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O iPhone barato do Grupo Angela Faria

Dois anúncios, extraídos de stories do Instagram, de um iPhone 11 e iPhone 11 Pro Max, com preços muito abaixo do mercado.

As ofertas são tentadoras: iPhone 11 de 128 GB por R$ 2,3 mil e iPhone 11 Pro Max de 256 GB por R$ 4,5 mil. Na loja da Apple, esses modelos custam R$ 5,3 mil e R$ 8,4 mil, o que significa que estão sendo vendidos com descontos surreais de 48,9% e 46,4%, respectivamente. Não só: na compra de qualquer um desses telefones, o consumidor leva de brinde um AirPods de 2ª geração — na Apple, custa no mínimo R$ 1.350. Dá para confiar?

As ofertas de iPhones baratinhos são da loja Grupo Angela Faria e feitas principalmente no Instagram, onde o perfil dela já acumula mais de 400 mil seguidores. Em paralelo, centenas de clientes reclamam em sites como o Reclame Aqui de que pagaram, mas não levaram.

A anatomia de uma tática manjada

Print do perfil no Instagram do Grupo Angela Faria, no Safari do macOS.
Imagem: Instagram/Reprodução.

Na descrição do Instagram, o Grupo Angela Faria se descreve como um “serviço de personal shopper”. Entende-se ao ver as fotos mais recentes, logo abaixo: elas mostram supostos atendentes, com números próprios de WhatsApp, aludindo a uma espécie de atendimento personalizado. Essas pessoas, porém, não existem; são fotos de bancos de imagens.

A descrição do Instagram traz outra estranheza: “pagamento à vista”. Ao consumidor, tentado pelos preços muito abaixo dos praticados por lojas mais confiáveis, pode parecer uma condição justa, mas na prática é mais um de vários indícios de um possível esquema ilegal. Ao contrário das compras no cartão de crédito, é mais difícil contestar e reverter transferências bancárias.

Foto do perfil do Grupo Angela Faria com um suposto atendente Ramon; ao fundo, a foto do Ramon em um banco de imagens.
O atendente “Ramon” é, na realidade, o “Cara Bonito Intrigado” de um banco de imagens gratuitas.

As estranhezas se avolumam. No site indicado no cadastro da empresa no Reclame Aqui não há muita coisa, somente um site oficial (grupoangelafaria.com.br). Ao consultá-lo no Registro.br, é possível ver o CNPJ associado a ele. Uma nova consulta a partir do CNPJ, desta vez no site da Receita Federal, retorna uma micro empresa individual (MEI) em nome de Angela Maria Farias da Silva, com sede na Avenida Paulista, em São Paulo (SP), aberta em abril deste ano.

Ilustração com uma mãozinha depositando uma moeda em uma caixa com o logo do Manual do Usuário em uma das faces, segurada por dois pares de mãos. Ao redor, moedas com um cifrão no meio flutuando. Fundo alaranjado.

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O problema de uma loja que vende iPhones ser uma MEI é que o teto de faturamento anual (R$ 81 mil) da categoria é baixo para uma operação dessa monta. Uma empresa de varejo que vendesse celulares por R$ 2 mil teria que vender no máximo 40 celulares, ou 20 celulares de R$ 4 mil. São volumes baixíssimos, incapazes de sustentar uma operação com tantos “atendentes”.

Print do cartão CNPJ da MEI atrelada ao Grupo Angela Faria.
Cartão CNPJ da MEI atrelada ao Grupo Angela Faria no site Reclame Aqui. Imagem: Receita Federal/Reprodução.

O Grupo Angela Faria está há cinco meses listado no Reclame Aqui. Nesse breve período, mais de 600 clientes já reclamaram da loja no site1A maioria deles não recebeu os celulares comprados. Muitos relatam outros problemas colaterais, como o envio de códigos de rastreamento dos produtos falsos ou errados, agressividade dos atendentes quando questionados e demora no estorno de valores após desistência do negócio.

No Instagram, o Grupo Angela Faria tem uma seção, intitulada #recebidos, em que exibe publicações de clientes satisfeitos. Em tom de deboche, os próprios clientes que receberam seus celulares dizem ironicamente terem “caído em um bom golpe”. Há vários relatos no YouTube, aparentemente reais, de clientes que receberam celulares, incluindo casos pedidos que chegam errado (às vezes, um melhor/mais caro que o comprado) ou com defeito. Sem surpresa, também há relatos de gente que jamais recebeu o celular comprado.

