O “retorno” do Flappy Bird não tem relação com seu criador, o vietnamita Dong Nguyen. Ele tirou a poeira do seu perfil no X, onde não postava desde 2017, para fazer o alerta e dizer que não vendeu o jogo e que não apoia criptomoedas.

Uma empresa estadunidense, a Gametech Holdings, comprou os direitos autorais de Flappy Bird após eles terem expirado, no final de 2023, e os cedeu à recém-criada “Flappy Bird Foundation”. (A história é meio confusa e cheia de lacunas.)

Sem muita surpresa, a “foundation” tem gente ligada até o pescoço com iniciativas de criptomoedas e NFTs e o jogo clássico do Flappy Bird já foi lançado no Telegram integrado ao TON, a criptomoeda da plataforma. (Telegram que, não sei se você soube, “pivotou” de app de mensagens para plataforma para esquemas questionáveis envolvendo criptomoedas.)

Dong Nguyen sempre teve razão. / arstechnica.com (em inglês)

Números enormes

Números que ajudam a colocar em perspectiva o tamanho do setor de tecnologia — em vários sentidos.

Em agosto, o iFood bateu a marca de 100 milhões de pedidos em um mês. “O centésimo milionésimo pedido de agosto foi feito às 12h54m do sábado passado, último dia do mês: um combo de hambúrguer, refrigerante e batata frita entregue em Lins (SP)”. / oglobo.globo.com

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Mais de 40% da receita do Telegram em 2023 veio de negócios relacionados a criptomoedas. No período, a empresa faturou ao todo US$ 342,5 milhões e teve prejuízo de US$ 108 milhões. / ft.com (em inglês)

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O fornecimento de dados biométricos preocupa 60% dos brasileiros com acesso à internet. O dado consta na segunda edição da pesquisa Privacidade e proteção de dados, do Cetic. / cetic.br

Números enormes

Números que ajudam a colocar em perspectiva o tamanho do setor de tecnologia — em vários sentidos.

De acordo com a Nielsen, o Brasil tem 10,4 milhões de influenciadores digitais. Para a consultoria, qualquer perfil com mais de mil seguidores é considerado influenciador. Esses números podem variar muito. Em 2022, a Adobe estimou esse número em 20,1 milhões — considerando quem tinha +5 mil seguidores e ganhava algum dinheiro com posts em redes sociais. / uol.com.br, news.adobe.com (em inglês)

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Pela primeira vez em 12 anos (!), o Medium fechou um mês no azul. Com mais de um milhão de assinantes pagantes (a empresa não revelou os números exatos), o TechCrunch fez as contas e estimou o faturamento anual em US$ 50–60 milhões. / techcrunch.com

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De acordo com o Banco Central, entre janeiro e maio deste ano os brasileiros mandaram US$ 7,3  bilhões em criptomoedas para o exterior — o mesmo valor gasto por brasileiros em viagens a turismo para fora do país. / investnews.com.br

Pavel Durov, CEO do Telegram, anunciou a “Telegram Stars”, uma moeda virtual, comprada com dinheiro de verdade pelos sistemas da Apple e do Google, para ser usada dentro dos mini-aplicativos da plataforma. Detalhe: só dá para sacar os “Stars” convertendo-os para a criptomoeda TON, dentro da plataforma Fragments. (Não pergunte, eu também não entendo direito.)

Como disse alguém no nosso grupo no Signal, Durov está convertendo dinheiro real em dinheiro de Banco Imobiliário que ele mesmo imprime — e ainda diz que vai subsidiar a taxa de 30% da Apple e Google, o que é fácil quando o único dinheiro de verdade na reta não é o seu.

Gênios (Durov e o leitor)!

Adesivo colado sobre um QR code: “Diz muito que os investidores estejam desperdiçando dezenas de milhões em um novo esquema de criptografia a fim de ajudar os pobres do mundo. Se eles estivessem realmente interessados em ajudar comunidades de baixa renda, deveriam doar seu dinheiro em vez de investir em mais uma forma de vigilância.”
“Diz muito que os investidores estejam desperdiçando dezenas de milhões em um novo esquema de criptografia a fim de ajudar os pobres do mundo. Se eles estivessem realmente interessados em ajudar comunidades de baixa renda, deveriam doar seu dinheiro em vez de investir em mais uma forma de vigilância.” Foto: @docpop@mastodon.social.

O artista Doctor Popular criou adesivos para colar em cima dos cartazes da Worldcoin, startup/esquema co-fundado por Sam Altman, CEO da OpenAI, que quer registrar a íris de todas as pessoas do mundo em troca de uma criptomoeda fajuta.

Parece o plano diabólico de um filme ruim. O objetivo da Worldcoin é distinguir pessoas de inteligências artificiais, “habilitar processos democráticos globais” (?) e financiar com IA uma renda básica universal. (Sério, eu não estou inventando; está no site oficial.)

É esse cara — que não entendeu Oppenheimer — que está na vanguarda do Vale do Silício, moldando regulações de IA ao redor do mundo. Via @@docpop@mastodon.social (em inglês).

