iOS 8 e Android L são criptografados por padrão

A carta de Tim Cook sobre privacidade aos clientes está cheia de declarações fortes, promessas que poucas ou nenhuma outra empresa talvez consiga cumprir e o compromisso único e irrestrito com a privacidade.

Nela, Cook diz que a privacidade dos clientes da Apple é prioritária, que a empresa não cria perfis, nem lucra cedendo informações a parceiros, que nunca trabalhou com governo algum, nem permitiu acesso aos seus servidores. A cereja do pudim é que com o iOS 8, a criptografia do dispositivo é automática, basta colocar uma senha no dispositivo. “Não é tecnicamente possível para nós responder a pedidos do governo para extração desses dados de dispositivos na posse deles rodando o iOS 8.”

A medida, corajosa, já encontrou resistência entre as autoridades e, segundo o especialista forense Jonathan Zdziarski, não é absoluta: a sincronia entre o iPhone e computadores representa um ponto fraco nesse grande esquema de segurança. Há indícios de que o iCloud também possa servir de vetor para ataques e vazamentos. Só que embora ainda exista trabalho a fazer, o que o iOS 8 já traz é um reforço e tanto. Zdziarski: “Esta é uma postura significativamente pró-privacidade (e corajosa) que a Apple está tomando para seus dispositivos, e ainda que sete anos atrasada, é mais do que bem-vinda. Na verdade, estou impressionado com os últimos esforços da Apple para aperfeiçoar a segurança de modo geral, incluindo o iOS 8 e a autenticação em dois passos do iCloud.”

Além de beneficiar seus usuários, a ação da Apple ecoa em outros lugares. O Google foi rápido ao anunciar que o Android L, com previsão de lançamento para outubro, também virá com criptografia ativada por padrão.

Culpar o iCloud pelo vazamento das fotos de celebridades é um erro duplo

No último domingo, fotos íntimas de celebridades vazaram em redes sociais e sites “especializados”. Entre as vítimas estavam Kate Upton, Jennifer Lawrence, Kirsten Dunst e outros famosos — o número deles pode chegar a cem.

A repercussão tem sido grande porque, ora, são celebridades nuas. Na mesma velocidade com que as fotos se espalharam, empresas supostamente envolvidas com a obtenção das imagens e usadas posteriormente para a disseminação delas começaram a agir a fim de minimizar os estragos. Twitter e imgur estão banindo usuários que compartilham as fotos e o Google tem limpado sistematicamente os resultados da busca para omiti-las.

Ainda não se sabe o que foi usado como vetor para o ataque, muito menos qual ou se alguma falha foi explorada. Na imprensa, porém, não demorou muito para que uma suposição se alastrasse: a culpa do iCloud. (mais…)

Para coibir bullying, Secret anuncia mudanças e relembra: o anonimato não é absoluto

A liminar da justiça do Espírito Santo já teve pelo menos uma consequência: na sexta, o Secret sumiu da App Store brasileira. O app continua intacto nos iPhones onde foi instalado e acessível, mesmo no Brasil, a partir das lojas de outros países.

Em maio, o Secret perdeu a restrição aos EUA e passou a poder ser usado em qualquer lugar. Demorou um pouco para ele engrenar. O Brasil, que junto a Israel foi descrito pelo cofundador e CEO David Byttow como responsável por um “grande pico” de crescimento na ordem de 10~20 vezes, é um desses lugares onde o app pegou. E com toda a atenção ganha e as características dele, era de se esperar que críticas, cobranças e polêmicas surgissem.

Também na sexta, o Secret anunciou três mudanças, duas delas para coibir o bullying. O app, já atualizado no Android e com atualização no iPhone prevista para esta semana, perdeu a capacidade de acessar as fotos salvas no smartphone. Agora, ou se tira uma foto no ato da publicação do post, ou se busca uma imagem no acervo do Flickr. A medida acaba, ou dificulta bastante a publicação de revenge porn e fotos íntimas.

