhece como “acqui-hire”: você assimila a empresa para ter os fundadores e funcionários trabalhando para você. Em pouco mais de duas décadas, Nivio e Ivan conseguiram, com a ajuda de tantas outras pessoas, claro, montar quatro empresas com mão de obra altamente qualificada saída diretamente da universidade e vender para quatro players, um deles a maior empresa de internet no mundo na época6. Anos antes da Kunumi, Nívio e um grupo criaram a plataforma de e-commerce Neemu, vendida para a Linx por R$ 55 milhões.

Os dois são exemplos raríssimos de um setor de internet nascido majoritariamente no mercado. Se o Brasil quiser ter produtos e serviços realmente inovadores nas próximas décadas, daqueles capazes de rivalizar com os saídos dos principais polo tecnológicos do mundo, onde academia e mercado se cruzam e se alimentam, são os exemplos de Nivio e Ivan que devem ser seguidos. Ainda assim, é bem provável que, caso você esteja almoçando num restaurante em Belo Horizonte e os dois entrem pela porta, ninguém tenha a menor ideia da importância desses senhores à internet brasileira.

Três histórias

Onde essas três histórias se cruzam? Sucesso não é reto. Sucesso pode ser bruto, mas ele sempre vai ser comparado ao que os outros estão fazendo, ainda que, em alguns casos, você atingir um nível 7 seja uma vitória pessoal ainda maior que o nível 9 alheio. Sucesso depende de trabalho duro, mas tem uma influência enorme de outras inúmeras variáveis, como timing e localização.

A gente vive numa época de autopromoção irrefreável. Qualquer mínimo movimento justifica post no Linkedin. Uma das principais lições que aprendi nos 13 anos de jornalismo é que, fora do barulho de quem está sempre em cima do palco ou de quem bate tambor para qualquer novidade, existe uma multidão de gente talentosa trabalhando duro em silêncio. São essas pessoas as responsáveis pelos movimentos mais relevantes do setor. É uma história comum para jornalista que não fica só no discurso oficial: durante anos eu fiquei enchendo o saco de um executivo para ir tomar café comigo. Era um tipo responsável pela atuação de um fundo muito importante no Brasil cujo estilo não era nem “low profile”; era “no profile” (ao contrário da Luciana Gimenez, por exemplo). Ele finalmente topou e, nas duas horas em que a gente ficou conversando, tirei algumas informações que viraram furos e fundamentaram reportagens sobre o mercado de internet.

Não vale só para economia. A vida é um teatro em que você projeta o que acha mais interessante e, da mesma forma, pode ser enganado por quem fala mais alto ou de maneira mais articulada. Quem nunca caiu no papo daquela pessoa mais expansiva que promete demais e entrega de menos? Ou descobriu alguém incapaz de falar duas palavras seguidas relacionadas, mas é gênio numa área? Como descobrir esses meandros? Há algumas maneiras de tentar desviar dessa armadilha. A primeira é a experiência — não há maneira mais definitiva de aprender do que se foder. Mas há outra que dói um pouco menos: informação. Se você sabe como algo se formou, o que define alguém competente ou não, ou o que está por trás de um processo, fica mais fácil entender quando o sujeito na sua frente está inflando o balão ou mentindo descaradamente. Existe um mundo extremamente interessante com pessoas muito talentosas que não embarcaram nesse fenômeno da auto-promoção.

Em raros episódios, o discurso exagerado é, veja bem, verdade. É por isso que eu incluí a história do VideoLog aqui. Uma dupla da Baixada Fluminense falando que inaugurou um YouTube antes do YouTube? Você pode achar que é exagero, até apurar a história, como eu fiz durante anos no início da minha carreira, e ver que é verdade. Mais que informação, existe a necessidade de entender que sucesso não é reto. Que o mundo é capaz de criar situações estranhas que vão contra nossas crenças. Às vezes, o sujeito está contando a própria história sem exagero, com 100% honestidade, mas surge uma história muito mais impactante que, pela simples comparação, torna a história original menor. De novo: é parte da vida. Mas vamos lembrar: na nossa geração LinkedIn, isso é exceção. É mais fácil que o cheiro de bullshitagem seja, simplesmente, bullshitagem.

A vida é um conjunto de muitas dúvidas e poucas certezas. Uma dessas certezas é que, se uma loja, restaurante ou profissional alega que é o melhor do mundo em alguma coisa, você pode ter uma certeza mesmo sem nunca ter experimentado o produto ou serviço: a de que aquilo não é o melhor. É simples: quem ocupa o espaço não precisa falar para ser reconhecido.

Foto do topo: Rodrigo Soldon Souza/Flickr.


  1. Crítica social foda, hein, Guilherme?
  2. Estou usando no masculino por que, ainda que existam movimentos muito importantes de incentivo ao empreendedorismo entre mulheres, as primeiras duas décadas da internet no Brasil tiveram negócios majoritariamente criados e comandados por homens. São raríssimas as mulheres nessas posições, o que ajuda a explicar o cenário atual e a dar peso às iniciativas como {reprograma} e Programaria.
  3. O padrão entre os empreendedores é não falar em cifras, a não ser que o negócio seja público. Até hoje não se sabe ao certo quanto o UOL pagou pelo Miner.
  4. De novo, ninguém comenta oficialmente o valor. Quando escrevi um perfil sobre Berthier, apurei que o valor se aproximava dos US$ 200 milhões.
  5. A Novelo, meu estúdio de data analytics, está no mesmo setor, ainda que tenha uma operação bem menor e mais artesanal que ambas.
  6. Hoje é a Amazon. Google é a segunda.

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5 comentários

  1. Estudei no DCC da UFMG e a história da Akwan, Nívio e Berthier é bem conhecida nos corredores de lá! Aguardando meu caminhão de Chicabom! :)

    1. nas letras miúdas da promoção tá escrito que quem estudou no DCC está automaticamente desqualificado, Wilson hehehehe

  2. Guilherme, ótimo texto, como sempre.

    Apenas senti falta do desfecho do episódio no formato escrito. Fiz o comparativo, e o texto termina por volta do minuto 29:40 do áudio. Os pouco mais de 4 minutos restantes não foram transcritos.

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