Montagem com foto do Museu do Holocausto, em Berlim.

A impossibilidade de uma selfie perfeita


7/2/17 às 8h36

Não tiro selfies. Não gosto. Acho sem graça. Sinto uma baita vergonha e quando tiro é a contragosto. Não quero ser fotografado por outros e isso inclui a mim mesmo. É uma opção pessoal que vai contra o que faz a maioria. E de tudo que já pode ter sido dito sobre as selfies, não sou eu que vou demover você de fazê-las. Não é esse o propósito desse texto, inclusive.

Muito pelo contrário: escrevo para que você as faça cada vez mais e melhores! Na verdade, você faz o que quiser da sua vida — e isso inclui as selfies. Só que, às vezes, alguém pode se irritar tanto com elas a ponto de transformá-las em outra coisa, uma coisa bem diferente do que você pretendia quando as fez, diga-se. O ato de fazer um autorretrato com o smartphone deixa de ser algo corriqueiro e se transforma em algo totalmente condenável. Daí, talvez valha uma reflexão breve sobre como a fotografia amadora atual passou a ser tão importante para todos nós.

A normatização da vida, de um modo geral, implica em uma série de restrições. Mas algumas delas são novas porque surgem de situações novas.

Não há uma data exata para o nascimento da selfie, mas não é de hoje que nos exibimos diante de câmeras. Desde que a fotografia foi inventada, traquinagens das mais diversas foram registradas em seu primórdio. Como as de Jacques Henri Lartigue, que fazia, no início do século XX, as pessoas da alta sociedade francesa (seus amigos ricos) saltarem enquanto ele se divertia e descobria a fotografia. Nesse sentido, o que fazemos hoje, as selfies, por exemplo, não chegam a ser lá grande coisa.

Mulher pula escadaria e é fotografada enquanto paira no ar.
Fotografia de Jean Jacques Lartigue, 1908.

O fato de termos mudado o que a fotografia representa é o que realmente importa aqui. Em algum momento, já passou pela sua cabeça pensar sobre o sentido de compartilhar suas imagens e engrossar o caldo dessa torrente infinita de pixels que criamos todos os dias com nossos celulares, câmeras e dispositivos que já nem consigo nominar dada sua imensa variedade?

Se sim, é provável que você já esteja sabendo do assunto de que quero tratar: chegou ao fim, recentemente, um projeto chamado Yolocaust. (O trocadilho fica evidente já que ele nos remete imediatamente a palavra “holocausto”.) Um jovem israelita radicado em Berlim, Shahak Shapira, ficou bastante incomodado com que as pessoas estavam fazendo no Memorial do Holocausto. Ele resolveu, então, pegar as selfies e toda sorte de poses descontraídas feitas no local e transpor seus protagonistas para outro contexto — através de um célebre editor de imagens.

O efeito é acachapante: uma selfie de um casal ante blocos de concreto no Memorial do Holocausto passa a ser um registro próximo às (propositadamente) estreitas beliches ocupadas por judeus sobreviventes em estado próximo a total aniquilação. Outra foto, que nos lembra alguém fazendo parkour — um homem saltando de um bloco de concreto a outro —, passa a ser um salto sobre uma pilha de cadáveres que morreram depois de um insondável sofrimento para quem vive em pleno conforto nestas terras sem guerras (mas não sem crimes) que habitamos.

Montagem do projeto Yolocaust.

Outra montagem do projeto Yolocaust.

O Memorial do Holocausto, em Berlim, ocupa uma vasta área e é composto por diversos blocos de concreto de igual tamanho, mas de alturas diferentes. Sua disposição, conforme se avança, desorienta e oprime os visitantes. O número de blocos de concreto, 2711, está numa área privilegiada da cidade e é praticamente impossível ignorá-lo.

Tudo indica, conforme seu autor diz, que o projeto Yolocaust chegou ao fim quando todos aqueles alvos de sua releitura digital se manifestaram no sentido de que tirariam as fotos originais das redes sociais. O israelita ganhou a batalha e preservou a memória daqueles que já viveram e morreram por todas as infâmias que uma civilização poderia conceber em busca de um projeto de poder orquestrado por insanos, mas levado a cabo por pessoas ordinárias, como se sabe.