Em outra, ele agora impede a publicação de posts contendo nomes. O Whisper, outro app para compartilhamento de mensagens anônimas, tem uma política do tipo em ação e, de fato, é muito difícil encontrar lá nomes de pessoas comuns — os de famosos são permitidos. Agora o Secret passa a adotar a mesma postura.

Além disso, foram feitas melhorias no algoritmo que detecta sinais de atualizações que miram magoar ou expor alguém. Nesses casos, o sistema insere um passo extra no processo de publicação, pedindo ao usuário para que reconsidere-a. A base para essa mudança, segundo o Secret, é este estudo que constatou que “dar a alguém a oportunidade de repensar antes de publicar algo negativo reduz dramaticamente o mau comportamento.”

A outra novidade é um mecanismo de enquete, em parte para acabar com os posts do tipo “curta se você faz também/gosta daqui/detesta isso”.

Anonimato não é aval para desrespeitar a lei

As alterações amenizam o lado podre do Secret, mas chegam tarde e na forma de resposta aos danos que o app já causou, mais pela pressão pública do que por algum senso de responsabilidade — coisa que Byttow parece não ter muito.

Acima do que o app permite ou invoca nos usuários mais propensos a falar o que dá na telha e espalhar os segredos dos outros, é importante reforçar, uma vez mais, que o app não garante anonimato absoluto.

Além da via legal, ou seja, a entrega de dados pessoais de contas que publiquem conteúdo ofensivo se assim for exigido pela justiça, o próprio app está sujeito a falhas. Até agora, em seis meses de funcionamento, 42 delas foram reportadas por hackers caçadores de recompensas através de um chamado oficial no HackerOne.

Uma das técnicas mais recentes (e já corrigidas) pelo Secret foi desenvolvida pelos pesquisadores Ben Caudill e Bryan Seely, e consistia em gerar contas falsas, adicionar uma verdadeira e, assim, conseguir filtrar os segredos da vítima. Em detalhes, ela foi explicada na Wired por Kevin Poulser. A matéria conta com algumas citações de Byttow, e esta em especial chama a atenção para a franqueza:

O ponto é que tentamos ajudar as pessoas a entender que anônimo não significa indetectável. O Secret não é um lugar para atividades fora da lei, ou para fazer ameaças de bomba ou compartilhar imagens explícitas… Não dizemos que você estará completamente seguro o tempo todo e completamente anônimo.

O Secret não é, nem nunca foi anônimo. Ou melhor, ele assim o é na medida da responsabilidade pelo que se publica ali. Em última instância, o responsável pelas suas palavras continua sendo você. E há meios de descobri-lo, por mais que o app faça parecer que não.

Todo mundo odeia o Facebook Messenger

A Rillary não gostou do Facebook Messenger.

Na App Store o Facebook Messenger é o app gratuito mais baixado (o segundo, na brasileira) e sua versão atual tem mais de 1500 avaliações que lhe conferem uma estrela de cinco possíveis. O Google Play agrega todas as versões, logo não existe uma nota que reflita esse período conturbado, mas uma olhada nas últimas avaliações revela avaliações negativas acompanhadas de reclamações inflamadas. Qual o problema do Facebook Messenger?

De minha parte, nenhum. Desconfio que essa onda de críticas decorra puramente da obrigatoriedade em instalá-lo. Porque, de outro modo, é um bom app: tem um design mais elaborado (bonito e funcional), é rápido e faz tudo e mais um pouco que o antigo sistema de conversas embutido no app principal do Facebook, descontinuado em prol desse, fazia. (mais…)

Difamados, brasileiros tentarão tirar app Secret do ar no país

Yuri Gonzaga, na Folha:

Um grupo de dez pessoas entrará nos próximos dias com pedidos extrajudiciais para que Apple e Google removam de suas lojas virtuais no Brasil o aplicativo Secret, uma rede social que mantém todo usuário anônimo e que vem ganhando popularidade no país nesta semana.

Segundo o responsável pela iniciativa, o consultor de marketing Bruno de Freitas Machado, 25, cada membro do grupo foi objeto de calúnia ou teve informações privadas divulgadas sem autorização.

