Descanso não é luxo, é necessidade

Recorte de uma pintura. Mulher jovem, de vestido azul, dormindo em uma cadeira com um livro aberto em seu colo.

E a√≠, descansou? Certeza? Todo fim de temporada do Tecnocracia eu sugiro em tom assertivo usar o recesso de fim de ano para parar e descansar a cabe√ßa. Em 2022 o conselho foi ainda mais assertivo, dado o qu√£o exaustivo foi o ano, tanto do excesso de trabalho como da pedreira emocional com as elei√ß√Ķes de maior impacto desde a redemocratiza√ß√£o.

A democracia sobreviveu (todos suspiram de al√≠vio) e o segundo semestre produziu material para d√©cadas de disserta√ß√Ķes e teses de pol√≠tica, ci√™ncia sociais e psiquiatria, mas terminamos o ano em frangalhos. Usamos, logo, o pouco tempo de recesso e as f√©rias que foram se encavalando frente a tanta coisa urgente para parar tudo, sair da rotina, nadar no meio da tarde, passear quil√īmetros com o cachorro e usar outras partes da cabe√ßa que n√£o as que a rotina se acomoda.

Depois de tanto tempo fazendo sempre tanto e adaptados a rotinas em que o excesso de atividade eliminou a contempla√ß√£o, como reaprender a n√£o fazer nada? Mergulhados numa cultura que incentiva de forma quase doentia a produtividade at√© mesmo nos nossos hobbies, como parar e usar o tempo de que dispomos com a cabe√ßa vazia? Perceba que essa no√ß√£o de produtividade √© t√£o profunda que meu instinto foi usar o verbo ‚Äúdesperdi√ßar‚ÄĚ tempo, trocado por ‚Äúusar‚ÄĚ ao notar a ironia. Essas n√£o s√£o perguntas ret√≥ricas e para explicar eu vou lan√ßar m√£o de uma hist√≥ria pessoal.

Desde que eu comecei a Novelo Data, eu nunca tinha tido férias de verdade. Era, no máximo, uma sequência curta de dias tentando se desconectar e falhando, já que era preciso voltar para programar, fazer reunião, falar com contadora, negociar com cliente… Até que chegamos a fevereiro de 2023. Com a empresa estruturada e uma equipe responsável por mantê-la rodando normalmente, pela primeira vez em anos eu consegui tirar algumas semanas sem me forçar a voltar para completar uma tarefa que exigia a minha presença.

Símbolo máximo do descanso digital, minha imagem do WhatsApp virou uma palavra branca num fundo preto: férias.

Quando se tem dificuldade em parar, √© comum o auto-engano de dizer estar descansando enquanto segue-se uma rotina muito parecida com a que te esmigalhou, apenas em menor intensidade. Em vez de longas horas di√°rias, ‚Äús√≥‚ÄĚ tr√™s ou quatro. Eu mesmo ca√≠ nessa armadilha a partir do recesso de fim de ano. Essas tr√™s ou quatro horas podem ser bem menos das dez ou onze com as quais voc√™ costuma lidar, bonitinho ou bonitinha, mas a queda n√£o significa, necessariamente, descanso. Ainda que fossem duas ou uma, seu c√©rebro estaria operando na mesma l√≥gica que levou ao cansa√ßo. Poucas horas de produtividade ainda √© trabalho, ainda √© gasto de energia.

Foi preciso um chacoalh√£o da terapia para eu entender o auto-engano. Ent√£o, l√° fui eu descansar. Enquanto arrumava o trabalho (avisava clientes, s√≥cio e fornecedores), havia uma expectativa sobre o que fazer com tantas horas. Essas semanas, pensei eu, ser√£o excelentes para eu arrumar coisas menos priorit√°rias, profissionais inclusive, que foram ficando pelo caminho pelo excesso de outras tarefas mais urgentes. Listei na minha cabe√ßa essas tarefas, agrupadas por trabalho, sa√ļde e afins.

