Apps

Onde estão os apps de ficar parado?

Braço com um celular ao lado sobre uma superfície vermelha ensolarada.

Um dos traços da indústria da tecnologia é a crença na capacidade de resolver todos os problemas — incluindo aqueles criados por ela mesma — apenas com tecnologia. Mesmo quando a fonte desses problemas tem origem na subjetividade, por essa visão tecnicista bastaria jogar mais tecnologia, criar um algoritmo mais complexo ou qualquer coisa do tipo para que tudo se ajeitasse.

Vemos isso com frequência nas grandes empresas que fornecem tecnologias para o usuário final. Para ficarmos em um exemplo, Facebook e Google acreditam piamente que o mau uso das suas plataformas de conteúdo gerado pelos usuários pode ser sanado com algoritmos moderadores que automatizam o julgamento, um dos atos mais complexos de que um ser humano realiza. É um trabalho monumental, dada a escala sobrehumana que elas têm, e que, a despeito das promessas e investimentos, até agora tem sido cumprido parcialmente.

O debate do tempo de tela, ou do excesso dele, foi soterrado pelo distanciamento social necessário para conter a pandemia do SARS-CoV-2, o (já não tão) novo coronavírus. É certo que ele voltará em algum momento, mas neste, em que aqueles que podem estão trancafiados em casa com janelinhas brilhantes diversas que nos conectam, via internet, ao resto do mundo, é bobagem preocupar-se por estar passando mais de 11h por dia com os olhos grudados nelas.

Antes de nos vermos nessa situação, Apple e Google haviam abraçado o movimento do “tempo bem gasto” organizado por alguns insatisfeitos com as táticas sutis e desleais — os “dark patterns” — empregadas em sistemas digitais com o único intuito de nos viciar em aplicativos. É outra tática comum do setor, o de consentir e se inserir em debates críticos a si mesmo a fim de subvertê-lo. (Outro similar é o do movimento pelo direito de consertarmos os nossos equipamentos.)

Naquele contexto, havia também os aplicativos que, paradoxalmente, foram criados para nos afastar do celular. Ainda acho que essa e outras soluções são paliativas ou, em alguns casos, meras cortinas de fumaça para problemas mais complicados. Mas não nego que, a depender da relação que se tenha estabelecido com as telas e combinadas a outras ações não necessariamente tecnológicas — terapia, por exemplo —, elas podem motivar a criação de novos hábitos mais saudáveis. Sozinhas, têm como principal objetivo a manutenção das coisas como elas são, ou seja, ruins a você, boas às empresas que nos meteram nessa roubada.

É aqui que entram — ou entrariam — os apps que nos mantém afastados do celular. Normalmente, são os que nos incentivam à movimentação que ganham manchetes. Foursquare, Nike Running e Pokémon Go. Embora o celular seja algo que se use parado sob o risco de tropeçar na calçada ou ser atropelado ao atravessar a rua, ele não está preso a fios, por isso destacamos sua natureza móvel. Assim, os “apps de ficar parado” (usemos este termo para facilitar) que imagino aqui pressupõe não só a imobilidade, mas também o afastamento e a indiferença a um objeto que, nos últimos anos, tornou-se praticamente uma extensão dos nossos cérebros e mãos.

Se ocorreu-lhe que não é preciso app algum para não usar o celular, bastando deixá-lo de lado, sim, você não deixa de ter razão. O que os apps de ficar parado acrescentariam é o incentivo que, se inexistentes, talvez seja muito abstrato ou invisível àqueles que poderiam se beneficiar. O uso do celular é tão normalizado que quando nos perguntam o que estamos fazendo e somos pegos em um momento de ócio, respondemos “nada” — digitando no celular. Os apps de ficar parado revelam a urgência e as virtudes de levantarmos os olhos da tela do celular.

