Bloco de notas #18

Quando relancei a newsletter do site com o nome Bloco de notas, o objetivo era fugir do noticiário e fazer dela uma espécie de bloco de notas mesmo, ou seja, um caderninho com anotações de curiosidades e coisas que chamaram a minha atenção. Em algum momento dos últimos dois meses, perdi isso de perspectiva e, quando me dei conta, estava fazendo aquilo que jamais foi o objetivo: uma curadoria de notícias. Esta edição marca um retorno à essência do Bloco de notas, com menos notícias, mais curiosidades, com a republicação aqui no blog após o envio da newsletter. Espero que você goste.

Campeões da Black Friday

Burger King e McDonald’s conseguiram uma façanha nesta Black Friday: superar lojas virtuais no ranking de reclamações do ReclameAqui. Foram 1.036 reclamações, ou 11,7% do total, motivadas por uma instabilidade no Mercado Pago (5º no ranking) na hora de processar o pagamento das promoções de dois lanches por ~R$ 5. Parabéns? [ReclameAqui, em português]

→ Aliás, esta Black Friday foi marcada por cenas lamentáveis em lojas de departamento, praças de alimentação lotadas e… que deprê.

→ Falando em Mercado Pago, mais da metade das compras feitas no Mercado Livre no período da Black Friday (56%) foram pelo celular. É tendência, motivada pelo bombardeio publicitário das lojas virtuais para que os clientes instalassem seus apps: segundo a consultoria Ebit, 55% das compras na Black Friday brasileira foram feitas em celulares, mais que o dobro da edição 2018. O varejo online brasileiro faturou R$ 3,2 bilhões, alta de 23,6% em relação ao ano passado. [E-Commerce Brasil, em português]

Mudanças no comando do Google

Na terça (3), os fundadores do Google, Larry Page e Sergey Brin, abandonaram os cargos de CEO e presidente da Alphabet, a holding criada em 2015 para abrigar o Google e as “outras apostas” da empresa. Sundar Pichai, até então CEO do Google, acumulará o comando da Alphabet. [Google, em inglês]

→ Houve quem dissesse que Page e Brin abdicaram do controle da empresa. Incorreto, pois eles mantiveram suas super ações que lhes conferem poder decisório na Alphabet. Com a pressão crescente por regulação, a crise interna com funcionários insatisfeitos ao descobrirem que o “don’t be evil” é só bobagem corporativa e uma ampla investigação interna para apurar denúncias de assédio sexual por executivos em andamento, fica a sensação de que, na real, eles estão abdicando da responsabilidade. [New York Times, em inglês]

Um bom histórico do Google, da origem até a saída dos fundadores do dia a dia da empresa. [The Verge, em inglês]

Wikipédia com referências

Lembra quando o Google resolveu que ia digitalizar todos os livros do mundo e depois meio que abandonou a ideia, porque é isso o que empresas de capital aberto fazem? A Wayback Machine, uma organização sem fins lucrativos que tenta preservar a memória da internet, tem um projeto similar. Um dos desdobramentos mais bacanas é o trabalho de conectar referências da Wikipédia aos livros já digitalizados: até o momento, 130 mil referências em vários idiomas foram conectadas a 50 mil livros digitalizados. Ao clicar em uma delas, o usuário se depara com uma pré-visualização de duas páginas e pode “emprestar” uma cópia digital do livro inteiro por até duas semanas, desde que o livro esteja “disponível” — a lógica é parecida com a de uma biblioteca física. [Wired, em inglês]

Melhores apps do ano

O Google divulgou uma lista dos melhores de 2019 das categorias comercializadas na Play Store. O critério usado foi o voto popular, o que garantiu a vitória do Dollify entre os apps (relembre a matéria que escrevi sobre ele), Call of Duty Mobile em games e Vingadores: Ultimato (Dublado) (é assim que aparece lá) nos filmes. Na categoria melhor livro, um vencedor inusitado: uma edição avulsa de um quadrinho japonês, a #30 de The Seven Deadly Sins. O fandom deve ser forte. [Google, em português]

→ Na Apple, nada de voto popular: a própria empresa indicou os destaques da App Store em 2019. O app do ano para iPhone foi o Spectre Camera, que usa inteligência artificial para auxiliar a criação de vídeos em time-lapse; para iPad, Flow by Moleskine, um app de anotações e desenhos da famosa marca de caderninhos; e para macOS, o Affinity Publisher, um app de editoração que parece muito legal e que não exige assinatura, é uma compra única — isso virou um grande diferencial dos concorrentes da Adobe. Os jogos do ano foram: Sky: Children of the Light (iPhone); Hyper Light Drifter (iPad); GRIS (macOS); Wonder Boy: The Dragon’s Trap (Apple TV); e Sayonara Wild Hearts (Apple Arcade). [Apple, em inglês]

Retrospectiva musical à base de dados

Na quinta (5), as redes sociais foram inundadas por prints do “Wrapped Spotify”, a já tradicional retrospectiva medonha do Spotify que se aproveita do oceano de dados que coleta dos seus usuários. Fiquei surpreso com as pessoas fascinadas que as playlists criadas a partir das músicas que elas mesmas ouviram ao longo do ano são perfeitas para elas. Quem diria, não? [Spotify, em português]