Legal, mas isso n√£o √© descanso. A dificuldade em parar vem tamb√©m da forma como o inconsciente, confrontado pelo risco de mudan√ßa, se adapta para manter a rotina o mais parecida com a anterior poss√≠vel. Ao perceber esse af√£ de ser produtivo durante as f√©rias, eu me propus um desafio: n√£o fazer nada. Sem reuni√Ķes, entregas e obriga√ß√Ķes, o objetivo era voltar minha cabe√ßa para um estado natural de aten√ß√£o, um ‚Äúreset‚ÄĚ. Sabe quando algo mancha as √°guas de um rio e o curso da √°gua naturalmente a limpa ‚ÄĒ desde que a fonte da impureza n√£o persista? Mesma coisa. Meu √ļnico objetivo foi n√£o ser produtivo. Qualquer coisa relacionada a trabalho estava proibida. Nenhuma atividade precisaria dar em alguma coisa.

Spoiler: eu n√£o gabaritei. Antes do fim do per√≠odo que eu havia definido como f√©rias, j√° estava resolvendo pequenos problemas da empresa. O mundo √© complexo, a gente se esfor√ßa para tirar a nota mais alta sem a obriga√ß√£o de ser sempre 10. Voc√™, bonito ou bonita mais atenta, j√° deve ter percebido que seria uma enorme coincid√™ncia um epis√≥dio sobre a import√Ęncia do descanso ap√≥s as primeiras f√©rias de verdade em anos. A pauta para a quinta temporada do Tecnocracia j√° estava em termos gerais definida ‚ÄĒ eu defini os temas sobre os quais quero falar, o que resultou em um n√ļmero X de epis√≥dios para 2023. Alguns devem entrar, outros devem cair, mas a espinha dorsal √© essa. Defendo a pr√°tica para descobrir a vida, mas voc√™ tamb√©m j√° notou o quanto eu gosto de teoria. Durante o processo de entender o que √© ‚Äúfazer nada‚ÄĚ, entre podcasts, livros e entrevistas1, eu me liguei que o assunto era t√£o interessante quanto urgente para estrear a quinta temporada. Sim, eu percebi a ironia de, na tentativa de descansar, eu arrumar mais trabalho para mim. De novo: eu descansei, mas n√£o gabaritei. E pelo menos esse √© prazeroso.

Ent√£o, come√ßaremos a quinta temporada do Tecnocracia falando sobre n√£o fazer nada. Para usar a primeira met√°fora do ano, a aten√ß√£o √© um cabide em que a gente vai pendurando uma coisa por vez e segue a vida sem notar a quantidade de coisas penduradas, algumas sem uso h√° um tempo. Sem parar para checar, a gente carrega tudo sem notar. √Č uma sensa√ß√£o parecida com quem j√° fez mudan√ßa: voc√™ s√≥ entende na pr√°tica a facilidade humana em acumular badulaques quando percebe a disparidade entre o que voc√™ previu e o que voc√™ realmente tem que encaixotar.

A quinta temporada tamb√©m marca uma mudan√ßa no Tecnocracia. O podcast continua a pensar alto para entender os efeitos da tecnologia nas nossas vidas como ele √©, seja ele positivo ou negativo. Mas a gente vai oficializar algo que j√° rolava: o alardeado intervalo de 15 dias entre os epis√≥dios virou as nossas 72h2. Era t√£o evidente a fic√ß√£o que at√© eu fazia piada com ‚Äú√†s vezes um pouco mais, √†s vezes muito mais‚ÄĚ que 15 dias. A gente j√° √© velho o suficiente para parar de fingir ser o que n√£o somos: a partir de agora, o Tecnocracia n√£o tem mais frequ√™ncia fixa. Eu vou come√ßar a trabalhar no roteiro e, quando achar que estiver pronto, o Ghedin edita, eu gravo e vai ao ar. Mais sobre isso no fim do epis√≥dio.

O Tecnocracia está na campanha de financiamento coletivo do Manual do Usuário. A partir de R$ 16 por mês, você participa do grupo fechado no Telegram e ganha seus adesivos do podcast. Se quiser apoiar, visite manualdousuario.net/apoie.

