Especiais

O que há por trás das hashtags #SDV (segue de volta) do Twitter

Hashtag de Denise Tremura nos trending topics do Twitter.

Em um dos nossos podcasts recentes em que o tema era redes sociais, me vi, em dado momento, lendo os trending topics do Twitter para demonstrar um ponto. Lia o termo e explicava do que se tratava em seguida, e assim foi até chegar à hashtag #SextaDetremuraSDV. Sem ter a mínima noção do que era isso, ignorei. Mais tarde, soube que se tratava de uma hashtag do tipo “segue de volta”, o elo entre um monte de gente que usa o Twitter de uma forma bem… peculiar.

Desmembrar aquela hashtag nos dá algumas pistas. “Sexta”, a parte óbvia, é o dia da semana. “SDV” é a abreviação de “segue de volta”, o comando que se espera daqueles que aderem à prática. “Detremura”, descobri depois, faz referência a uma pessoa, quem organiza a maior parte dessas hashtags que ascendem com facilidade nos trending topics brasileiros do Twitter com a promessa de impulsionar bases de seguidores. Intrigado com o que leva as pessoas a se juntarem em torno disso, fui investigar.

Tuíte com uma das hashtags SDV de Denise Tremura.

#SDV ou “segue de volta”

Os grupos “SDV” operam da seguinte maneira: primeiro, você publica um tweet qualquer com a hashtag que estiver em destaque no momento — ela varia e costuma ser determinada pelo dia da semana. Outras pessoas, também interessadas em aumentar o número de seguidores, entram nessa hashtag e seguem todos que estão tuitando mensagens com ela na esperança de retribuição. Todos seguem e são seguidos, no que se configura quase como um esquema de pirâmide para inflar a base de seguidores no Twitter.

Foto da Denise Tremura.Por sempre figurar entre os assuntos mais comentados do Twitter, é de se imaginar que a tática do “segue de volta” tenha muitos adeptos. Para Denise Tremura (foto ao lado), a @detremura que com frequência quase diária emplaca essas hashtags entre os assuntos mais comentados no Brasil, as interações vão além de simplesmente promover o ganho de seguidores. Em entrevista ao Manual do Usuário concedida no final de junho, ela disse:

“Essas tags de sigo de volta promovem interação entre os tuiteiros, torna o Twitter mais interessante. Os jovens querem seguir e serem seguidos, eles querem conhecer gente nova, ter com quem conversar a qualquer horário, então as tags funcionam bem para isso, para promover interação.”

Funciona? Denise é a prova de que sim. Em pouco mais de um ano e meio participando das hashtags “SDV” ela conquistou 290 mil seguidores no Twitter. Desde que tomou a liderança da brincadeira e passou a subir as hashtags com seu nome, em maio de 2015, seus seguidores cresceram exponencialmente — na época, contava com 20 mil, a maioria desses também obtidos através de hashtags iniciadas por outras pessoas.

Denise também está em outras redes sociais como Instagram (20 mil seguidores), Snapchat (média de 25 mil visualizações) e Facebook, onde sua página de humor conta com 150 mil curtidas. Pensionista, dedica-se integralmente às redes sociais e declara-se aficionada por elas:

“Tenho uma paixão por redes sociais, mas não consigo ganhar nada com isso. Não ganho dinheiro com redes sociais. Acredito que estou investindo meu tempo e que um dia isso será lucrativo, mas esse não é o objetivo, na verdade. Eu encaro como hobby. Não é trabalho, não fico escrava de horário, entro na Internet quando quero… E como tenho essa facilidade do tempo livre, acabo me dedicando bastante a elas, por isso crescem. A rede social, se você não se dedicar a ela, não cresce. Tem que estar lá, presente.”

Parece uma fórmula simples para um problema que todos os gurus e especialistas alegam não existir fórmulas, muito menos uma simples. Qualquer pesquisa no Google revela promessas milagrosas de se conseguir milhares de seguidores e serviços que garantem tal resultado a um custo. Em ambos os casos, não há qualquer garantia de engajamento, o substrato mais importante de grandes massas de seguidores para quem ganha a vida explorando redes sociais.

Tuíte com uma das hashtags SDV de Denise Tremura.

