Vale a pena comprá-lo?

Ainda pensando em análises de produtos depois daquela boa notícia do The Guardian, outro critério que acho que deveria mudar é o da recomendação ou não de compra que geralmente aparece na conclusão das análises. Em vez de uma resposta genérica, seria melhor fazê-la à luz de um valor médio que represente a renda do leitor indeciso.

Por exemplo, ao analisar o iPhone 12 (R$ 8 mil), a pergunta derradeira do repórter não deveria ser “vale a pena comprá-lo?”, mas sim “eu, com meu salário de R$ 2.699,58 (piso para 5h no estado de São Paulo, fora a capital), compraria este celular de R$ 8 mil, equivalente a quase três meses de trabalho?” Ou então usar outro critério mais abrangente, como a renda média do brasileiro (R$ 2.398, segundo o último dado do IBGE). É fácil dizer que um celular de R$ 8 mil é bom (estranho seria se não fosse), mas a quem essa informação é útil? Para quem estamos reportando?

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13 comentários

  1. Eu acho bem inútil qualquer review. E acho mais inútil ainda se preocupar com essee tipo de coisa.

    Explicando: quem é pobre normalmente compra de acordo com a sua possibilidade financeira e deu. O review do pobre eo amigo ou parente que tem um igual. Sites e vídeos com análises são coisa de nicho, de que ganha muito mais do que a média das famílias brasileiras.

    1. Concordo discordando.

      De fato, a principal verdade no seu comentário é que o usuário simples vai comprar pelo preço.

      Mas de fato, há uma ausência em relação a informar sobre os celulares básicos. Aí lembro da brincadeira de 1 de abril do ano passado – os dos reviews padronizados.

      Mesmo assim, ter informações sobre um aparelho desejado ainda é um ponto a se ver. E no final, ao invés do site de reviews, a galera vai no Reclame Aqui…

      1. Sim, o grande termometro da minha mãe para comprar qualquer coisa relacionada a tecnologia é o reclame aqui. Depois ele parte pras perguntas pra mim. Se tiver uma amiga que já tenha o telefone que ela quer, melhor.

        Pra mim esse é o verdadeiro review de quem não tem dinheiro. Vídeo e site são meios de quem tem mais dinheiro pra gastar (até porque, a maioria é inútil mesmo).

  2. Então quem tem uma renda mais restrita não pode ter um celular caro, pq o jornalismo precisa *esfregar* na cara do sujeito que ele é caro e que não faz sentido comprar, já que é pobre.

    Sabe o que esse post me lembrou? Um certo ministro da economia dizendo que empregada não pode ir pra Disney. Afinal o conceito prático é o mesmo, se representa XXX% do salário dela, hunf. vá viajar pelo Brasil que é mais barato.

    Qual review que o Manual acha adequado?
    “Ei, tá vendo esse celular horrível aqui? Ele é uma porcaria, mas olha, custa 450,00 e é o que o seu salário mínimo pode comprar”

    A complexidade do consumo, do desejo, da autoestima e do contexto de integração social está muito além da bolha do Manual do Usuário. Elitismo de bolha, se é que essa expressão existe. Ou o famoso minimalismo econômico lacrador.

    Por fim, um bom review mostra o que aquilo tem de bom e pode fazer comparações sim, por exemplo, “qual a diferença do novíssimo iPhone 12 x iPhone de 3 anos atrás” que ai sim pode fazer com que aquela pessoa de baixa renda pense antes de gastar. Mas a decisão e o dinheiro é da pessoa, não do jornalista.

    1. O jornalista ou o site não decidem nada por ninguém, eles estão ali para recomendar ou não um produto segundo critérios (em tese) técnicos, e o preço é, ou deveria ser, um deles. O problema é que hoje o preço, ou custo-benefício, é apresentado num vácuo. O iPhone de R$ 8 mil vale a pena; ok, mas vale a pena para qualquer um? O sacrifício que alguém com menos condições financeiras precisaria fazer, economizando um bocado para gastar num telefone, é recompensado pelo produto para justificar uma recomendação sem ressalvas, sem contexto?

      Você tem razão quando aponta que meu comentário exclui aspirações e aquisições por outros motivos que não técnicos, ou seja, aspectos subjetivos do consumo. Se o sonho da pessoa é ter um iPhone, ou ir para a Disney (e acho perfeitamente legítimo que todos tenham seus sonhos e o direito de realizá-los independentemente do saldo na conta bancária), não é um review que a fará decidir-se ou não pela compra. Como dizem por aí, sonho não tem preço.