O tipo mais próximo de app de ficar parado disponível são os que nos forçam a abdicarmos do celular para ganhar, em troca, poder de concentração. Dentro desse grupo, destaca-se nas lojas de apps os de plantações de árvores, como o Forest (Android e iOS, ~R$ 8) e o Plantie (Android e iOS, gratuito com anúncios). Neles, o usuário se compromete a ficar um tempo pré-determinado sem mexer no celular e, caso consiga, é recompensado com uma árvore virtual para o seu jardim de mentirinha dentro do celular. No caso do Forest, os desenvolvedores também plantam uma árvore de verdade no mundo real para cada uma cultivada no digital, uma materialidade que dá mais substância à promessa. Uma árvore virtual talvez não seja um grande incentivo a alguns; saber que uma real foi plantada por sua causa, sim — mesmo que a sua participação no processo tenha sido a de, literalmente, não fazer nada.

Vício é, por definição, a perda do autocontrole. Quando alguém se vicia no celular, em uma rede social ou em um joguinho, ainda que seja um vício leve, a pessoa tem seu julgamento prejudicado. Não é por acaso — lembremos dos “dark patterns”, dos milhares de psicólogos e antropólogos empregados em empresas de tecnologia refinando os mínimos detalhes da interface de apps para aumentar o tempo de uso. Como já argumentei aqui, não virá dessas empresas a solução para um problema criado por elas mesmas. Assim, apps como o Forest ajudam a equilibrar uma batalha terrivelmente desigual.

O que me parece estranho, do ponto de vista comercial, é a ausência de apps que se distanciam da premissa do foco, da recuperação do autocontrole, e se aproveitem do distanciamento social que estamos vivenciando para explorarem a imobilidade. Por que não existe um Fitbit de ficar parado? Um “Nike Standing”? Um app que recompense as pessoas que não saem de casa, ainda que com itens virtuais?

A única ocorrência do tipo que me vem à cabeça é o Couch Potato (iOS, grátis), que citei aqui no Manual em agosto de 2018. Criado por uma fabricante de sofás britânica, o app concede pontos ao usuário que não se mexe. É mais uma jogada de marketing do que qualquer outra coisa (os pontos podem ser trocados por — adivinhe — desconto na compra de sofás), mas ele traz uma dinâmica perfeita para um cenário de distanciamento social global forçado, pronta para ser reaproveitada, expandida e até usada para o bem comum.

Muito antes de sistemas massivos de vigilância e de rastreamento social, poderíamos “gamificar” a quarentena e atingir bons resultados não pela imposição, mas por um querer fazer parte. Pokémon Go, um jogo que depende de bater perna no mundo real para se realizar, adaptou-se para o confinamento. Apps de paquera como Tinder e Happn, que usam a geolocalização como critério de combinação de casais potenciais, também.

Um jogo de ficar parado seria provavelmente dos mais simples, uma versão digital e física do “vaca amarela”, a brincadeira infantil em que perde aquele que fala primeiro. Neste jogo hipotético, ganha quem se mexer menos, ou quem sair de casa por último. Simples, mas desafiador. Um incentivo bobo para um bem maior, capaz de salvar vidas. Um raro jogo em que todos ganharíamos.

Foto do topo: Madison Inouye/Pexels.

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5 comentários

  1. Pensei várias coisas aqui… Imaginei um jogo da cobrinha em que os limites do jogo são as paredes da casa do usuário e a cobrinha é o próprio jogador. Para o jogo funcionar, poderia usar o GPS do celular e realidade aumentada. A pessoa perde quando sai de casa e quebra o isolamento social. Poderia competir com amigos quem fica mais tempo em casa, ganhar pontos aos achar objetos virtuais em lugares da casa (igual ao Pokemon Go), várias coisinhas. Nessas horas lamento não saber programar para colocar um projeto desses adiante… (acho que viajei nesse comentário ahahah)

      1. Eu acabei repetindo o que o texto disse (foi mal, Ghedin), mas é por que achei a ideia dele muito legal e veio na minha cabeça a imagem do jogo da cobrinha só que com pessoas. Bateu uma nostalgia…

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