Bloco de notas #5

Imagem de divulgação do Fairphone 3.

Notas curtas e curiosidades do mundo da tecnologia que publicaria no Twitter se o Twitter fosse uma rede legal. (Não é.)

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Um smartphone feito com matéria-prima acompanhada desde a origem, muita reciclagem, que fiscaliza e tenta melhorar as condições de vida dos funcionários de chão de fábrica e feito para durar por anos graças a uma engenharia modular que permite trocar peças defeituosas ou defasadas sem se desfazer das demais. Esta é a premissa da fabricante holandesa Fairphone que, nesta semana, lançou a terceira versão do seu smartphone [TechCrunch, em inglês]. A expectativa do fundador e ex-CEO da Fairphone, Bas van Abel, é de vender 200 mil aparelhos por ano e, mais importante que isso, trazer à luz os problemas que sua empresa ataca. O Fairphone 3 será vendido apenas na Europa pelo preço sugerido de € 450 (cerca de R$ 2 mil).

→ A indústria da tecnologia está intimamente ligada à da mineração, que degrada o planeta e, não raro, submete sua mão de obra a situações desumanas. Falamos deste assunto em um Guia Prático no início do ano.

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Nesta semana, tivemos um novo apoiador da campanha de financiamento do blog: Luiz Felipe Zirbes. Obrigado!

O blog conta com a generosidade de leitores dispostos a pagar uma pequena mensalidade para continuar no ar. Você pode contribuir acessando a campanha do Manual no Catarse. A grana está curta e/ou tem outras prioridades? Compartilhe posts como este e indique o blog a quem você acha que gostaria de conhecê-lo. Tudo isso ajuda muito!

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Nesta semana, o The Intercept Brasil publicou uma matéria gestada pelo Manual do Usuário. Com dados exclusivos fornecidos pela Novelo, ela mostra a influência que o algoritmo do YouTube teve na ascensão de canais de extrema-direita durante as eleições de 2018.

Este é o primeiro fruto de uma nova frente de geração de receita para o blog: pautas que elaboro são oferecidas para serem publicadas primeiro por outros veículos, resguardado o direito de republicá-las posteriormente no Manualcomo foi o caso desta.

Além disso, também teve Tecnocracia novo: Cuidado para não virar o vovô Simpson gritando para nuvens.

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A Xiaomi fascina muitos consumidores vendendo celulares super poderosos a preços menores que os da concorrência. Vender produtos a preço de custo não sustenta empresa alguma, por isso eles precisam inventar outras formas de gerar receita em cima da base instalada, como veicular anúncios na interface do celular [Android Authority, em inglês]. Agora, segundo reportagem da Reuters [em inglês], a Xiaomi está adentrando no mercado de crédito em países como Índia e Indonésia, onde ela é forte. Para diferenciar-se de empresas tradicionais do ramo, a Xiaomi monitora toda a atividade do usuário em seus celulares. Segundo um banqueiro indonésio que viu uma apresentação da Xiaomi, “a empresa varre dados privados do proprietário do celular em busca de menções a mudanças no estilo de vida, como um divórcio ou uma promoção, como parte da sua abordagem para gerar uma nota de crédito”. Não existe almoço grátis — ou celular a preço de custo.

→ A Xiaomi abriu capital em julho de 2018. De lá para cá, o valor das suas ações despencou em cerca de 50% [Yahoo Finance, em inglês]. No segundo trimestre fiscal de 2019, resultado mais recente da empresa [Android Police, em inglês], apesar de um aumento expressivo na lucratividade (71% em relação ao mesmo período do ano anterior), a empresa teve o seu menor crescimento em receita e perdeu terreno no mercado doméstico chinês para a rival local Huawei.

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A versão gratuita do app CamScanner para Android distribuiu por algum tempo um tipo vírus [The Next Web, em inglês] que, depois de instalado, conseguia executar códigos e baixar na surdina outros apps capazes de gerar impressões de anúncios e assinaturas em serviços pagos. A Kaspersky, que descobriu e relatou o problema, avisou ao Google e prontamente a empresa removeu o app da Play Store, onde ele acumulava 100 milhões de downloads. O CamScanner é um app que digitaliza documentos usando a câmera do celular e converte os resultados para arquivos PDF.

