Um voto de confiança ao Facebook

Existe uma teoria que diz que o Facebook só se transformou em uma força na distribuição de conteúdo para conter o crescimento do Twitter. No início da década, a rede social de Mark Zuckerberg entrou em choque direto com o microblog dos (então) 140 caracteres, que era (e ainda é) bastante popular entre jornalistas e gente que costuma ser notícia.

O Facebook ganhou. Os jornalistas e as pessoas que são notícia continuam usando o Twitter (e somente eles, ou é a impressão que se tem), mas a repercussão, a viralização das notícias e o tráfego que toda publicação busca estão no Facebook1.

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Meu iPhone quebrado

por Joanne McNeil

O dia em que me mudei para o Brooklyn foi o dia em que quebrei a tela do meu iPhone. Estava tentando pegar as chaves na bolsa enquanto um grupo de estudantes esperava na porta para que um amigo a abrisse para eles. Destrancando a porta meio lesada devido ao jetlag, segurei-a aberta para cada um deles enquanto equilibrava a minha bolsa com a outra mão. Depois que o último entrou no prédio, parei a porta com o pé enquanto tentava redistribuir o peso de meus pertences. Meu iPhone deslizou para fora do bolso de trás, caindo direto no concreto.

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5 dias longe do Facebook: o que a rede social faz para trazê-lo de volta?

No primeiro dia do recesso que tive no jornal, abri o bloqueador de conteúdo que uso1 e coloquei esta regra:

https?://+([^:/]+.)?facebook.com[:/]

Traduzindo, ela bloqueia o acesso a qualquer site que tenha “facebook.com” na URL. Como o aplicativo sincroniza as regras entre todos os meus dispositivos, na prática o que fiz foi me trancar para fora do Facebook por cinco dias.

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Smartphones, objetos de transição e tempo intersticial

A ubiquidade do smartphone ainda suscitará muitas análises e estudos. Ela é sintomática ou um problema em si mesma? Usar tanto o smartphone causa efeitos colaterais? Bons ou ruins? Como nos adaptar às alterações sociais que esses pequenos objetos geram? São perguntas, em grande medida, ainda sem respostas, e que atiçam a curiosidade de muita gente. Sharif Mowlabocus, pesquisador da Universidade de Sussex, no Reino Unido, e autor do livro Gaydar Culture: Gay Men, Technology and Embodiment in the Digital Age (sem tradução no Brasil), tem uma teoria. (mais…)

A impossibilidade de uma selfie perfeita

por Fabio Montarroios

Não tiro selfies. Não gosto. Acho sem graça. Sinto uma baita vergonha e quando tiro é a contragosto. Não quero ser fotografado por outros e isso inclui a mim mesmo. É uma opção pessoal que vai contra o que faz a maioria. E de tudo que já pode ter sido dito sobre as selfies, não sou eu que vou demover você de fazê-las. Não é esse o propósito desse texto, inclusive.

Muito pelo contrário: escrevo para que você as faça cada vez mais e melhores! Na verdade, você faz o que quiser da sua vida — e isso inclui as selfies. Só que, às vezes, alguém pode se irritar tanto com elas a ponto de transformá-las em outra coisa, uma coisa bem diferente do que você pretendia quando as fez, diga-se. O ato de fazer um autorretrato com o smartphone deixa de ser algo corriqueiro e se transforma em algo totalmente condenável. Daí, talvez valha uma reflexão breve sobre como a fotografia amadora atual passou a ser tão importante para todos nós. (mais…)

Hackeando a economia da atenção

por danah boyd

Nota do editor: danah boyd é uma estudiosa da interseção entre tecnologia e sociedade. É pesquisadora do Microsoft Research, fundadora do Data & Society, professora visitante do Programa de Telecomunicações Interativas da Universidade de Nova York e autora dos livros It’s Complicated: The Social Lives of Networked Teens e Participatory Culture in a Networked Era (ambos ainda sem tradução no Brasil). Siga-a no Twitter.


