Inventando o naufrágio: A abordagem pessimista da tecnologia na obra de Paul Virilio

Navio tombado, com ondas em primeiro plano e um céu nublado ao fundo.

por Zachary Loeb

Pouco antes de mudar de nome, a empresa de tecnologia anteriormente conhecida como Facebook experimentou o que chamou de “inconveniência”. O que é uma forma bastante suave de descrever “alterações de configuração nos routers de backbone” que resultaram na indisponibilidade do Facebook (juntamente com as plataformas Instagram e WhatsApp, de sua propriedade) durante cerca de seis horas, em 4 de outubro de 2021. A experiência da interrupção não foi uniforme: o que para alguns foi principalmente uma desculpa para desdenhar outra leva de más notícias para o Facebook, para outros foi uma séria perda de acesso a plataformas essenciais. Assim que o Facebook voltou, Mark Zuckerberg pediu desculpas “pela interrupção”, observando saber “o quanto vocês dependem dos nossos serviços para se manterem ligados às pessoas com quem se importam”. E, sem demora, a interrupção era apenas mais um ponto no retrovisor, enquanto o Facebook acelerava em direcção ao metaverso.

Não foi que a “interrupção” não fosse importante, mas sim que (como diz o provérbio) “merdas acontecem”.

Sites ficam indisponíveis, carregadores param de carregar, celulares não ligam, teclados de notebooks inexplicavelmente param de funcionar, roteadores param de rotear, aplicativos fecham do nada (levando consigo as alterações não salvas) — e quando essas coisas ocorrem, é difícil não sentir uma pontada de pânico. Você desliga e liga novamente, verifica se há notícias de interrupções ou corre para uma loja (ou liga para a TI) na esperança de que os “gênios” ou “nerds” consigam fazê-lo funcionar outra vez. Poucas coisas revelam a extensão da nossa dependência a uma tecnologia em particular como quando esse pedaço de tecnologia deixa de funcionar repentina e inesperadamente. E embora os nossos dias sejam pontuados por problemas pequenos e ligeiramente irritantes, há sempre o risco de problemas tecnológicos mais graves, do tipo que pode realmente virar o nosso mundo do avesso: o avião que cai, o navio que fica preso no canal, a plataforma web que cai e nos deixa inseguros sobre como comunicar com as pessoas de quem gostamos, ou a usina nuclear que derrete.

As conversas sobre tecnologia tendem a ser dominadas por uma fé otimista no progresso tecnológico e as manchetes de novas tecnologias tendem a ser apimentadas com uma linguagem determinista, que assegura aos leitores todas as coisas maravilhosas que estas tecnologias nascentes “farão” assim que chegarem. Há um encorajamento interminável para pensar em todos os benefícios empolgantes a serem desfrutados caso tudo corra bem, mas em geral presta-se muito menos atenção à forma como as coisas podem dar espectacularmente errado.

Na estimativa do filósofo Paul Virilio, a recusa em considerar seriamente a hipótese do fracasso pode ter efeitos calamitosos. Como ele evocava no livro Open sky1 (“Céu aberto”, em tradução livre) de 1997, “a menos que estejamos esquecendo deliberadamente a invenção do naufrágio na invenção do navio ou o acidente ferroviário no advento do trem, precisamos examinar a face oculta das novas tecnologias antes que essa face se revele a despeito de nós”. A formulação de Virilio nos lembra que, juntamente com as novas tecnologias, surgem novos tipos de falhas tecnológicas perigosas. Hoje pode parecer óbvio que nunca houve um acidente automobilístico antes da invenção do carro, mas que naufrágios futuros estão sendo ignorados hoje em meio a conversas empolgadas a respeito de inteligência artificial (IA), metaverso e todas as cripto-coisas?

A atenção de Virilio aos acidentes é uma provocação para olhar para a tecnologia de forma diferente. Para colocar em primeiro plano os perigos em vez dos benefícios e para nos vermos como as potenciais vítimas em vez dos sorridentes beneficiários. Como disse em Pure war (“Guerra pura”), publicado pela primeira vez em 1983, “cada tecnologia produz, provoca, programa um acidente específico”. Assim, o desafio se torna a procura do “acidente” por trás do espectáculo de luz tecnofílica — e, mais ainda, encontrá-lo antes que os destroços comecem a se acumular.

