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Google+ (2011–2019)


2/4/19 às 8h30

Nesta terça-feira (2), o Google+, a malfadada rede social do Google, dá adeus à internet. Ela ficou no ar por mais de sete anos, um dado que, isoladamente, pode dar a entender que foi um sucesso. Só que não, porque o Google+, lançado em 28 de junho de 2011 como um lençol que cobriria todos os serviços e produtos do Google a fim de combater o Facebook e extrair, antes do rival, ainda mais dados das pessoas, na maior parte da sua existência foi a incômoda prova material do maior fiasco da história de uma empresa que, sim, erra muito, mas quase sempre em iniciativas baratas e discretas — o oposto completo do que foi o Google+.

O Google+ foi a quarta e mais ambiciosa tentativa do Google de dominar as relações pessoais na internet, sucedendo Orkut, Friend Connect e Buzz. A motivação da investida, como provaram os anos seguintes, era acertada — hoje, o Facebook é a única empresa com quem o Google divide uma fatia generosa do multibilionário bolo da publicidade digital. O brilhantismo da direção do Google, porém, ficou só na análise das ameaças externas. Todo o restante da história do Google+ foi um desastre proporcional ao tamanho das expectativas depositadas no projeto.

A primeira versão do Google+, restrita por convites, trazia diversos recursos já convencionados pelo rival azul, só que com a roupagem “clean” do Google. O único verdadeiro diferencial eram os círculos, uma maneira visual de organizar contatos a fim de que o usuário pudesse compartilhar conteúdos específicos para cada grupo a que ele pertencia — amigos, familiares, colegas de trabalho etc. O Facebook não demorou para copiar e melhorar a ideia, com a geração de grupos automáticos a partir do confronto dos dados do usuário com os dos seus contatos. Foi uma reação instintiva e temporal, mas que acabou revelando-se desnecessária. Passada a euforia inicial, os círculos foram rapidamente esquecidos junto com o próprio Google+.

Interface dos círculos do Google+.
Imagem: The Urban/Reprodução.

Em 2011, o Google já era um colosso da internet, então não demorou muito para que o número de usuários da sua rede social, por menos inspirada que ela fosse, chegasse às dezenas de milhões. No mesmo ano de seu lançamento, já contava com 90 milhões acessando-a pelo menos uma vez por mês. Não era o bastante. O plano para acelerar o crescimento consistia na inclusão de elementos da rede social em todas as propriedades do Google, forçando a adoção dela mesmo por aqueles que não estavam interessados em participar de outra rede social.

A agressividade com que o Google+ contaminou as propriedades do Google não passou batida pelos usuários. Do cadastro da Conta Google que passou a criar automaticamente um perfil no Google+, à desastrosa conexão com o YouTube que tentou impor uma política de nomes verdadeiros vinculados a perfis do Google+ no site de vídeos, passando pelo fim do Google Reader e o inócuo botão “+1”, que o Google dissimuladamente jamais confirmou nem negou ter impacto no ranking de páginas do buscador, é difícil lembrar de algo que tenha agradado à base de usuários.

Não demorou para que a fragilidade desta estratégia de crescimento ficasse escancarada, tanto empiricamente — como definiu o New York Times em 2014, o Google+ parecia “uma cidade fantasma” —, quanto objetivamente — já em janeiro de 2012, a comScore revelou que os usuários do Google+ passaram apenas 3,3 minutos interagindo no site, enquanto o tempo gasto no Facebook fora de 7,5 horas.

Em novembro de 2018, um ex-funcionário do Google confirmou o que muitos suspeitavam: que os times de produtos da empresa eram agraciados com adicionais que chegavam a triplicar o bônus anual se integrassem recursos do Google+. “Uma tonelada de dinheiro para arruinar o produto que você estava criando com lixo pesado que ninguém queria. Ninguém gostava disso”, relembrou Morgan Knutson, que na época trabalhava no Chrome. “Mas as pessoas engoliam esse ki-suco mesmo assim, em grande parte porque ele era verde e feito de papel [dinheiro]”.

