Não sou muito afeito ao jornalismo satírico (estilo Sensacionalista), mas às vezes ele consegue resumir uma situação esdrúxula de modo tão preciso que não tem como não dar uma risadinha.

Aconteceu agora pouco com este título da New Yorker (tradução livre): “Possível fraude de homem à frente de negócio baseado em dinheiro imaginário choca o mundo.”

O homem, no caso, é Sam Bankman-Fried (SBF), fundador e ex-CEO da FTX, que era, até novembro, a segunda maior corretora de criptomoedas do mundo e quebrou após uma avalanche de fraudes vir à tona.

Bankman-Fried foi preso nas Bahamas nesta terça (13), onde fica a sede da FTX, e deve ser extraditado para os Estados Unidos.

Em nota relacionada, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos está em um dilema: se lança já ou acumula mais provas para sua investida contra a Binance, a maior corretora de criptomoedas do mundo, com sede em Cingapura, por conivência com lavagem de dinheiro e outros crimes financeiros.

A linha de defesa dos advogados da Binance, segundo a Reuters, é que a abertura dessa investigação criaria o caos no mercado de criptomoedas — o tal dinheiro imaginário a que a sátira da New Yorker se refere.

Algo me diz que o mundo está prestes a se chocar outra vez. Via New Yorker, CNBCReuters (todos em inglês).

Quando a FTX quebrou, o domínio ftx.us foi redirecionado para uma página explicando o processo de falência. Ninguém reparou ou se importou com um detalhe: vários NFTs cunhados pela FTX confiavam em uma API hospedada naquele domínio, o que significa que ao removê-la dali, os NFTs sumiram.

Dá para ver o resultado na coleção de NFTs do festival Coachella (exemplo de um NFT que supostamente vale ~US$ 19,7 mil). Em vez das imagens, quadrados cinzas são exibidos. Se ao menos soubéssemos que isso poderia acontecer… Via Web3 is Going Great (em inglês).

A InfoMoney foi atrás de investidores que perderam tudo com a quebra da FTX, ex-segunda maior corretora de criptoativos do mundo.

Um engenheiro civil de Passo Fundo (RS) fez dois empréstimos bancários que somou às suas economias para investir no negócio. Perdeu R$ 700 mil. Longe de mim culpar a vítima, mas é difícil pensar em ideia pior que fazer um empréstimo junto ao banco (quiçá dois!) para investir num negócio extremamente volátil.

As chances de recuperar o prejuízo são baixas, como explica o advogado consultado na matéria. Primeiro porque há peixes mais graúdos na fila — a FTX deve US$ 3,1 bilhões aos 50 maiores credores.

Segundo porque a FTX era uma bagunça. John J. Ray III, CEO que assumiu o lugar do fundador Sam Bankman-Fried, classificou a situação da empresa como “sem precedentes”. A fala tem maior peso vindo de quem vem — Ray III esteve à frente da reconstrução de outra empresa envolvida em um mega-escândalo de fraude, o da Enron no início dos anos 2000. Via InfoMoney, Bloomberg, Coindesk (os dois últimos em inglês).

A FTX era a terceira maior exchange de criptomoedas, avaliada em US$ 32 bilhões, antes de implodir no início desta semana. Uma mutreta do seu fundador, Sam Bankman-Fried, envolvendo uma empresa-irmã, a Alameda Research, e o FTT, token emitido pela FTX, expôs a incapacidade da exchange em garantir o dinheiro investido, o que levou a uma corrida de investidores para sacarem o que tinham lá.

Piora. A Binance, maior exchange do mundo, se ofereceu para comprar a FTX e cobrir o prejuízo, mas voltou atrás após dar uma olhada na contabilidade.

A Sequoia, que injetou mais de US$ 200 milhões na FTX em 2021, entubou o prejuízo integral — a famosa firma de capital de risco do Vale do Silício reavaliou sua parte na FTX em US$ 0 (zero). O futuro da FTX é incerto. Via Bloomberg, Wall Street Journal, @sequoia/Twitter (todos em inglês).