Para a maioria dos leigos em tecnologia, o termo “hackear” invoca a noção do uso de técnicas sofisticadas para burlar a segurança de um sistema corporativo ou governamental para fins ilícitos. A maioria das pessoas engajada na quebra da segurança desses sistemas não estava ali necessariamente por espionar nem por crueldade. Nos anos 1990, cresci entre hackers adolescentes que queriam invadir sistemas de computadores de grandes instituições que eram parte fundacional do establishment de segurança, apenas para mostrar que eram capazes. O objetivo era desfrutar de uma sensação de poder em um mundo onde eles se sentiam bastante impotentes. A adrenalina estava em ser capaz de fazer algo e se sentir mais esperto do que os aclamados poderosos. Era pura diversão, um jogo. Pelo menos até eles começaram a ser presos. (mais…)

Uma conversa sobre Eis os Delírios do Mundo Conectado, documentário de Werner Herzog

Nota do editor: Em Eis os Delírios do Mundo Conectado (Lo and Behold: Reveries of the Connected World no original), Werner Herzog coloca o seu estilo e olhar apurado a serviço de um grande debate sobre a Internet — da concepção e fundamentos da rede ao que ela pode vir a ser num futuro distante. Eu e Fabio Montarroios conferimos o documentário e, depois, sentamo-nos juntos para debatê-lo. É um formato diferente, mas que nos pareceu adequado para abordar o assunto. Não sei se isso é possível em documentários, mas “contém spoilers” (?). (mais…)

O Dicionário Oxford escolheu “pós-verdade” como a palavra do ano. O termo, que nem é novo, é um adjetivo definido como “relativo ou que denota circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influentes em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e às crenças pessoais.” Diz respeito, neste momento, à proliferação de notícias falsas ou distorcidas em redes sociais que servem de combustível ao viés de confirmação. Mas não é um problema só delas, do Facebook e do Twitter. É nosso.

Venho pensando sobre como combater esse problema. Há muitos riscos envolvidos, do chatear/brigar com alguém até o de soar condescendente ou, pior, autoritário.

Talvez a melhor via, ou pelo menos a mais conciliadora e promissora, seja a mesma usada por quem produz todo esse chorume: a da (no caso, boa) informação. Argumentos bem articulados, contrapontos bem fundamentados, num processo longo, tortuoso e sem garantias. (Sigo aberto, e pensando também, em outras iniciativas!)

Não é um problema só da eleição presidencial dos Estados Unidos ou do Brexit no Reino Unido. Já acontece aqui, no Brasil. No grupo da família no WhatsApp, nos perfis dos seus amigos no Facebook. Como evidencia este levantamento publicado hoje (“Notícias falsas da Lava Jato foram mais compartilhadas que verdadeiras”), o problema é real, urgente e pede a nossa atenção.

“O homem tem um sonho acerca da máquina”

O podcast sobre Black Mirror deixou várias pontas soltas. Tentarei amarrar algumas delas através de posts aqui no Manual, começando pela origem das ações que nos afetam, tema que surgiu ali pelo meio da conversa. Quem tem o poder, ou o dever, de decidir por nós? Tirar o ser humano da equação garante justiça nas decisões mais complexas? (mais…)

Como combater a epidemia de informações falsas ou imprecisas no Facebook?

Em grupos de WhatsApp é relativamente comum alguém publicar uma notícia falsa ou imprecisa seguida do “na dúvida, achei melhor compartilhar”. É preciso mudar esse padrão, invertê-lo. Na dúvida, não compartilhar.