A confissão de Denise, de que ela jamais ganhou um centavo com seus perfis recheados com milhares de seguidores, revela o lado negativo da estratégia adotada. Beira o clichê, mas seu exemplo justifica a ideia batida: números vazios não chamam a atenção daqueles que têm dinheiro para investir em publicidade online.

O público majoritário de Denise é formado por jovens, adolescentes às voltas com problemas da idade (escola, relacionamentos, pais) e que usam o Twitter, a julgar pelos exemplos colhidos pelo Manual do Usuário em consultas a hashtags “SDV” nas últimas semanas, para publicar mensagens autodepreciativas em tom irônico ou comentar situações típicas dessa fase. Ela, atenta a isso, se esforça para corresponder produzindo conteúdo que tenta dialogar com esse público, no próprio Twitter e em um canal no YouTube, que contabiliza 10 mil inscritos, onde comenta assuntos em voga e tira dúvidas enviadas por seus seguidores.

O problema, porém, é a escassez de engajamento para alguém com tantos seguidores. Seus tweets não costumam passar de 30 interações cada, o que é bem pouco para quem tem 290 mil seguidores — em termos precisos, apenas 0,01% das pessoas que a segue interage com o que ela publica, em média.

Embora tenha dito na entrevista e reiterado ao G1 que faz o que faz mais por prestígio do que esperando retorno financeiro, esse objetivo não está totalmente descartado. Em outro momento da nossa conversa, Denise disse:

“Eu não sei ganhar dinheiro com redes sociais. Eu precisaria de um agente, uma coisa assim, e não sei onde buscar isso. Tudo é muito novo, é um mercado muito novo. Eu não tenho coragem e habilidade para sair vendendo meu perfil. Precisaria de alguém fazendo isso para mim, para fechar contratos. Sou de marketing, não de vendas. Estou esperando, na verdade, ser descoberta, alguém falar assim ‘ela não faz publicidade? Deixa eu [ajudar]’. Acho que cedo ou tarde isso vai acontecer.”

Fui, então, conversar com especialistas em redes sociais para saber o que poderia ser feito.

Tuíte com uma das hashtags SDV de Denise Tremura.

O problema crônico do SDV

Alexandre Inagaki, consultor em projetos de comunicação digital, palestrante e curador de eventos de mídias sociais, explicou ao Manual do Usuário o que chama a atenção de anunciantes interessados em investir nos chamados influenciadores digitais:

“Quando uma marca contrata um influenciador, está interessada no alcance orgânico que ele possui, na capacidade que ele tem de fazer com que as pessoas se engajem com seus conteúdos de modo mais espontâneo. Coisa que não acontece com estratégias de followback e SDV, nas quais muito usuário só participa de uma hashtag porque está interessado em ganhar mais seguidores, sem demonstrar um interesse genuíno por determinada divulgação.”

Esse engajamento desejado pelo mercado, ainda segundo Inagaki, é percebido quando os seguidores respondem a estímulos do influenciador, com replies, comentários, retuites e favoritos. Passa, também, pelo tipo de conteúdo que é produzido, que precisa ser relevante para o público que a marca visa atingir. Tudo isso deve estar calcado em uma boa imagem pessoal nas redes, coisa que, para quem se utiliza de estratégias “segue de volta”, já se apresenta como um grande obstáculo.

Para ele, “é muito problemático vendo-a lançando essas hashtags do tipo #QuartaDetremuraSDV. Ela precisa provar que é capaz de chegar aos TTs sem recorrer a esse tipo de subterfúgio. Porque aí sim uma marca veria que ela gera engajamento sem esse ‘doping’ do followback”. Esse tipo de mudança não ocorre da noite para o dia e demanda um bom planejamento e muito trabalho, pois seria preciso dissociar-se do “SDV”, coisa que, para início de conversa, é o que catapultou Denise Tremura à posição onde ela se encontra atualmente. Difícil, mas não impossível:

“Se ela conseguir consolidar algo mais autoral, e capacidade para tanto creio que ela possui, aí teremos um perfil mais comercializável. (…) Num primeiro momento, os posts da Denise poderiam se ressentir da falta desses SDVs, mas os seguidores que permanecessem acompanhando suas publicações seriam justamente aqueles que realmente curtem o que ela compartilha na rede. Enquanto ela não der esse passo fundamental pra que role essa filtragem, é difícil que ela consiga atrair anunciantes, ao menos aqueles que sabem que só quantidades numéricas são um KPI muito pobre em se tratando de redes sociais.”