Feito o an√ļncio da novidade, comecemos oficialmente com uma considera√ß√£o. Se voc√™ veio pelas dicas pr√°ticas, a Luciana Gimenez tem ‚Äúbad news‚ÄĚ: por mais que l√° no fim a gente aborde uma ou outra coisa, este n√£o √© um guia. Se voc√™ precisa de uma forma mais urgente para entender como fazer nada (ah, a produtividade em todos os cantinhos da vida‚Ķ), baixa o aplicativo Headspace: a medita√ß√£o tem, entre tantos objetivos, nos arrancar daquela torrente infinita de impulsos, sentimentos e pensamentos que, n√£o gerenciados corretamente, sequestram nossa aten√ß√£o. Fora dessa torrente, voltamos a um estado relaxado, por√©m atento, em que voc√™ percebe as distra√ß√Ķes, mas n√£o necessariamente interage ou embarca nelas, tal qual o sujeito que, sentado na margem, √© capaz de sentir a correnteza do rio sem se deixar arrastar por ela.

O ponto aqui √© que n√£o adianta ter um plano completo para limpar uma cabe√ßa entulhada e descansar se, racionalmente, a teoria n√£o √© internalizada. Corre-se o risco de repetir no dia a dia a armadilha do sujeito que, nas d√©cadas de 1980 e 1990, comprava uma bicicleta ergom√©trica, pedalava como se fosse o Eddy ‚ÄúO Canibal‚ÄĚ Merckx, nas primeiras semanas para, aos pouquinhos, perder o interesse at√© a bicicleta virar um cabide onde roupas usadas v√£o ficar penduradas3 at√© que, anos depois, voc√™ resolve encarar a realidade e vender aquilo.

Comecemos a encarar o fazer nada dando dois passinhos para tr√°s: historicamente, a percep√ß√£o que a sociedade tem sobre descanso mudou radicalmente. Durante s√©culos, ainda que tenha sofrido varia√ß√Ķes em diferentes culturas, o descanso era de maneira geral visto como um presente, algo a ser desfrutado.

Abre as primeiras aspas da quinta temporada para um texto muito interessante na revista online Psyche, escrito pelo Alex Soojung-Kim Pang, autor do livro Rest e fundador de uma consultoria que ajuda empresas a implementarem semanas de trabalho de quatro dias:

Para Arist√≥teles, o trabalho era tanto uma droga quanto uma necessidade; apenas no descanso poder√≠amos cultivar nossas habilidades mentais e morais, e, assim, nos tornarmos pessoas melhores. No livro O Schabat: Seu significado para o homem moderno [editado no Brasil pela Perspectiva], o rabino Abraham Heschel argumenta que, no Juda√≠smo, este dia de descanso era mais do que uma pausa na semana, era um ‚Äúpal√°cio no tempo feito de alma, divers√£o e retic√™ncia‚ÄĚ. Mesmo para os menos inclinados filosoficamente, o descanso forneceu o tempo e a liberdade para fazer o que amavam. Quando George Washington se aposentou da vida p√ļblica em 1759, ele mergulhou na constru√ß√£o e manuten√ß√£o do Mount Vernon, um empreendimento que, de acordo com o historiador William Abbot, ‚Äúteve um impacto mais forte e duradouro do que a guerra ou a pol√≠tica‚ÄĚ.

Washington comandou as tropas que tornaram os Estados Unidos independentes da Inglaterra e foi o primeiro presidente do país.

Essa √© uma conversa que tem rela√ß√£o direta com a popularidade da tecnologia nas nossas vidas. Ter um espa√ßo fixo onde voc√™ desempenhava seu trabalho ‚ÄĒ uma f√°brica, digamos ‚ÄĒ significava que, assim que o apito soava, o tempo dedicado ao trabalho se encerrava. N√£o que o trabalho na f√°brica fosse uma maravilha: os ainda incipientes direitos trabalhistas a partir da Revolu√ß√£o Industrial permitiam, entre alguns descalabros, jornadas quase infinitas, crian√ßas trabalhando, atividades perigosas sem equipamentos de seguran√ßa e o contato com produtos comprovadamente prejudiciais √† sa√ļde humana. A populariza√ß√£o de ferramentas de comunica√ß√£o e o crescente naco que o trabalho intelectual ocupa no PIB global nos fez entrar na Revolu√ß√£o do Conhecimento, algo que o Sapiens j√° explicou muito bem. A possibilidade de trabalhar em qualquer lugar foi, aos poucos, corroendo os limites do expediente no dia a dia e fazendo com que o trabalho escorresse para todo o nosso tempo acordados.