Honrar uma minoria de pedidos para dar legitimidade ao negócio e usá-los como defesa quando a maioria que não recebe o celular reclama é um expediente comum nesse tipo de esquema.

À esquerda, reclamações de consumidores lesados no Reclame Aqui; à direita, print de um story de um cliente supostamente satisfeito, debochando por ter "caído em um golpe".
Imagem: Reclame Aqui e Instagram.

O Grupo Angela Faria se defende, em posts no Instagram, dizendo que importa celulares e que por isso os prazos são mais dilatados. Também atribui à pandemia os atrasos. As compras, aparentemente, são feitas em lotes, e esse detalhe é recorrentemente usado pelo Grupo Angela Faria na tentativa de acalmar os clientes. Na última publicação feita no Instagram, por exemplo, a empresa afirma que “em decorrência de imprevistos de atrasos em algumas remessas” o envio dos produtos está atrasado, mas que até 20 de outubro todas as pendências serão regularizadas.

Uma tática antiga

Os vários indícios apontam que o Grupo Angela Faria pode estar replicando um esquema relativamente comum e que, de tempos em tempos, reaparece.

Em 2013, tivemos o caso da Neon Eletro, outra loja do tipo, sediada no interior de São Paulo, que se utilizava do mesmíssimo subterfúgio para aplicar golpes, incluindo a oferta de iPhones abaixo do preço de mercado. Na época, a Neon Eletro chegou a ter inserções comerciais em programas de auditório na TV de alcance nacional, em emissoras como SBT e Record.

No final de 2018, outra empresa, chamada Recebidos MS, repetiu o golpe e, segundo esta reportagem do Primeiro Impacto, do SBT, prejudicou mais de 2 mil pessoas. Em vez de merchã na TV, a Recebidos MS apelava a influenciadores digitais: nomes famosos nas redes como MC Guime, MC Kekel, MC Mirella, Cleo Pires, Jojo Todynho2 e outros receberam um então novíssimo iPhone X em troca do jabá.

Calotes em clientes do Grupo Angela Faria já apareceram no Fala Brasil, noticiário matutino da Record, em 15 de maio deste ano. Na ocasião, a reportagem foi até o endereço da empresa, mas chegando lá um funcionário do edifício informou não existir nenhuma com aquele nome. Também descobriu que o CNPJ anteriormente informado pela empresa era de outra pessoa, que havia perdido os documentos e não estava ciente da atuação do Grupo Angela Faria. No mesmo dia, o Grupo Angela Faria publicou uma explicação confusa no Instagram.

Em maio, após a veiculação da reportagem no Fala Brasil, o Procon-SP encaminhou um ofício ao Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania solicitando a instauração de inquérito contra o Grupo Angela Faria. O secretário de Defesa do Consumidor, Fernando Capez, afirmou na época que somente uma investigação poderia determinar o que acontece no Grupo Angela Faria — se se trata de lavagem de dinheiro, estelionato, crimes contra a defesa do consumidor.

Apesar da repercussão, o Grupo Angela Faria segue na ativa. Os anúncios acima foram publicados nos stories do perfil no Instagram na terça-feira (29).

O Manual do Usuário entrou em contato com o Procon-SP para saber o que aconteceu desde então e atualizará este post assim que tiver um retorno. Também pediu um posicionamento à Apple do Brasil, para saber se a fabricante tem ciência e mantém relações com a operação do Grupo Angela Faria. O post será atualizado quando a empresa responder.

Também questionei à assessoria da Apple se a empresa mantém algum vínculo com o Grupo Angela Faria. Por e-mail, a empresa disse que “não tem qualquer relação com o canal de vendas citado”.

O que fazer?

Se você topou com o Grupo Angela Faria e ficou tentado pelas ofertas de iPhones a preços muito abaixo da média do mercado, não caia nessa. Você pode até receber o aparelho, mas será à custa do prejuízo de muita gente. E, além disso, as chances são maiores de você ficar no prejuízo.

Caso já tenha pago pelo aparelho, o Procon-SP orienta que o consumidor lesado abra uma reclamação no órgão.

  1. Na quarta (30), quando comecei a escrever esta matéria, o número de reclamações no Reclame Aqui era de 364. Como a nova metade já apareceu com respostas, ela devia estar represada — não sei ao certo como o Reclame Aqui funciona nesse aspecto.
  2. Segundo a reportagem, apenas Jojo Todynho se retratou pelo post patrocinado fraudulento que fez e prestou ajuda às vítimas.