O mundo das criptomoedas está em polvorosa. A SEC, equivalente norte-americano da nossa CVM, processou a Coinbase e a Binance, maiores corretoras de criptomoedas dos EUA e do mundo, respectivamente.

A acusação da SEC é de que ambas atuam como bolsas de valores sem terem permissão para tal. Contra a Binance pesam ainda outras suspeitas mais graves, mas a investida do órgão regulador não parece focar nelas.

Matt Levine, o popular colunista da Bloomberg, resumiu a questão da seguinte forma:

Uma boa regra geral é que todas as corretoras de criptomoedas estão cometendo crimes, e se você tiver sorte, a sua corretora está cometendo apenas crimes processuais.

Ele acredita que é o caso da Coinbase, ou seja, que essa corretora faz tudo certinho e seu único crime é o que a SEC está alegando. Já com a Binance, o buraco é mais embaixo.

A ex-segunda maior corretora de criptomoedas do mundo, a FTX, era falcatrua pura e implodiu no final de 2022 quando a sujeira veio à tona.

Robert Armstrong, do Financial Times, acha que a SEC erra ao processar as corretoras de criptomoedas equiparando-as a bolsas porque criptomoedas não devem ser equiparados a títulos públicos e ações de empresas:

Isso não se baseia em uma visão de que as criptos têm um valor especial e de não títulos que precisa ser preservado. Pelo contrário: as criptomoedas são uma insanidade perigosa — mas uma em que se pode confiar no mercado para matá-la em pouco tempo. Se isso não acontecer, as criptomoedas devem ser regulamentadas tal qual o tabagismo, os jogos de azar ou os esquemas de pirâmide. Em ambos os casos, essas coisas não devem ser dignas da regulamentação sob a lei de valores mobiliários.

Via Bloomberg [sem paywall], Financial Times [sem paywall] (ambos em inglês).

A Reuters publicou (e a Folha de S.Paulo reproduziu) uma matéria sobre a suposta hiper-valorização de uma shitcoin inspirada no meme do sapo Pepe, popular entre extremistas digitais.

Parece-me um desserviço divulgar sob esse ângulo um negócio que parece, tem cheiro e forma de esquema de pump-and-dump — como se fossem ativos dignos de nota, falando em “valor de mercado” e volatilidade de um negócio sem legitimidade alguma. “Salta 7.000% desde o lançamento”, diz o título.

É aquele caso de uma piada que dá a volta e no fim a piada é quem compra esse tipo de coisa:

O site da Pepe diz que foi lançado “para o povo” sem “nenhuma equipe formal ou roteiro” e é “completamente inútil e apenas para fins de entretenimento”.

Com certeza. Confia e vai. Via Folha de S.Paulo.

Eles [mineradores] compraram um monte de coisas [da Nvidia] e depois acabaram colapsando porque [criptomoedas] não trazem nada de útil para a sociedade. A IA traz.

— Michael Kagan, CTO da Nvidia.

A relação da Nvidia com mineradores de criptomoedas sempre foi meio… tumultuada.

Em 2021, a empresa implementou um software em seus chips gráficos que limitava artificialmente a capacidade deles em minerar criptomoedas.

Depois, em 2022, a Nvidia foi acusada por acionistas de ocultar informações a respeito do impacto das criptomoedas em seu negócio.

Em outro trecho do papo de Kagan com o The Guardian, ele faz um “mea culpa”, dizendo que nunca acreditou que criptomoedas fossem boas à humanidade, que a Nvidia vende seus produtos a quem está disposto a comprá-los, “mas você não redireciona a empresa para apoiar quem quer que seja”. Via The Guardian (em inglês).

Levantamento de Molly White, do ótimo Web3 is Going Just Great (W3IGG), revelou que os muitos hacks e golpes envolvendo plataformas da chamada “Web3” causaram prejuízo de US$ 4,27 bilhões (~R$ 23 bilhões) em 2022.

Molly diz que é uma “estimativa bastante conservadora” porque “ainda não temos uma boa imagem do tanto de dinheiro perdido em alguns dos maiores colapsos do ano”, como os da criptomoeda Luna e da exchange FTX.

O valor acima pode ser visualizado em um novíssimo “placar do golpismo”, que Molly subiu no W3IGG. O maior rombo de 2022 foi o hack de uma “ponte” do jogo Axie Infinity, da Sky Mavis: só ali foram perdidos US$ 625 milhões (~R$ 3,37 bilhões). Via newsletter da Molly White (em inglês).

O ano da implosão

por Guilherme Felitti

Dois mil e vinte e dois não foi um ano bom para aquela sensação tecno-utópica que nos tomou nas últimas duas décadas. Quem defende a certeza quase religiosa de que tecnologia só serve para o bem teve que dar piruetas argumentativas dignas de Daiane dos Santos. Por outro lado, quem encara a questão com ceticismo — eu e toda a galera envolvida no Manual do Usuário — termina o ano com uma sensação de surpresa, de não esperar algumas implosões tão rápidas e definitivas como vistas em 2022.

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