O movimento √© ainda mais perverso j√° que a entrada em cena da economia da influ√™ncia fez com que hobbies e momentos de relaxamento se transformassem em potenciais carreiras, o que acabou introjetando a neurose da produtividade nas mesmas atividades que deveriam nos blindar das preocupa√ß√Ķes do trabalho. Nossos dias hoje s√£o compostos por 24 horas potencialmente monetiz√°veis nas quais cada indiv√≠duo √© visto como um empreendedor, como explica a Jenny Odell, artista que escreveu o livro How to do nothing sobre ‚ÄĒ acertou ‚ÄĒ como n√£o fazer nada. Abre aspas:

Em uma situa√ß√£o em que qualquer momento acordado se tornou o tempo no qual constru√≠mos nossa vida e no qual submetemos at√© nosso lazer √† avalia√ß√£o num√©rica por curtidas no Facebook e no Instagram, verificando constantemente seu desempenho como algu√©m verifica uma a√ß√£o, monitorando o desenvolvimento da nossa marca pessoal, o tempo se tornou um recurso econ√īmico que n√£o podemos mais gastar em nada. Ele n√£o resulta em ROI. √Č simplesmente muito caro. Essa √© uma cruel conflu√™ncia de tempo e espa√ßo. Assim como perdemos nossos espa√ßos n√£o-comerciais, n√≥s tamb√©m vemos todo o nosso tempo e as nossas a√ß√Ķes como potencialmente comerciais.

Esse ‚Äúdescanso freemium‚ÄĚ, como ela define, subverte e neutraliza sua raz√£o primordial ‚ÄĒ ao se tornar quantific√°vel e potencialmente lucrativo, ele deixa de ser descanso.

Tecnologias mudam culturas, como j√° falamos aqui algumas vezes, e esse derretimento ajudou a alterar completamente a forma como a gente encara o descanso. Essa cultura empreendedora neoliberal, do ‚Äúestude enquanto eles dormem‚ÄĚ e ‚Äútempo √© dinheiro‚ÄĚ, encara o descanso quase como uma fraqueza, uma imoralidade, ‚Äúum espa√ßo negativo definido pela falta de trabalho‚ÄĚ, como bem definiu a Psyche. Regidos pelo aforismo do ‚Äútempo √© dinheiro‚ÄĚ, fazer nada significa rasgar dinheiro.

Ent√£o quebra-se todas as paredes que separam as v√°rias partes da nossa vida para que o trabalho ocupe a vida inteira. Da nobreza conferida pelo Arist√≥teles, o descanso se transformou no antagonista de um dos objetivos mais valorizados atualmente: a compuls√£o em auto-aprimoramento. √Č fundamental aumentarmos nossas capacidades, ningu√©m discute isso. Mas o auto-aprimoramento tem um limite. Ap√≥s esse limite, vira uma paranoia, uma historinha que a gente conta sem refletir a realidade. Voc√™ se pressiona para aprender, construir, produzir sem faz√™-lo. O motor fundiu e voc√™ ainda pisa fundo no acelerador.

Voc√™ talvez tenha se lembrado do fil√≥sofo alem√£o Byung-Chul Han e seu conceito de ‚Äúsociedade do desempenho‚ÄĚ explicado no best seller hom√īnimo. N√≥s falamos sobre o Han no Tecnocracia #22, sobre a incr√≠vel estupidez da gera√ß√£o que glamouriza o excesso de trabalho. Os dois epis√≥dios, o 22 e este que voc√™ est√° ouvindo, abordam um mesmo problema sob dois pontos de vista:

  1. Segundo Han, crente da necessidade de esfor√ßos sobre-humanos e constantes, nossa psique cria um rob√ī aut√īnomo de opress√£o profissional que, por sua vez, domina todas as horas do dia com trabalho. Essa √© a parte ativa, a do avan√ßo das tropas.
  2. Do outro lado está o descanso, a hora de recarregar as baterias, o tão fundamental suspiro. Com a tropa avançando e taxado de ineficiente, ele é o primeiro sacrificado. Entender isso é o primeiro passo para transformar o descanso na sua própria tropa e reconquistar esses espaços. E você pode estranhar o linguajar bélico aqui, mas, por mais contraditório que pareça, descanso é tão importante que merece o mínimo de ação para mantê-lo, para não desmantelá-lo.