Alguém tinha dúvida de que isso aconteceria?

Note-se que é um pedido extrajudicial, ou seja, esse pessoal apenas pedirá diretamente a Google e Apple para que remova o Secret das suas respectivas lojas de apps, sem o envolvimento do judiciário. Pelo histórico de ambas, porém, é bem provável que simplesmente ignorem o pedido.

O próximo passo é a via judicial e lá o caso deve se arrastar. Como o Secret não tem representação no Brasil, regras de Direito internacional deverão ser aplicadas e para que a startup se manifeste em juízo será preciso expedir cartas rogatórias, como explica o advogado Leandro Bissoli à reportagem da Folha.

Atualização (19h): Outro encontrado pela Folha. Este fez um boletim de ocorrência e quer que o Secret revele a identidade dos difamadores.

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Sobre a desvinculação dos posts que citei hoje mais cedo, ainda paira a dúvida se ela alcança as situações previstas na política de privacidade em que o Secret pode revelar a identidade de um usuário. Para dirimi-la, entrei em contato com a assessoria do serviço e o setor legal. O e-mail foi enviado hoje de manhã e até a data da publicação deste post não tive resposta.

O Secret pode ser secreto, afinal

Ontem escrevi aqui que, sob certas circunstâncias, o Secret pode revelar a identidade do autor de posts no serviço. É uma garantia legal e perfeitamente compreensível, por mais que a premissa do app dê a entender o contrário. Existe, porém, uma saída para dizer qualquer bobagem e não ser responsabilizado: desvincular todos os posts.

O botão de desespero do Secret.

Essa opção consta no app e é meio como se fosse um “botão do desespero”: ao acioná-la, o vínculo com posts já publicados some. Eles passam a não ter autoria e o responsável original deixa de receber notificações, além de não conseguir mais apagá-lo. Isso só vale para posts já publicados e seu uso não pode ser frequente. A opção de desvincular publicações não alcança curtidas e comentários em outros posts.

Na política de privacidade, o Secret diz (tradução livre):

A única maneira de tornar seus posts indetectáveis é usando nosso recurso “desvincular”, descrito em mais detalhes abaixo no [tópico] Suas Escolhas, o que elimina qualquer ligação entre seu post e sua conta.

A desvinculação de posts foi implementada no Secret em fevereiro, junto com uma série de outros recursos básicos, como marcar posts como impróprios, apagá-los do sistema (!) e os movimentos laterais de interação. A descrição oficial não dá conta da ação de desvínculo como uma saída para se livrar da responsabilidade por comentários maldosos ou até criminosos, mas como uma forma de aliviar a consciência:

É preciso muita coragem para compartilhar seus pensamentos e sentimentos mais íntimos. Se você se preocupa com algo que já publicou, agora existe um “grande botão vermelho” que removerá qualquer associação entre você e todos os seus posts antigos nos nossos servidores.

A grande questão é que independentemente da atribuição de culpa ou do modo como o Secret funciona, não ser babaca é uma boa opção de vida. Caso você seja um, considere mudar. Não use o app para difamar, injuriar ou expôr, de qualquer forma, quem quer que seja.

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Atualização (15/8, 12h50): Jared, o funcionário do Secret que responde pelas questões legais, respondeu minha pergunta:

Desvincular posts é uma ação que um usuário pode tomar para desassociar sua conta de posts ou comentários antigos e recomeçar. Por exemplo, ele poderá voltar a um post publicado anteriormente e comentar como se fosse outro usuário. Atente ao fato de que isso não muda a infraestrutura de como o app funciona. Embora envolva algum trabalho no nosso lado, há momentos em que somos obrigados por lei a cumprir intimações e ordens judiciais e fornecer informações adicionais sobre um post. Note-se que as “informações pessoais” que podemos fornecer são limitadas com base no que o usuário escolhe compartilhar com o app e no que o app exige para funcionar.

Não é uma resposta muito clara e meu pedido por um esclarecimento acerca dela foi ignorado, mas a sensação é de que, afinal, o Secret não garante sigilo absoluto sobre os autores mesmo após esses desvincularem seus posts, desde que, claro, haja uma ordem judicial no meio.