Aqui, poderíamos dizer que a “banalidade do mal”, conceito cunhado por Hannah Arendt depois de assistir ao julgamento de Adolf Eichmann em Israel (sequestrado na Argentina pela inteligência israelense que buscava figurões do regime nazista pelo mundo) e se dar conta que pessoas comuns, como era o caso do burocrata Eichhmann, foram também responsáveis pela morte de milhões de judeus, chegou às selfies e registros igualmente banais de pessoas fazendo poses ante câmeras. Mas não me parece o caso. Creio que, desta vez, apesar de pessoalmente achar indecoroso e até inapropriado certas condutas, perdeu-se o sentido original do que aquelas pessoas estavam fazendo, e isso inclui o Memorial do Holocausto, que é o de se comunicar (Jean Fontcuberta, Dança sélfica):

É verdade que, nas selfies mais comuns, a vontade lúdica e autoexploratória prevalece sobre a memória. Basicamente, o que pedimos hoje às fotos é que sejam compartilháveis e que se adaptem às dinâmicas da conversação. Tirar fotos e mostrá-las nas redes sociais é parte do jogo de sedução e dos rituais de comunicação de subculturas pós-fotográficas das quais, apesar de capitaneadas por jovens e adolescentes, quase ninguém fica de fora.

Essas fotos já não são lembranças para serem guardadas, e sim mensagens para enviar e trocar; as fotos se transformam em puro gesto de comunicação, cuja dimensão pandêmica obedece a um amplo espectro de motivações: podem ser utilitárias, celebratórias, formalistas, introspectivas, eróticas, pornográficas… e até de politicamente transgressoras.

Para o etnógrafo digital Edgar Gómez Cruz, esse repertório se organiza em quatro eixos: jogos de identidade, narrativas do eu, autorretratos como terapia e experimentação fotográfica. Seria necessário acrescentar que, hoje, muitas fotos não são tiradas para serem vistas, mas se tornaram uma ocupação que vai além de seus usos originais (representação, testemunho, memória etc.), para se tornar algo inalienável da própria vida, na vanguarda entre o vício e o prazer: o ato de fotografar pode prevalecer sobre o conteúdo da fotografia.

— Joan Fontcuberta. Dança sélfica. Revista Zum, nº 11, 2016.

Lindsey Stone em sua infame foto.

Há um precedente famoso que segue na mesma linha do quão enrascado você pode estar se cair no crivo moral de alguém que compartilha de valores diferentes do seu. É um tema que ainda pretendo tratar em outro post aqui neste Manual do Usuário, mas que adianto em parte. Refiro-me a Lindsey Stone, que foi execrada por aparecer em uma foto debochada em que fazia justamente oposto ao que uma placa dizia “silêncio e respeito” (acima).

Uma foto performática e… tola: ela parecia estar gritando e exibia o dedo do meio em riste. Transgressivo, não? Não… Não mesmo, tanto que se ela tivesse feito o mesmo na rua, num bar, num parque, não teria tido problema algum. Mas ela resolveu aprontar essa no Cemitério Nacional de Arlington, nada menos que a última morada de veteranos de todas as guerras de que os EUA já participaram. A importância desse local é tão grande que ele faz parte do cerimonial de posse dos presidentes americanos: os recém-empossados precisam ir até lá e prestar suas homenagens póstumas (sinceras ou não) aos que nos esperam. Trump foi o último a estar no cemitério — logo ele que fugiu dos combates enquanto seus compatriotas morriam em guerras sem sentido e, talvez, ele estivesse certo nessa…

Montagem com a foto de Lindsey Stone.

Diferentemente do trabalho de Shahak Shapira, alguém trouxe um passado recente (um soldado chorando e soldados carregando um caixão) à imagem de forma que as memórias, translúcidas, figuram de maneira fantasmática e estão ali para assombrar a mulher que desrespeita as memórias, os mortos e toda a nação. O feito é bem menos realista e há uso de uma frase para lembrá-la do sacrifício envolvido em algo do qual ela parece debochar.