O combate à neurose do trabalho não é uma coisa nova. O livro da Jenny Odell foi escrito e entrou para a lista dos mais vendidos do jornal New York Times em 2019. Décadas antes, o assunto já tinha sido alvo de análise por filósofos tradicionalmente dedicados a outros assuntos. Bertrand Russell é a definição clássica de um intelectual. O galês era filósofo, matemático, ensaísta, historiador e seu trabalho é considerado influente até hoje em campos como aprendizado de máquina, ciência cognitiva, filosofias da linguagem e da matemática, epistemologia e metafísica. Um sujeito que escreveu tanto em vida, você deve pensar, era incapaz de parar de trabalhar. Não necessariamente.

Em 1932, Russell escreveu um curto ensaio para a Harper‚Äôs Magazine, ainda dispon√≠vel de gra√ßa online, chamado In praise of idleness (‚ÄúLouvando o √≥cio‚ÄĚ, em tradu√ß√£o livre). O ensaio come√ßa com uma pedrada com a qual, talvez, voc√™ se identifique:

Como a maioria da minha gera√ß√£o, eu cresci sob o ditado do ‚Äúcabe√ßa vazia, oficina do diabo‚ÄĚ 4. Sendo uma crian√ßa virtuosa, acreditei em tudo isso e adquiri a consci√™ncia que me manteve trabalhando pesado at√© o momento. Mas, ainda que minha consci√™ncia tenha controlado minhas a√ß√Ķes, minhas opini√Ķes passaram por uma revolu√ß√£o. Eu acho que existe muito trabalho feito no mundo, que imensos danos s√£o causados pela cren√ßa de que o trabalho √© virtuoso e que o que precisa ser ensinado em pa√≠ses industriais modernos √© bem diferente do que sempre foi ensinado.

Vamos lembrar que Russell publicou o ensaio em 1932: a Segunda Guerra ainda estava a anos de come√ßar, os Estados Unidos ainda n√£o tinham assumido a posi√ß√£o geopol√≠tica e econ√īmica que t√™m no mundo, a ind√ļstria era o que movia a economia e a tecnologia de comunica√ß√£o mais avan√ßada era o telefone ‚ÄĒ as chamadas intercontinentais estrearam cinco anos antes. Imagine o que escreveria Russell se conhecesse o atual trabalho de qualquer lugar a qualquer hora e a cultura t√≥xica do empreendedorismo que domina o LinkedIn.

O sujeito que trabalhou enormemente e cujo trabalho continua até hoje como base de diferentes campos do pensamento humano é categórico:

Descanso é essencial para a civilização e em tempos antigos para que o descanso de poucos fosse possível eram necessário o trabalho de muitos. Mas seus trabalhos eram valiosos, não porque o trabalho é bom, mas porque o descanso é bom. E com as técnicas de produção modernas, seria possível distribuir o descanso justamente sem machucar a civilização. […] O uso sábio do descanso, devemos conceder, é produto da civilização e da educação. Um homem que trabalhou longas horas toda sua vida ficará entediado se se tornar subitamente ocioso. Mas sem uma quantidade considerável de descanso um homem é privado de muitas das melhores coisas da vida. Não existe mais razão para que a maior parte da população sofra desta privação. Só um ascetismo tolo, geralmente vicário, nos faz insistir em trabalhar em excesso agora que a necessidade não existe mais.

A essência segue valendo, 91 anos depois.