Tuíte com uma das hashtags SDV de Denise Tremura.

Não dá para dizer, com certeza, que todos os seguidores dela estão ali apenas pelo “segue de volta”, mas é seguro afirmar que é o caso da maioria. Entre o público mais interessado no que ela tem a dizer do que em ganhar seguidores, a percepção de que suas mensagens ecoam fortemente entre os jovens encontra respaldo.

Lucas, de 14 anos, é um dos maiores fãs de Denise. No Twitter, ele controla o perfil @detrelover, autodescrito como o do “Fã Clube da Rainha do Twitter”, seguido por 58 mil pessoas. Por outro lado, numa demonstração de fidelidade inclusive ao “modus operandi” da ídolo, Lucas segue outras 58 mil pessoas, o que indica que ele próprio também recorre às hashtags “segue de volta” para inflar o número de seguidores.

Mais incisivo, Ian Black, fundador e diretor executivo da agência de publicidade New Vegas, também comentou o caso a pedido do Manual do Usuário:

“A política do SDV gerou esse perfil [@detremura] com grande audiência, mas com relevância desprezível. Basta um olhar atento aos seus números públicos de interações: são inferiores em comparação a perfis com menos seguidores, mas que construíram uma audiência com base em conteúdo relevante.

A explicação se dá porque provavelmente seus seguidores seguem a mesma política, ou seja, prezam esse crescimento sem critérios em detrimento do que é compartilhado pelos mesmos.”

Tuíte com uma das hashtags SDV de Denise Tremura.

Há uma relação direta entre a forma de adquirir novos seguidores e o relacionamento que se desenvolve após o “follow”. Isso não significa que todos aqueles que ganharam algum prestígio e dinheiro com redes sociais seguiram um caminho puro, livre de esquemas para conseguir seguidores, mas sim que, em algum ponto, todos esses tiveram que mudar a abordagem a fim de gerar um conteúdo que dialogasse melhor com quem se deu ao trabalho de clicar no “Seguir” em seus perfis.

No fim da nossa entrevista, Denise Tremura revelou que é escritora, com dois títulos de ficção independentes publicados pela Amazon em 2010 e 2013, e que deseja escrever outros no futuro: “Pretendo ainda usar essa popularidade para lançar livros, para escrever para jovens”, disse. A fama pode ser diferente, a fortuna, ainda não existir, mas o caminho padrão das webcelebridades surgidas nos últimos anos, de se lançarem no mercado literário, ela já traçou muito antes de virar moda.

A melhor maneira de acompanhar o site é a newsletter gratuita (toda quinta-feira, cancele quando quiser):

Acompanhe também nas redes sociais:

  • Mastodon
  • Telegram
  • Twitter
  • Feed RSS

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

19 comentários

  1. Eu trabalho com marketing digital tráfego orgânico e estou com dificuldade para trazer lads ou seguidores podem me ajudar sou afiliada monetizz eduzz e hotimar mais já estou pra desistir não

  2. Olá Rodrigo, concordo que dificilmente uma empresa vai querer alguma grande empresa vai querer monetizar esse tipo de perfil generalista, mas é possível monetizar, sim, participando de programas de afiliados que ofereçam produtos também generalistas, ou seja, que todo mundo compra. A Actionpay – https://actionpay.net/ref:NzI2MzEzNzk1MDc0 – que aceita o cadastro de pessoas físicas, é uma dessas plataformas de afiliados que possibilitaria a monetização, mediante a divulgação de produtos, campanhas, através de links personalizados, e ganhando comissões com as vendas.

  3. Eu achava que era algum programa da Band voltado pra essa questão de rede sociais e o pessoal aproveitava pra fazer essas correntes, não sei da onde eu tirei isso.

  4. Eu nunca tinha visto o #sdv, até por me ligar pouco nos TT; sempre que olho, difícil saber o que é cada um dos tais temas em destaque, parece que as coisas se destacam por estar em destaque apenas ali (rs).

    De todo modo, o tal #sdv me parece ser uma versão atualizada e menos romântica do #FF – Follow Friday, que a gente usava nos idos de 2009/10 às sextas para indicar aos amigos perfis legais, sem objetivos outros.