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Amazon Echo, interfaces e atrito

por Benedict Evans

Celulares e, depois, smartphones, vêm engolindo outros produtos já faz um bom tempo ─ tudo, de relógios a câmeras e players de música, foi transformado de hardware para um app. Mas esse processo também acontece de forma reversa algumas vezes ─ você pega parte de um smartphone, a coloca em uma caixa de plástico e a vende como uma coisa nova. Isso aconteceu primeiro de uma forma bem simples, com empresas vasculhando a cadeia de suprimentos dos smartphones para criar novos tipos de produtos com os componentes que ela produzia, sendo o fruto mais óbvio a GoPro. Agora, porém, existem alguns pontos extras sobre os quais podemos pensar. (mais…)

O grande diferencial do Allo, um app de bate-papo que ignora as boas práticas de privacidade vigentes, é um intruso na conversa, o Google Assistant. Ele participa ativamente do diálogo, fazendo buscas a pedido dos interlocutores e, o que é mais preocupante, sugerindo respostas pré-fabricadas.

O Facebook Messenger também trabalha com robôs, mas em conversas paralelas, ou seja, não os traz para as conversas que mantemos com outros seres humanos — ainda, pelo menos. Mas é bobagem acreditar que isso se deva a um princípio humanista no âmago de Mark Zuckerberg.

É uma decisão de negócios. O Google quer se tornar uma entidade única nas nossas vidas digitais; o Facebook ainda depende de terceiros. Isso não o impede, porém, de experimentar com bizarrices. A última é sugerir tópicos de conversação com base no que seus amigos fizeram (ou confessaram ao Facebook terem feito) recentemente.

O problema disso tudo é que terceirizamos traços que nos são, até agora, exclusivos. A escolha das palavras e sobre o que falar são coisas muito humanas. Queremos terceirizar isso? Se sim, estamos cientes do custo?

Evan Selinger, professor de filosofia do Instituto Rochester de Tecnologia, e Brett Frischmann, professor da Faculdade de Direito Cardozo, estão escrevendo um livro intitulado Ser Humano no Século XXI (tradução livre). Um pequeno excerto publicado no Medium responde, de maneira limitada, mas didática, essas perguntas:

Terceirizar, então, não afeta apenas como uma tarefa é realizada. Quando decidimos ou não por terceirizar, precisamos considerar se vale a pena abdicar da ação, responsabilidade, controle, intimidade e possivelmente conhecimento e habilidade. Se não, provavelmente deveríamos realizar essa tarefa nós mesmos.

A conversa por texto já é bastante pobre. Ela normatiza o discurso de uma forma sutil, mas poderosa. Percebe como conversar com pessoas distintas pelo WhatsApp oferece menos nuances, como se todas fossem mais ou menos parecidas? Que as particularidades de cada um se revelam com mais facilidade, de modo inescapável, até, quando o contato é pessoal em vez de mediado por texto escrito em uma tela? Se nem esse fragmento de humanidade nos apps de bate-papo estamos dispostos a resguardar, aí tudo bem querer que o Allo escolha as suas frases e que o Facebook determine o assunto da conversa.

A Slow Web

por Jack Cheng

Com muita satisfação, trazemos a tradução do manifesto Slow Web de Jack Cheng, uma leitura que considero fundamental e que foi uma das bases para a concepção do Manual do Usuário. O texto é de 2012, mas continua atual. Espero que ele ecoe em você também.

Um dos melhores pontos para saborear uma tigela de lámen aqui em Nova York é o Minca, no East Village. O Minca é o tipo de lugar um pouquinho fora do caminho, o suficiente para, quando você está chegando lá, se perguntar se já passou por ele. Uma tigela de lámen no Minca não é servida tão bonita quanto em outros restaurantes de lámen na cidade, mas está sem dúvidas entre as mais saborosas. No Minca, eles têm uma qualidade de comida caseira. E o restaurante tem um ar caseiro. O Minca é um bom lugar para encontrar um amigo, sentar e conversar, comer e beber, e comer e conversar, e sentar e beber mais um pouco.

Da última vez que fui ao Minca, tive uma conversa especialmente prazerosa com Walter Chen. Ele é o CEO de uma empresa chamada iDoneThis, um serviço simples que te ajuda a catalogar as coisas que você realizou a cada dia. O iDoneThis envia um email diário no horário que você especificou e você simplesmente responde com a lista de coisas que fez naquele dia. Ele é útil para equipes que querem monitorar as coisas nas quais cada um está trabalhando e para indivíduos que apenas querem manter um registro diário.

