Amazon Echo, interfaces e atrito

Detalhe do disco colorido do Amazon Echo.

Celulares e, depois, smartphones, vêm engolindo outros produtos já faz um bom tempo ─ tudo, de relógios a câmeras e players de música, foi transformado de hardware para um app. Mas esse processo também acontece de forma reversa algumas vezes ─ você pega parte de um smartphone, a coloca em uma caixa de plástico e a vende como uma coisa nova. Isso aconteceu primeiro de uma forma bem simples, com empresas vasculhando a cadeia de suprimentos dos smartphones para criar novos tipos de produtos com os componentes que ela produzia, sendo o fruto mais óbvio a GoPro. Agora, porém, existem alguns pontos extras sobre os quais podemos pensar.

Primeiramente, às vezes estamos separando não apenas componentes, mas também apps, especialmente partes de apps. Pegamos um input ou um output de um app em um smartphone e os levamos para um novo contexto. Então, onde uma GoPro é uma alternativa à câmera do smartphone, um Amazon Echo está pega um pedaço do app da Amazon e o coloca por perto enquanto você lava as roupas. Ao fazer isso, ele muda o contexto e também muda o nível de atrito. Você poderia tirar suas mãos das roupas, encontrar seu smartphone, selecionar o app da Amazon e buscar por sabão em pó, mas aí você estaria fazendo o trabalho do computador por ele ─ passar por uma série de etapas intermediárias que não tem nada a ver com a sua necessidade. Ao usar a Alexa, você tem efetivamente um link profundo e direto com a tarefa que você quer, sem nada de atrito ou o trabalho para chegar lá.

Em seguida, e novamente removendo o atrito, estamos removendo ou mudando a forma como utilizamos botões de liga/desliga, teclas e baterias. Você não liga ou desliga o Amazon Echo ou o Google Home, nem os AirPods, o Chromecast ou um Apple Watch. A maioria desses aparelhos não tem um botão liga/desliga e, se eles têm, você não os usa normalmente. Você não precisa fazer nada para acordá-los. Eles estão sempre lá, presentes e esperando por você. Você diz “Ok Google”, ou você olha para seu Apple Watch, ou você coloca seus AirPods na orelha e é isso. Você não precisa dizer a eles que vocês os quer. (Parte disso é “ambient computing”, mas o termo não descreve tão bem o smartwatch ou os fones de ouvido.)

Em paralelo, para aqueles aparelhos que têm baterias, carregá-los é hoje algo bem diferente. Estamos indo de aparelhos com grandes baterias que duram horas ou no melhor cenário um dia e levam um tempo significativo para carregar, para aparelhos com baterias minúsculas que carregam muito rapidamente e duram um longo tempo – dias ou semanas. A relação de tempo de uso para tempo de recarga da bateria é diferente. Mesmo o Apple Watch, ridicularizado como “um relógio que precisa recarregar a bateria!”, já aguenta dois dias de uso normal, o que na prática significa que, presumindo que você o tira durante a noite, você jamais pensa em bateria. Novamente, isso é tudo sobre atrito ou, talvez, sobre a carga mental. Você não precisa pensar sobre cabos, gerenciamento de energia, botões e ligar o aparelho – você não tem que fazer a rotina de gerenciar seu computador. (Isso é também um dos pontos de se usar um iPad em vez de um notebook.)

Par de AirPods sobre um iPhone 7.
Foto: Apple.

Um excelente exemplo polarizador dessa tendência são os AirPods da Apple, no qual o atrito está sendo movido em vez de removido. Você pode reclamar que precisa recarregar os fones de ouvido, mas você também pode dizer que em vez de plugá-los toda vez que for ouvir alguma coisa (e reclamando consigo mesmo enquanto desenrola o cabo), pode simplesmente colocá-los nas suas orelhas; com 30 horas de autonomia entre os fones e o seu estojo, você tem aí uma ou duas semanas de uso. Você precisa usar um cabo e plugá-los para carregar duas vezes ao mês ao invés de toda vez que você vai usá-los. A Apple espera que isso seja menos atrito ─ o que ainda veremos, mas é certamente diferente do modelo anterior.