A derrocada do Google+ começou em abril de 2014, quando Vic Gundotra, o executivo responsável e maior entusiasta da rede social, deixou o Google. A lacuna na liderança gerou um esvaziamento do status da rede social na empresa grande o bastante para ser notado mesmo do lado de fora.

Um ano mais tarde, o Google+ passou por uma reformulação visual que destacou as comunidades. À maioria, funcionou como um lembrete de que a rede ainda existia.

Em outubro de 2018, o Google informou que encerraria o Google+ em agosto do ano seguinte devido ao baixo engajamento — 90% das visitas duravam menos de cinco segundos. Enterrado no anúncio, também confessou uma falha grave em uma API que expôs dados pessoais de dezenas de milhões de usuários e que foi mantida em sigilo pela empresa  por mais de um ano. Horas antes, porém, o Wall Street Journal já havia antecipado a notícia — com o devido destaque. Em dezembro, outra falha em API encurtou a sobrevida do Google+. A nova data, 2 de abril de 2019.

O Google+ não deixará saudades a ninguém. A rede social foi um dos maiores símbolos da opulência e arrogância das grandes empresas de tecnologia e talvez a investida mais mal disfarçada de captura dados de usuários pelo lucro em uma roupagem de “conectar as pessoas”, “unir o mundo”, aqueles mantras cansativos e cada vez mais descolados da realidade comuns no Vale do Silício. Para o Google, foi uma distração cara, mas que não o tirou do caminho para se tornar umas das empresas mais valiosas do mundo e das mais vorazes na coleta de dados pessoais para fins de segmentação de anúncios. Seria legal poder dizer que a derrocada do Google+ representou uma vitória contra esse modelo de capitalismo de vigilância. Infelizmente, o fim do Google+ não teve nada a ver com isso.

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13 comentários

  1. Eu até gostava do Google +porque havia comunidades sobre algumas custom roons alternativa à original da Samsung. Com conjuntos de ícones e protetores de telas. Mas só. Depois que mudei pro Oneplus não vi mais necessidade.

  2. Excelente, parabéns pelo artigo. Acompanhei essa linha do tempo desde o início como entusiasta, em parte porque me faltava um componente crítico em relação ao Google no que diz respeito às questões de privacidade.

    Vale citar que as comunidades do G+ se tornaram importantes canais para desenvolvedores de aplicativos. Diversos apps pra Android por ex mantinham comunidades para acompanhamento do desenvolvimento, sugestões, reporte de bugs e etc. Diferentes dos odiosos grupos do Facebook, algumas comunidades do G+ reuniam um público específico e engajado.

  3. Queria que todas as redes sociais copiassem os círculos na cara dura! Uma das melhores coisas do G+.

    Confesso que gostava de entrar lá de vez em quando, mesmo só vendo posts meio antigos. Quem sabe o Google não investe em outra rede social no futuro. Como o Inbox: começa pequeno, vai crescendo aos poucos, só no boca a boca. Sei lá…Mas duvido que o Google deixaria viver por muito tempo. Se não faz sucesso em algum tempo eles já matam, então…

  4. Deixando de lado as imposições do Google e a questão da privacidade, foi, de longe, a melhor rede social já criada.
    Era mais que isso: um lugar para adquirir e receber conhecimento.
    O espaço mais bem frequentado da internet.
    Difícil não existir uma comunidade para algum assunto, principalmente sobre tecnologia.
    Sempre recorria ao G+ pra me inteirae sobre diversos assuntos. Foi lá que surgiu a comunidade DuDroid, que se converteu no canal Dudu Rocha só YT, um dos melhores para reviews.
    Fará falta…

  5. Nunca me acostumei com a interface e olha que desde de 98 navego por cada coisa mal desenhada…

  6. O google+ vai me deixar saudades sim.
    Lá tinha as melhores comunidades de smartphones. No facebook tem várias, mas são todas poluídas.
    Lá tbm tem as melhores comunidades de ícones, wallpapers, personalização de android e fotografia. Tudo sem a poluição do facebook e sem o haterismo do Reddit.