Nesse caso, Lindsey não foi tirada do seu contexto. Não sei se por falta de habilidade no manejo do editor de imagens ou se inconscientemente é mais difícil justificar a transposição para as guerras recentes que têm motivos não muito claro a maioria das pessoas. Os americanos, agora, lutam pelo quê? Não há mais nazistas de uniforme do outro lado ou mesmo comunistas com os quais se pode apontar facilmente o inimigo.

Esse rigor com o que fazem as pessoas, se levado adiante como está sendo, através da repressão das condutas, poderá, por exemplo, fazer que um site como o TripAdvisor tenha que usar um tom mais solene (um cinza, talvez) ao tratar do Memorial do Holocausto (e locais do tipo) e impedir, por exemplo, que ele recebe estrelas de qualificação tal qual um parque da Disney recebe. Ou terá que monitorar os comentários que são feitos por pessoas que querem desqualificar o Memorial com fins diversos ao do compartilhamento de informações com turistas. Ou seja, a forma como muitos dos eventos e soluções do passado, um monumento no caso, podem não mais preservar suas características originais e serem ressignificados pelas pessoas através de novos comportamentos surgidos por conta do uso de novas tecnologias. Ora, não temos como, porque é realmente impossível, viver com os mesmos filtros do passado. Você pode ser nostálgico, mas, desculpe amigo, não existe máquina do tempo.

Print do site do TripAdvisor na página do Memorial do Holocausto em Berlim.

Tanto que poderia afirmar, com certa segurança, já que a discussão sobre a estetização da pobreza (tema similar a esse que abordo) recai há anos sobre um dos nossos maiores fotógrafos, Sebastião Salgado, que o feito de Shahak Shapira é tão impressionante que sua preocupação estética (sim, ela existe) em tornar a transposição temporal e de contexto é tão profissional que ele próprio pode ter buscado uma espécie de satisfação, fruto de, creio, certo ressentimento, e preocupação com o alcance de seu projeto em múltiplos sentidos. Uma montagem tosca e precária poderia arruinar a repercussão do projeto. E qualquer um que já se deu ao trabalho de editar imagens sabe que não se trata de tarefa tão simples, por mais sofisticada que seja a última novidade da Adobe ou qualquer empresa de plugins que facilite a vida do editor.

Alguém ainda mais rigoroso que Shahak Shapira poderia considerar o que ele fez um ultraje ao expor ao ridículo os sobreviventes e mortos registrados nas imagens. Essa espiral, portanto, pode não ter fim e nos imobilizar totalmente.

Por falar em um possível ressentimento que envolve um memorial e sua relação com ele, e fazendo uma análise superficial dessa situação toda que me chamou a atenção, acrescento ainda outra referência que pode ser extremamente útil, pois certeira, para entender esse caso e outros que possam surgir (ela é um pouco longa, mas valiosíssima):

Há eventos que não se consegue esquecer; outros não devem ser esquecidos. O problema é: que destino dar à memória? A memória do sofrimento e da injustiça alimenta o ressentimento quando sua evocação serve para manter antigas vítimas na mesma posição que ocuparam no passado, colhendo os ganhos secundários da autopiedade e da má consciência. Por outro lado, é importante preservar alguns agravos do esquecimento, tanto no sentido de buscar reparação quanto no de evitar sua repetição. Lembrar como se produziu uma ordem injusta é condição para transformá-la ou reparar socialmente o mal que ela causou.

Mas não se pode lembrar tudo, sempre. O excesso de apegou à memória do passado impede a ousadia criativa, que é sempre um salto no escuro. Impede a alegria inocente que nos permite, vez ou outra, olhar o mundo com olhos novos.

