Como o Facebook, OkCupid também fez experimentos nos usuários — mas quase ninguém se importa

Christian Rudder no OkTrends, o blog de dados e estatísticas do OkCupid, após um hiato de mais de três anos:

Notamos recentemente que as pessoas não gostaram quando o Facebook “experimentou” com seu feed de notícias. Até o FTC [o CADE dos EUA] se envolveu. Mas adivinhe só, pessoal: se você usa a Internet, você está sujeito a centenas de experimentos a qualquer hora, em todos os sites. É assim que os sites funcionam.

Aqui estão alguns dos experimentos mais interessantes que o OkCupid já conduziu.

Neste post, Rudder revela três mudanças na interface que o OkCupid fez para entender como as conversas e relacionamentos se formam. Em um, removeu as fotos dos usuários; sem esse feedback visual o site notou que as conversas entre estranhos aumentaram. Em outro, diminuiu de dois (um para beleza outro para personalidade) o sistema de notas para os usuários; somos, afinal, seres bem visuais e quase ninguém lê aquele perfil enorme (e se lê, dá pouca importância comparado à foto de perfil).

O último foi uma tentativa de ver até que ponto o sistema de compatibilidade, que atribui uma porcentagem de simpatia aos outros usuários, funciona. O OkCupid mentiu aos usuários dizendo que usuários com 30% de compatibilidade tinham 90%. A pesquisa notou, porém, que o maior índice de engajamento se deu entre pares que tinham de fato e foram informados terem 90% de compatibilidade — ou seja, de alguma forma o algoritmo funciona.

A reação da Internet à revelação do OkCupid foi mais amena do que a daquele experimento do Facebook. Não que tenha sido unânime; alguns sites, como o Gigaom, criticaram duramente a postura de Rudder. Só que no geral pouca gente se manifestou indignada, e na tentativa de entender o porquê algumas teorias surgiram.

O tom da revelação foi mais ameno. Em vez de um paper acadêmico, um post bem humorado em um blog. (Referir-se aos resultados como “contágio de humor” também não ajudou o Facebook.) O OkTrends historicamente usa (ou usava) dados gerados pelos usuários do OkCupid para tirar conclusões. Foi para isso que ele nasceu e o motivo pelo qual é adorado.

A motivação para os testes também pesa. O OkCupid fez vários testes A/B, ou seja, mudanças sutis na interface para ver como os usuários reagiriam. Rudder diz, no post, que queria averiguar algumas suspeitas que seu pessoal tinha do serviço, em especial (no terceiro e mais polêmico teste) se o algoritmo de compatibilidade faz diferença por si só ou se as pessoas conversam com outras compatíveis apenas porque o site diz isso.

O experimento do Facebook foi mais agressivo. O site deliberadamente alterou o feed de notícias para deixar o usuário triste. Uns até classificam isso como teste A/B, mas ele extrapolou a funcionalidade do site e correu o risco de gerar consequências perigosas na vida dos usuários. A intenção era danosa não como possibilidade ou desvio, mas como etapa para observar os resultados.

Outro aspecto relevante é o papel que OkCupid e Facebook têm na sociedade. Enquanto a rede social é praticamente obrigatória em vários círculos, o OkCupid é marginal.

A repercussão desse e de outros testes tornados públicos recentemente tem servido também para observar a recepção deles pelo público em geral. Ontem, depois que publiquei o post sobre o Fingerprint Canvas, algumas reações no Twitter me surpreenderam.

https://twitter.com/magaiverpr/status/493839614390829056

Parece que estamos ficando mais condescendentes com esse tipo de experimentação, em sermos objetos de pesquisas sem anuência prévia, independentemente do quão nefastas essas sejam.

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4 comentários

  1. Naturalmente, as empresas sempre experimentam com os seus produtos sem seguir as regras da academia. Eu também fui um crítico contundente da questão do Facebook, mas pensando com calma, isso é comum em certa escala.

    O único dessa lista que achei mais errado foi alterar a “compatibilidade” porque é imperceptível ao usuário, diferente de mudar a interface e tals. Para padrões da academia, tudo está errado, mas pessoalmente acho mais grave quando realmente engana os usuários (apesar de ser necessário para muitos experimentos de psicologia).

    Enfim, será que a gente precisa de uma ética para pesquisa em redes sociais?

    1. Talvez, com todas as polêmicas sobre marco civil e etc, logo mais aparece alguma lei ou código de conduta para casos de experimentos na internet. Querendo ou não, não temos controle sobre e nem percebemos na maior parte dos casos (só se formos explicitamente avisados).

      Por já ter tido uma startup, sei que é comum fazer testes a/b. Agora, quanto mais as empresas avançam na questão de análise comportamental, mais teremos a questão ética envolvida. Mesmo assim é impressionante ver o que estão criando com dados que as vezes são desconexos e, devido a ciência de dados / estatística, conectamos e tiramos conclusões.

      Óbvio, teremos que esperar o que ocorrerão destes casos, mas até então acho que o único que pode ter sido anti-ético foi o do facebook. Nos outros só estavam arranjando meios de fazer o software ficar melhor ou dar uma maneira de monetização mais eficiente. Afinal, empresas vivem de $$$ e quanto mais inovadoras são suas ferramentas, mais dinheiro ganharão. Portanto, pesquisas como essas são necessárias.

  2. Deixar pessoas tristes intencionalmente é arriscado porque elas podem romper um relacionamento, perder emprego ou até se matar… sabe-se lá as consequências, acho que esse foi o maior problema.

    Fazer testes em sites é normal pra melhorar o engajamento, a visibilidade de anúncios e por aí vai, mas não vá arriscar ferrar a vida de alguém!

    P.S.: domingo agora vou casar e a conheci pelo OkCupid :)

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