O Secret não é tão secreto quanto parece

Que vida dura.

Em apenas uma semana, o número de contatos meus usando o Secret triplicou. O app, que permite publicar e comentar anonimamente, chegou ao Brasil faz algum tempo e só agora quebrou a barreira do mainstream. Com mais gente, mais mensagens estão aparecendo e, entre elas, difamações e injúrias, claro.

Caso isso aconteça com você, o procedimento para remoção de conteúdo impróprio do Secret é relativamente simples. Existem duas ações que podem ser feitas:

  • Sinalizar o post. Arraste o dedo da direita para a esquerda em cima do post e toque em “Flag”.
  • Enviar o link do post para legal@secret.ly.

O ideal é realizar as duas ações concomitantemente.

Fernando “Gravz” Gouveia foi vítima de um comentário maldoso no Secret e publicou a resposta que recebeu do suporte em sua página no Facebook. Além da presteza e rapidez no processamento da reclamação, chamou a atenção dele também o fato das identidades no serviço não serem, ironicamente, “secretas” em absoluto:

Segundo informa Jared, que atende essas demandas na empresa, a proteção da privacidade não abrange mandados judiciais/intimações. Por óbvio, eles guardam “log” com os usuários e informam quem escreveu cada coisa (por meio do devido processo legal, vale ressaltar).

A política de privacidade do Secret contempla essa e outras situações em que o anonimato cai. No tópico “Compartilhamento de informações”, o serviço se reserva ao direito de revelar informações “que às vezes podem incluir informações pessoais” em cinco situações. A que o Jared comentou com o Gravz está no terceiro item da lista. As outras são:

  • Com vendedores, consultores ou outros provedores de serviços que necessitem dessas informações para executar trabalhos em prol do Secret.
  • Durante negociações, fusões e outras manobras comerciais envolvendo o Secret.
  • Se algum conteúdo se mostrar razoavelmente ilegal, ou se promover ou instigar tais atividades. O Secret pode repassar essas informações às autoridades.
  • Com o consenso do usuário, caso o Secret queira usar o conteúdo para sabe-se lá o quê.

É de se esperar que o Secret não ceda informações pessoais tão facilmente, mas presumir que ele garantirá a privacidade acima de tudo, que baterá de frente com uma ordem judicial? Se nem o 4chan faz isso, por que uma startup que mês passado recebeu US$ 25 milhões em investimentos faria diferente?

Use com responsabilidade.

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Atualização (8/8, 11h40): se eu desvincular os posts da minha conta, não serei responsabilizado? Não é bem assim…

Atualização (11/8, 18h40): ouça o nosso podcast sobre o Secret e outros apps anônimos.

Incomoda a você o Google verificar imagens compartilhadas no Gmail?

Um homem foi preso no estado da Pensilvânia, nos EUA, por armazenar fotos de pornografia infantil no OneDrive. Dias antes, um usuário do Gmail também foi preso no estado do Texas sob a mesma acusação.

Não é como se funcionários da Microsoft e do Google fizessem a verificação, pessoalmente e uma a uma, de todas as fotos que passam pelos servidores da empresa. Da mesma forma que o Google usa bots para analisar e direcionar anúncios baseados nos e-mails do Gmail, sem intervenção humana, tecnologias similares são empregadas no reconhecimento de imagens. A iniciativa da Microsoft para identificar imagens do tipo, chamada PhotoDNA, existe desde 2008 e é compartilhada com outras empresas, como o Facebook e o próprio Google.

Nesses casos o benefício da vigilância proativa à sociedade é óbvio: prender pedófilos. Óbvio e indiscutível. O Google garante que tal tecnologia se limita à identificação de pornografia infantil, como nesta nota à AFP, ou seja, se você estiver planejando um assalto ou qualquer outro crime trocando e-mails com seus comparsas pelo Gmail, não será o Google que denunciará tais planos malignos às autoridades. Mas foi ou será sempre assim? Até que ponto vai esse poder, ou até onde ele é saudável? E, como diz aquele quadrinho, quem vigia os vigilantes?

