Selfies com Hillary Clinton

Eleitores tiram selfies à distância com a candidata Hillary Clinton.

A foto acima, tirada por Barbara Kinney e publicada por Victor Ng, ambos da equipe de Hillary Clinton, viralizou no Twitter. Ela reflete muitas características da contemporaneidade, mas fixemos o olhar em uma, apenas: o papel da fotografia.

Como comentei no monólogo de sábado e que este texto, que me passou de comentar, explora com maior propriedade, a câmera deixou de ser apenas o mecanismo pelo qual se obtém fotografias. Essas, por sua vez, não têm mais o caráter único e puro do registro, que marcou boa parte da história dessa mídia. A fotografia pode ser muitas coisas, algumas delas ao mesmo tempo.

Quando a plateia de uma candidata à presidência dos Estados Unidos lhe dá as costas e se posiciona entre ela e uma câmera, o que isso significa? Digo, para além de reclamação (talvez justa?) de que é tudo por curtidas?

Duas coisas me chamam a atenção. Primeiro, outro possível motivador da selfie. Parece-me que a banalidade da fotografia nos força a diferenciais cada vez mais explícitos, maneiras de colocar a nossa marca em uma mídia que, ubíqua, largamente disponível e barata em todos os sentidos, esfarela o que antes poderia individualizá-la — a exclusividade do objeto registrado, a técnica ou a sensibilidade do fotógrafo.

Em outras palavras, se todos ali tirassem fotos “normais” tal qual o senhor barbudo de boné, teríamos um punhado de fotos rigorosamente iguais. Colocar-se no enquadramento a torna imediatamente única, de maneira indiscutível.

A outra coisa é a vontade de registrar a própria vida pelos olhos de um terceiro invisível (ou visível, se considerarmos a figura da tecnologia/do smartphone). O que antes era uma questão promovida por terceiros (imprensa e leitores ou fãs) tendo como alvos gentes conhecidas (políticos, atletas, celebridades) que muitas vezes nem desejavam tamanha atenção, hoje está ao alcance de qualquer um, sem depender de ninguém, ainda que para apreciação própria ou, no máximo, alcançando familiares e alguns amigos e conhecidos. Um tanto narcisista, mas quem, exceto nós mesmos (quem julga), não é um hoje?

A realidade é mais simples, mas intrigante de qualquer forma. Segundo a fotógrafa, Hillary disse “Ok, todo mundo se vire e tire uma selfie” e a foto aconteceu.

Por quê? Porque era o que todo mundo queria e estava constrangido em fazer. É o que dizem a reportagem da Quartz (“Ela sabia o que o povo queria e ofereceu a ele a chance de tirar uma selfie única”) e o teórico de mídias sociais Nathan Jurgenson (“ela criou um momento socialmente permissível”).

Atualizado às 11h15 com informações sobre a origem da foto (1º parágrafo).
Atualizado às 13h50 com a história real por trás da foto (dois últimos parágrafos).

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17 comentários

  1. Ah, na vida eu sou a fotógrafa dessa foto. Nas festinhas de escola primária eu gostava de fotografar a correria e desespero dos pais quando os filhinhos deles entravam na quadra para dançar.

  2. É verdade que queremos um “diferencial” nas fotos. Quando vou a show e evento público, não tiro nem retratos nem auto-retratos. Mas no dia seguinte me emburaco nos face, insta e twitter da vida atrás de fotos onde eu apareço. Tenho uma do show do Deolinda que em primeiro plano tem um pessoal posando pra foto, olhando e sorrindo pra câmera. No cantinho, eu e marido abraçados, olhando para o palco, sorrindo, ele balançando a cabeça enquanto canta. Sempre achei as fotos não posadas muito bonitas. Pena que não consigo convencer as filhas das primas. Minha filha já se conformou em ter cliques roubados por mim, mas as priminhas fazem cara feia, gritam, desfazem a cena ou – pior, ajeitam o cabelo, fazem pose e bico de pato.

  3. Ghedin, as atualizações poderiam ficar destacadas no texto de alguma forma, seria mais interessante para os leitores que vem ler a notícia apenas para visualizar esses updates. :p
    Achei interessante a atitude do senhor de boné, confesso que demorei a encontrar o senhor citado, que mesmo com a liberação para a selfie quis tirar uma foto exclusivamente da candidata.

  4. Ontem eu estava assistindo uma série do Netflix – Easy – que trata um pouco dessa cultura do selfie e da necessidade de se registrar tudo, centradas mais no quesito de privacidade. O episódio (o 4º) trazia duas perspectivas de exposição da nossa vida privada ao público – primeiramente, o da “velha geração” – um cartunista/escritor que estava sendo duramente criticado por escrever sobre a sua própria vida – e, consequentemente, sobre todos que o cercavam. Ocorre que, por uma ironia do destino, ele acaba sendo “vítima” do mesmo tipo de exposição, só que dessa vez, de uma artista que se especializou na arte de expor a si mesma – e de seus amantes. É engraçado a crítica que ele faz à artista sobre superexposição, a necessidade de registrarmos tudo, do porquê várias pessoa s filmam os mesmos tipos de acontecimentos. Gostei muito dos diálogos postos ali, é uma reflexão/desconstrução do assunto.
    Agora só aguardo que na volta de Black Mirror eles tragam mais assuntos do gênero.

  5. olhando assim, essa imagem em particular, me parece um artifício bem engenhoso, apesar de não ser novidade, de se colocar em um evento no qual não se tem papel relevante. vc tira uma pequena lasquinha de alguém q, por algum motivo, está alçado naquele instante a uma posição de destaque e, pimba, ao invés de figurar como papagaio, vc posa de “protagonista” de ocasião. não me parece muito diferente de qdo a pessoa posa ante uma paisagem falsificada em q, às vezes, pode encaixar a cabeça num buraco e parece ser outra pessoa.

    1. Mais ou menos. É a imagem de destaque, que, tecnicamente, não faz parte do post (no editor ela aparece foram da caixa de texto do conteúdo do post). Sempre tento colocar uma imagem que não seja imprescindível para entender o post ali; hoje, não deu.

  6. Lembrei de uma frase que era sempre dita, que num retrato, há sempre pelo menos duas pessoas, a pessoa fotografada, e o fotógrafo. Isso não é mais verdade!

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