Um ponto comum ligando todos esses pequenos dispositivos é uma tentativa de se livrar do gerenciamento, ou do atrito, ou, pode-se dizer, do trabalho administrativo. Isso conecta o Apple Watch, o Chromecast, o Amazon Echo e o Google Home, os Spectacles do Snapchat, os AirPods e talvez até mesmo o Apple Pencil. Eles tentam reduzir o trabalho administrativo que um computador ou um dispositivo digital te obriga a fazer antes de poder usá-lo ─ carregar, ligar, reiniciar, acordar, conectar, escolher um app e por aí vai. A interface de um smartphone reduz o gerenciamento que você faz dentro do software (gerenciamento de arquivos, configurações etc), mas esses novos aparelhos são muito mais sobre mudar o quanto você precisa lidar com o próprio hardware. Há uma mudança na direção de manipulação e interação diretas ─ menos abstrações de botões entre você e a coisa que você quer. Eles não fazem perguntas que apenas importam ao computador (“Você quer que eu acorde agora? Eu tenho carga o suficiente?”). O dispositivo é transparente para a função.

Claro, perguntas podem ser atrito, mas elas também são escolhas. Se não é só um microfone, mas é uma extremidade para um serviço de nuvem, é também uma extremidade exclusiva para os serviços de nuvem do Google ou da Amazon (e se eu disser à Alexa para “comprar sabão em pó”, que marca ela seleciona, e por quê?). Se a GoPro é só uma câmera mas os Spectacles do Snapchat são só uma extremidade para o Snapchat, eles só servem para o Snapchat. Como plataformas, a Alexa e o Google Home são como um celular com uma plataforma transportadora, ou como um decodificador da TV à cabo ─ um aparelho selado e subsidiado com serviços controlados e centralizados (a Amazon provavelmente quer oferecer o Echo de graça, ou próximo disso, aos assinantes do Amazon Prime). A sua escolha por um assistente de voz se dá quando você escolhe comprar um Amazon Echo ou um Google Home, não depois disso (assumindo que você não comprará ambos e assumindo que eles não vão brigar entre si na sua cozinha).

Isso tudo significa que estamos falando sobre reduzir o atrito, sim, mas também sobre ampliar o alcance das empresas de nuvem e de serviços web, e como elas veem um universo mais amplo no qual a web no PC é cada vez menos relevante, o sistema operacional do smartphone é a plataforma e a plataforma é quase sempre controlada por seus concorrentes, e de que outras formas elas podem criar serviços para além de se encaixarem em um modelo de API de smartphones que alguém definiu. É uma investida das grandes empresas com um desejo estratégico, no mínimo na mesma medida que é uma demanda dos consumidores. O Google Home é uma extremidade para o Google Assistant, tal qual é o app Allo, um Android Watch ou mesmo qualquer smartphone Android. O Facebook ainda não tentou fazer um dispositivo (além da Oculus, que é uma conversa muito diferente, e uma parceria com celulares simples há um bom tempo), mas assim como o Google ele vem circulando em torno da discussão sobre qual rotina ou ponto de toque pode estar além dos apps, mais recentemente com a plataforma de bots do Messenger.

A primeira coisa a se pensar aqui é quantos desses dispositivos são controlados por alguma forma de inteligência artificial. A manifestação óbvia disso está nos assistentes de voz, que não precisam de uma UI para além do microfone e do alto-falante e, assim, teoricamente podem ser “transparentes”. Mas como ainda não temos um HAL 9000 de fato ─ nós não temos uma IA em níveis humanos, generalista ─, assistentes de voz podem às vezes se parecerem como uma URA ou uma linha de comando ─ você só pode fazer alguns tipos de perguntas, mas não há uma indicação de quais. A carga mental aqui poderia até mesmo ser maior. Foi aqui que a Apple errou com a Siri ─ ela levou as pessoas a acreditarem que a Siri poderia responder a qualquer pergunta, quando na verdade ela não é capaz. Da mesma forma, parte do sucesso da Amazon com a Alexa, acho, está em comunicar o quão estreito é realmente o alcance dela. Daí, o paradoxo ─ a voz parece ser a interface definitiva, ilimitada, de propósitos gerais, mas na verdade ela só funciona se você consegue limitar o seu domínio.