Eu entrei em contato com Walter porque eu estava maravilhado por esse koan no rodapé dos email diários:

O iDoneThis é uma parte do movimento slow web. Depois que você nos responder, seu calendário não é atualizado instantaneamente. Mas descanse um pouco, e você encontrará um calendário atualizado ao acordar.

O iDoneThis é parte do movimento slow web. O Movimento Slow Web. Eu nunca tinha ouvido essa frase antes. Imediatamente comecei a pesquisar ─ ou seja, eu busquei no Google “Movimento Slow Web” ─ e o único resultado relevante foi um post em um blog de dois anos atrás. Se você fizer a busca novamente hoje, irá encontrar a nota do Walter no blog de sua empresa, que reflete muito do que ele me contou durante o jantar.

À medida que conversávamos, disse ao Walter que assim que eu vi “o movimento slow web”, atribui o meu próprio significado a ele. Porque é um grande nome, e todos os grandes nomes são como laços ─ eles são criados do mesmo tipo material das outras palavras, mas em seu arranjo particular eles se entrelaçam e se tornam uma junção para onde novas linhas se encaminham e de onde novas linhas se originam. Para mim, “A Slow Web” amarrou uma série de pensamentos que antes apenas vagavam em minha mente.

Slow Web e Slow Food

O Movimento Slow Web é bastante como o Movimento Slow Food, no que eles são ambos termos gerais que significam muitas coisas diferentes. O Slow Food começou em parte como uma reação à abertura do McDonald’s na Piazza di Spagna em Roma, então, desde sua origem, ele era definido pelo que ele não é. Não é fast food, e todos sabemos o que é fast food… certo?

Ainda assim, se você pede a um monte de pessoas para que descrevam as características do fast food, você certamente receberá um monte de respostas diferentes: é feito com ingredientes de baixa qualidade, tem muito açúcar, sal e gordura, é vendido por corporações multinacionais, é devorado rapidamente e em porções exageradamente grandes, é o McDonalds-TacoBell-Subway, embora o Subway invista muito dinheiro ao propagandear pães e ingredientes frescos, mas ainda assim é fast food, embora um fast food “saudável”.

Fast food tem uma característica “eu saberei quando ver” e a tem porque descreve algo maior do que todos os traços individuais. Fast food, e por consequência o Slow Food, descrevem um sentimento que temos em relação à comida.

A Slow Web funciona da mesma forma. Slow Web descreve um sentimento que temos quando consumimos certos tipos de coisas possibilitadas pela web, sejam produtos ou conteúdo. É a soma de suas partes, mas vamos começar descrevendo o que ela não é: a fast web.

A Fast Web

O que é a Fast Web? É a web fora de controle. A web “ah meu deus, tem tanta coisa que é impossível acompanhar tudo”. É a web “gaste seu tempo verificando umas vinte vezes ao dia”. É a web “entra por um ouvido e sai pelo outro”. A web projetada para apelar às mais básicas das nossas paletas intelectuais, o sal, o açúcar e a gordura dos conteúdos online. É a web de larga escala, rígida e rápida. É a web “crie um destino para bilhões de pessoas”. A web “você tem duzentas e vinte e seis novas atualizações”. Acompanhe ou suma daqui. Clique em mim. Curta-me. Tweet. Compartilhe-me. A Fast Web exige que você faça as coisas e que as faça agora. A Fast Web é um país das maravilhas cruel de coisas brilhantes e bonitas.

No tempo certo vs. Em tempo real

Um dos pontos centrais da Fast Web é essa noção do tempo real. Seu amigo ouve uma música e você fica sabendo. Quanto menor o espaço de tempo entre esses dois atos, mais próximo se está do tempo real.

Interações em tempo real acontecem assim que elas acontecem. As no tempo certo, por sua vez, acontecem quando você precisa que elas aconteçam. Algumas interações em tempo real, como as notícias de última hora sobre um terremoto, podem coincidir e serem também no tempo certo. Mas nem todas as interações no tempo certo são em tempo real. Eu diria que a maioria não é. E onde a Fast Web é construída em cima da ideia do tempo real, a Slow Web é construída em cima da ideia do tempo certo.