Edição 20#36

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12 comentários

  1. Eu comprei um 6s para teste em maio, recebi meu código com 52 dias úteis, o prazo era 40, fora os 5 dos correios, e chegou, aliás tive q ir pegar nos correios devido a pandemia e estava a um dia antes da greve, porém veio um 7 de 32gb, enquanto a nf, eu pedi dps q chegou, por causa do IMEI do celular e o modelo q chegou, até por segurança tbm, nossos dados n ficar rodando pelo Brasil. Eu vendi no dia seguinte lacrado mesmo e comprei o combo do xr + airpods, no tmp era “só” 20 unidades, e o prazo é de 60 dias úteis, q ainda faltam 1 mês pra bater, ainda n sei se valeu apena ter comprado novamente com eles pq ainda n bateu o prazo, porém eu qria muito um xr ou 11, e enjoei de android, e era o q dava pra comprar com o valor do xr q peguei com eles, manter o 7 iria ficar insatisfeito pelo espaço, tamanho e bateria. Mas ñ sei se diria ser golpe ñ, pq pelos atrasos q eles estão e o pulo de reclamações no RA (q na minha primeira compra n tinha e na segunda n era tantas por dia), eles já eram pra ter sumido, ñ era nem pra atualizar o site deles ou entregar alguns. Mas recomendo qm qsr comprar novamente, só invista dps da pandemia, ou melhor ainda, só ano q vem.

  2. cara queria agradecer a ti, li isso e decidi ir cancelar a comprar, tinha ido no banco hj de manhã pagar e fui correndo ir lá tirar meu dinheiro. Tipo tinha várias coisas que não estavam batendo e acho que a principal era o lucro que os celulares vendidos nessa página estariam gerando. Tipo eu ia comprar o Xr agora por 1500, mas não faz sentido algum porque nem com promoção um Xr de 128gb ficaria por 1500 nos EUA por transição direta ao real e se ficasse a gente tem que ter em mente que teria que ficar durante muitos momentos este preço para que pudesse ser praticado quase sempre este valor, além de que ele não ofereceria lucro algum. Eu não faço ideia de onde eles estão tirando esses iphones mas agora eu acho que tem algo errado mesmo. Mas de qualquer modo vou guardar mais agora e comprar por aqui mesmo.

  3. Minha namorada caiu nessa, eu avisei antes, eu avisei depois e avisei hoje mesmo.
    Mas quando a pessoa quer acreditar não tem nada que possa ser feito só depois que de errado apontar e falar “eu te disse” e um “Eu te avisei” em outras ocasiões e zoar a pessoa até o resto da vida.

  4. Quando a esmola è demais, o santo desconfia.

    Fora a possibilidade de ser um golpe, há outros riscos, como receptação de carga roubada, por exemplo.

    Eu mesmo já comprei um MP4 (sou velho) supostamente novo, mas quando conectei na USB encontrei fotos e músicas de outra pessoa. Sensação horrível, o barato que sai caro.

  5. Querem dizer que é golpe porque o GP Ângela Faria vende a preços mais baratos que do mercado em geral, o que é revoltante para outras empresas. Demora, mas chega sim. Toda empresa tem atrasos por conta da pandemia. Comprei produtos agora em período de pandemia em lojas “confiáveis’ como Netshoes e Casas Bahia e também atrasou o dobro do prazo e nem respondiam também após inúmeros contatos. Com várias lojas há problemas, mas reclamam do grupo por conta dos preços.

    1. Se alguém me explicar como eles conseguem vender mais barato que o preço que a Amazon ou a New Egg pedem eu acredito.
      Ah, eles compram em lotes, quem será que compra mais o grupo Ângela Faria ou a Fast Shop? O valor que eles anuciam nem com o dólar a R$4,40 dá par considerar real.

      1. Então , eu tava pensando muito em ser um calote , daí fui perguntando a várias pessoas e algumas me responderam que receberam , mais sem a nota fiscal , mais ao pedirem eles dão o prazo e entregam mesmo ! , Daí vem essa de que a Apple não tem parte nisso , vem da onde esses “iPhones” lacrados e olha se vem até você mesmo.

  6. Caramba, complicado ein. Recentemente tivemos o caso da 123 importados que vendiam tv de 4k por apenas 800 reais e apenas para pagamentos à vista. E no final nunca entregavam até que recentemente o dono foi preso e foi constatado que eles já estavam entrando no ramo de pneus também para aplicar o mesmo golpe. Ou seja, o modus operandi é sempre o mesmo.

  7. Há alguns anos tinha uma tal de @lucunha no Instagram que vendia iPhones nesse mesmo esquema, sempre em lotes com um atraso gigante. Do nada sumiu!

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