Em abril o Google interrompeu um monitoramento similar de 30 milhões de contas de e-mail usadas por escolas, universidades e instituições similares no mundo inteiro após ser processado nos EUA por minerar dados dos estudantes. É um contraexemplo de emprego da mesma tecnologia para um fim questionável.

Toda essa questão é bastante delicada e mesmo pendendo para o lado que vê com bons olhos esse tipo de intervenção, ainda sobra um certo receio, um conflito quase latente entre o fazer justiça e o direito à privacidade irrestrita. Encare este post como um pensamento alto e um convite à discussão. O que você acha?

Este é o Bleep, o bate-papo super seguro da BitTorrent

Ontem a BitTorrent começou a liberar convites para o Bleep, novo app de bate-papo. “Mais um!?” Mais um, esse com a promessa de segurança máxima graças ao protocolo descentralizado (dispensa servidores, a comunicação é P2P) e anonimato como opção (se quiser, pode usá-lo sem qualquer tipo de identificação, como e-mail ou telefone).

Fui agraciado com um dos convites e tratei de instalar o Bleep aqui — por ora, só funciona no Windows 7/8.X, mas a expectativa é que no futuro ele tenha apps nas plataformas mais populares. A interface é um tanto feia e seu jeitão lembra o dos apps feitos com Adobe AIR, o que não é exatamente um elogio.

É assim que é o Bleep.

Os recursos são bem rudimentares. Existe uma lista de contatos e, ao lado, o espaço para bate-papo, uma organização similar à do iMessage do OS X. Tem um botãozão na parte de baixo para adicionar pessoas (via e-mail, telefone ou chave pública) e, em cima, abas para a lista de contatos e opções. Nessas, destaque para a busca por contatos salvos no Google, chave pública (para quem quer permanecer anônimo) e o botão do desespero, que apaga todas as mensagens.

Dá para conversar por texto e voz, o que é bem legal. Nos meus rápidos testes, porém, a conversa por voz não funcionou. Ficamos, eu e o Rics, quase dois minutos na chamada sem que conseguíssemos ouvir um ao outro. Depois, o botão de ligar sumiu e não foi mais visto. Meh.

O Bleep está em fase pré-alfa, ou seja, ainda tem muito chão para se desenvolver. O pessoal da BitTorrent alertou, no último comunicado, que ele é um trabalho em progresso e muita coisa deve mudar até chegar à versão estável. Apps do tipo com foco em segurança começaram a surgir ano passado (Telegram, Sicher, Cryptocat), mas o Bleep, pelo nome que tem por trás e seus diferenciais, pode fazer barulho quando estiver mais polido e acessível.

Como o Facebook, OkCupid também fez experimentos nos usuários — mas quase ninguém se importa

Christian Rudder no OkTrends, o blog de dados e estatísticas do OkCupid, após um hiato de mais de três anos:

Notamos recentemente que as pessoas não gostaram quando o Facebook “experimentou” com seu feed de notícias. Até o FTC [o CADE dos EUA] se envolveu. Mas adivinhe só, pessoal: se você usa a Internet, você está sujeito a centenas de experimentos a qualquer hora, em todos os sites. É assim que os sites funcionam.

Aqui estão alguns dos experimentos mais interessantes que o OkCupid já conduziu.

Neste post, Rudder revela três mudanças na interface que o OkCupid fez para entender como as conversas e relacionamentos se formam. Em um, removeu as fotos dos usuários; sem esse feedback visual o site notou que as conversas entre estranhos aumentaram. Em outro, diminuiu de dois (um para beleza outro para personalidade) o sistema de notas para os usuários; somos, afinal, seres bem visuais e quase ninguém lê aquele perfil enorme (e se lê, dá pouca importância comparado à foto de perfil).