  5. Baita matéria. Mesmo o Twitter não me atraindo em nada, curti ler sobre esse fenômeno, que pode ser replicado para todo lado.
    Em tempo, acho o Disqus muito mais legal em termos de “rede social” que o Twitter e facebook juntos!

  6. Essas # SDV e de fã clubes só servem pra poluir o trend topics e tomar o lugar de assuntos mais relevantes. Como usuário diário do Twitter, acho um porre esse tipo de #. Me segue lá. (só não prometo seguir de volta. rsrs) @rojedo

  7. Quando comecei no twitter, eu também usava esse tipo de coisa, inclusive vários sites, tanto é que hoje tenho quase 2 mil seguidores, mas não me interessava pelo que quase ninguém postava, então saí excluindo todo mundo, daí outro dia, usei o IFTTT para compartilhar automaticamente o que eu curtia no Medium e gostava no youtube, para eu postar algo, mas logo desisti, hoje em dia só entro no twitter quando to de bobeira, e comento raramente…

  8. Acredito que o Ghedin foi muito superficial ao tentar entender as motivações por trás do SDV. Para a Detremura pode ter sido um jeito de inflar o perfil dela. Mas para os participantes da tag, é uma forma de corrigir um dos principais problemas da plataforma: a sensação de se estar falando sozinho com as paredes. Existem muitas pessoas que gostam do Twitter e do que leem em suas timelines, mas não se sentem motivadas a postar nada por falta de amigos conhecidos na rede social e pela dificuldade de se construir uma base de followers. Os recém-cadastrados no twitter então fazem da hashtag um ponto de encontro. Para tentar encontrar aqueles com gostos parecidos ou simplesmente interagir. A Detremura faz um favor à rede social ao gerar engajamento desses jovens que migram para o Twitter em busca de um refúgio da família e dos pais. Pois eles abandonariam suas contas em questão de semanas, levando em conta a imcompetência da plataforma em quebrar esse constragimento inicial e em promover o contato entre usuários para além do uso de hashtags.

    1. Mas foi justamente essa questão que eu me dispus a descobrir — e, acho, consegui responder com o texto.

      O que motiva (no caso, ter seguidores/com quem falar) e se a estratégia funciona (não, porque esses seguidores não estão interessados no que você tem a dizer, mas em conseguir mais seguidores). Em outras palavras, usar-se de hashtags “SDV” te mantém falando com as paredes, só que em vez de brancas, elas têm representações/pinturas do que seriam seguidores verdadeiramente interessados.

  9. Sempre achei que “tremura” fosse relacionado a “tremer”, nunca imaginei que fosse uma pessoa.
    Mas enfim… o Twitter é minha rede social favorita e acho bem chatas essas correntes de sdv. O trending topics é uma forma muito boa para saber qual o assunto do momento e acaba que esse tipo de corrente – assim como aquelas dos fã clubes, com hashtags do tipo #JustinComeToBrazil – acabam poluindo e deixando o TT um pouco menos relevante.
    No mais, excelente texto (como de costume).

  10. Uma coisa que fiz esta semana por coincidência, foi limpar a base de “seguidos” pelo twitter do meu site. Tem um complemento pro Chrome que faz isso em massa.

    Tenho, não tantos, mas orgulhosos ~14.7 mil seguidores no @eco4planet e eu seguia praticamente todos eles. Isso se deu porque ao longo dos anos, sempre que alguém seguia, eu seguia de volta, mas mais numa demonstração de “ei, eu vi que você seguiu a gente, que legal, fique aqui”. Mas percebi que isso realmente podia soar mal, parecendo que eu tinha entrado nessa onda de SDV.

    Então é isso, hoje o perfil só segue a mim, pessoa física haha

  11. Finalmente uma boa alma jornalística disposta a analisar o fenômeno tremura. Sempre vejo essas hashtags subindo, mas a falta de relevância me impedia de clicar para saber do que se tratava.

  12. Bom texto Ghedin, minha rede social favorita é o Twitter, posso ficar dias sem acessar o Facebook, mas o Twitter sempre estou usando.

    Tem duas coias que eu acho uma verdadeira bost# no Twitter são essas correntes de SDV, e o moments. O Twitter séria lindo se não tivesse isso.

Do NOT follow this link or you will be banned from the site!