A falácia do setup perfeito: por que comprar não é criar
rizomatico.org
Gostei muito deste texto do Ricardo, sobre a falácia do setup perfeito: “a crença de que existe uma configuração de hardware e software cuja aquisição precede e garante a prática criativa.”
Lembrou-me de um conceito que ouvi na faculdade de comunicação, o consumo vicário, teorizado por Thorstein Veblen e que, acho eu, complementa o consumo conspícuo levantado ali. (Em termos simples, vicário é aspiracional; conspícuo é ostentatório.)
Pessoas que fazem muito com equipamentos supostamente limitados sempre me fascinaram. Muito mais do que o cara que entrega um trabalho bom, por vezes desalmado, usando o que há de melhor na categoria de produtos de que ele depende. Pela lógica exposta pelo Ricardo, tal preferência não é por acaso:
Tromp & Sternberg (2024) refinam: constraints [limitações] não têm efeito principal; o efeito é interativo, dependendo do tipo e do contexto. A implicação para o criador: não basta qualquer restrição — é preciso a restrição deliberada, escolhida, alinhada ao projeto. É a diferença entre ser limitado pelo hardware que se tem e escolher o limite como método.
Não tem equipamento no mundo que salve uma ideia ruim. Já um equipamento ruim pode entregar resultados maravilhosos.
Isso me lembra de uma discussão que tive há um tempo com um colega que pretendia comprar um celular bem caro, de mais de 4 mil reais, com as justificativa de que que seria pela câmera especial, que o faria tirar fotos incríveis. Sugeri então que ele comprasse um celular mais barato, de menos de mil, e que com a diferença de valor, pagasse um curso de fotografia, pois isso faria com que as fotos dele melhorassem muito de qualidade, muito mais do que qualquer celular poderia fazer.
Bom, sei que ele comprou o tal celular e faz um tempo que ele não fala comigo. Que estranho…
As vezes as pessoas não querem aprender, querem só ter.
Uma vez o dono da barbearia que eu frequento disse que comprou o iPhone 15 Pro Max (na época do lançamento) porque tinha uma câmera melhor, principalmente para o uso no Instagram. O infeliz não tem 500 seguidores e só posta stories de comida quando vai à restaurante. Já o instagram da barbearia está às moscas.
Pare celulares, esse entendimento se aplica bastante.
Durante a última semana, tive uma conversa parecida com um amigo. Ele me abordou dizendo que “precisava demais” ter o Fold 8.
Perguntei o que necessariamente ele iria fazer no Fold 8, que não conseguia fazer no S25 ultra. Basicamente, ele só navega nas redes e tira fotos – para as redes. Argumentei inclusive que, pelo o pouco que eu tinha visto à respeito, o Fold não tinha foco em fotografia.
Ele refletiu, e disse que não haveria nenhuma necessidade para a troca agora.
Acho que essa reflexão é sempre válida.
Ótimo texto – como um hobbysta de fotografia e interessado em tecnologia – eu já refleti horrores sobre essa questão: por que estou comprando? Melhora algo? É apenas aspiração? Após anos dedicados, já não tenho dúvidas se apenas gosto de câmeras ou de fotografar.
Apesar da questão estar pacificada dentro de mim, uma câmera em si foi fundamental na jornada. Em termos práticos, o smartphone é o ideal para fazer fotografia de rua e poderia fazer quase tudo com ele. Mas engrenou apenas quando comprei a câmera certa: divertida de usar, muito bonita e compacta. Já tinha tentado com smartphone e uma câmera antiga, mas não funcionou igual…mesmo que tecnicamente fosse possível.
Na prática, uma compra que se encaixaria como GAS, acabou sendo algo importante (fundamental?) para criar coisas que me orgulham muito hoje.
Pelo seu relato, entendo que a câmera dedicada apareceu no momento ideal: quando o que você já tinha — o celular — começou a te limitar.
Mais ou menos, eu já tinha uma câmera boa e até mais flexível, era uma DSLR de entrada com lente intercambiável. Eu comprei uma Fuji X100, que tem como foco a ~experiência~ de uso e design/construção, mas com uma lente fixa que não era das melhores. Em termos técnicos, eu até poderia tirar fotos melhores e diferentes com a DSLR e boas lentes, mas a vontade de usar não chegava nem perto de ser igual.
Ou seja, não era algo prático, mas (infelizmente) essa questão de design/experiência do produto fazem muita diferença para mim. Só que é difícil saber se não está só caindo no papinho do marketing, diferenciação ou tentando usar uma compra para servir de personalidade.
Existem coisas em atividades que chamam de “criativas” que são difíceis de explicar com racionalidade e, só quem vive isso vai entender. Eu também sou fotógrafo e afirmo: existem câmeras que te dão vontade de fotografar e outras não. Quais as razões? Não sei! Mas isso é verdade. Já debati sobre isso com vários colegas da área e determinados equipamentos te estimulam a praticar aquela atividade. Existe o consumismo, existe o capricho e a “equipamentite”. Mas se você pode comprar um equipamento melhor e ele vai te satisfazer de alguma forma, não vejo o porquê de se privar.
Dito isso, te entendo, @Gabriel. Eu passei um tempo sem fotografar por lazer e, depois que descobri as lentes mecânicas (não são lentes analógicas, são lentes modernas, porém mecânicas, ao invés de eletrônicas), o meu prazer e estímulos para fotografar aumentou muito. Não dá pra explicar, mas acontece.
Sempre acho que alguém que consegue criar com recursos mais limitados é mais capaz que alguém que tem “recursos ilimitados”, já que ela sabe os limites dos recursos e portanto como explorá-los até o limite e além