Bloco de notas #21

iPhone XS de costas com o adesivo que o "transforma" em 11 Pro próximo e a frase "11 Pro?" atrás.

Notinhas, impressões pessoais e curiosidades do mundo da tecnologia.


O intrigante “kit de atualização física” para iPhone

Sempre achei meio boba aquela história de que as pessoas compram iPhone apenas pelo status. Histórias como esta, porém, reforçam o estigma.

Uma loja que atua no Mercado Livre está vendendo “kits de atualização física” para modelos de 2018 do iPhone (XS e XR) que os “transformam” em iPhone 11 e iPhone 11 Pro. O kit é composto por uma chapa de metal que deve ser colada no conjunto de câmeras, deixando os modelos de 2018 visualmente parecido com os de 2019. Não há qualquer vantagem funcional na “atualização física”, é uma alteração meramente estética. Na data da publicação desta coluna, 67 kits já tinham sido vendidos. Cada um custa R$ 49 [Mercado Livre] e acompanha uma capinha transparente que, segundo a descrição do vendedor Pedro, da loja Vem Barato,

(…) na parte da chave lateral que silencia o áudio do iphone, existe uma diferença da linha x para a linha 11, no 11 essa parte ficou um pouco mais para cima, portanto, quando você colocar a capinha, perceberá que a capinha invade em menos de um milímetro a parte da chave silenciadora, mas funciona perfeitamente e não interfere em nada, é quase imperceptível, mas é um detalhe que devemos deixar registrado aqui.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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Marketing honesto é isso aí.

Mais imagens, salvas para a posteridade porque vai que essa maravilha some do site?

Print do anúncio do kit de atualização física para iPhone no Mercado Livre.
Imagem: Vem Barato/Mercado Livre.
Quatro iPhone 11 com o kit de atualização física instalado ou próximo às lentes das câmeras.
Também tem para iPhone XR (que “vira” iPhone 11). Foto: Vem Barato/Mercado Livre.

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QR Code do Wi-Fi

Cartaz com QR Code gerado pelo My Wi-Fi Sign.Se você costuma receber pessoas diferentes em casa ou tem um pequeno comércio, deve ouvir muito a pergunta “qual a senha do Wi-Fi?”. O site My Wi-Fi Sign [em inglês] facilita um bocado esse trabalho: ele gera um cartaz, que pode ser salvo em formato digital ou impresso, com o nome da rede, a senha e um QR Code que conecta automaticamente celulares compatíveis.

→ No Product Hunt, muita gente questionou a privacidade do serviço — afinal, dados de rede são dados sensíveis e potencialmente valiosos. Cody Mikol, um dos criadores do My Wi-Fi Sign, afirmou que o serviço não compartilha e sequer armazena os dados inseridos ali [em inglês]. Uma política de privacidade deve aparecer em breve no site.

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A cruzada do iFood

Semana passada, o iFood comprou a Hekima, empresa de inteligência artificial de Minas Gerais. O objetivo é refinar a logística, para garantir entregas mais rápidas e baratas. Permeia esse discurso a missão utilitarista do iFood de acabar com as cozinhas domésticas, como se o ato de preparar refeições fosse sempre um estorvo e alimentar-se, o equivalente a encher o tanque de um carro. Comentário de Bruno Henriques [Folha], vice-presidente de inovação do iFood:

Estamos transformando a alimentação. Há pouco tempo, o delivery era feito por linha telefônica. No futuro, vai ser tão prático e a logística, tão boa, que vão questionar se vale a pena ter cozinha em casa. Para isso, precisamos conhecer o cliente no detalhe.

Outro aspecto curioso, lembrado pelo leitor Gabriel, é que essa ideia do iFood não é nova e dá uma volta completa no capitalismo para encontrar-se com práticas comuns das malfadadas experiências comunistas do século XX: o Narkonfim, por exemplo, um dos prédios-modelos dos primórdios da União Soviética, não tinha cozinhas nos apartamentos. Em vez disso, havia uma industrial que prepararia comida para todos os moradores do local. A ideia era livrar os camaradas de todos os trabalhos, inclusive os domésticos. Foi um fracasso monumental.