Um ótimo exemplo de produto da Slow Web é o Instapaper. Ele pega o processo de descobrir um artigo mais longo e lê-lo ali, na hora (em tempo real), e o desmonta, adiando o ato da leitura até mais tarde, quando nós temos mais tempo para ler (no tempo certo). Eu talvez esteja esticando minha analogia um pouco aqui, mas é como guardar uma refeição em potes no congelador para quando você estiver com fome, exceto que nesse caso, ela não perde tanto do sabor.

Da mesma forma, o iDoneThis pega uma interação bastante padrão de criar um item em uma base de dados e então devolvê-lo ─ uma que normalmente levaria menos de alguns segundos para ser executada ─ e a quebra em pedaços.

Um app típico pode funcionar dessa forma: existe um campo de texto para você digitar o que fez. Você digita e envia. O banco de dados é atualizado e quase instantaneamente você vê o texto exibido de volta para você. O iDoneThis pega esses dois últimos passos ─ a atualização e a revisão ─ e os estica de alguns milissegundos para a metade de um dia. O banco de dados é atualizado em algum momento da noite e o retorno do texto acontece na manhã seguinte, na sua caixa de entrada.

Beija-flor e lesma representando Fast Web e Slow Web.

Outro nome para isso é “baseado em turnos”, como em jogos baseados em turnos. Um jogo tradicional de Scrabble ou Imagem & Ação é relativamente dependente do tempo real: eles exigem duas ou mais pessoas no mesmo lugar com os mesmos desejo e disponibilidade para jogá-los. Desconstruir a experiência do tempo real nos dá coisas como Words With Friends e Draw Something. Uma atividade que de outra forma seria impraticável pode, agora, continuar de uma maneira mais no tempo certo para cada participante. O Instapaper é a leitura por turnos. O iDoneThis é o registro de atividades em turnos.

Mas a ideia do tempo certo por si só não faz algo Slow Web. O e-mail, afinal, é comunicação baseada em turnos e nossas caixas de entrada são provavelmente uma das maiores fontes de angústia da Fast Web. Aqueles jogos em turnos podem rapidamente se tornar exaustivos se temos muitos deles acontecendo ao mesmo tempo. O que falta a esses casos é um senso inerente de ritmo.

Ritmo vs Aleatoriedade

Imagine que eu te disse que tem uma nova série da HBO com duração de uma hora, entre as 21h e 22h toda quarta-feira. Uma vez que ela despertou seu interesse e que dá para acomodá-la em sua agenda, o ato de assisti-la se instaura. Torna-se uma dedicação à série. Agora imagine que eu te disse que tem uma nova série da HBO que às vezes dura uma hora, às vezes, meia hora, e em outras vezes duas horas, que pode ou não ir ao ar toda noite de terça, quarta e quinta-feira, entre as 18h e 23h. De repente, aquela dedicação não é mais em relação à série. É sobre a possibilidade de conseguir assistir à série ou não. “O que vem a seguir?” se torna “Quando terei mais?”

Na Fast Web, somos confrontados por essa proposição inúmeras vezes ao dia. A aleatoriedade e a frequência das atualizações em nossas caixas de entrada e em painéis de controle estimulam o mecanismo de gratificação em nossos cérebros. Embora isso possa nos dar um impulso quando vemos algo inesperadamente interessante, a dependência leva a uma suspensão, resultando em uma montanha russa de emoções positivas e negativas. O perigo dos ritmos instáveis é o excesso do substrato de gratificações.