Sem dúvida, esta não é a forma mais agradável de olhar para a tecnologia. É muito mais divertido imaginar a si próprio desfrutando da refeição perfeita preparada para si pelo seu mordomo robótico autômato do que imaginar-se apanhado num pesadelo kafkiano após o sistema de IA negar seu pedido de empréstimo. No entanto, se Virilio tinha razão em observar que “a invenção da rodovia foi a invenção de 300 carros colidindo em cinco minutos”, seria sensato começar a pensar seriamente nos acidentes que nos esperam à medida que aceleramos pela rodovia da informação.

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Nascido em 1932 em Paris, a experiência de crescer durante a Segunda Guerra Mundial deixou uma impressão que duraria toda a vida em Virilio — tal como as revoltas estudantis que ocorreram em França em maio de 1968. O impacto dessas experiências pode ser visto na sua obra, que abrange temas como arquitetura (especialmente bunkers), cinema, velocidade e guerra, bem como catástrofes e acidentes. Embora a produção de Virilio consista em mais de duas dúzias de livros, esses volumes não encheriam muitas prateleiras, pois muitos não são particularmente longos. Virilio destacou-se por embalar um número vertiginoso de conceitos (muitas vezes incluindo numerosos neologismos) em poucas páginas.

Homem branco, careca, com roupa pesada preta, em frente a uma instalação artística cheia de cabos e tubos brancos.
Paul Virilio. Foto: Real Life/Reprodução.

Muitos dos livros de Virilio colocam-no para conversar com outros, e esses textos dialógicos costumam apresentá-lo de modo mais acessível. Na introdução de Crepuscular Dawn (“Alvorada crepuscular”), de 2002, um debate com Sylvère Lotringer, este se refere a Virilio como um “profeta prodigioso da velocidade” e afirma que era “sem dúvida o mais importante pensador da tecnologia desde Martin Heidegger”. E embora o trabalho e o pensamento de Virilio não se limitassem estritamente à tecnologia, a sua escrita continua a iluminar caminhos pelos quais as questões tecnológicas podem ser abordadas. Muitos desses percursos podem ser desconfortáveis de percorrer, mas isso não os torna menos valiosos.

Ao considerar o pensamento de Virilio, antes de podermos chegar ao local (ou à origem) do acidente, temos primeiro acordar para a velocidade. Literalmente. A velocidade foi um conceito de considerável importância para Virilio e o foco do seu primeiro livro, Velocidade e política, publicado em 1977. Tal como a história da tecnologia demonstra que muitas mudanças tecnológicas estiveram estreitamente ligadas aos anseios e necessidades dos militares, Virilio observa que “a história progride à velocidade dos seus sistemas de armamento”. Não só a velocidade — e as redes específicas de máquinas e infraestruturas de que necessita — tornam possível manter uma força militar amplamente disseminada e adequadamente fornecida; a própria velocidade torna-se uma espécie de arma, uma vez que o exército que é capaz de atacar com chocante agilidade é capaz de sobrecarregar defesas lentas. (Na condição de criança que cresceu na França ocupada por nazistas, talvez não seja surpreendente que Virilio escreva diretamente a esse respeito nos termos da blitzkrieg nazista.)

À medida que a velocidade se torna uma necessidade militar, essa mudança de ritmo é sentida em toda a sociedade, até mesmo em todo o mundo. A velocidade torna-se sinônimo de poder, o que a conecta à riqueza e à acumulação de capital — aqueles que não conseguem acompanhar são deixados para trás. Em vez de ligar a velocidade crescente à exuberância libertadora, Virilio, em Velocidade e política, sugere que “quanto mais a velocidade aumenta, mais depressa a liberdade diminui”: quando uma ação é necessária em tempo real, o momento de agir já está desaparecendo rapidamente no passado. A liberdade exige tempo para deliberar e agir, e a velocidade extrema priva os indivíduos desse tempo.

As ruminações teóricas de Virilio sobre velocidade estão claramente ligadas ao seu lugar na Segunda Guerra Mundial — o culto fascista da velocidade e a utilização da sua terminologia na descrição da disputa para desenvolver o arsenal nuclear mais destrutivo (a corrida armamentista). As armas nucleares não significavam que o exército inimigo pudesse chegar aos portões da cidade a qualquer momento, mas que o fim apocalíptico pudesse ser provocado a qualquer momento pelo apertar de um botão.

As armas nucleares não foram os únicos explosivos que Virilio debateu. Em paralelo à bomba atómica, Virilio também alertou para a “ciber-bomba”, ou a “bomba de informação” (representando os desenvolvimentos na cibernética, computação e a explosão de informação) e a “bomba genética” (representando os desenvolvimentos em tecnologias genéticas pelas quais a humanidade poderia se modificar). Ao usar o termo “bomba” para descrever esses perigos, Virilio sugeriu que não eram ameaças menores ou discretas, mas sim detonações sérias, capazes de abalar o mundo. Como explicou a Lotringer em Crepuscular dawn, “estas três bombas estão se desenvolvendo em paralelo” e “este tríptico catastrófico está preparando um acidente universal, um acidente total que não podemos sequer imaginar”.

