Redes sociais afetam adultos também

Existe ainda alguma dúvida de que redes sociais são prejudiciais para crianças e adolescentes? O ano de 2026 encaminha-se para o fim dessa fábula.

A Austrália já baniu o acesso de menores de 16 anos às plataformas sociais.

No Brasil, o chamado ECA Digital, com uma série de novas obrigações para sites e aplicativos a fim de mitigar os perigos da internet a que menores estão sujeitos, está prestes a entrar em vigor — com algumas aberrações perigosas, como a “verificação de idade”.

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Trend da IA

Vi-me em um experimento curioso por puro acaso: observar as reações das pessoas avessas à inteligência artificial — meio que todo mundo que usa Bluesky e/ou Mastodon — à “trend da IA”.

O acaso decorre de eu estar alheio ao Instagram. Faz umas três semanas que não abro o app, usando aquele arranjo do bloqueio direto no DNS. Tenho frequentado apenas Bluesky e Mastodon.

A primeira dificuldade foi entender a qual “trend da IA” estavam se referindo. Descobri que é uma de caricaturas, ou da pessoa pedir uma imagem de si mesma em seu trabalho. Ou as duas coisas, não sei.

O mais curioso foi o contato limitado às reclamações. Não vi sequer uma imagem gerada por IA dessa “trend” nos locais que frequento. Desse ponto de vista, a situação toda se parece com uma esquizofrenia coletiva.

Suponho que as pessoas vejam a “trend da IA” no Instagram, no TikTok e no Status do WhatsApp. Do meu lado, tanto faz. Somos seres curiosos e a visão que uma inteligência artificial tem de nós mesmos atiça a curiosidade. Entendo a motivação e acho ela válida.

A divulgação das imagens é mais difícil de entender se fechamos a análise nisso, mas ampliada, como parte de uma questão mais profunda — a da publicização sem limites da vida privada em plataformas ditas sociais —, é como funcionamos no momento. Já as reclamações ruidosas em becos digitais onde as pessoas que geram e curtem essas imagens *não* estão… sei não. Evitável, talvez?

Minha companheira pediu uma caricatura minha à IA, antes de eu saber que era uma “trend”. Saiu algo estereotipado, com erros tangenciais. Não curti, não.

O paradoxo da segurança  densediscovery.com

Viver, em 2026, consiste em guerrear com outras pessoas em múltiplas frentes, o que se normalizou chamar de “competição”. Vale para tudo e sempre gera um efeito paradoxal: o acirramento da nossa guerra privada do dia a dia piora a vida de todo o mundo.

Na última edição da newsletter australiana Dense Discovery, Kai chamou a atenção ao livro Trapped: Life under security capitalism and how to escape it (algo como “Preso: A vida sob o capitalismo de segurança e como escapar dele”), de Setha Low e Mark Maguire.

Os autores argumentam que a “segurança se transformou de um direito inalienável em uma commodity acumulada por quem pode pagar”, estimulada por uma indústria que não para de inventar tranqueiras e softwares cada vez mais invasivos sob uma promessa que jamais é cumprida. Esse mercado macabro não gera mais segurança; gera medo:

Quanto mais você securiza sua vida, mais essas cercas, portões e guardas deixam sua vida pautada pelo medo em vez te deixar com menos medo. E assim, à medida que o medo cresce, você quer mais segurança, compra mais dispositivos, apoia todos os tipos de iniciativas de policiamento.

O paradoxo aparece quando se tira a cabeça do próprio umbigo. O aparato, ilusório em essência, no fim deixa o mundo pior para todos:

“[Isso cria] uma profecia auto-realizável de pessoas com medo querendo mais segurança e o estado e a iniciativa privado produzindo-a, apenas para tornar o mundo mais temeroso para alguns e desprotegido para outros.

Penso nisso sempre que passo por muros com cercas elétricas e arames farpados, condomínios residenciais de alto padrão, câmeras de segurança, policiamento ostensivo. O que significa que tenho pensado muito, e cada vez mais, no assunto.

É possível viver sem WhatsApp no Brasil?

Vamos direto ao assunto: viver sem Instagram, Facebook e Threads (risos) é fácil. Os únicos contratempos que me ocorrem são a privação dos rolos no marketplace do Facebook e o apagão de informações de restaurantes, cafés e clínicas que insistem em reduzir a presença no digital ao Instagram. Inconveniente, mas contornável.

No Brasil, o “chefão” de quem decide se livrar da Meta é o WhatsApp. E como não seria? Algumas pesquisas de hábitos no celular apontam que até 99,1% dos brasileiros maiores de 16 anos usam o app de mensagens. Por aqui, ele é onipresente; o meio de comunicação padrão de muita gente e empresas.

