Sensibilidades anônimas e amenas têm valor porque a música de hoje — criada e selecionada por humanos ou máquinas — costuma ser usada para fazer as pessoas não sentirem nada em vez de sentirem algo. […] Essa música não é feita para ser ouvida; ela é usada para abafar todo o resto.
Ian Bogost
The Atlantic
Ian reflete o pequeno sucesso do Velvet Sundown, uma banda feita por inteligência artificial que já se aproximava de 1 milhão de músicas executadas no Spotify. “Esta é uma audição musical de segunda ordem, na qual você experimenta a ideia de ouvir música. Que melhor banda para fornecer esse serviço do que uma que nem existe?”
Um pouco na linha do texto sobre o livro Superbloom, do Nicholas Carr (https://manualdousuario.net/superbloom-nicholas-carr-critica/#more-58607), que argumenta que “é quase como se fôssemos cúmplices, e não somente vítimas, dos algoritmos de recomendação viciantes das big techs”, acho que vai um pouco da cumplicidade de cada um aderir ou não a esse tipo de coisa.
Conheci a newsletter Notícias da semana na série de entrevistas gente de newsletter (https://manualdousuario.net/entrevista-fagner-morais-newsletter-noticias-da-semana/) e o autor comentou sobre essa banda em termos não muito edificantes (https://fagnermorais.substack.com/p/enfia-a-banda-feita-por-inteligencia-artificial-no-rabo). Resumindo, ele diz que não vai se prestar a ouvir.
O jornalista da Atlantic acabou ouvindo por acaso (mesmo nesse caso ele poderia ter passado sem essa se não usasse Spotify; como se já não bastassem todos os motivos, recentemente algumas bandas saíram de lá depois que o CEO investiu numa startup armamentista), mas quem coloca ativamente a banda pra tocar está fazendo uma escolha.
Eu também ouço bastante música em segundo plano a outras atividades (queria ter tempo para simplesmente ficar ouvindo música e nada mais) mas, ao invés de deixar qualquer música anódina, prefiro ouvir rádios e programas com apresentadores e curadorias reais, onde acabo ouvindo e conhecendo muita coisa boa. Enfim, o poder das big techs e o marketing avassalador pode ser imenso, mas vai também um pouco da cumplicidade de cada um para aderir.
Sempre digo que a música é o retrato de uma época, Zeitgeist. Ela é criada representando esse espírito, onde nos tempos atuais revela apatia.
A audição ativa é algo cada vez mais raro e os grandes produtores já sacaram isso. A maioria das pessoas só querem algo para silenciar o ruído da mente, e para isso músicas de algoritmo são a solução perfeita: baratas de se produzir e isenta de royalties. Não tardará para que a maioria do acervo dos streamings ser composto de artistas virtuais.