  3. “eu, com meu salário de R$ 2.699,58 (piso para 5h no estado de São Paulo, fora a capital), compraria este celular de R$ 8 mil, equivalente a quase três meses de trabalho?”
    Não acho que seja o lugar do repórter emitir essa opinião, cada pessoa tem uma prioridade e realidade diferente. Uma pode achar um exagero, mas para outra é um sonho. Uma tem 2 filhos pra sustentar, outra mora com os pais.
    Se faz sentido financeiramente ou não cabe cada um tomar essa decisão.

    1. Sugeri o piso de repórteres não como uma “opinião”, mas como um critério balizador da recomendação de compra. Pode ser qualquer outro, não necessariamente atrelado a quem escreve. O que quero dizer é que não é muito útil recomendar a compra de um celular de R$ 8 mil no vácuo; essa recomendação só tem validade para quem esse valor não faz diferença (o nosso 1%?).

      Posto de forma mais simples, e falo com a culpa de quem já cometeu esse deslize, é válido eu recomendar um celular muito bom de R$ 8 mil que eu, pessoalmente, jamais compraria por achá-lo muito caro?

  4. Não sei se estou falando besteira, mas quando se fala em “tech”, a lógica dos reviews desde “sempre” é similar a lógica de fazer um review de automóvel.

    Jornalistas automotivos ainda pincelam sobre questão de renda, mas no final a métrica vai mais pelo “O quanto de coisa útil tem no automóvel”, ou no caso, no gadget – telefone, smartwatch, computador.

    Tipo, em uma analogia, o iPhone 12, com seus 6 núcelos, 4GB deRAM 256 de armazenamento seria tipo o SUV da Porsche, com 6 cilindros, intercooler, 7 lugares.

    Aí pega um celular intermediário, de 4 núcleos, 2 GB de RAM e 32 GB de armazenamento e compara com um carro básico, tipo Up da Volks ou o Kwid da Renault.

    Sou mais da métrica do Henrique (Interfaces / ZTOP) que sempre põe a questão “no que é útil” o gadget. Essa é uma boa forma de se medir o valor e a utilidade também, até porque muitas vezes um gadget tem outro foco mas é anunciado no mercado como se fosse para consumo ao usuário comum.

    Até porque, ao usuário “comum” – a pessoa não tão afeita ao tech, usando mais pela praticidade e necessidade – o que importa apenas é funcionar sem defeitos.

    E lembremos que mesmo gadgest anunciados como “top”, no final tem defeitos… muitas vezes recorrentes…

  5. A renda média é um conceito problemático, acho que deveria ser mais discutido. Ao meu ver, é um dos melhores ponto do famoso livro “A lógica do Cisne Negro”, mas não é algo que vejo as pessoas discutindo sobre.

    O Taleb chama da ditadura da curva do sino, que é a distribuição mais comum no dia-a-dia, mas não faz sentido para distribuição de renda. Não faz sentido comparar renda média como se compara altura média, por exemplo, são lógicas diferentes. Isso distorce muitos debates importantes, como desigualdade de renda obviamente.

    No caso dos reviews, pensando de forma prática somente, provavelmente seria mais lógico o site desenhar as recomendações de “vale a pena” com base nos percentis de renda per capita do público.

    1. Sim, embora seja a renda média, esse talvez não seja o melhor parâmetro para definir recomendações em reviews. (Os do texto foram os que me ocorreram na hora.)

      A demografia do veículo em que a análise é publicada pode ser um parâmetro melhor. A pesquisa que fiz recentemente aqui no Manual, por exemplo, destoa bastante do perfil de renda do Brasil. Mas mesmo assim ainda haveria complicadores; entre eles, o principal é que review é um dos conteúdos que mais apelam ao público “de fora”, não recorrente/assíduo do veículo — gente que chega por buscadores ou indicações pouco antes de tomar uma decisão de compra.

      1. Na verdade, estou dando uma solução de contorno. Na real, corroborando os comentários acima, acho que não deveria ter a ambição de responder uma pergunta tão vaga. Eu simplesmente ignoro, o quanto eu decido gastar ou não em algo envolve muitas coisas que o reviewer não tem como equacionar na análise.

        Entendo que as pessoas gostem da opinião e uma conclusão assertiva, certamente é melhor para o conteúdo. Aliás, quem não prefere?

        Mas sempre acho meio ridículo uns cara, tipo MKBHD e o próprio Higa para ficar mais próximo, tentarem ficar falando de “valer a pena” vivendo em realidades alienígenas. E não estou nem falando do financeiro, mas da própria exposição a tecnologia e estilo de vida.

        1. É, sim. Acho que o mais próximo de um tipo de review ideal é aqueles que trazem indicações por faixa de preço, embora eles sejam de outra natureza (comparativa, no caso).

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