Em psicanálise, a pergunta sobre a memória refere-se, sobretudo, ao trauma: aquilo que não se consegue esquecer mas que, ao mesmo tempo é intolerável recordar. Ou impossível de se transmitir; Jeanne-Marie Gagnebin evoca o passado recorrente entre o sobreviventes dos campos de concentração, narrado por Primo Levi em É isto um homem? ele volta para contar o horror que viveu e todos lhe voltam as costas sem dar crédito ao que ele diz. Mas por que seria tão urgente se fazer ouvir? Para explicar a importância do Outro na reconstrução da memória, fundamental na superação do trauma, Gagnebin resgata os dois sentidos do conceito de testemunha. Testemunha, nesse caso, ‘não seria somente aquele que viu com os próprios olhos (o horror) (…). Testemunha também seria aquele que não vai embora, que consegue ouvir a narração insuportável do Outro e aceita que suas palavras revezem a história do Outro. (…) somente essa retomada reflexiva do passado pode nos ajudar a não repeti-lo infinitamente, mas ousar esboçar uma outra história, e inventar o presente’.

Existe, portanto, um trabalho da memória que é fundamental para a superação dos traumas individuais e coletivos. Trabalho implica transformação de uma coisa em outra; trabalhar a memória é transformar seus resíduos, de modo a que eles se incorporem aos termos da vida presente sem que precisem ser recalcados. É o trabalho da memória que permite o verdadeiro esquecimento, o desligamento das cargas libidinais fixadas às representações da cena traumática.

— Maria Rita Kehl. Ressentimento. 2004.

Página da dissertação de João Carlos Amaral Yamamoto.
Página da dissertação João Carlos Amaral Yamamoto.

Em sua dissertação de mestrado, João Carlos Amaral Yamamoto, que explorou em termos acadêmicos de forma extremamente original o Memorial do Holocausto (e fica aqui como uma forte recomendação de leitura aos interessados em design, arquitetura e fotografia), nos traz impressões a partir do olhar de um brasileiro. Parecem-me bastante oportunas, já que temos, como compatriotas, uma gama relativamente similar de valores, apesar do caos aparente em que nos encontramos hoje, para tentar compreender o que é estar num memorial (na cidade em que planos horrendos foram arquitetados para eliminar todo um povo). Podemos pegar emprestado, então, seus sentidos (os do João) e tentar entender qual é sensação de estar imerso entre os blocos de concreto e entender o que acontece ali quando ele está aberto ao público:

Como mero exercício, e sem a pretensão de chegar a uma conclusão muito relevante, listei algumas das ações executadas na brincadeira mais comum aqui embaixo [na parte que contém os blocos mais altos do Memorial do Holocausto]. Olhando a lista de verbos e abertura que eles têm ao serem escritos na brancura e frieza do papel sem que junto com eles venham necessariamente as faces alegres e ruborizadas que os executavam, penso nesse significado acidental que o Memorial ganhou, ou seja, o uso como um imenso campo para diversas brincadeiras. Talvez ele não seja tão inconveniente assim do ponto de vista do nebuloso objetivo proposto na sua construção, ou seja, o de lembrar as vítimas do Holocausto.

Correr. Escapar. Driblar. Fugir. Despistar. Esconder. Procurar. Espreitar. Perseguir. Encontrar. Alcançar. Agarrar. Assustar. Gritar. Rir.

— João Carlos Amaral Yamamoto. Entre Eisenman, Berlim e o Memorial. 2014.

Como se pode ver, não se trata apenas de casos esporádicos de um “mau comportamento” no Memorial do Holocausto. De fato, deve ser incômodo, se você se importa muito com o assunto, ou se é familiar, ou mesmo um sobrevivente do holocausto, ter suas emoções atravessadas por toda essa balbúrdia de crianças correndo e marmanjos fazendo tipo para fotos que têm como destino o Instagram ou o Facebook. Mas não é possível definir o que vai se sentir ante um memorial e em especial um com essas dimensões e vínculos históricos tão fortes.

Tanto é assim que seu arquiteto, Peter Eisenman, pensa de maneira muito mais flexível que Shahak Shapira, porque, tudo indica, ele não pensava em criar um local sagrado, apesar de todas as referências. E se se observar os obstáculos urbanos e políticos que o arquiteto enfrentou para seguir adiante com seu projeto, pouco importando àqueles que impunham restrições ao sentido geral do Memorial, o resultado final é diferente do imaginado em termos de significados que fariam mais sentido dentro da cultura judaica dada suas alusões:

Este projeto compartilha o sentido de espaço com o Memorial do Holocausto de Berlim, que conceituamos sem considerar a presença de pessoas em seu interior, mas cujo espaço as pessoas animam de maneira totalmente inesperada de nada associada a um memorial: tomam sol, merendam, saltam sobre as lousas, fazem amor… Você se pergunta como pode estar acontecendo, assumindo erroneamente que a arquitetura vai condicionar o comportamento das pessoas. A arquitetura não é determinante.

