Uma olhada na WT:Social, a rede social do cofundador da Wikipédia

WT:Social.

A Wikipédia é um dos projetos mais bem sucedidos e inspiradores da internet. Uma enciclopédia colaborativa, que qualquer um pode editar, gratuita e sem publicidade soa como a descrição de um fracasso inevitável, mas ela segue aí, honrando seus princípios há quase duas décadas e cada vez mais popular e confiável. Jimmy Wales, cofundador da Wikipédia, acredita que um raio pode cair duas vezes no ciberespaço. Com a mesma filosofia, ele agora quer reinventar as redes sociais.

Ao anunciar ao mundo (no Twitter) a WT:Social, nome da sua nova rede social, Wales diagnosticou o problema das redes comerciais: “[elas] funcionam em um modelo de negócio puramente de publicidade. Isso as leva a viciá-lo(a), a mantê-lo(a) no site. Seus incentivos vão na direção da indignação, do discurso radical, da trolagem — não do seu crescimento humano”.

O diagnóstico, à primeira vista correto, está longe de ser uma revelação — muita gente insatisfeita com os rumos apontados por Facebook, YouTube e Twitter já o fez antes. O verdadeiro desafio é o passo seguinte, ou seja, propor alternativas que prosperem e atraiam multidões sem recorrer aos mesmos pecados nem recriar as mesmas armadilhas das redes já consolidadas.

Tela inicial, para usuários logados, do WT:Social.
Imagem: WT:Social/Reprodução.

O nome, WT:Social, aproveita a abreviação do WikiTribune, uma tentativa do próprio Wales (e desvinculada da Wikipédia) de dar toques wikipedianos ao jornalismo. A empreitada, anunciada em abril de 2017 e aberta ao público em outubro do mesmo ano, pretendia unir jornalistas profissionais e leitores interessados para que criassem, juntos, um jornalismo mais transparente e ágil. Um ano depois, todos os jornalistas profissionais foram demitidos e o site descarrilou. Para ex-funcionários, o problema é que Wales não entende muito bem como o jornalismo funciona. Será que entende de redes sociais?

Tipo o Orkut, mas só com notícias

Print da tela inicial do WT:Social no celular.
Ainda não existe app do WT:Social, mas o site é responsivo. Imagem: WT:Social/Reprodução.
A WT:Social é uma rede social sem anúncios, que não monitora os usuários e permite edições no conteúdo, nos moldes da Wikipédia. O foco, que aparece no logo da rede, é em notícias (“rede social focada em notícias”). No lugar da publicidade como modelo de financiamento, Wales pede uma mensalidade (US$ 12,99, ou US$ 100 por ano) aos usuários mais entusiasmados com o projeto. E apesar da figura dele e das similaridades com a Wikipédia, a WT:Social não tem vínculo com a Wikimedia Foundation.

Na descrição da nova rede social, o texto diz que ela quer “criar conexões melhores e desenvolver debates produtivos acerca de tudo o que está acontecendo no mundo e é importante para nós”, e que as redes tradicionais, ao crescerem, “também amplificaram as vozes de maus atores no mundo inteiro”. Novamente, são metas e constatações óbvias.

Infelizmente, a solução proposta ainda carece de qualidades básicas. Como servidores que aguentem o tranco. Após o anúncio de Wales, os servidores da WT:Social foram sobrecarregados por pedidos de convites, artifício usado para manter algum controle sobre o crescimento da rede — em uma mensagem lá dentro, o fundador disse que a equipe é formada por quatro pessoas: ele, um gerente de comunidades e dois programadores.

Passado o gargalo com o tráfego, a primeira impressão ao entrar na WT:Social é de estranhamento, um clima meio “web 1.0” com visual datado e um tanto confuso. A organização da rede lembra as comunidades do Orkut, ou os subreddits do Reddit, mas ali as salas temáticas onde ocorrem os debates são chamadas SubWikis. As listagens dos SubWikis não têm qualquer critério discernível nem separação por idiomas, o que aumenta o ruído. Em diversas telas há um bloco com SubWikis sugeridos, mas, mais uma vez, é impossível saber por que a WT:Social me sugere o que sugere, tão distantes são os assuntos apresentados.

Ao entrar em um SubWiki, aparecem posts com comentários e, no topo da tela, campos para publicar novo conteúdo. Eles podem ser de dois tipos: links ou posts. Os links não comportam texto anexo; caso o autor queira fazer algum comentário adicional, é preciso escrevê-lo na forma de comentário. Ainda assim, o título pode ser editado depois por qualquer usuário. Aqui entra o tempero da base colaborativa de Wales: todo o conteúdo da WT:Social (salvo comentários) é editável por qualquer usuário, tal qual a Wikipédia. Uma característica bacana para corrigir erros de digitação e que confia muito na benevolência do coletivo, na ausência dos “maus atores”, um ideal provavelmente mais fácil de ser alcançado em uma enciclopédia do que em uma rede social.

Uma ideia interessante no processo de entrada é o de construção automática de redes de contato. A WT:Social oferece aos membros links específicos para convidar outras pessoas de diferentes círculos (amigos, colegas de trabalho, família ou personalizados), e esses convites podem conter SubWikis embutidos, em que os recém-chegados entram automaticamente ao se cadastrarem pelo convite. Não é uma ideia nova (RIP Google+), mas é uma boa sacada para organizar contatos e suavizar o processo de entrada dos novatos ao apresentar-lhes um feed já recheado de temas escolhidos a dedo por quem enviou o convite.