Uma das principais promessas do mercado de NFT era a de que os artistas ganhariam comissões nas negociações do mercado secundário, ou seja, de vendas feitas após a inicial.

Só tem um problema: as comissões/royalties não estão previstas na blockchain e, dada essa discricionariedade, vários marketplaces passaram a isentar os negociadores da comissão ou torná-la opcional.

Para ilustrar a situação, na x2y2, um dos marketplaces que adotaram a comissão opcional, em apenas 18% das compras de outubro os criadores receberam comissão.

A OpenSea, maior marketplace de NFTs do mundo, está prestes a adotar uma política que banirá marketplaces rivais que não obrigam ao pagamento das comissões. Só que isso valerá apenas para novos NFTs. Os antigos estão num limbo e os artistas, com razão, impacientes com a situação. Via Decrypt (em inglês).

Levantamento da Forbes envolvendo as 157 maiores corretoras de criptomoedas do mundo constatou que 51% das transações envolvendo bitcoins em 2021 foram falsas ou de natureza não econômica. Em outras palavras, encenações feitas para inflar os números da criptomoeda mais popular. Via Forbes (em inglês).

A promessa quebrada do bitcoin em El Salvador

A promessa quebrada do bitcoin em El Salvador, por Jacob Silverman e Ben McKenzie no The Intercept Brasil:

Apesar do talento ocasional do governo salvadorenho para o marketing, o país enfrenta enormes desafios econômicos, uma crise da dívida, lutas constantes com o crime e a violência, uma disputa diplomática com os Estados Unidos e a gestão intempestiva de Bukele, que pode ser descrito superficialmente como uma mistura salvadorenha de Donald Trump, do presidente filipino Rodrigo Duterte e, incrivelmente, de um influenciador digital bitcoiner. Em 2021, Bukele remodelou o judiciário do país, nomeando novos juízes que interpretaram de forma criativa a Constituição para permitir que o presidente se candidatasse à reeleição. Preenchendo cargo governamentais com parentes e amigos de escola, Bukele dirige El Salvador quase como se fosse uma empresa familiar. As finanças da empresa podem estar em crise, mas, com sua política de prisões em massa e leis de censura visando a imprensa independente, Bukele parece determinado a consolidar ainda mais seu poder.

Pairando sobre tudo isso está a consequência, que ainda se desenrola, do desastroso projeto de Bukele para usar o bitcoin. Em junho de 2021, em uma apresentação de vídeo em uma conferência sobre bitcoin em Miami, Bukele anunciou que seu país seria o primeiro do mundo a adotar o criptoativo como moeda de uso legal. Em 7 de setembro de 2021, o bitcoin foi oficialmente adotado em El Salvador, com muita fanfarra propagandística e algum descontentamento, incluindo protestos sociais. Naquele dia, os mercados globais de criptomoedas caíram, com várias bolsas fechando inesperadamente. Seguiram-se inúmeras denúncias de fraude e roubo de identidade; um bitcoiner local nos disse que seu amigo usou uma foto de um cão para confirmar sua identidade. Problemas técnicos desenfreados atormentaram a implantação do Chivo, a carteira digital oficial em que todos os cidadãos receberiam US$ 30 em bitcoin (cujo valor despencou desde então). A adoção geral tem sido mínima, com a maioria das pessoas ainda preferindo dólares americanos, a outra moeda utilizada no país. O bitcoin também não se mostrou útil com remessas vindas do exterior, que são fundamentais para a economia de El Salvador: menos de 2% das remessas enviadas para o país agora usam bitcoin.

