No início da pandemia, Apple e Google se uniram para criar um sistema de rastreamento de contatos (depois, rebatizado para notificação de exposição) em celulares a fim de ajudar a identificar e isolar pessoas que tiveram contato com infectados pelo SARS-CoV-2, o novo coronavírus. Apesar do esforço, quase um ano depois a sensação geral, aqui e lá fora, é de que a solução “prometeu muito e não entregou” (em inglês).

Parte dessa promessa não cumprida tem a ver com a baixa adesão dos usuários. Estudos apontam que, para ser eficaz no controle da pandemia, pelo menos 60% dos habitantes de um país precisam baixar e usar o app oficial compatível com o sistema da Apple/Google, mas que mesmo adesões mais modestas, na casa dos 20%, ainda têm impacto positivo na luta contra a COVID-19. O problema é que nem mesmo essas porcentagens menores foram alcançadas na maior parte do mundo.

No final de dezembro, pedi ao Ministério da Saúde os números da notificação de exposição no Brasil. (Por aqui, cabe sempre lembrar, o recurso está embutido no app Coronavírus SUS.) Segundo a pasta, até 21 de dezembro o app teve 1,99 milhões de downloads no iOS e 8,7 milhões de downloads no Android, ou seja, 10,69 milhões de downloads (que não é o mesmo que usuários ativos), ou 5,05% da população brasileira.

Questionei, ainda, se havia números relacionados à notificação de exposição no país, como o de alertas emitidos. Em resposta, o Ministério da Saúde informou que “as notificações de exposição aos usuários são realizadas uma vez ao dia”, e que “para manter os usuários seguros, a apreciação do quantitativo de notificações ainda não estão sendo divulgadas.”

Esta é uma daquelas situações que explicitam as limitações da tecnologia ao lidar com problemas complexos de ordem social, neste caso potencializadas pela divulgação tímida do app, talvez fruto do descaso do governo federal no enfrentamento da pandemia. Para piorar, a notificação de exposição tem um impacto severo na autonomia dos celulares — no meu, um iPhone 8 com três anos de uso, ele devora ~17% da bateria.

Alguém com mais capacidade fez uma análise ampla dos “rótulos nutricionais” dos apps mais populares da App Store. (Estou fascinado por este assunto.) Hugo Tunius usou um pouco de magia (leia-se: engenharia reversa) na API da App Store e conseguiu extrair dados estruturados das listas de apps mais populares, pagos e gratuitos, da versão britânica da loja.

Seus achados (em inglês) confirmam algumas suspeitas, como a de que apps gratuitos coletam mais dados pessoais que os pagos, mas não deixam de ser interessantes. Chama a atenção, por exemplo, que os apps do Facebook são os que mais coletam dados: as 12 primeiras posições são ocupadas por eles, todos coletando 128 (!) tipos de dados de 160 possíveis. O LinkedIn, da Microsoft, está em 13º, com 91 tipos de dados coletados. Só faltaram dados de jogos, área que Tunius ignorou na análise — talvez a única com potencial para superar o Facebook nesse aspecto.

Em tempo: o Google, que parou de atualizar seus apps para iOS no dia 7 de dezembro, coincidentemente véspera da obrigatoriedade dos rótulos nutricionais, prometeu que os atualizará esta semana. Via TechCrunch (em inglês).

Ainda pensando em análises de produtos depois daquela boa notícia do The Guardian, outro critério que acho que deveria mudar é o da recomendação ou não de compra que geralmente aparece na conclusão das análises. Em vez de uma resposta genérica, seria melhor fazê-la à luz de um valor médio que represente a renda do leitor indeciso.

Por exemplo, ao analisar o iPhone 12 (R$ 8 mil), a pergunta derradeira do repórter não deveria ser “vale a pena comprá-lo?”, mas sim “eu, com meu salário de R$ 2.699,58 (piso para 5h no estado de São Paulo, fora a capital), compraria este celular de R$ 8 mil, equivalente a quase três meses de trabalho?” Ou então usar outro critério mais abrangente, como a renda média do brasileiro (R$ 2.398, segundo o último dado do IBGE). É fácil dizer que um celular de R$ 8 mil é bom (estranho seria se não fosse), mas a quem essa informação é útil? Para quem estamos reportando?

O aplicativo Unclack (macOS, grátis) é ótimo para quem faz muitas videochamadas. Ele fica em segundo plano e automaticamente emudece o microfone do computador quando o usuário começa a digitar no teclado, evitando chamar a atenção ou passar por distraído/mal educado(a).

Um dos poucos acertos do Facebook no que diz respeito à privacidade foi ter implementado a criptografia de ponta a ponta como padrão e obrigatória no WhatsApp em 2016. O recurso é útil, mas não é uma panaceia a despeito do que a empresa diz em seus comunicados e ao responder críticas.

Os “rótulos nutricionais” para apps que a Apple implementou em suas lojas em dezembro evidenciam isso. Dos de mensagens mais populares, o WhatsApp é o que mais coleta meta dados — que revelam muito sem quebrar a criptografia, e que o Facebook usa para direcionar anúncios e refinar recomendações automáticas em outras propriedades, como a rede social Facebook e o Instagram.

Acesse a página do WhatsApp na App Store, role até o subtítulo “Privacidade do app” e toque no link “Ver detalhes”, à direita. Em contrapartida, veja quais dados e para quê iMessage (da própria Apple), Telegram e Signal (o melhor deles) coletam. A diferença é chocante. Via Forbes (em inglês).