→ Nesta semana, o iFood deu mais um passo em seu plano de alimentação à moda soviética ao lançar oficialmente o iFood Loop [Estadão], um programa que vende marmitas a partir de R$ 10, sem qualquer identificação do restaurante que a prepara, para pessoas das classes C e D, ainda fora do consumo de refeições por delivery.

→ Nesse ritmo, semana que vem deverá ser anunciado o iFood Sopão, direto dos devaneios anticomunistas para o coração do capitalismo tardio — só que pior, pois pago.

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A ferramenta de “atividades fora do Facebook”

Em 2018, no auge do fiasco da Cambridge Analytica, Mark Zuckerberg prometeu uma ferramenta que daria aos usuários do Facebook o poder de “limpar o histórico” de dados que a rede obtém deles a partir de fontes externas. Dois anos (!) depois, ela finalmente foi liberada. Sem surpresa e com outro nome, “Atividade Fora do Facebook”, a ferramenta [Facebook] pouco faz para limpar qualquer coisa: ela só alcança 180 dias no passado e apenas desvincula os dados coletados do seu perfil, não os apaga [Estadão].

→ Ainda assim, é um avanço. Não pela configuração enterrada em algum menu obscuro que diz ao Facebook para não coletar mais dados do tipo no futuro (alguém ainda acredita nisso?), mas por revelar um pouco mais a profundidade do buraco em que nos metemos quando concordamos em trocar o Orkut por isso. (Não que o Orkut/Google fosse ser muito melhor, porém.) Como disse o colunista do Washington Post, Geoffrey Fowler, “[o Facebook] usa todas essas informações da minha vida real, fora do Facebook, para moldar as mensagens que vejo de empresas e políticos”. A Folha traduziu o artigo dele.

→ Na noite desta quarta (29), o Facebook divulgou seu balanço do último trimestre fiscal de 2019. O faturamento subiu 25%, para US$ 21,1 bilhões [TechCrunch, em inglês], e agora somos 2,5 bilhões de pessoas usando pelo menos um dos apps da empresa todo mês.

→ Sei que é dramático, mas a solução mais promissora para mitigar esses abusos, no âmbito individual, é excluir as contas dos serviços do Facebook. Ninguém disse que a vida é fácil.

→ Em nota não relacionada, o antivírus Avast foi flagrado vendendo dados de navegação de milhões de usuários [Vice, em inglês] a empresas como Microsoft, McKinsey, Google e Yelp. Às vezes bate um desânimo, sabe?

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Reconhecimento facial nas cidades

Sem reflexão, debates com a sociedade ou marcos legislativos definidos, vários entes públicos no Brasil estão adotando sistemas de reconhecimento facial a despeito dos vieses e falhas exaustivamente comprovadas dessa tecnologia. Só na última semana:

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Series finale do InSUBs

Após 12 anos de trabalho que resultaram em 350 obras legendadas e mais de 12 milhões de downloads, o InSUBs, um dos grupos de legendagem mais prolíficos e famosos do Brasil, encerrou suas atividades [Uol]. Estúdios e canais de TV ficaram mais ágeis ao longo dos anos na hora de trazer séries norte-americanas ao Brasil, o que fez minguar o interesse pelas legendas alternativas e o tamanho do exército de “legenders” do grupo.

→ “Sim, acreditamos que vários canais mudaram suas políticas de transmissão de conteúdo por causa das equipes de legenda”, disse Penelope C., que assinou o post de despedida do InSUBs no Facebook.

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4 comentários

  1. Passando pra dizer que acabei de ler todos os posts do Manual do Usuário, desde o primeiro publicado até hoje. Tem tanto tempo que comecei a ler que nem lembro mais, mas digamos que agora eu esteja um pouco mais ~paranoico~ com privacidade. Vida longa ao MdU!

  2. legendagem colaborativa é uma daquelas reminiscências da web dos anos 2000 que lentamente vão desaparecendo

    gostaria de ver um estudo com a distribuição etária dos editores mais ativos da Wikipédia — eu chutaria que eles estão envelhecendo

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