Estilo de vida

Como o escritor Daniel Galera trabalha

Foto de rosto do Daniel Galera.
Nota do editor: Nesta seção, a cada 15 dias entrevisto profissionais de diferentes áreas a respeito de produtividade e da relação deles com a tecnologia. Veja os anteriores e cadastre-se gratuitamente na newsletter para ser avisado dos próximos.


  • Nome: Daniel Galera.
  • Cidade onde mora: Porto Alegre (RS).
  • Emprego atual: Tradutor e ficcionista.
  • Computador: MacBook Air (2014) de 13 polegadas.
  • Celular: iPhone 8.
  • Gadget favorito: Nintendo Switch. O acesso a jogos indies e a versatilidade dos modos dock e portátil funcionam perfeitamente com o gamer que posso ser no momento atual da vida.

Como você chegou onde está?

Comecei publicando contos e editando sites literários na internet da virada do milênio. Em 2001 criei um selo editorial com amigos, Livros do Mal, pelo qual publiquei dois livros. Graças a eles obtive um contrato com uma editora comercial que me publica até hoje. Publiquei um livro de contos, uma HQ e cinco romances, alguns deles premiados. Em paralelo, desenvolvi carreira como tradutor do inglês pro português e eventual ensaísta e articulista na imprensa. Ainda compondo o que se pode chamar de uma carreira literária hoje em dia, participo bastante de feiras e festivais, em mesas redondas, palestras e oficinas.

Como é um dia típico de trabalho seu?

Trabalho em casa e a rotina varia muito dependendo das circunstâncias. Hoje em dia, depois de deixar minha filha na escolinha aproveito o final da manhã para ler, responder emails, obter e enviar documentos, cozinhar. À tarde sento à escrivaninha para traduzir ou escrever. Um dia produtivo significa três ou quatro horas de trabalho focado. Se me dá na telha, trabalho na cama ou no sofá. Sempre usei o Word, mas escrevi meu último romance no Scrivener e agora adotei o aplicativo Bear como processador de texto para agregar notas e redigir as primeiras versões. As revisões e traduções são feitas no Word. Breves excursões fora de casa, por exemplo numa casa de praia ou residência, podem ajudar muito quando se está trabalhando num livro.

Alguma história curiosa ou engraçada que já aconteceu enquanto trabalhava?

No meu caso é difícil delimitar isso, pois meu trabalho com frequência engloba todo o meu cotidiano e tempo disponível. Mesmo lavando louça ou me deslocando de ônibus, por exemplo, posso estar trabalhando mentalmente em um texto ou em ideias embrionárias. Tudo que me acontece, inclusive as coisas mais banais ou enfadonhas, pode desembocar na ficção ou no ensaio.

Passei por inúmeras situações pitorescas como escritor, inclusive viajando e participando de eventos literários. Por exemplo, uma vez estava viajando de trem de Toulon a Paris e o trem-bala atropelou um suicida nos trilhos e ficou algumas horas parado no meio do nada enquanto a polícia lidava com a situação. Durante essa espera, os passageiros começaram a estabelecer diversas relações interessantes entre si, abalados de diferentes formas pela situação que estávamos vivendo. O episódio virou um ensaio que publiquei numa revista dos EUA. A escrita se alimenta desses episódios curiosos ou engraçados (ou trágicos, ou horríveis, enfim), e dúzias deles se tornaram material para o meu trabalho.

Você dá muita atenção à produtividade? Se sim, de que maneiras práticas isso se traduz em sua rotina?

De um lado, preciso pensar um pouco em produtividade para dar conta dos meus projetos. Posso definir um turno do dia para trabalhar ou mesmo listar algumas metas em aplicativos de notas. Mas, de modo geral, desconfio de métodos e aplicativos para incrementar a produtividade. Com frequência, noto que eles apenas desqualificam o trabalho e alimentam a ansiedade. Por vezes, podem tomar conta da energia cognitiva e mesmo do tempo que estariam disponíveis para o trabalho em si. O trabalho, que poderia ser executado com mais calma, dando espaço ao imprevisível, ao erro, ao desvio construtivo, se torna em grande parte uma administração das ferramentas de produtividade propriamente ditas. Assim, eu evito propositalmente me cercar de estratégias e ferramentas de produtividade, para além do tipo de coisa muito básica que citei antes. Tenho aversão a quase tudo que pode ser definido como automação.

Qual o seu lifehack (atalho/dica/facilitador) favorito?

Confesso que o conceito de lifehack me escapa. A resposta anterior deve explicar a razão. Ainda confio em grande parte na minha introspecção para organizar meus projetos e tarefas. Minha mente está longe de ser infalível ou otimizada, mas me sinto mais seguro e em geral gosto mais dos resultados que obtenho quando conto com ela.

Você consegue se desconectar de vez em quando?