Como Virilio disse a Lotringer, “a velocidade está nos carregando, mas ainda temos de a dominar. Um acidente está destinado a acontecer”. Assim, é a acumulação constante de velocidade que nos leva ao acidente.

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O termo “acidente” desvenda alguns dos horrores dos acidentes e naufrágios — se foi um acidente, afinal, não era para ter acontecido. E embora Virilio faça uso frequente da palavra, ele nos pressiona para que consideremos até que ponto as coisas que dão errado fazem parte de determinada tecnologia, tal qual as coisas que funcionam bem.

O acidente é inventado juntamente com o dispositivo. Como Virilio disse a Lotringer em Pure war (que também foi estruturado como um diálogo entre eles), “a invenção do avião foi a invenção do acidente aéreo”. Virilio voltou repetidamente a essa formulação em todo o seu corpo de trabalho, e embora a frase exata possa divergir de livro para livro, a essência permanece a mesma. Numa conversa com Philippe Petit, publicada em 1996 sob o título Politics of the very worst (“Políticas do pior”), Virilio afirmou que “é necessário determinar o que é negativo no que parece positivo”. Como ele explicou, concentrar-se nos benefícios empolgantes de uma nova tecnologia é tudo de bom para seus promotores e marqueteiros, mas para aqueles que estão tentando compreender a política dessa tecnologia (sem falar daqueles obrigados a viverem no mundo que ela produz), não é suficiente concentrar-se nos méritos. Enquanto as novas tecnologias poderiam muitas vezes inspirar um sentimento quase religioso de deslumbramento, Virilio vai em sentido contrário e diz que “o acidente é um milagre invertido”. Em vez de tratar o acidente como o oposto do progresso, Virilio argumentava que ele uma era parte integrante — “a face oculta do progresso técnico e científico”.

As ruminações de Virilio indicavam um certo nível de fatalismo. Isso não assumiu a forma de uma certeza hiperbólica de que todos os aviões estão fadados a cair, mas sim de uma simples admissão de que alguns aviões, infelizmente, irão cair. Dentro de cada família de tecnologias haverá algumas falhas — e mesmo a única falha (Virilio apontava frequentemente para a explosão da Challenger e o desastre de Chernobyl) pode ter impactos significativos. O que torna isso particularmente perigoso, na estimativa de Virilio, é a crescente potência e complexidade dos sistemas tecnológicos, que criam um afastamento constante dos acidentes “locais” (embora estes certamente ainda ocorram) em direção aos acidentes “gerais”, do tipo “que afeta imediatamente o mundo inteiro”. Os acidentes locais (tais como os acidentes de automóvel) deixam destroços espalhados na beira da estrada e famílias enlutadas. Acidentes gerais (tais como falhas em usinas nucleares) espalham destroços por todo o planeta e resultam não só em luto por indivíduos, mas também pelo futuro.

Os acidentes em grande escala, quando ocorrem, têm uma tendência de gerar uma atenção significativa. Entidades dos meios de comunicação social que outrora noticiaram avidamente um navio impossível de naufragar agora publicarão manchetes do desaparecimento desse mesmo navio. No entanto, um dos desafios que Virilio enfrentou foi o de alertar para o acidente antes deste ocorrer de fato. Tendo escrito longamente sobre os problemas criados pela aceleração constante, em The original accident (“O acidente original”), de 2005, ele evocou o calvário de tentar fazer soar o alarme ao mesmo tempo que se mantinha a par das novas tecnologias: “Temos de tentar o mais rapidamente possível definir a natureza flagrante das catástrofes peculiares às novas tecnologias.” Numa referência ao filósofo Hans Jonas — que tinha argumentado no seu livro de 1979, The Imperative of Responsibility (“O imperativo da responsabilidade”), que “à profecia da desgraça deve ser dada maior atenção do que à profecia da felicidade” —, Virlio escreveu que “o imperativo da responsabilidade para as gerações vindouras exige que exponhamos agora os acidentes juntamente com a frequência da sua repetição industrial e pós-industrial”.