O projeto do bitcoin em si é levado a cabo por um confuso emaranhado de interesses governamentais e privados, alguns deles estrangeiros; poucas pessoas externas ao sistema sabem quem faz o quê ou onde. Bukele se gaba no Twitter de que compra bitcoin pelo telefone, usando dinheiro público, enquanto está sentado no vaso sanitário. Ele nunca postou o endereço da carteira que usa para que a população possa examinar essas transações, mas, se forem reais, ele já conta milhões de dólares no vermelho. Assim como o povo salvadorenho.

A Mojang, estúdio da Microsoft responsável por Minecraft, publicou uma enfática negativa ao uso de NFTs e de blockchains dentro do universo do jogo.

Segundo o comunicado, que é assinado por toda a equipe do estúdio, “NFTs criam modelos de escassez e exclusão que conflitam com as nossas diretrizes e o espírito de Minecraft”, em especial com o objetivo de manter uma comunidade onde todos tenham acesso ao mesmo conteúdo.

Transcrevo abaixo um trecho especialmente feliz do comunicado:

Cada um desses usos de NFTs e outras tecnologias de blockchain cria propriedades digitais baseadas em escassez e exclusão, o que não se alinha com os valores de Minecraft de inclusão criativa e de jogar juntos. NFTs não são inclusivas para toda a nossa comunidade e criam um cenário dos que têm e dos que não têm. A mentalidade de especulação e investimento em torno dos NFTs afasta o foco do jogo e incentiva o lucro, o que nos parece inconsistente com o prazer e o sucesso de longo prazo dos nossos jogadores.

Também nos preocupa o fato de que alguns NFTs de terceiros possam não ser confiáveis e acabar causando prejuízo aos jogadores que os compram. Algumas implementações de NFTs de terceiros também dependem inteiramente da tecnologia blockchain e podem exigir um gerenciador de ativos que pode desaparecer sem aviso prévio. Também houve casos em que NFTs foram vendidos a preços artificialmente ou fraudulentamente inflados. Reconhecemos que criações dentro do nosso jogo têm valor intrínseco e nos esforçamos para oferecer um mercado onde esse valor possa ser reconhecido.

Com destaque, a Mojang finaliza dizendo que “tecnologias de blockchain são proibidas de serem integradas às aplicações cliente e servidor de Minecraft e que não podem ser usadas para criar NFTs associados a qualquer conteúdo dentro do jogo, incluindo mundos, ‘skins’, itens ou outras modificações”. Via Minecraft (em inglês).

O homem de negócios Elon Musk vendeu 75% das reservas em bitcoin da Tesla entre março e junho, totalizando US$ 936 milhões. A revelação consta no balanço financeiro do segundo trimestre da Tesla, divulgado nesta quarta (20). Comprar na alta e vender na baixa: é isso o que os grandes traders fazem?

Coincidência ou não, o movimento interrompeu a tímida recuperação do bitcoin, cujo valor vem se deteriorando desde novembro de 2021, quando a máxima chegou próximo a US$ 69 mil. Nas últimas 24 horas, a criptomoeda desvaloriza ~4,4% e é negociada a US$ 22,6 mil, de acordo com o CoinMarketCap. Via Watchers News, Tesla (ambos em inglês).

Talvez seja tarde [para dizer isto], mas colocar seu dinheiro em criptomoedas é [como] apostar em jogos de azar.

— Aaron Davis, co-fundador do MetaMask.

A MetaMask é uma “hot wallet” de criptoativos que interage com a blockchain Ethereum, bastante usada por detentores de NFTs para guardar e transacionar seus “ativos”.

A declaração foi dada numa entrevista inédita que ele e seu sócio e co-fundador, Dan Finlay, deram à Vice.

Em outro trecho, Finlay admitiu que “não conseguimos impedir as pessoas de montar esquemas de pirâmide/Ponzi nas blockchains”. Até ontem (ou até antes da quebradeira do setor), a imutabilidade e o caráter “zero confiança” das blockchains e criptomoedas eram virtudes; agora, são uma inevitabilidade que propicia golpes. Que coisa. Via Vice (em inglês).