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Seu celular é uma casa falsa

por Adam Aleksic

Nota do editor: Gosto de encerrar o ano do Manual com um texto mais reflexivo. (O do ano passado é um bom exemplo.) Topei com este do Adam e fiquei comovido. É um ótimo chamado à realidade: mais efetivo que listar dicas e recomendações de como usar o celular e uma leitura mais prazerosa também. Espero que você leve as palavras dele às suas próprias reflexões de fim de ano. Volto do recesso no dia 12/1. Boas festas e feliz 2026! ✨

As escadas de madeira da casa onde cresci tinham um degrau que rangia. Ainda consigo visualizar nitidamente o jeito como ele gemia sob meu peso. Era um som tão alto e revelador que eu costumava saltava esse degrau nas escapadas noturnas até a cozinha. Caso contrário, acordaria a casa inteira.

É preciso uma intimidade extraordinariamente profunda para desenvolver esse tipo de hábito. Quando você começa a conhecer um lugar de verdade, cria suas próprias idiossincrasias de navegação do tipo. Meu colega que mora comigo diz que sempre segurava o corrimão de um jeito particular ao subir as escadas da casa onde que cresceu.

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Ser meio sovina me ajudou a usar menos o celular em situações sociais

Existem atitudes que todos dizem reprovar e, ainda assim, sempre se repetem. Usar o celular em situações sociais, por exemplo. O assunto à mesa pode ser exatamente esse, “oh, estamos todos viciados em celulares”, mas basta alguém sacar o celular para que todos os demais peguem os seus também.

Não apenas por esse motivo, há uns dois meses criei um arranjo para resistir à tentação do celular em contextos em que seu uso é desagradável ou indesejado/ (Leia-se: quase sempre.) Outra parte da minha motivação, a princípio a maior, era economizar os preciosos giga bytes que comprei do Vivo Easy antes do falecimento do plano. (Se você migrou para ele motivado(a) pelo meu relato, peço desculpas.)

Eu trabalho em casa, saio pouco e não uso redes sociais no celular. Mesmo assim, tinha dias em que o app da Vivo acusava… sei lá, quase 100 MB de dados consumidos. Culpa de quem? Da web, do e-mail e do leitor de feeds RSS. Pode parecer que não, mas imagens, vídeos que tocam sozinhos e outros recursos multimídia pesam na conexão (e no bolso).

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A chegada de dezembro precipita uma inundação de “retrospectivas” das grandes plataformas de tecnologia, aquele período festivo em que iFood, Spotify, Apple Music… Google Maps (??) e sei lá mais quem esfregam na nossa cara o tanto de dados que coletam e, de quebra, ainda convencem muita gente a fazer propaganda de graça.

Não é obrigatório compartilhar, mas se quiser, pode. De qualquer maneira, recomenda-se paciência e, se possível, manter distância das redes sociais até 2026.

Empresas de tecnologia estão descobrindo que tudo é político

A Framework, que produz e vende computadores modulares e reparáveis, está enfrentando uma pequena revolta em seu fórum oficial após anunciar o patrocínio dos projetos Hyprland e Omarchy — um gerenciador de janelas para Linux e uma pseudo-distro baseada no Arch, respectivamente.

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Votando com a carteira

por Cory Doctorow

Nota do editor: Este texto do Cory Doctorow, inventor do termo “enshittification”, foi um lembrete para mim, uma valiosa ajuda para (re)colocar as coisas em perspectiva. Espero que esta tradução também ajude a iluminar as suas reflexões e práticas.


Você não pode “votar com a carteira”. Ou melhor: pode, mas você perde esse voto. Votos com a carteira sempre vão para quem tem a carteira mais gorda, e estatisticamente esse não é você.

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Sensibilidades anônimas e amenas têm valor porque a música de hoje — criada e selecionada por humanos ou máquinas — costuma ser usada para fazer as pessoas não sentirem nada em vez de sentirem algo. […] Essa música não é feita para ser ouvida; ela é usada para abafar todo o resto.

Homem branco, de óculos de grau, barba preta e cabelo comprido, preto e liso. Foto em preto e branco.Ian Bogost
The Atlantic

Ian reflete o pequeno sucesso do Velvet Sundown, uma banda feita por inteligência artificial que já se aproximava de 1 milhão de músicas executadas no Spotify. “Esta é uma audição musical de segunda ordem, na qual você experimenta a ideia de ouvir música. Que melhor banda para fornecer esse serviço do que uma que nem existe?”