Décadas adiante, um outro filósofo europeu voltou ao tema, dessa vez com uma definição que resvala em um ponto bem comum hoje. Em 1990, a editora da Universidade de Columbia compilou no livro Negotiations, ensaios escritos pelo filósofo francês Gilles Deleuze entre 1972 e 1990. Um deles diz o seguinte:

N√≥s √†s vezes seguimos a vida como se as pessoas n√£o pudessem se expressar. Na verdade, elas est√£o sempre se expressando. [‚Ķ] O r√°dio e a televis√£o espalharam este esp√≠rito para todo lugar e estamos mergulhados em conversas sem sentido, quantidades imensas de palavras e imagens. A estupidez nunca √© cega ou muda. Ent√£o o problema n√£o √© que as pessoas se expressem, mas encontrar pequenos espa√ßos de solitude e sil√™ncio nos quais eles podem eventualmente encontrar algo a dizer. For√ßas repressivas n√£o impedem as pessoas de se expressarem, mas, ao contr√°rio, as for√ßam. Que al√≠vio n√£o ter nada a dizer, o direito de dizer nada, porque s√≥ a√≠ existe a chance de encontrar a cada vez mais rara coisa que vale a pena ser dita. A praga que nos cerca hoje n√£o √© o bloqueio da comunica√ß√£o, mas coloca√ß√Ķes sem sentido.

Tenho para mim que a frase do Deleuze n√£o foi escrita para a comunica√ß√£o mediada pela internet ‚ÄĒ vide a janela temporal da compila√ß√£o de ensaios ‚ÄĒ, mas √© incr√≠vel como ela se encaixa perfeitamente no atual estado da sociedade. A frase, apontada no livro da Jenny Odell sobre n√£o fazer nada, se conecta perfeitamente com um outro ponto que √© a ant√≠tese da tecnologia: a tradi√ß√£o.

V√°rias religi√Ķes t√™m o conceito do Sabbath, um dia de descanso que deve ser dedicado √† medita√ß√£o religiosa e onde n√£o se deve trabalhar. No juda√≠smo, o Sabbath √© observado da noite de sexta-feira √† noite de s√°bado. Para os cat√≥licos, √© no domingo. Varia√ß√Ķes do mesmo conceito, sob diferentes alcunhas, podem ser observadas em outras religi√Ķes tamb√©m. Vamos lembrar que o descanso √© t√£o fundamental que at√© Ele (em caixa alta) descansou ap√≥s criar o mundo. G√™nesis 2:2:

Pelo sétimo dia, Deus tinha terminado o trabalho que vinha fazendo; então no sétimo dia, ele descansou de todo seu trabalho.

N√£o √© a √ļnica men√ß√£o √† import√Ęncia do descanso na B√≠blia: ‚ÄúLembra-te do dia de s√°bado e guarda-o santo‚ÄĚ (e varia√ß√Ķes do texto, segundo a edi√ß√£o da B√≠blia ou da Tor√°) √© um dos Dez Mandamentos.

Uma das melhores explica√ß√Ķes sobre o conceito caiu na minha m√£o por uma dessas enormes coincid√™ncias da vida. Dias antes de eu entrar nas minhas f√©rias descobri a entrevista que o Ezra Klein fez com a jornalista norte-americana Judith Shulevitz, autora do livro The Sabbath world (sem edi√ß√£o no Brasil). A entrevista √© longa e eu te aconselho a ouvir se o assunto descanso te interessa. Abre aspas para a Shulevitz:

A forma rab√≠nica tradicional de explicar (o Sabbath) √© que existem uma s√©rie de regras ‚ÄĒ de um tipo de trabalho que voc√™ n√£o faz j√° que esse tipo de trabalho est√° agindo sobre o mundo. E o Sabbath √© um momento em que voc√™ deve parar de agir sobre o mundo. Voc√™ deve parar de fazer coisas para construir coisas. Voc√™ deve deixar o mundo descansar, assim como voc√™.

Independente da sua inclinação religiosa, me surpreende o contraste entre o moderno e o tradicional. Como o segundo, potencialmente encarado como radical por gente que não segue o dogma, acabou virando um potencial antídoto para os exageros trazidos pelo primeiro.