O Mi 11, último celular topo de linha da Xiaomi, saiu em duas versões na China: uma sem o carregador de parede na caixa (como o iPhone) e outra em um “kit”, com um carregador GaN de 55 W, ambos pelo mesmo preço. No primeiro dia à venda, 350 mil unidades do Mi 11 foram compradas. Dessas, segundo a própria Xiaomi, apenas 20 mil, ou 5,7% do total, foram da versão sem o carregador, chamada de “Edição Verde”.

Segundo o Gizmochina, a paridade de preços entre as versões é por tempo limitado. Depois disso, o kit com o carregador ficará ~US$ 15 mais caro. Via Xiaomi/Weibo (em chinês), Gizmochina e GSMArena (em inglês).

Nesta equipe, você trabalhará com nossa plataforma chave, Surface, e parceiros OEM para orquestrar e entregar um rejuvenescimento visual abrangente das experiências do Windows para sinalizar aos nossos clientes que o Windows VOLTOU e garantir que o Windows seja considerado a melhor experiência de sistema operacional do usuário para os clientes.

— Microsoft.

O trecho acima estava na descrição de uma vaga de emprego da Microsoft para engenharia de software. Depois que sites notaram-no, a empresa suprimiu algumas partes. Desde o Windows 8, de 2012, os usuários do sistema da Microsoft convivem com partes modernas e legadas na interface, e mesmo as modernas parecem não terem tempo de amadurecerem, pois sempre estão passando por “rejuvenescimentos visuais abrangentes”. Será que agora vai? Via Windows Latest (em inglês).

Pouco mais de 200 funcionários da Alphabet, a holding do Google, anunciaram nesta segunda (4) a criação de um sindicato. Batizado de Alphabet Workers Union, o objetivo do sindicato é um pouco diferente daqueles clássicos: este pretende estruturar e dar base para o ativismo crescente dentro do Google, já visível em casos como a paralisação de 20 mil funcionários contra denúncias de assédio sexual dentro da empresa em 2018 e a manifestação pública após a controversa demissão da cientista de dados Timnit Gebru, em dezembro. O sindicato dos funcionários do Google pode se tornar paradigmático em um ambiente (Vale do Silício) e setor (tecnologia) sempre avesso à sindicalização. Tomara que a moda pegue. Via New York Times (em inglês), tradução na Folha.

O jornal inglês The Guardian mudou os critérios na atribuição de pontos de sustentabilidade na análise de produtos de tecnologia, como celulares e fones de ouvido. Em vez de dar pontos extras àqueles exemplares (que usam materiais reciclados, são fáceis de serem consertados etc.), passará a tirar pontos dos que dão mau exemplo ou que não fornecem informações do tipo. É uma mudança importante e bem-vinda, que, se adotada por toda a indústria, pode forçar as empresas a serem mais transparentes e a reforçarem medidas pró-meio ambiente em seus planejamentos e linhas de produção. The Guardian (em inglês) via @manifesteiro/Twitter.

Gráfico de ativações de novos celulares no Natal dos Estados Unidos.
Gráfico: Flurry/Reprodução.

Nove dos dez celulares mais ativados no Natal norte-americano de 2020 foram iPhones, segundo a consultoria Flurry. Além de evidenciar diferenças de poder aquisitivo entre os EUA e outros países, um detalhe indica que talvez não haja espaço mesmo para celulares pequenos no mercado atual: o iPhone 12 Mini não aparece no ranking — o único da linha iPhone 12 ausente. Outros modelos menores para os padrões atuais, iPhone SE e iPhone 8, estão lá (6º e 9º lugares; SE foi o líder em crescimento), mas aí o custo explica mais que o tamanho físico. (Quanto ao LG K30, único Android/não-Apple da lista, nem sei o que dizer.) Via Flurry (em inglês).

Abra este site e aumente o volume. Ele toca um barulhinho toda vez que alguém edita a Wikipédia. O ritmo da versão portuguesa é lento; em uma mais ativa, como a inglesa, as edições formam uma melodia. Visualmente, bolhas coloridas indicam o tamanho da edição e outras características. O código-fonte está no GitHub.

Levantamento da Cantarino Brasileiro a pedido da Akamai Technologies constatou que 43% dos brasileiros afirmam ter conta em um banco digital. O número vem de respostas dadas pelos entrevistados, de uma amostragem pequena (1.083), mas é significativo se posto ao lado do de 2019, quando apenas 18% disseram ter conta digital. A Akamai reconhece que a pandemia pode ter ajudado no aumento expressivo, mas lembra que a digitalização do setor é inevitável e já vinha ocorrendo. Via Folha.

Em notícia relacionada, “Bancos encolhem estrutura na década e extinguem quase 80 mil vagas.”

Jack Ma, fundador do Alibaba (dona do AliExpress) e pessoa mais rica da China, entrou na mira das autoridades regulatórias do seu país. Os meios provavelmente divergem (críticas ferrenhas a Pequim pesam no caso de Ma), mas vemos aqui um raro cenário em que norte-americanos e chineses, ou “capitalistas e comunistas”, concordam: o de que empresas monopolistas são ruins e fomentam a desigualdade social. Via Estadão (com paywall).