O último foi uma tentativa de ver até que ponto o sistema de compatibilidade, que atribui uma porcentagem de simpatia aos outros usuários, funciona. O OkCupid mentiu aos usuários dizendo que usuários com 30% de compatibilidade tinham 90%. A pesquisa notou, porém, que o maior índice de engajamento se deu entre pares que tinham de fato e foram informados terem 90% de compatibilidade — ou seja, de alguma forma o algoritmo funciona.

A reação da Internet à revelação do OkCupid foi mais amena do que a daquele experimento do Facebook. Não que tenha sido unânime; alguns sites, como o Gigaom, criticaram duramente a postura de Rudder. Só que no geral pouca gente se manifestou indignada, e na tentativa de entender o porquê algumas teorias surgiram.

O tom da revelação foi mais ameno. Em vez de um paper acadêmico, um post bem humorado em um blog. (Referir-se aos resultados como “contágio de humor” também não ajudou o Facebook.) O OkTrends historicamente usa (ou usava) dados gerados pelos usuários do OkCupid para tirar conclusões. Foi para isso que ele nasceu e o motivo pelo qual é adorado.

A motivação para os testes também pesa. O OkCupid fez vários testes A/B, ou seja, mudanças sutis na interface para ver como os usuários reagiriam. Rudder diz, no post, que queria averiguar algumas suspeitas que seu pessoal tinha do serviço, em especial (no terceiro e mais polêmico teste) se o algoritmo de compatibilidade faz diferença por si só ou se as pessoas conversam com outras compatíveis apenas porque o site diz isso.

O experimento do Facebook foi mais agressivo. O site deliberadamente alterou o feed de notícias para deixar o usuário triste. Uns até classificam isso como teste A/B, mas ele extrapolou a funcionalidade do site e correu o risco de gerar consequências perigosas na vida dos usuários. A intenção era danosa não como possibilidade ou desvio, mas como etapa para observar os resultados.

Outro aspecto relevante é o papel que OkCupid e Facebook têm na sociedade. Enquanto a rede social é praticamente obrigatória em vários círculos, o OkCupid é marginal.

A repercussão desse e de outros testes tornados públicos recentemente tem servido também para observar a recepção deles pelo público em geral. Ontem, depois que publiquei o post sobre o Fingerprint Canvas, algumas reações no Twitter me surpreenderam.

Parece que estamos ficando mais condescendentes com esse tipo de experimentação, em sermos objetos de pesquisas sem anuência prévia, independentemente do quão nefastas essas sejam.

Privacidade é a nova norma no Facebook

Na Slate, Will Oremus repara na guinada pela qual o Facebook passa. De defensor da abertura e do fim dos segredos, agora o site abraça e estimula a privacidade.

Em resposta a um investidor, quarta-feira passada, que questionou se o Facebook estaria passando por tal mudança, Mark Zuckerberg disse:

Uma das coisas em que mais focamos é criar espaços privados para as pessoas compartilharem coisas e terem interações que não poderiam ter em outros lugares.

Embora seja creditado como um dos fatores do seu sucesso, o histórico da rede social nunca foi abalizado pela privacidade — lembra do papo de que o público é a nova regra, de 2010? Só que estamos em 2014 e a julgar pelas últimas investidas do Facebook, parece que a abordagem lá dentro mudou. Recapitulando:

A declaração e essas ações demonstram, de fato, uma mudança de posicionamento. Além de estar na moda graças a apps como WhatsApp, Whisper e Snapchat (que, mais de uma vez, o Facebook tentou copiar), essa visão renovada sobre o que até pouco tempo era visto como vilão pode ser explicada por uma epifania que deve ter ocorrido lá: de repente Mark descobriu que não precisa de informações públicas para minerar dados, basta apenas que elas sejam geradas em suas plataformas. (Coisa que, aliás, o Google sabe desde 2004 com o Gmail.)

Indetectável e impossível de bloquear, Fingerprint Canvas expõe o paradoxo privacidade vs. comodidade dos navegadores modernos

Uma nova técnica de identificação e criação de perfis online chamada Fingerprint Canvas foi descoberta por pesquisadores americanos e belgas. Ela foi desenvolvida pelo AddThis, um serviço que facilita a implantação de botões de redes sociais em sites, e detectada em 5% dos 100 mil sites mais populares segundo o ranking do Alexa (lista completa).