Ainda sobre o assunto, o escritor Martin Walser, em 2011, disse que o Memorial “é um enorme monumento. Ele faz juz ao crime que se destina a lembrar. E o mais incrível é que ele é uma obra de arte”. E Eisenman acrescenta que “as pessoas não pensam nem em um campo de concentração ou sequer em algo terrível [quando visitam o memorial]”.

Parece-me que Shahak Shapira não compreende bem o tempo em que vive apesar de manejar com destreza os recursos dessa época — e não o culpo por isso, afinal estamos todos nós, os vivos, no mesmo barco chamado presente, sendo acossados pelo passado e pelo futuro. (Ou, se o compreendeu, prefere se beneficiar de uma crítica artificial, ela própria espetaculosa pelo que se propõe e pelo alcance que ele enumera: mais de dois milhões de acessos à página do projeto.) O futuro ninguém sabe exatamente como será, mas do passado podemos reunir alguns cacos e formar um painel melhor do que apenas apostas, porém, lidar com o passado não é tão simples. E, bem, ele parece não entender também o espírito do que é fotografia:

A fotografia, por ser um meio de expressão individual, sempre se prestou a incursões puramente estéticas; a imaginação criadora é pois inerente a essa forma de expressão; não pode ser entendida apenas como registro da realidade dita factual. (…) Nesse sentido, o assunto teatralmente construído segundo uma proposta dramática, psicológica, surrealista, romântica, política, caricaturesca etc, embora fruto do imaginário do autor, não deixa de ser um visível fotográfico captado de uma realidade.

— Boris Kossoy. Fotografia e História. 2001.

Como minha graduação é em história, li um tanto de historiografia, que é a parte conceitual e teórica sobre a escrita da história — algo problemático por natureza, afinal, quem escreve a história e para quem ela é escrita? Um texto de referência sobre documentos históricos (esses portadores de verdades e mentiras históricas) vem de 1977, de um autor já morto, que esclarece o seguinte:

O documento [e também o monumento] não é inócuo. É, antes de mais nada, o resultado de uma montagem, consciente ou inconsciente, da história, da época, da sociedade que o produziram, mas também das épocas sucessivas durante as quais continuou a viver, talvez esquecido, durante as quais continuou a ser manipulado, ainda que pelo silêncio. O documento é uma coisa que fica, que dura, e o testemunho, o ensinamento (para evocar sua etimologia) que ele traz devem ser em primeiro lugar analisados, desmistificando-lhe o seu significado aparente. O documento é monumento. Resulta do esforço das sociedades históricas para impor ao futuro — voluntária ou involuntariamente — determinada imagem de si próprias. No limite, não existe um documento-verdade. Todo documento é mentira. Cabe ao historiador não fazer papel de ingênuo.

— Jacques Le Goff. História e memória. 2003.

O Memorial do Holocausto, portanto, é um monumento ao passado indigno que a sociedade herda. Dos mais de seis milhões de judeus mortos e a ignomínia perpetrada pelos nazistas, o vencedor do concurso do projeto arquitetônico para a construção do memorial, Peter Eisenman, traz o passado de volta em forma de blocos de concretos, sem inscrições (os nomes dos judeus mortos conhecidos ficam na parte de baixo do memorial), arranjados de forma a nos fazer experimentar o que pode ter sido vivenciar o horror do extermínio calculado.