Apenas muito raramente. Apesar de tudo que disse antes, sou tão viciado em internet e smartphones quanto qualquer pessoa. Não uso Facebook desde 2012 e no começo do ano passado saí do Instagram também. Mas sou dependente do Twitter, que uso para divulgar meu trabalho, manter uma relação com meus leitores e também como uma espécie de feed de notícias de artigos do meu interesse. Tenho também um Tumblr, que alimento sem pressa, e uma newsletter no TinyLetter, que criei justamente para tentar me afastar um pouco do ambiente de timelines e algoritmos e recuperar uma experiência de publicação e relações pessoais mais próxima da web pré-redes sociais.

Tudo isso dá uma regulada e aproxima a internet da forma que eu consideraria ideal, mas é claro que é insuficiente para me livrar da experiência sedutora, monitorada e em muitos casos incontornável (aplicativos de bancos, Google para pesquisas, WhatsApp) que é a internet atual.

Recentemente, consegui me desconectar por quatro ou cinco dias na virada do ano e foi maravilhoso. Minha atenção se voltou a coisas que pareciam esquecidas, a sensação de tempo se dilatou e a ansiedade de fundo diminuiu. Ao me reconectar, tive por um breve período uma sensação de envenenamento, mas logo em seguida estava entregue de novo ao prazer do fluxo de informação. Tudo é uma questão de dose.

Quais aplicativos não saem da tela inicial do seu celular?

  • Bear. Um aplicativo de notas perfeito que comecei a usar também como processador de texto no desktop, é limpo, tem elegância incomparável e um engenhoso sistema de tags;
  • Pocket. Uso para indexar artigos que quero ler ou arquivar, e o maior atrativo no meu caso é que possui versão para o meu Kobo Reader, adoro poder ler textos online no e-reader.
  • A suite do Office para iPad e iPhone. Sou assinante do Microsoft Office e uso inclusive o OneDrive para meu armazenamento na nuvem e gerenciamento de fotos.
  • O aplicativo do Fastmail. Excelente provedor de emails que adotei em 2014, quando decidi que não ia mais aturar a invasividade do Gmail e outros produtos Google.
  • Tumblr;
  • Twitter;
  • Kobo;
  • Folha Impressa.

Você tem algum projeto paralelo? Se sim, fale um pouco sobre ele.

Nada exceto o Tumblr e a newsletter.

O que você está lendo no momento?

Acabei de ler a trilogia de romances da Rachel Cusk, Esboço (Todavia), Transit e Kudos (ainda sem tradução no Brasil). São livros que remodelam as concepções de personagem, protagonista e autobiografia no romance realista moderno, amplificando e enredando as vozes dos personagens secundários. E têm muitas observações poderosas sobre casamento, família, filhos, vida literária, relacionamentos, narcisismo.

Os dois próximos da fila são Dead astronauts, romance de “weird fiction” de Jeff Vandermeer, e Food or war, de Julian Cribb, sobre os riscos de uma falência da produção e cadeia de alimentos diante da superpopulação e do aquecimento global.

Pratica atividade física (qual?) e/ou tem algum cuidado especial com a saúde?

Faço treinamento funcional três vezes por semana e dou uma corridinha quando posso. Priorizo alimentos orgânicos.

Que conselhos você daria a alguém interessado em seguir carreira na tua área?

Frequente oficinas, procure expressar o que não pode ser dito a não ser por meio da ficção, explore as redes para divulgar seu trabalho mas sem cair na armadilha da autopromoção brincalhona e pentelha, não confunda vaidade e autoconfiança com mitomania, não tenha pudor, não fuja da frustração e do desconforto, não seja condescendente com o leitor.

Daniel Galera é tradutor e ficcionista, autor dos livros Cordilheira, Barba ensopada de sangue e Meia-noite e vinte, entre outros. Encontre-o no Twitter, Tumblr e newsletter.

Foto do topo: Arquivo pessoal.

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13 comentários

  1. Barba Ensopada de Sangue é ÓTIMO, ainda mais por se passar aqui perto de casa (Garopaba). Legal vê-lo por aqui, me pergunto como isso aconteceu, hehe.

    1. É a internet em sua melhor forma: na real não sei, só sei que uma hora o Daniel encontrou o perfil do Manual no Twitter e senti abertura para perguntar se ele topava a entrevista. Ele topou, e o resto é história :)

      1. Não lembro como cheguei no Manual do Usuário, mas assino há tempos, faz parte do meu seleto cardápio de newsletters que aos poucos vai substituindo timelines e sites de jornais. Alegrou-me sobremaneira participar como entrevistado.

    2. Também adoro esse livro, e espero ansioso a adaptação pro cinema, que dizem, está a cargo do Karim Ainouz. Veremos!

      1. Na verdade o projeto de adaptação agora está nas mãos do Aly Muritiba, que é um baita diretor. Na expectativa.

  2. Grande profissional. Lembro de quando seus contos eram divulgados em newsletters no início do século XXI, mas seu primeiro trabalho profissional que pude conferir foi a boa tradução para a coletânea de contos do David Foster Wallace, Ficando Longe do Fato de Já Estar Meio Que Longe de Tudo. Tem um bom prefácio do próprio Galera e a tradução ajuda a manter o espírito do escritor (cheio de referências e rebuscamentos linguísticos meio doidos) vivo em português.