Esquema da técnica.A técnica consiste em desenhar uma frase oculta que contém todas as letras do alfabeto usando a tag <canvas> dos navegadores modernos. Como a “letra” varia de acordo com vários critérios (sistema, navegador, fontes instaladas e outros), cada máquina gera um desenho único (daí o nome, “impressão digital”). Ao cruzar esse dado com outros passa a ser possível identificar um usuário e, com base nisso tudo, formular os perfis de consumo de que empresas de publicidade tanto gostam. Não só: combinando a técnica com outras, é possível criar “evercookies”, mais resilientes e difíceis de detectar que os cookies tradicionais.

Segundo Rich Harris, CEO do AddThis, o desenvolvimento do Fingerprint Canvas é uma tentativa de substituir o cookie, o pequeno arquivo gerado por sites para guardar informações personalizadas do usuário e que, tão frequentemente quanto, ajuda empresas de publicidade a identificarem melhor os gostos do público a fim de direcionar melhor seus anúncios. Ele alega que os testes da nova técnica alcançaram apenas 13 milhões de sites, que os resultados não são utilizados para fins duvidosos àqueles que optarem por isso (ou seja, é opt-out) e que considera encerrar os esforços em breve porque o identificador não é único o bastante.

Embora a Fingerprint Canvas tenha se revelado um parâmetro falho para o fim a que se destina, o que mais assusta nessa técnica é a persistência e sua indetectabilidade. Como ela se aproveita de um recurso intrínseco aos navegadores modernos, a tag <canvas> do HTML, é difícil barrá-la. Seria o equivalente a impedir o seu navegador de exibir palavras em negrito para conter uma possível brecha de segurança.

No BoingBoing, Glenn Fleishman explica que essa e outras técnicas só são possíveis pela evolução dos navegadores. Se antes eles serviam como janelas burras que exibiam conteúdo limitado e totalmente processado no lado servidor, nos últimos anos com coisas como HTML5, Ajax e armazenamento local (IndexedDB, por exemplo), o navegador ganhou super poderes e passou a ter mais autonomia ao lidar com páginas web. E como dizia o tio Ben…

Mais sofisticação traz consigo um previsível preço relacionado à privacidade sobre a qual esse último paper [do Fingerprint Canvas] revela mais coisas. Quanto maior o poder e a flexibilidade de uma alternativa para que dados sejam armazenados ou criados no navegador, maior a probabilidade de que ela seja usada para isolar e identificar um navegador, se não um indivíduo. Quem desenvolve navegadores normalmente permanece neutro ou minimiza os impactos em privacidade de novos recursos que têm o potencial de empurrar informações aos navegadores ou identificá-los unicamente. Mesmo em casos onde não são, a tecnologia pode ser tão poderosa que pode ser subvertida para o rastreamento.

Para o pesquisador de segurança e privacidade Ashkan Soltani, trata-se uma corrida armamentista cujo ganhador são os anunciantes e o culpado por ela, a economia da Internet. “Existe um grande incentivo para ter certeza de que você está identificando (com cookies ou impressão digital) cada usuário individualmente a fim de se ter uma contagem precisa (e, consequentemente, um montante exato de dólares).”

Na ProPublica, que divulgou o paper que expõe a Fingerprint Canvas, Julia Angwin traz um pequeno roteiro ensinando como navegar anonimamente. As dicas denotam, em ressalvas como “pode ser lento” e “quebra vários sites”, como os avanços dos mecanismos de rastreamento estão intimamente ligados à tecnologia dos navegadores. Manter-se anônimo na web, hoje, é sinônimo de ter uma experiência de segunda classe. Troca-se, afinal, a privacidade pela comodidade.

Oi é multada pelo Navegador, da Phorm. Antes tarde do que nunca?