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O Brasil é, definitivamente, um país “pós-PC”. A pesquisa TIC Domicílios, realizada pelo Cetic.br, NIC.br e CGI.br, constatou que 71 milhões de brasileiros acessam a internet apenas pelo smartphone [Mobile Time, em português]. O grupo representa 56% do total de brasileiros conectados — 126,9 milhões, ou 70% da população.

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No início do mês, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) notificou uma série de entes sobre a ilegalidade do chamado “health score” [Idec, em português], um sistema de pontuação baseado no histórico de saúde e outros dados relacionados que a empresa Dr. Consulta está montando. O objetivo é, com base nesta nota, cobrar preços diferenciados dos clientes de acordo com os riscos no desenvolvimento de doenças que demandem tratamentos custosos.

→ Coincidentemente, o Dr. Consulta foi tema da coluna do Marcelo Coelho na Folha [em português] em que ele aborda os serviços “médios”: pequenos luxos a que a população que ascendeu economicamente nos anos 2000 se acostumou e que agora, incapaz de pagar devido à crise e ao desemprego, tem sido sanada por alternativas “mais ou menos”. Coelho descreve assim o Dr. Consulta: “Um serviço de exames e atendimento médico rápido, atrás de uma clientela intermediária, capaz de fugir da saúde pública mas sem dinheiro de sobra para médicos e laboratórios tradicionais”.

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Foi uma semana de retratações formais na Apple. No primeiro comunicado [Apple, em inglês], a empresa desculpou-se pelo recente fiasco de privacidade da Siri, em que humanos ouviam uma pequena parte das conversas de usuários a fim de determinar a qualidade das interações, e prometeu mudanças para quando retomar esta prática, no fim do ano: em vez de terceirizados, serão funcionários diretos que ouvirão os áudios; a opção por deixar que eles sejam ouvidos virá desativada por padrão; e a retenção dos áudios por seis meses também será desativada por padrão.

→ A empresa também anunciou um novo programa [Apple, em inglês] para certificar e fornecer peças genuínas para assistências técnicas independentes consertarem iPhones fora da garantia. A iniciativa começará nos Estados Unidos, mas se expandirá para outros países.

→ Novos iPhones serão anunciados dia 10 de setembro [Daring Fireball, em inglês].

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O Facebook confirmou que consegue conectar contas do Instagram às do Facebook mesmo quando a opção correspondente no Instagram está desativada. Um porta-voz disse à Wired [em inglês] que “devido a Facebook e Instagram compartilharem infraestrutura, sistemas e tecnologia, conectamos informações sobre suas atividades em nossos serviços baseados em uma variedade de sinais. Conectar ou desconectar as contas no app não afeta isto”. Não deveria nos surpreender, mas ainda assim…

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Com a proposta de oferecer filmes clássicos e fora do circuito comercial por streaming, estreia em outubro o serviço do Belas Artes [Folha, em português], de São Paulo. Custará R$ 9,90 por mês. A partir de janeiro, haverá estreias simultâneas com o cinema da capital paulista, com bloqueio na cidade de São Paulo para não afetar a audiência presencial. A plataforma teve um investimento de R$ 2 milhões e é, até onde sei, a primeira do tipo patrocinada — o nome completo do serviço é acompanhado do do patrocinador, uma marca de cerveja. Que conceito.

→ Antes disso, em setembro, será a vez do norte-americano Kinopop estrear no Brasil [Canaltech, em português]. O Kinopop focará nas classes C e D com preço mais em conta (R$ 15 para quatro telas simultâneas) e 90% do seu acervo inicial, de 500 filmes, dublado. Um diferencial bacana é que a plataforma receberá as programações da TV Cultura e TV Caras logo após os programas serem exibidos nesses canais.

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Enquanto editava o último Tecnocracia, abri o YouTube para buscar o trailer do filme Mensagem para você, citado pelo Guilherme no texto. Topei, nos resultados, com versões piratas do filme completo. Esta versão [YouTube] me chamou a atenção: para fugir dos sistemas de detecção automática de pirataria da plataforma, a pessoa que enviou o filme colocou a imagem em cerca de 1/4 da tela e mexeu na frequência do áudio. É como se o filme tivesse sido dublado pelo elenco de Alvin e os esquilos. O mais bizarro? O vídeo tem mais de 100 mil visualizações.