É algo que vai melhorar com o tempo, mas além disso, não devemos pensar na voz e no som como a única interface baseada em IA ─ nós ainda não tentamos realmente enxergar como um modelo de utensílios poderia se aplicar a imagens, por exemplo. Isso se torna especialmente interessante quando se pensa que, por exemplo, um motor de reconhecimento facial (ou de voz, ou de linguagem) poderia ser embarcado em um aparelho pequeno e barato, com os próprios dados nunca saindo do dispositivo. Então um sensor de alarme poderia ser um sensor de pessoas, em vez de um sensor infravermelho, que apenas enviaria um sinal binário “sim/não” sobre a presença de pessoas. Ele poderia ser alimentado por uma bateria e durar anos.

Infográfico de funcionamento do Amazon Dash.
Dash: configure um botão físico, aperte-o e receba o produto em casa.

Nos EUA, a Amazon já vende um sensor pequeno e alimentado a bateria que envia apenas um sinal muito simples ─ o botão Amazon Dash (acima). É mais fácil colocar um Echo na sua área de serviço ou um Dash? Temos aqui um belo contraste ─ esses dispositivos são ou muito inteligentes ou muito burros. Eles representam por um lado o ápice das pesquisas em IA (talvez localmente, talvez como uma extremidade da nuvem) ou o aparelho mais simples possível, e às vezes representam os dois ao mesmo tempo, e ambos te trazendo mais sabão em pó.


Publicado originalmente no blog do Benedict Evans em 10 de outubro de 2016.

Tradução: Leon Cavalcanti Rocha.
Foto do topo: Michael J/Flicjr.

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11 comentários

  1. Alexa que lembra o quão a nossa vida foi facilitada, porem nossa convivência dificultada. Não temos mais relações pessoais. Não como antes. Crianças em suma maioria não pulam mais cordas. Velhos não ficam mais na janela cuidando de suas flores ou da vida dos outros. Agora tudo é rede social, onde a verdadeira socialização foi digitalizada e desumanizada. Não se dá mais comida para cães de rua, se dá like e amem em fotos.
    Algo nisso me lembra um trecho de certo episodio de Mr. Robot, onde Dom pergunta para Alexa se ela a ama. A resposta é obvia. A questão é, quanto tempo demorara ate que a gente deixe de amar de verdade?

    1. Acho que isso tudo ocorre não só por causa da tecnologia. Antes mesmo do advento dela, as pessoas aos poucos não se socializavam mais como antes.

      Uma teoria que tenho é que há muitas pessoas para poucas cidades. Quanto mais pessoas em um lugar, mais impessoal o lugar fica.

      Outra é a questão da criminalidade e desconfiança. Quando se vê a outra pessoa como um objeto, como um “dinheiro”, ignora o social. As pessoas mais “comuns” ficam com medo das outras pessoas pois tem medo de perder as coisas para elas.

      1. O passar do tempo e o saudosismo filtram muito do que era a realidade… preza-se muito a maneira de se relacionar do passado até lermos as crônicas do Lima Barreto e percebermos como era a vida.

    2. E até que ponto tudo isso é ruim? Minha filha de 3 anos não pula corda nem brinca na rua. Continua com um conjunto de amizades e socializando mas de maneira diferente. Saudosismo por saudosismo, minha bisavó achava um absurdo minha avó pular corda na rua pois não era coisa de menina…

  2. A gente reclama, reclama e reclama em vários aspectos da praticidade da vida contemporânea (carregar celular todo dia, carregar relógio, carregar fone de ouvido etc.), sendo que não faz tanto tempo que a vitrola e o relógio funcionavam “dando corda”; ou que o espremedor de laranja era um cone onde a gente fazia força pra extrair o suco.
    Lembremos que antes não tinha relógio de pulso; não tinha música “encaixotada” e o suco era na marra, espremendo a fruta na mão.
    Eu até concordo e reclamo, sou humano, fico puto de ter que carregar meu fone bluetooth quando passo de 8 horas de uso; me irrita hoje em dia até a velocidade que o decodificador da TV a cabo demora pra zapear entre os canais. Mas não acho, em nenhum momento, que estamos “dando passo atrás”, como algumas pessoas (sei que não foi aqui) vêem e discursam sobre o fim do vinil; o fim da entrada P2 no celular; o fim de tantas outras coisas as quais estamos acostumados.
    É o pequeno preço do progresso rs