A ideia da Shulevitz, de deixar tanto o mundo como voc√™ descansarem, tem reaparecido h√° semanas na minha cabe√ßa. √Č o freio de arruma√ß√£o necess√°rio para ajudar a entender a quantidade de tarefas, culpas, cobran√ßas e frustra√ß√Ķes que carregamos sem perceber, a lista enorme de processos rodando ao mesmo tempo na sua cabe√ßa, se formos fazer uma met√°fora computacional5. H√° um enorme perigo em se colocar numa situa√ß√£o onde voc√™ n√£o percebe uma sa√≠da. Da onde voc√™ n√£o consegue parar. A base do burnout √© ficar preso na impress√£o de trabalho ‚ÄĒ real ou projetada. O grande perigo de encarar o descanso como luxo √© encarar a sensa√ß√£o de esgotamento como o normal, como rotina. E estar cansado √© um dos piores momentos para tomar decis√Ķes ‚ÄĒ assim como quando voc√™ bebeu demais, est√° com fome, desesperado, com frio‚Ķ

O cansa√ßo tamb√©m te afasta do que voc√™ √©, dos seus gostos, seus interesses, suas vontades, o que te d√° tes√£o. Tudo isso vira uma massaroca amorfa frente √† necessidade urgente de ‚ÄĒ e a relut√Ęncia em ‚ÄĒ parar. √Č um p√™ndulo: voc√™ precisa desesperadamente, mas voc√™ mesmo √© incapaz de ver, bonito e bonita. Essa massaroca composta por prazos e uma sensa√ß√£o constante de estar atrasado, devendo, em falta, soterra tamb√©m o desejo, o tes√£o em fazer o que voc√™ faz profissionalmente. Est√° achando esse papinho kombucha de rom√£ demais? Ainda √© dif√≠cil abrir m√£o da paranoia da produtividade? Ent√£o entenda que descansar √© uma forma de voltar a ser produtivo ao trocar aquela sensa√ß√£o de obriga√ß√£o pelo reencontro com a criatividade.

Isso quer dizer que as horas de folga precisam ser criativas? N√£o necessariamente. A corrente encabe√ßada pelo Domenico de Masi e seu best-seller hom√īnimo pode ser um caminho, mas n√£o est√° escrita na pedra. Voc√™ pode tranquilamente ficar horas olhando pro c√©u sem qualquer expectativa. Agora deve ser muito dif√≠cil. Mas os resultados s√£o excelentes.

A gente falou muito em teoria. Tentemos falar na pr√°tica. Parafraseando um dos melhores livros do Drummond, ler ou ouvir sobre descanso talvez n√£o seja a melhor forma de pratic√°-lo. Descansar s√≥ se aprende descansando. O que eu espero √© que esses minutos at√© agora sirvam como um empurr√£o para o reconhecimento da import√Ęncia da folga.

Existem incont√°veis guias pr√°ticos6 que usam, em maior ou menor grau, a l√≥gica da medita√ß√£o para quebrar as in√©rcias e te fazer redescobrir o relaxamento. At√© mesmo no Tecnocracia a gente j√° falou sobre isso ‚ÄĒ o epis√≥dio #41 tem o t√≠tulo literal ‚ÄúManual pr√°tico para retomar sua aten√ß√£o do calabou√ßo das redes sociais‚ÄĚ. Est√£o l√° um caminho bastante pr√°tico para compartimentalizar as horas de trabalho e prazer, a premissa do Carl Newport no livro Trabalho focado de que a aten√ß√£o, tal qual seu b√≠ceps, √© um m√ļsculo e precisa ser treinada, o afastamento do fluxo constante e prejudicial de histeria e raiva das redes sociais e sua substitui√ß√£o pelo contato com a beleza em diferentes formatos, um m√≠nimo de cinco minutos de medita√ß√£o por dia‚Ķ Retomar a aten√ß√£o √© tamb√©m uma forma para abrir espa√ßo na cabe√ßa para, entre tantas coisas, descansar. Se voc√™ n√£o achar este guia bom, sem problema: existem centenas online.

Na reportagem da Psyche, Alex Soojung-Kim Pang traz alguns pontos de aten√ß√£o importantes: estabelecer e, principalmente, respeitar limites claros entre o que √© trabalho e o que √© vida pessoal, tratar descanso como uma habilidade a ser melhorada, n√£o ignorar sonecas e horas de sono profundo, estabelecer um ‚Äúdescanso profundo‚ÄĚ e encorajar outras pessoas a descansarem contigo.