→ Em dias assim, é uma boa recuperar esta reportagem que aponta a voracidade com que o Spotify coleta dados a fim de modular o comportamento dos usuários e fazer dinheiro. [The Baffler, em inglês]

→ E também esta opinião (minha!) sobre o futuro do podcast caso o Spotify se torne o player dominante do setor. [Manual do Usuário, em português]

YouTube Rewind 2019

O fiasco do YouTube Rewind em 2018 não impediu que a empresa mantivesse a tradição em 2019. No vídeo deste ano, várias listas de “top canais” segundo diversos critérios são ilustradas por vídeos dos canais mesmo, sem conteúdo original. Tem brasileiros no meio, como sempre, e apesar da abordagem menos arriscada, continua um negócio difícil de assistir. Com base nos poucos segundos de cada vídeo/canal campeão de audiência que figura o Rewind, chama a atenção a homogeneização do conteúdo que se destaca a despeito de eles serem produzidos em qualquer um dos quatro cantos do mundo — no último segmento, o YouTube destaca youtubers que cresceram muito em países periféricos como Tailândia e Indonésia. É lugar comum dizer que o YouTube é um espaço democrático, mas coisas como esse Rewind confirmam a máxima de McLuhan, de que o meio é a mensagem: para fazer sucesso ali, além de sorte é preciso entender e se adequar à linguagem própria do YouTube. [YouTube, em inglês]

→ Sobre a relação entre produção e consumo de conteúdo e as plataformas digitais, recomendo sempre este belo ensaio. [Manual do Usuário, em português]

→ O Brasil teve três canais entre os dez criados em 2019 que mais cresceram ao longo do ano, incluindo o maior deles. Os três são da LOUD, equipe profissional de e-sports focada em Free Fire, o joguinho gratuito de celular que desbanca, por aqui, sucessos globais como Fortnite e PUBG. Boa oportunidade para (re)ler a matéria que escrevi sobre Free Fire. [Manual do Usuário]

É tudo sobre ~experiências

Nesta semana, traduzi e republiquei no site um artigo da revista Real Life sobre a apropriação e a exploração do conceito de “experiência” pelo capitalismo:

[A economia da experiência] não é simplesmente o produto de transformações econômicas recentes ou da ascensão dos smartphones e das mídias sociais. É uma fase do capitalismo que começou a emergir no final dos anos 1960, no meio que produziu o Cerebrum. De novos valores e novas tecnologias surgiu um novo tipo de oferta econômica, nem “produto” nem “serviço”, que de início expandiu gradualmente e depois massivamente o escopo da economia. [Manual do Usuário, em português]

→ O rebranding da Livraria Cultura, agora só Cultura e com um logo que lembra uma versão mais sombria do da Uber, parece o resultado de alguém incumbido de aplicar todas as críticas do artigo acima a uma marca que, embora passe por um mau momento, ainda é querida pelo grande público. Veja esta descrição, é quase caricatural:

A ideia é transformar as lojas físicas e digitais em locais que ofereçam “experiências” aos consumidores. Além dos livros — carro-chefe da empresa — a Cultura aposta na venda de produtos relacionados ao “lifestyle” e à tecnologia e design. [Clube de Criação, em português]

O unicórnio do qual você nunca ouviu falar

Um estúdio de jogos para celulares de São Paulo é o novo unicórnio brasileiro. Após receber um aporte de US$ 60 milhões liderado pelo pelo Benchmark Capital, a Wildlife, dos irmãos Victor e Arthur Lazarte, foi avaliada em US$ 1,3 bilhão. No portfólio da empresa, há títulos como Sniper 3D, Tennis Clash e Bike Race. Somados, todos os jogos da Wildlife já foram baixados mais de 2 bilhões de vezes na Play Store e App Store. O mercado de jogos para celulares é tão grande e fragmentado que players enormes como a Wildlife passam despercebidos — todas as notícias, de veículos daqui e de fora, se referem ao estúdio como “o unicórnio do qual você nunca ouviu falar” e variações. [Brazil Journal, em português]

Matérias de presente

A Folha agora permite que assinantes “doem” até cinco acessos por dia a matérias do jornal para não assinantes. O chamado “link presente” é uma boa maneira de furar o paywall, embora exija uma assinatura e seja bastante limitado — não dá para jogar no grupo da família no WhatsApp porque são apenas cinco acessos por dia, afinal. É o primeiro jornal brasileiro a ter esse recurso. [Folha, em português]

Okanal (!?)

Provando a teoria do Guilherme Felitti de que o empreendedor brasileiro é muito bom em detectar ideias de fora, sejam elas boas ou ruins, e as replicar por aqui, alguém lançou o OnlyFans brasileiro, ou seja, uma plataforma em que famosos gravam mensagens personalizadas em vídeo por uma pequena fortuna — os mais caros custam R$ 500. Até aí, tudo bem. O problema é que o negócio se chama “okanal”, nome que, lido por uma mente não tão pura como a do Samir, corre o risco de virar “ok anal”. [Okanal, em português]

→ Wolf Maya, um dos talentos disponíveis no ok anal, digo, okanal, não entendeu muito bem a proposta do negócio: no vídeo promocional da sua página, parece que ele está apresentando um canal do YouTube para falar das suas desventuras em Nova York.

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