→ Antes de Mensagem para você, de 1998, Tom Hanks e Meg Ryan já haviam protagonizado outra história de amor mediada por meios de comunicação. Em Sintonia do amor [YouTube], de 1993, os dois personagens se apaixonam com a ajuda das ondas do rádio — e embalados pela bela Strangers in the night na voz de Frank Sinatra. Para fechar a trilogia, só falta agora eles fazerem um filme em que se conhecem e se apaixonam pelo Tinder.

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É uma ciência simples: o exercício cria endorfinas e as endorfinas nos fazem felizes. No nível mais básico, a Peloton vende felicidade.

Ao ler a frase acima, você pode ter pensado que a Peloton é uma religião ou uma nova vertente de coach quântico. Na real, a Peloton é uma startup que vende esteiras e bicicletas ergométricas com telas grudadas que transmitem vídeo aulas por streaming. A frase quase esotérica acima está na introdução do documento que a Peloton submeteu às autoridades para iniciar a sua abertura de capital [Neofeed, em português].

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Um antigo agregador de feeds foi relançado esta semana. O NetNewsWire 5.0 [em inglês] tem código aberto, é gratuito e foi refeito do zero por um dos seus criadores. É um app para macOS (uma versão para iOS está nos planos) e, mesmo dentro da pequena bolha que usa computadores da Apple, arrisco dizer que o grupo dos que usam agregadores de feed e já não estão satisfeitos com um Reeder da vida seja ainda menor, quase inexistente. De certa forma, vejo no NetNewsWire um pouco do Manual do Usuário: um projeto anacrônico, mas funcional, com foco na excelência e feito por alguém mais interessado no “produto” do que no negócio.

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Outros apps novos que valem uma menção:

  • Vários celulares Android têm um “modo noturno” para tirar fotos melhores com pouca luz; o iPhone, ainda não. O NightCam Night Photo promete, com a ajuda de um algoritmo, trazer a mesma experiência a todos os iPhones lançados nos últimos cinco anos. Custa R$ 10,90.
  • Mario Kart Tour chega para Android e iOS no dia 25 de setembro. “Freemium”, ou seja, gratuito, mas para ter acesso ao jogo inteiro será preciso pagar.
  • O Toast é mais uma dessas extensões que salvam sessões/grupos de abas para colocar ordem na bagunça do navegador. Serve para Chrome e Safari e se destaca pelo visual requintado. É gratuito.

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Foto do topo: Fairphone/Divulgação.

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8 comentários

  1. sobre o VOD Belas Artes: achei genial a proposta, especialmente pelo preço convidativo.

    o problema é me imaginar dando todos os meses dinheiro a um sujeito como o sturm…

  2. Mensagem pra você está repleto de “velhas novidades obsoletas”. Acho que as duas principais são: 1. a AOL, obviamente, que simplesmente desapareceu poucos anos depois do filme; 2. as livrarias físicas do tipo “megastores” como a da família do personagem john fox — quero dizer, elas não sumiram por completo, mas estão em vias de desaparecer. Curiosamente, a lojinha da esquina da personagem da meg ryan provavelmente teria sobrevivido, embora hoje estivesse hipsterizada, glamourizada e acompanhada de uma cafeteria cara e esnobe.

    quando o filme saiu eu tinha uns traz ou quatorze anos e lembro de ter ficado fascinado com aquele estilo de vida cosmopolita de nova iorque — estilo que, por sua vez, está longe de ser considerado obsoleto pelo mercado, que o vive requentando e o publicizando para hipsterizar e tornar ainda mais caros mais bairros como os retratados no filme…

  3. Sobre a Xiaomi:

    Sim , ela é bem invasiva em relação a dados, só de meu 4g ligado ele está coletando dados e para tudo eu tenho que cancelar para não enviá-los.

    só estou esperando a trava de 168 horas acabar para fazer o bootloader e trocar a ROM

      1. se vc não quiser ter o trabalho de ir nas infinitas telas para desativar tudo ou trocar de ROM, melhor ir para outro msm

      1. para vc poder trocar de ROM, instalar TWRP e Root precisa desbloquear o bootloader, e para isso precisa instalar uma ferramenta no windows para tal, e a ferramenta dá um prazo para concluir o processo, no meu caso foi de 168 horas, então depois desse período tenho que ir lá na ferramenta de novo para concluir o processo.

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