    1. Eu já sabia que o DG tinha traduzido o DFW pro Brasil, mas nunca li.

      Se me permite, o que exatamente (na sua concepção) seria uma boa tradução? E o que seria uma tradução ruim?

      Eu pergunto porque eu sou tradutor, embora não literário (essa área é vedada aos mortais que não publicaram nada), e nunca consigo entender exatamente o que é uma “boa” tradução fora da prisão dos conceitos teóricos de um profissional da área.

      =)

      1. Hehe, vamos lá. Sou leigo, não sou da área de Letras. No caso eu só posso falar do referencial dos autores que conheço a obra o suficiente no idioma original para poder opinar, e não é com todos que tenho esse nível de avaliação. DFW, no entanto, é um desses casos pois é um dos meus favoritos e que tem maneirismos muito particulares na escrita em inglês, alguns bem difíceis de adaptar, seja por serem trocadilhos intraduzíveis, jogos de palavras ou mesmo a tonalidade de uma certa ironia que pode ficar indetectável.

        Se tiver a chance de comparar o livro traduzido pelo Daniel Galera com o livro Breves Entrevistas com Homens Hediondos (traduzido por José Rubens Siqueira) dá pra notar que este último tem pedaços que ficaram sem pé nem cabeça nas opções da adaptação, e lembro de ter visto algum nome próprio que não foi reconhecido pelo tradutor e acabou vertido indevidamente para o português. Infelizmente não vou conseguir lembrar de detalhes, mas a diferença entre as duas adaptações é notável.

        Caetano Galindo, que trabalhou com o titânico Graça Infinita, teve certamente um trabalho muito maior e conseguiu se sair bem. Não acho que literalidade é 100% necessária numa tradução, mas o tradutor precisa entender qual é “a voz” do autor para buscar a melhor opção. Acho que isso passa por um momento no qual o tradutor demonstra que não só faz um trabalho técnico, mas também admiração pelo texto que adapta.

        1. (os meus comentários as vezes demoram pra aparecer também)

          Obrigado pela resposta. Eu só li DFW no original, então não sei opinar. Vou tentar ler os dois que você falou para entender as diferenças.

          Sim, de fato, o tradutor é um artista junto do autor original, por isso a defesa de que ele deveria ter direitos sobre a sua tradução. Dizem as más línguas que o sucesso do Paulo Coelho nos exterior, principalmente na França, se deve bastante ao seu tradutor por lá que consegue arrumar alguns erros literários ou imprecisões nos textos originais dele (não sei como anda o trabalho dele hoje, mas, os primeiros livros eram impressos com erros porque ele não deixava ninguém corrigir/revisar o texto por uma crença de que o texto deveria ser “puro”).

          A ideia da tradução não é traduzir literalmente, principalmente porque isso já foi superado desde São Jerônimo (padroeiro dos tradutores, aliás), quando ele defendia a tradução “palavra por palavra” dos textos. Traduzir um texto requer um conhecimento amplo de três coisas: língua fonte, língua final e público alvo; sendo esse último item essencial atualmente, afinal, cada público leitor quer uma tradução que acompanhe o que o autor fez e para quem o autor fez o texto original. Um exemplo parco é que a tradutora do Harry Potter no Brasil traduziu “James Potter” como “Tiago Potter”, afinal, essa é a tradução correta do nome James pro pt_BR (que vem de Yago/Iago e se transforma em James/Iames e posteriormente em Jaime e Tiago) e que os leitores do HP ficaram bastante brabos.

          Outro bom exemplo é a tradução do Mário Quintana do Proust (No Caminho de Swann/Trilogia do Tempo Perdido) onde ele consegue captar boa parte da enfadonha escrita do francês e das enfadonhas narrativas das classes altas da época. Fazer isso demanda tempo e muito preparo literário, coisa que o Quintana tinha, claro, mas demonstra como o tradutor precisa sempre ser 50-50 entre autor e tradutor.

          A ideia era exatamente para eu tentar entender o que um leitor pensa sobre tradução boa/ruim. Tem muita gente qye acha tradução ruim porque no original ele diz “preto” e na tradução ele diz “negro” ou “escuro”. Isso é escolha com mesmo sentido. Um exemplo é a adaptação da música “toss a coin do your witcher” da série da Netflix. O pessoal meteu muito pau porque ficou diferente quando era claro e nítido que TINHA que ficar diferente, afinal, a fonética das duas línguas é bastante distinta. Não existe traduzir música/poesia, existe adaptar.

          De qualquer modo, obrigado de novo =D

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