Ao concentrar-se de forma tão inflexível nos acidentes e nos “milagres invertidos” do progresso, Virilio parecia bastante consciente de que estava se colocando numa posição de ser ignorado como um profeta do apocalipse. No entanto, esse reconhecimento não parece ter diminuído o seu empenho em tocar o alarme; se muito, parece ter reforçado a sua determinação. Falando a Petit em Politics of the very worst, Virilio insistiu: “Não sou um profeta do apocalipse.” Em vez de expressar ódio pela tecnologia, argumentou que amar verdadeiramente algo exige o reconhecimento dos seus lados bom e mau. Em conversa com Lotringer, Virilio afirmou: “Não sou o que se poderia chamar um fanático pelo apocalipse. Não é a minha área”, embora pouco depois de fazer esses comentários tenha acrescentado a observação de que “claramente, o século XX tem um lado apocalíptico”. E sentiu que este “lado apocalíptico” continuaria no século XXI.

Embora Virilio tentasse distanciar-se das acusações de exuberância apocalíptica, ele estava disposto a lançar-se na tradição daqueles que tentam soar o alarme, mesmo que as suas prescientes palavras fossem ignoradas. Em conversa com Petit, Virilio enquadrou a sua negatividade como uma resposta à forma como “a maioria dos intelectuais já se tornaram colaboradores ou mesmo anunciantes do ‘boom’ tecnológico”. Como resultado, “só posso usar a máscara de Cassandra para mostrar o lado oculto desta tecnologia, a sua negatividade”. Quando Petit repreendeu Virilio pelo seu pessimismo, Virilio deu uma resposta cortante: “Pinto um quadro sombrio porque poucos estão dispostos a fazê-lo.”

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Ao envolver-se com o pensamento de Virilio, é evidente como os acontecimentos da sua vida — crescer sob a ocupação nazi, a corrida armamentista, maio de 1968 — afetaram o seu pensamento. No entanto, Virilio também viveu tempo suficiente para direcionar seu pensamento para temas como a guerra contra o terror e a popularização da internet. Talvez sem surpresa, Virilio era bastante cético em relação à euforia utópica que deu início à era da internet. Como ele disse a Lotringer em Pure war, “não me digam que a internet trará a democracia mundial. Fico dividido quanto a isso. Não há nada mais ridículo”.

Em A bomba informática, de 1999, Virilio enquadrou a internet como “a melhor e a pior das coisas […] o avanço de uma comunicação ilimitada — ou quase ilimitada; e, a certa altura, é também o desastre — o choque com o iceberg — para este Titanic da navegação virtual”. Ele retoma a questão dos acidentes, e nos leva a perguntar: que acidentes estão sendo inventados em paralelo às tecnologias digitais? Os computadores travam, mas isso não transmite a mesma sensação de emergência que o descarrilamento de um trem. Então, para onde devemos voltar a nossa atenção? Hackeamentos? Cyber-bullying? Desinformação? Destruição ambiental? Confiança num sistema complexo que está fora do nosso controle local? Capitalismo de vigilância? Discriminação algorítmica? Ou talvez todas estas e muitas outras, com novas variedades de acidentes inventadas junto a cada novo aplicativo e gadget com acesso à Internet.

Eventos como a queda do Facebook em 4 de outubro de 2021, bem como a interrupção da Amazon Web Services ocorrida duas semanas depois, são alertas do futuro. Dizer que ninguém poderia ter previsto essas ameaças iminentes seria falso. A Bug do Milênio, de 2000, é hoje lembrado como um tipo de piada — mas isso graças à sua gestão bem sucedida. Na época, muitos no governo e nas empresas de TI reconheceram a crise como representativa da dependência das sociedades em relação a sistemas informáticos. Os acidentes relacionados com computadores/internet tinham sido explorados de forma provocante por escritores de ficção científica cyberpunk desde antes mesmo da existência da World Wide Web. A ficção cyberpunk contemporânea fornece uma variedade de potenciais “acidentes” para se pensar: desde o mundo do lixo eletrônico tóxico em Waste tide (“Maré de resíduos”), de Chen Quifan, ao apartheid corporativo de alta tecnologia em Moxyland, de Lauren Beukes, ao mundo onde a internet deixa de funcionar abruptamente em Infinite detail (“Detalhe infinito”), de Tim Maughan. Um dos elementos mais perturbadores de várias obras de ficção cyberpunk é a preocupação de que essas distopias sejam contos de sistemas computadorizados funcionando precisamente como planejado.

Não há um único “acidente de avião” equivalente para computadores e internet, mas isso só torna mais vital imaginar o que podem ser múltiplos acidentes. Se as quedas do Facebook e do Amazon Web Services durante algumas horas causam tanto caos, imagine como seria se eles caíssem permanentemente.