O Washington Post reporta o incômodo que profissionais do colarinho branco estão tendo com a presença cada vez maior de robôs de IA tomadores de notas em videochamadas. Há casos em que há mais robôs que seres humanos nas reuniões.

Este talvez seja um resultado positivo da adoção caótica de inteligência artificial nas empresas. Quando todo mundo estiver mandando robôs para videochamadas e lendo resumos em texto das mesmas, talvez esse pessoal finalmente se dê conta de que todas aquelas reuniões poderiam, de fato, terem sido e-mails.

Como as tecnologias de conexão nos separam

O subtítulo de Superbloom, livro mais recente do escritor estadunidense Nicholas Carr, pode surpreender quem nunca parou para questionar ou mesmo observar os meios de comunicação: “Como as tecnologias de conexão nos separam.”

Soa contraditório, não? Sim, mas faz sentido. Com o texto delicioso que lhe é característico — e que, vez ou outra, nos é oferecido em sua newsletter —, Carr repassa a história das tecnologias de comunicação sob uma nova perspectiva, uma em que, por causa do desenvolvimento focado em eliminar atritos e acelerar a velocidade da informação, deteriora o corpo social.

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Fadiga de notificações, ou seria de jornalismo?

O Guardian pescou um dado interessante (dentre os muitos interessantes) da edição 2025 do Digital News Report, talvez a maior pesquisa sobre a imprensa do mundo, produzida anualmente pelo Instituto Reuters:

Análise do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo descobriu que 79% das pessoas pesquisadas sobre o assunto ao redor do mundo disseram que não recebem atualmente nenhum alerta [notificação] de notícias durante uma semana comum. Mais importante, 43% daquelas que não recebiam alertas disseram que os haviam desativado deliberadamente. Elas reclamaram de receber muitos alertas ou de não achá-los úteis, de acordo com a pesquisa, que abrangeu 28 países.

Houve uma época, ali por volta de 2014, em que as notificações do celular eram encaradas como “área VIP”, local de disputa pela atenção das pessoas, àquela altura já saturadas pelo volume de informações do digital.

Sem surpresa, a área de notificações também acabou saturada e descartada como mais um lixão digital. Suspeito que muita gente nem ligue para o que tem ali, acumulando dezenas, centenas de notificações não lidas, ignoradas.

O enfoque óbvio da pesquisa do Instituto Reuters, o jornalismo, me fez lembrar de um textinho ótimo do Ricardo Fiegenbaum, pesquisador do objETHOS, da UFSC. Um texto nada acadêmico (no melhor sentido), em que ele pensa alto o lugar do jornalismo hoje:

É nesse terreno minado, paradoxal, complexo e incerto que adentro quando penso o jornalismo. E cada questão que se apresenta neste cenário – lógicas, ideológicas, pragmáticas, tecnológicas, discursivas, etc. — leva-me sempre à pergunta fundamental: do que estamos falando quando falamos de jornalismo?

É uma boa pergunta.

Suspeito que a fadiga transcende as notificações e que boa parte do que se entende por “jornalismo”, hoje, escapa a uma das definições mais nobres do ofício, uma que o Ricardo menciona: atender às necessidades de informação das sociedades.

Do arquivo: em 2022, à luz da edição daquele ano do Digital News Report, me perguntava — ecoando Caetano — quem é que lê tanta notícia.

Entre a Meta anunciando que sua IA, Meta AI, atingiu 1 bilhão de usuários e o Google que os AI Overviews são usados por 1,5 bilhão, fico curioso em saber quantas dessas pessoas fazem o uso intencional do recurso, ou que preferem-no àqueles que a IA substitui.

Os AI Overviews aparecem no topo das buscas, sem opção de desligamento. O Meta AI suspeito que muita gente aciona sem querer ao tocar naquele botão horrível no WhatsApp, nos resultados da pesquisa dos três apps ou ao tentar marcar uma pessoa em um grupo digitando uma arroba.

Muito fácil chegar a números enormes quando já se tem uma plataforma gigante. Acho que isso nem entra na discussão. A questão é alardeá-los como tais números fossem conquistados, e não impostos.

Tudo bem se você usa o ChatGPT para escrever

Eu não me importo se você usa o ChatGPT ou qualquer outra IA generativa para escrever. Não faz diferença, no fim das contas. O preciosismo com que muitos tratam o assunto (incluindo eu, até pouco tempo atrás), como se houvesse alguma qualidade intrínseca digna de preservação no texto puramente humano, é infundado.

Sei que é uma opinião polêmica. Peço, além da sua paciência, que a encare num sentido estrito, ou seja, que desconsidere outras questões que orbitam o assunto, como a ética e a ambiental. Dito isso, a seguir tentarei justificá-la.

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