Ritmos estáveis levam a resultados previsíveis; e ritmo é uma expressão de moderação. Apps como o iDoneThis têm essa moderação: você recebe seu lembrete por e-mail na mesma hora todos os dias e cada interação tem um nível de exigência similar. Ao contrário da sua caixa de entrada como um agregado, onde pode haver uma grande variedade de exigências: as newsletters que você pode olhar rapidamente e depois jogar fora, os e-mails pessoais que exigem respostas mais longas e tudo o que há entre esses dois extremos. A falta de moderação significa que algumas vezes você gasta poucos minutos olhando sua caixa de entrada e, em outras, gasta algumas horas.

Relógio com cartas no lugar dos números.

É por isso que a maioria dos sistemas de produtividade no e-mail se preocupa com uma forma de moderação: a padronização. Eles te encorajam a padronizar o tamanho e a exigência de cada interação (arquivar ou deletar as mensagens e seguir em frente, transferir as mensagens que exigem respostas mais longas para uma lista de tarefas, limitar respostas a três frases) e padronizar a frequência (limitar o ato de checar o email a X vezes por dia, em horários específicos).

Um bom exemplo de ritmo e moderação na prática é o lançamento do Wander1. Nas semanas anteriores ao lançamento do beta, Keenan e sua equipe pegaram o que seria a experiência de um primeiro contato em um outro site e a esticaram ao longo de quatro semanas, em algo parecido com um cronograma de lançamento. Cada semana tinha uma interação com uma exigência similar: indique um lugar, escolha uma foto, diga um motivo.

Print de uma das telas do Wander.

Outro serviço que faz isso bem é o Budge do Buster e da equipe da Habit Labs. O Budge é feito em torno de notificações que te lembram de fazer aquelas coisas diárias que melhoram sua vida de formas pequenas, mas significativas, como usar fio dental, meditar ou verificar seu peso. Quando você se inscreve, pode interagir com o Budge exclusivamente através de notificações. No passado, cheguei a passar semanas sem abrir o site ou o app, usando o serviço satisfatoriamente apenas respondendo às notificações enviadas no tempo certo que chegavam no meu smartphone.

Esta é uma distinção tremendamente importante entre a Slow Web e a Fast Web. A Fast Web é baseada no destino. A Slow Web é baseada na interação. A Fast Web é feita em torno de páginas iniciais, caixas de entrada e painéis. A Slow Web é feita em torno de notificações no tempo certo. Empresas de Fast Web frequentemente tentam aumentar o número de page views, uma vez que page views significam impressões de anúncios. Empresas de Slow Web tendem a priorizar a efetividade. Uma coisa maluca sobre o Budge: quanto melhor ele funciona, menos eu o uso. Assim que crio o hábito de usar fio dental, o meu cérebro assume o controle e eu não preciso mais das notificações. O Walter descreve bem essa crença no post que eu mencionei ali em cima:

Comportamentos mudam, não o crescimento. Mudança de comportamento é sobre melhorar as vidas dos outros, escala é para alimentar o ego. Crescer em escala depois de conseguir acertar no comportamento é mais fácil do que acertar na mudança de comportamento (e, dessa forma, ter uma chance de durabilidade) após crescer em escala.

Isso não significa que empresas de Slow Web não podem crescer. Isso apenas significa que elas colocam a efetividade à frente do crescimento. E a efetividade leva a um senso de gratidão ─ eu posso já ter criado o hábito de usar fio dental com o Budge, mas existem outras coisas nas quais eu posso melhorar e já tendo passado por isso antes, eu confio ainda mais na empresa.

Conhecimento vs. Informação

No tempo certo. Ritmo. Moderação. Essas características se encaixam no que considero a maior diferença entre Slow Web e Fast Web. A Fast Web é sobre informação. A Slow Web é sobre conhecimento. A informação passa por você; o conhecimento se dissolve em ti. E ser feito no tempo certo, com ritmo e moderação são essenciais para a memória e o aprendizado.

Representação visual do conhecimento vs. informação.

Mais uma vez, o iDoneThis serve como um bom exemplo. Depois de usá-lo por alguns dias, você começa a reparar no rodapé dos e-mails diários as coisas que você fez no passado, um dia ou uma semana atrás. É como uma versão contida do Timehop, um produto do Benny e do Jon que, depois que você o conecta às suas várias contas em redes sociais, te envia um ─ prepare-se ─ compilado diário de tudo que você fez em outros anos naquele exato dia.