A parceria da operadora Oi com a empresa Phorm, que tem sede em Londres, para utilização de uma ferramenta de identificação de preferência dos usuários na internet para fins publicitários está levantando dúvidas nos órgãos federais que avaliam ou monitoram o assunto. O tema está sob análise tanto do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) quanto do Ministério da Justiça […]

O parágrafo acima é de uma notícia de 2010, mas somente nesta semana a Oi foi multada em R$ 3,5 milhões por ferir os princípios da boa fé e transparência na oferta do Navegador, uma tecnologia da inglesa Phorm que monitora os hábitos de navegação do usuário de banda larga para construir perfis de consumo e vendê-los a empresas de publicidade.

A parceria entre Oi e Phorm terminou em março do ano passado. A Oi disse que recorrerá da multa.

LG apresenta o KizON, um gadget vestível para monitorar crianças

Kaylene Hong, no The Next Web:

O KizON é projetado principalmente para pais monitorarem a localização de seus filhos em idade pré-escolar e no Ensino Fundamental. Usando GPS e Wi-Fi, a pulseira consegue fornecer informações de localização em tempo real a um smartphone, de modo que os pais saibam onde seus filhos estão.

O KizON também tem um botão “Discagem Em Um Passo”, que permite aos pais entrarem em contato com seus filhos facilmente. Se a criança não atender a ligação de quaisquer números pré-definidos em 10 segundos, o KizON completa automaticamente a chamada para que o pai consiga ouvir o que se passa através do microfone embutido. As crianças também podem discar para um número pré-configurado caso precisem falar com um adulto.

É uma variante interessante dentro da tendência de gadgets vestíveis e, junto a eventuais dispositivos que miram o público idoso, tem hoje mais aplicação prática do que as soluções generalistas, como as que usam Android Wear.

Não sou pai e talvez isso limite o meu julgamento a ponto de suscitar tal debate, mas me chama a atenção esse monitoramento precoce, especialmente o microfone que entra em ação mesmo contra a vontade da criança. Para as novinhas, nada muito grave, mas crianças no Ensino Fundamental me parecem já ter alguma vida própria e a percepção de, com esse trambolho no pulso, estarem sendo monitoradas.

Andar com o KizON não poderia, de alguma forma, naturalizar ou relativizar a ideia de vigilância constante  nessas crianças e, por consequência, diminuir a importância que a privacidade teria quando chegarem na fase adulta?

As pesquisas em redes sociais financiadas pela Darpa

Ben Quinn e James Ball, no Guardian:

Pouco antes da controvérsia do Facebook emergir, a Darpa publicou uma longa lista de projetos financiados sob o programa SMISC (Comunicação Estratégica em Mídia Social), incluindo links para os resumos e papers completos.

A lista de projetos inclui um estudo sobre como os ativistas do movimento Occupy usaram o Twitter, bem como um apanhado de pesquisas de monitoramento de memes na Internet e algumas sobre a compreensão de como o comportamento de influência (curtir, seguir, retuitar) acontece em um grupo de plataformas de mídias sociais como Pinterest, Twitter, Kickstarter, Digg e Reddit.

A reportagem faz uma boa recapitulação de projetos fascinantes (e meio assustadores) da Darpa e especifica alguns dos divulgados nessa lista. Desses, destaque para dois: um, com a participação do Facebook, que analisou como as pessoas assimilavam e consumiam informações no Twitter. Outro, sobre o espalhamento de informações no Twitter, por incitar comportamentos através da interação direta em vez de apenas observar os pesquisados.

Pesquisas do gênero não são novidade, nem nada do outro mundo. No Brasil, nomes como Alex Primo e Gabriela Zago há anos analisam comportamentos em redes sociais, especialmente no Twitter, e escrevem artigos a respeito. Só que no caso das pesquisas financiadas pela Darpa, há um ingrediente extra que pode azedar a mistura: a finalidade.

Pode parecer roteiro de filme B dos anos 1980, mas suspeitas reforçadas pelos vazamentos de Edward Snowden, ano passado, apontam que as agências de inteligência podem estar usando os resultados dessas pesquisas para propaganda governamental, propagação da desinformação e outras práticas questionáveis.