A busca desse efeito, desses sentimentos, só me parece possível através da arte. Tanto que vejo esses novos movimentos, das selfies e das poses malucas que as pessoas fazem por aí, como uma espécie de arte também. Arte precária, claro, e talvez sem conceito por aqueles que a fazem, mas, sem dúvida, uma arte e, antes de tudo, uma arte performática, teatral. As pessoas posam para si quando entortam suas mãos para se registrarem. Ou quando manipulam o famigerado pau de selfie, buscam primeiro o registro de uma performance e não um enquadramento alinhado com preceitos da linguagem da fotografia contemporânea (esta também vista como arte):

Fotografar pode gerar vários tipos de comportamento: ou ver com a discrição aparente do voyer, ou mostrar-se como a exuberância do exibicionista. Em todos esses casos, é sempre constituir um teatro do qual se é o diretor, do qual se é, por certo tempo, o Deus ordenador: dão-se ordens, chama-se à ordem, introduz-se ordem no real que se quer fotografar. A preordenação divina – a previsão absoluta de todas as coisas é o sonho de certos fotógrafos: Duane Michals declara prever nove décimos de suas fotos. Deus per machinam: o fotógrafo é, então ouvido e obedecido; poder decorrente da máquina que detém o tempo e parece captar o ser, ou , pelo menos, uma das formas instantâneas do ser.

— Françoise Soulanges. Estética da fotografia: perda e permanência. 2010.

Nesse sentido, não posso deixar de observar que por mais que algumas pessoas se incomodem, não haveria como ser diferente hoje (e ontem também). Os usos e sentidos dado às coisas são muito diversos, especialmente em cidades que atraem um grande fluxo de turistas. Culturas diferentes passaram e passarão pelo Memorial do Holocausto e todas elas reagem de modo diferente a ele.

Chega a ser esperado que assim seja: essa vaga de pessoas com suas câmeras portáteis que não apenas registram, mas, principalmente, compartilham aquilo que registram (conforme percebe Joan Fontcuberta). Qualquer um pode se transformar em artista desse jeito e com um pouco de sorte e bom manejo do equipamento, pode fazer um belíssimo registro artístico. Não me espantaria se nesses milhares de registros feitos no Memorial do Holocausta, fosse possível reunir vários deles e ver ali beleza, harmonia, sentimentos e criatividade. A arte é bem complexa, na verdade, e também abusada:

Em todos os sentidos possíveis da palavra, a arte abusa. Acentua, aumenta, intensifica. Como a caricatura e a comédia, ela exagera, ressalta os traços. Como a tragédia, ela chega à desmesura, à exorbitância, ao extremo, ao abismo. Busca o estado paroxístico, exacerba-o, vai além dele. E ainda: abusa de seu poder, abusa da situação, abusa dos acontecimentos cruéis sobre os quais ela produz imagens sublimes. Os testemunhos de Flaubert e de Monet sugerem ou atestam isso, assim como o de Genet, ou os de Géricault, de Artaud, de Pasolini, de Duras… O artista abusa do sofrimento (dos outros e também do próprio), explorando-o em proveito de sua obra. (…) Ora, pode-se realmente reconhecer, ainda que não se endosse tal menosprezo: é verdade que a arte contemporânea exagera e que os artistas abusam. Incorrem no erro de “não saber parar”. (…) Que ela opera nas fronteiras do museu, já não há muita gente que se preocupe com isso. Que ela intervém nos limites da moral (da decência da dignidade) e do direito: isso é o que pode escandalizar. Conforme o país e conforme a época, a reação é mais ou menos dura. (…) Mentes indulgentes, normalmente simpática à ousadia artística, chegam a se perguntar se não seriam cúmplices de ações degradantes (…)

— Jean Galard. Beleza exorbitante. 2012.

O trecho acima serve tanto para os que se animam em tirar selfies performáticas no Memorial do Holocausto quanto ao próprio Shahak Shapira, que rumina lembranças terríveis a partir de fotos históricas da libertação dos sobreviventes e do estado dos campos de concentração. Afinal, todos abusam, de algum modo, do sofrimento alheio e do próprio em busca de resultados estéticos.

E não, não me sinto cúmplice de quem faz selfies em um local de memória de horrores. Posso não compactuar, porque não faria o mesmo, já que a educação que recebi reprime determinados comportamentos, mas não condeno e, a depender de quem o faz, jamais qualificaria como uma postura anti-semita, levando em conta o Memorial do Holocausto, como alguns poderiam sugerir.