O Titanic não foi o único naufrágio famoso a que Virilio se referiu ao pensar na internet. Como ele disse na sua conversa com Petit, “o modelo para o nosso mundo que está emergindo por detrás do delírio da informação é Babel, e a internet já é um sinal disso”. Aqui Virilio capturou simultaneamente a sensação de sobrecarga da informação e um símbolo do impulso hubrístico da humanidade por mais — juntamente com o aviso de uma estrutura que se desmorona, resultando em grande confusão de idiomas. A valorização do progresso tecnológico cria uma situação em que aqueles que não querem ser vistos como atrasados têm de se esforçar para se manterem atualizados. Como Virilio descreveu a Bertrand Richard em The administration of fear (“A administração do medo”), seu último trabalho publicado, “promover o progresso significa que estamos sempre atrasados: na internet de alta velocidade, no nosso perfil do Facebook, na nossa caixa de e-mail”. Mais uma vez, emerge a estreita ligação entre velocidade e acidentes: “As nossas sociedades tornaram-se arrítmicas. Ou conhecem apenas um ritmo: a aceleração constante. Até ao colapso e a falha sistêmica.”

Estar sempre à procura do potencial acidente em cada nova tecnologia irá certamente resultar numa visão um pouco sombria do mundo. Os pessimistas não são aquele tipo de gente que anima uma festa. No entanto, reconhecer que alguns acidentes podem acontecer não significa que devam ser tratados como inevitáveis. É da busca por acidentes e do reconhecimento de que eles podem ocorrer que surge uma obrigação de prevenir e mitigar tais perigos. No entanto, é impossível evitar um acidente se não se estiver disposto a reconhecer primeiro a possibilidade da sua ocorrência.

No mínimo, você provavelmente deveria afivelar seu cinto de segurança.


Zachary Loeb é candidato ao doutorado no Departamento de História e Sociologia da Ciência da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos. Seu trabalho foca nas formas como os sistemas tecnológicos complexos geram e exacerbam o risco, e na história da condenação técnico-científica. Atualmente trabalha em uma dissertação sobre o Bug do Milênio do ano 2000.

Publicado originalmente na revista Real Life em 3 de janeiro de 2022.

Foto do topo: buzukis/Pixabay.

  1. NT: Poucos livros de Virilio foram traduzidos e lançados no Brasil, e boa parte deles está fora de circulação. Nas menções às suas obras ao longo do texto, traduzi os títulos daqueles editados aqui e mantive em inglês, com uma tradução livre ao lado, os que não.

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4 comentários

  1. Muito bom o texto!

    Como adendo eu colocaria o perigo do mau uso da tecnologia (aquela história que podemos usar uma faca para cortar um alimento ou para matar).

    Há uns 20 anos eu estaria perfilado ao lado dos entusiastas da tecnologia como um meio para alcançarmos o paraíso. Hoje continuo acreditando nas imensas potencialidades da mesma, mas agora acho que para impedirmos o mau uso dessas potencialidades demanda um esforço absurdo e estou cético quanto à nossa capacidade de fazê-lo.

  2. Essa reflexão mais acadêmica é muito importante para pensarmos tecnologia fora das manchetes deterministas e otimistas como diz o texto. É legal pensar essa dimensão dos acidentes, mas ao mesmo tempo eu imagino que o maior acidente seja a própria escala global das coisas. Imagino (chutando) que a proporção de pessoas que morriam nas estradas antes mesmo dos automóveis (por doenças, assaltos, e acidentes com cavalos, ou mesmo quebrando a perna ao fazer a viagem a pé) deveria ser maior do que as de hoje com as altas velocidades, e nem se compara isso com a proporção de pessoas que morrem em acidentes aéreos, mas a quantidade de pessoas que viajavam era muito menor. O que muda é a escala e justamente a velocidade e frequência com que esses deslocamentos acontecem, e que eles passam da escala local para global.
    Outra coisa que este texto me lembrou é uma passagem de um livro do Asimov – As Cavernas de Aço – em que um dos personagens se dá conta da dependência dos sistemas em que vivem, diz que uma queda de energia no princípio de sua implementação nas cidades por exemplo mal seria notada pela maioria das pessoas, depois a medida em que temos mais aparelhos elétricos, causaria um desconforto dependendo do tempo de duração, até chegar um ponto onde dependemos da eletricidade até para circulação de ar e sistemas de transportes, então uma falha de minutos vai ser fatal.