Definir os limites parece ser a dica fundamental: descansar exige um esfor√ßo de definir horas em que voc√™ veta da sua cabe√ßa qualquer preocupa√ß√£o profissional. N√£o √© f√°cil no come√ßo. Observe suas horas livres. Observe se elas existem e, se sim, no que voc√™ as dedica. √Č muito f√°cil estar com a cabe√ßa livre e automaticamente sua aten√ß√£o ir em dire√ß√£o √†s tretas de trabalho, o funcion√°rio que precisa melhorar, a proposta a ser formulada, o que voc√™ deve √† equipe de design, as contas do pr√≥ximo ano‚Ķ √Č por isso que eu tenho certeza que navegar por redes sociais n√£o √© descanso ‚ÄĒ voc√™ ainda vai estar preso √†quela nova obriga√ß√£o de proje√ß√£o e personagem que a Jenny Odell explicou no livro dela.

Descanso bom de verdade funciona como um rompimento do estado mental onde voc√™ est√°, uma √°rea nova da cabe√ßa a ser explorada sem muitos ind√≠cios daquela torrente cont√≠nua de preocupa√ß√Ķes, paran√≥ias, planos pr√°ticos. √Č dif√≠cil explicar em palavras, mas, quando ela vem, √© moleza reconhec√™-la.

Determinadas atividades, com certeza, conseguem te arrancar dessa neurose de produtividade e te colocar num estado de serenidade, relaxamento. Talvez voc√™ j√° saiba, talvez precise descobrir. Se voc√™ estiver tendo dificuldade para descobrir, n√£o tenha vergonha de buscar ajuda profissional. √Äs vezes a dificuldade de parar √© reflexo de uma outra dor sem rela√ß√£o com o trabalho. Falar ajuda, tomar rem√©dio ajuda. Se quiser um exemplo pr√°tico para te ajudar a pensar na quest√£o: uma coisa que funciona muito bem para mim √© alongamento. N√£o tem preocupa√ß√£o de trabalho que sobreviva √†quele m√ļsculo de tr√°s da coxa queimando. Fora isso, voc√™ marca uma das caixinhas para envelhecer com sa√ļde: ter um corpo forte e flex√≠vel.

Por fim, existem poucas coisas no mundo que exigem sua aten√ß√£o total por horas a fio sob o risco de graves consequ√™ncias. √Č bem prov√°vel que o que voc√™ faz n√£o √© uma dessas coisas ‚ÄĒ voc√™ n√£o est√° fazendo um transplante de cora√ß√£o agora7. D√° tempo de parar e relaxar. Quase nada √© t√£o urgente que voc√™ n√£o possa folgar.

Descanso n√£o √© luxo. Voc√™ n√£o precisa ganhar o direito de t√™-lo. Descanso √© necessidade. Voc√™ precisa dele para ser voc√™. Por isso mesmo que √© fundamental trocar o verbo conjugado ao se pensar em descanso do ‚Äúmerecer‚ÄĚ para o ‚Äúprecisar‚ÄĚ. Repetindo o fim de todas as temporadas do Tecnocracia no come√ßo desta: vai descansar. Mas de verdade.

Exatamente pelo ano que foi 2022, eu vou descansar mais em 2023. A gente volta quando o próximo episódio estiver pronto.

Pintura do topo: ‚ÄúJovem adormecida‚ÄĚ de Pinto Bandeira (1901).

  1. E eu tenho plena consciência de que para entender algo você precisa fazer coisas, o que desmonta a premissa original. ↩
  2. Dois mil e vinte e dois n√£o vai sair da gente t√£o cedo. ‚Ü©
  3. Deixar roupa em algum lugar pela preguiça de pendurar parece ser um motivo desse episódio também. ↩
  4. Nota do tradutor: aqui eu abrasileirei, j√° que a vers√£o nacional √© bastante semelhante √† brit√Ęnica (‚ÄúSatan finds some mischief still for idle hands to do‚ÄĚ), ainda que menos elegante. ‚Ü©
  5. Esse ainda é um podcast que entra na categoria tecnologia, né? ↩
  6. N√£o o podcast hom√īnimo da casa. ‚Ü©
  7. Pelo menos, eu espero que n√£o. ‚Ü©

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2 coment√°rios

  1. eu meio que saturei de ouvir podcasts… confesso que mesmo o guia pr√°tico n√£o ou√ßo h√° uns bons epis√≥dios.
    mas quando sai o tecnocracia n√£o tem jeito.