    1. Lembremos que:
      – Lavava-se roupa esfregando na mão com sabão
      – Este mesmo sabão era feito com óleo em casa ou alguma química repassada de geração em geração.
      – Carros tinham mais necessidade de manutenção em relação aos tempos atuais. (Antes disso, só a pé ou cavalo ou burro.)
      – Ônibus não atendiam todas as cidades e bairros (errr… na verdade até hoje isso ainda tem :p )
      – Para assistir TV e trocar de canal, tinha que se levantar do lugar, virar o seletor e voltar ao lugar. e não tinha pausa! Nem programa à la carte
      – Para escutar música tinha “caixotinhos”, mas ficavamos reféns de quem enviava música a estes caixotes.
      – Antes disto, músicos tocavam ao vivo. Sem música nas caixas.
      – Fazia-se contas complexas “na mão” ou “na mente”. O máximo era o ábaco, e ainda (até hoje) é só para quem sabe :p Depois veio as primeiras máquinas mecânicas de calcular, e um tempo depois, as eletrônicas.

      A lista é longa e paro por aqui. O comentário mais útil será o próximo :)

    2. Noto que o ser humano quer as coisas “simples”, mas sabe que para isso existe antes a necessidade de “descomplexar” as coisas que são feitas. Ou ao menos, esconder a complexidade da coisa para se tornar algo mais “natural” a um humano mais “normal”, que não ache tecnologias algo difícil.

      Cada geração das últimas começou este processo de “descomplexar” e depois “esconder esta complexidade”. Não sei se falo certo isso.

      Vide os exemplos que você deu e vou tentar pegar um.

      A música acho que cabe bem aqui. No começo, músicos tocavam apenas nos arredores e atingiam só o público do local. Com o advento das gravações, as músicas começaram a se popularizar em outros lugares fora àquele inicial. Com isso, também poderia se cobrar pela música tal como um objeto, enriquecendo os artistas.

      Simplificou e “barateou” a música: se uma banda fazia sucesso, ela poderia vender sua música tal como um sorveteiro vende um sorvete.

      Com o advento das tecnologias novas, onde a reprodução da música ficou extremamente fácil, o valor de venda da música se perdeu. Se antes as músicas eram tratadas como objetos, hoje, são tratadas da mesma forma que eram no início: como algo abstrato, cujo valor era pago apenas por quem realmente apreciava e valorizava a arte como tal.

      O que era “complexo” (levar músicos e suas canções em um lugar) depois foi descomplexado (levou apenas suas canções, de forma simples em um objeto). Existe mais complexidade nisso, mas ela fica oculta na tecnologia empregada para o transporte da música.

  3. Eu acho o Dash um produto excelente da Amazon, só acho que as empresas é que deveriam me pagar para tê-lo, afinal, por mais que seja eu que ganhe em comodidade, a empresa é que ganha a longo prazo por monopolizar meus pedidos sobre determinado produto (até onde sei, os Dashes não são reprogramáveis, de modo que o Dash de Doritos não vai servir pra pedir Pepsi no dia que eu não quiser mais nachos).

    1. Exatamente, dá para reprogramar, mas de forma não oficial!!

      Eu gostaria de ter um desses em casa, mas só se ele entregasse as coisas em horas (coisa que a Amazon faz).

      Acordar de manhã para fazer almoço para uns amigos e perceber que não tem Suco em casa, aperto um botão e antes das 12:00 ele chegar em casa seria uma maravilha!

    2. O Dash é uma espécie de “cano virtual”. Assim como o fornecimento de água, internet ou eletricidade, o Dash acaba funcionando como uma espécie de alimentador automático. Aperta o botão, em seguida vem outro produto encomendado.

      Como bem dito, a principal desvantagem é que um Dash monopoliza o produto. Outra também é que acaba “nos viciando” nesta comodidade.

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