Jimmy Wales olha para a câmera e sorri enquanto segura um presente recebido na Wikimania 2014, em Londres.
Jimmy Wales em 2014. Foto: Sebastiaan ter Burg/Flickr.

A proposta é simples, o que não chega a ser um grande problema. Neste primeiro momento, a sensação de desorganização, elevada pelo visual arcaico da WT:Social, talvez seja um maior. Pistas visuais básicas, como onde começa e onde termina um tópico na listagem dos SubWikis, costumam ser úteis e fazem falta aqui. Não há uma boa hierarquização das informações. Seria uma boa contratar um designer ou alguém com experiência em front-end, porque está precisando, urgentemente, mas não só. Falta mais clareza no funcionamento dos SubWikis e ferramentas de organização.

Não é fácil emplacar uma rede social nova. Nos últimos anos, várias surgiram com propostas similares às da WT:Social e morreram na praia ou se especializaram em um público menor. O único diferencial inédito desta é a figura de Wales, o que não é garantia de sucesso — vide a própria gênese da rede, criada a partir do espólio do WikiTribune. Redes federadas, como o Mastodon, parecem ter mais chance de se apresentarem como alternativas às comerciais, mas Wales disse que a WT:Social é “algo totalmente diferente”. Talvez se torne. Se sim, provavelmente saberemos pelo perfil dele no Twitter.

LEIA TAMBÉM: Como seria um Twitter gerenciado pelos próprios usuários, sem a empresa Twitter? Assim

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10 comentários

  1. Só pelas SubWikis que me foram apresentadas pra seguir já desanimei. Quase todos foram sugeridos por uma empresa de transportes aleatória que criou tópicos variados e colocou o site da empresa em todas elas.

    1. Caraca! Rapaz, me põe lá dentro que quero ver essa cena.

      (Algum louco e leitor do mdu viu meu comentário no post do mastodon. E resolveu pegar a ideia…)

  2. Comentando em cima da iniciativa do Wales e não no texto em si, hoje o Anderson França, escritor brasileiro refugiado em Portugal, teve mais uma vez uma postagem retirada do Instagram por “discurso de ódio”. A postagem dizia que a soltura do Lula trazia um novo ângulo para as narrativas políticas brasileiras. O Instagram – com ou sem humanos – retirou a publicação e também as ferramentas de marca do AF. Já é a terceira vez que isso acontece. Entretanto, diariamente se observa uma grande quantidade de postagens de discursos de ódio relacionados à alt-right sem que esses caíam da rede.

    Isso quer dizer que o Facebook é simpático ao discurso da alt-right mundial? Não, isso quer dizer que as milícias virtuais desse espectro político sabem como usar os algoritmos das redes sociais para disseminar qualquer tipo de informação ou discurso sem maiores percalços.

    Precisamos urgentemente de uma alternativa viável ao domínio cada vez mais amplo e obtuso do Facebook nas redes sociais, mensagens e, principalmente, no lucro que as pessoas que precisam desses meios obtém (ou deixam de obter).

    Link pro Instagram com a postagem: https://www.instagram.com/p/B4qvqiGpZUA/?utm_source=ig_web_copy_link

    1. O difícil é justamente criar novos padrões, dado que de alguma formas as pessoas buscam padrões, “Monopólios”. Senão não haveria Facebook e o Orkut e outras redes ainda estariam ativas.

      Facebook (e Instagram e Whatsapp) se consolidaram como padrões. Com o perdão da péssima analogia, jogar pessoas em outras redes sociais / redes de comunicação é como tentar desativar o sistema de telefonia atual e fazer as pessoas usarem walk-talkes configuradas cada grupo em uma bolha de interesse (canal).

      1. Na verdade eu acho que é tudo mais complexo e, ao mesmo tempo, mais simples do que isso. Não vejo nenhuma relação com padrões, as pessoas usaram massivamente o Orkut no Brasil e o MySpace nos EUA porque as pessoas que elas conhecem estavam lá (isso antes dos modelos de monetização). Depois migraram de ambos para o Facebook porque, novamente, as pessoas que elas conhecem estavam lá. O Facebook mudou um pouco a dinâmica ao conseguir ter uma alta retenção dessas pessoas dentro da sua rede; e fez isso com algoritmos, marketing e muita coleta de dados e invasão de privacidade para saber o que exatamente mantém as pessoas lá dentro.

        Indo além, eles também souberam comprar a concorrente mais direta, o Instagram, e transformaram essa rede numa mina de dinheiro e num concorrente direto da outra rede que eles não conseguiram comprar, o Snapchat.

        Nenhum desses movimentos tem relação com padrões de uso das pessoas. Tem relação com dinheiro e invasão.

        Fazer esse tipo de análise depois de tudo dominado pelo Facebook e do monopólio consolidado é fácil, claro, mas quando fazemos isso temos que tender o que levou as pessoas a usar o monopólio dessa maneira e, principalmente, como essas pessoas se sentem usando a mesma rede mesmo esta sendo terrível em quase todos os aspectos. É nisso que as pessoas precisam se debruçar pra quebrar o monopólio do Facebook e do Google na internet.

      1. Se quiserem ou precisarem de ajuda pela WTS posso ajudar!

        Temos já FAQ em português, e uma canal grande de brasileiros com orientações para os novatos!

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