Generalizações não são bem-vindas, mas o nosso país tem, sim, uma tradição de zombar de sua memória (quando ela não foi totalmente apagada pela indiferença). Temos um longo percurso na própria imprensa que publicava caricaturas de políticos e contextos sociais (veja Elias Thomé Saliba em Raízes do riso ou mesmo Isabel Lustosa em Insultos impressos), que eram um prato cheio para piadas dado os equívocos e conflitos de interesses em que seus protagonistas se afundavam (nada muito diferente dos dias que correm, vale dizer).

Mas temos limites e um humorista já foi vítima dele: Danilo Gentili, em 2011, fez o seguinte comentário no Twitter sobre o imbróglio da construção de uma estação de metrô em Higienópolis (que não aconteceu ainda), bairro de São Paulo que, mais recentemente (porque antes era o caso do Bom Retiro), passou a concentrar um grande número de judeus: “Entendo os velhos de Higienópolis temerem o metrô. A última vez que eles chegaram perto de um vagão foram parar em Auschwitz”.

A piada não é anti-semita, evidentemente, mas alude a algo que nos assombra de modo muito vivaz até hoje. Houve reação (desproporcional à importância do fato) nas redes sociais e o humorista apagou o tweet, pedindo desculpas em seguida.

Algo similar àqueles que apagaram suas fotos depois delas terem ido parar no Yolocaust e serem submetidas às intervenções de Shahak Shapira. E também não se trata do “politicamente correto”, porque o que temos é apenas o uso de novas ferramentas que ainda nos fazem girar em falso, às vezes, em busca de uma melhor performance já que, não importa o número, temos sempre alguma platéia a espera de novidades, sejam elas uma selfie ou um tweet…

Tenho que fazer mais uma citação longa. Ela é igualmente oportuna e pode acrescentar mais elementos a uma crítica mais ampla e que talvez tenha sido a intenção do Shahak Shapira, mas por outras vias (imprecisas e inadequadas, a meu ver):

No que diz respeito à consciência coisificada, além disto é preciso examinar também a relação com a técnica, sem restringir-se a pequenos grupos. Esta relação é tão ambígua quanto a do esporte, com que aliás tem afinidade. Por um lado, é certo que todas as épocas produzem as personalidades — tipos de distribuição da energia psíquica — de que necessitam socialmente. Um mundo que a técnica ocupa uma posição tão decisiva como acontece atualmente, gera pessoas tecnológicas, afinadas com a técnica. Isto tem a sua racionalidade boa: em seu plano mais restrito elas serão menos influenciáveis, comas correspondentes consequência no plano geral. Por outro lado, na relação atual com a técnica existe algo de exagerado, irracional, patogênico. Isto se vincula ao “véu tecnológico”. Os homens inclinam-se a considerar a técnica como sendo algo em si mesma, um fim em si mesmo, uma força própria, esquecendo que ela é a extensão do braço dos homens. Os meios – e a técnica é um conceito de meios dirigidos à autoconservação da espécie humana – são fetichizados, porque os fins – uma vida humana digna – encontram-se encobertos e desconectados da consciência das pessoas. Afirmações gerais como estas são até convincentes. Porém uma tal hipótese ainda é excessivamente abstrata. Não se sabe com certeza como se verifica a fetichização da técnica na psicologia individual dos indivíduos, onde está o ponto de transição entre uma relação racional com ela e aquela supervalorização, que leva, em última análise, quem projeta um sistema ferroviário para conduzir as vítimas a Auschwitz com maior rapidez e fluência, a esquecer o que acontece com estas vítimas em Auschwitz. No caso do tipo com tendência à fetichização da técnica, trata-se simplesmente de pessoas incapazes de amar. Isto não deve ser entendido num sentido sentimental ou moralizante, mas denotando a corrente relação libidinal com outras pessoas. Elas são inteiramente frias e precisam negar também em seu íntimo a possibilidade do amor, recusando de antemão nas outras pessoas o seu amor antes que o mesmo se instale. A capacidade de amar, que de alguma maneira sobrevive, eles precisam aplicá-la aos meio. As personalidades preconceituosas e vinculadas à autoridade com que nos ocupamos em Authoritarian Personality, em Berkley, forneceram muitas evidências neste sentido. Um sujeito experimental — e a própria expressão já é do repertório da consciência coisificada — afirma de si mesmo: “I like nice equipament” (Eu gosto de equipamentos, de instrumentos bonitos), independemente dos equipamentos em questão. Seu amor era absorvido por coisas, máquinas enquanto tais. O perturbador — porque torna tão desesperançoso atuar contrariamente a isso — é que esta tendência de desenvolvimento encontra-se vinculada ao conjunto da civilização. Combatê-lo significa o mesmo que ser contra o espírito do mundo; e desta maneira apenas repito algo que apresentei no começo como sendo o aspecto mais obscuro de uma educação contra Auschwitz.