Print do Timehop por e-mail.

Tanto o Timehop quanto o iDoneThis nos ajudam a lembrar e a refletir, e isso nos dá perspectiva. Isso nos sustenta no fluxo do tempo ou, talvez, nos eleva acima das copas das árvores. O iDoneThis é a única ferramenta de controle de tarefas que eu conheço que tem o potencial de ajudá-lo a perceber que você está trabalhando na coisa errada. A Fast Web deriva valor do que acabou de acontecer ou do que está prestes a acontecer. A Slow Web libera valor das profundezas do passado.

A Slow Web

No tempo certo, não em tempo real. Ritmo, não aleatoriedade. Moderação, não excesso. Conhecimento, não informação. Essas são algumas das muitas características da Slow Web. Não é tanto uma lista exaustiva, mas sim uma sensação de estar mais à vontade com os produtos e serviços web em nossas vidas.

Tal qual a Slow Food, a Slow Web se preocupa tanto com a produção quanto com o consumo. Nós, como indivíduos, podemos sempre definir nossas próprias diretrizes e limitar os efeitos da Fast Web, mas como eu espero ter ilustrado, existem várias considerações que os criadores dos produtos conectados à web podem fazer para nos ajudar. E talvez a Slow Web não seja bem um movimento ainda. Talvez ele ainda esteja cozinhando em fogo baixo. Mas eu realmente acredito que ela tem algo distintamente diverso na sensação que alguns desses produtos transmitem aos seus usuários e essa sensação se manifesta pela intenção dos seus criadores.

Empresas da Fast Web querem ser nossas amantes, querem estar ao nosso lado a todo o tempo, querem que gastemos cada momento de nossas vidas com elas, quando por vezes isso não é o que precisamos. Às vezes, o que realmente precisamos são de amigos com quem podemos nos encontrar uma vez a cada alguns meses para uma tigela de lámen em um restaurante no East Village. Amigos com quem podemos sentar e conversar e comer e beber e talvez aprender um pouco sobre nós mesmos no processo. E, no final da noite, levantarmos e seguir nossos caminhos separados, até a próxima vez.


Publicado originalmente no site de Jack Cheng em junho de 2012.

Tradução: Leon Cavalcanti Rocha.

  1. Nota do editor: O Wander e alguns outros apps citados no post, que é de 2012, não estão mais disponíveis. Para saber sobre o Wander, leia este post do Mashable.

O que há por trás das hashtags #SDV (segue de volta) do Twitter

Em um dos nossos podcasts recentes em que o tema era redes sociais, me vi, em dado momento, lendo os trending topics do Twitter para demonstrar um ponto. Lia o termo e explicava do que se tratava em seguida, e assim foi até chegar à hashtag #SextaDetremuraSDV. Sem ter a mínima noção do que era isso, ignorei. Mais tarde, soube que se tratava de uma hashtag do tipo “segue de volta”, o elo entre um monte de gente que usa o Twitter de uma forma bem… peculiar.

Desmembrar aquela hashtag nos dá algumas pistas. “Sexta”, a parte óbvia, é o dia da semana. “SDV” é a abreviação de “segue de volta”, o comando que se espera daqueles que aderem à prática. “Detremura”, descobri depois, faz referência a uma pessoa, quem organiza a maior parte dessas hashtags que ascendem com facilidade nos trending topics brasileiros do Twitter com a promessa de impulsionar bases de seguidores. Intrigado com o que leva as pessoas a se juntarem em torno disso, fui investigar. (mais…)

Selfies com Hillary Clinton

A foto acima, tirada por Barbara Kinney e publicada por Victor Ng, ambos da equipe de Hillary Clinton, viralizou no Twitter. Ela reflete muitas características da contemporaneidade, mas fixemos o olhar em uma, apenas: o papel da fotografia. (mais…)