— Theodor Adorno. Educação após Auschwitz. 2012.

Pode ser mesmo que estejamos tomados por uma “incapacidade de amar”. E os registros incessantes que fazemos podem parecer uma tentativa similar àquela de alguém que tenta se salvar de um afogamento, buscando agarrar qualquer coisa pra se safar. Mas a inadequação que se sente no mundo de hoje não é sentida da mesma forma e por mais que se faça tolices, me soa cada vez mais natural, assim como deve ter sido em outras épocas, que, pelas tecnologias tão sedutoras que usamos todos os dias, novos hábitos surjam o tempo todo e o conflito com velhos hábitos (e com alguns que consideramos até imutáveis) vão sempre despontar aqui e ali.

Esse conflito, ele próprio, também é o centro de muitas das discussões de hoje, todas elas abertas a novas possibilidades de serem interpretadas. E pode ser que a beleza da coisa toda resida justamente aí, nessa indefinição e na incerteza.

Lembrar, cada vez mais, não é recordar uma história, e sim ser capaz de evocar uma imagem. (…) Fotos aflitivas não perdem necessariamente seu poder de chocar. Mas não ajuda grande coisa, se o propósito é compreender. Narrativas podem nos levar a compreender. Fotos fazem outra coisa: nos perseguem

— Susan Sontag. Diante da dor do outro. 2003.

O objetivo do projeto de Shahak Shapira, que me lembrou um tanto as fotocolagens da alemã naturalizada argentina Grete Stern, do russo Aleksandr Ródtchenko e, principalmente, do projeto Repaisagem do brasileiro Marcelo Zocchio (que confronta as memórias da São Paulo antiga com a São Paulo metrópole, mas sem apontar culpados para o caos atual), parece ter ficado prejudicado apesar do êxito estético e do bom desempenho nas redes sociais.

Trabalhos de fotocolagem clássicos.
Fotocolagens de Aleksandr Ródtchenko, de 1923 (esq.) e Grete Sterne, de 1949.
Fotos sobrepostas da São Paulo antiga com a São Paulo contemporânea, metrópole.
Fotomontagem de Marcelo Zocchio, 2012.

Diferentemente da argentina e do russo que buscaram o onírico (no surrealismo, no dadaísmo), o israelense buscou os pesadelos (no pop e no pós-moderno) e, com isso, me parece ter ido mais nesse sentido que fala Susan Sontag, do de perseguir as pessoas que ele viu violarem uma memória (não o Memorial) como um tipo de Freddy Krueger nerd que instaura o pesadelo não no sono, mas, no nosso caso, na impossibilidade do sono dado os atrativos das redes sociais que drenam nossa atenção ao esgotamento e que nos mantém acordados, porque ele o faz também através de uma evocação adulterada e ela própria comprometida com as possibilidades e soluções que foram inventadas e possíveis de serem usadas apenas hoje, estas já bem distantes dos motivos da II Guerra e das fotocolagens com aspiração artística que podiam ser analisadas de modo mais intenso pela psicanálise.

E, bom, perseguir, quando não é uma brincadeira, vocês bem sabem: foi justamente o que fez tudo começar a ruir, não?

Foto do topo: Lawrence/Flickr.

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