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Fadiga de novidades

Colagem das várias telas de novos recursos mostradas na abertura da WWDC 2021.

Nos eventos públicos da Apple, a empresa costuma encerrar cada segmento com um slide repleto de quadrados e retângulos que destacam as principais novidades apresentadas, uma espécie de resumo em uma página só. Na abertura da WWDC, nesta segunda (7), vimos vários desses slides e isso me deixou um pouco ansioso.

Fiquei pensativo, depois, tentando encontrar a fonte daquele incômodo. E acho que cheguei a um resultado: uma fadiga de novidades, de novos recursos que terei que aprender — a usar ou a ignorar —, de mudanças arbitrárias no meu fluxo de trabalho apenas porque a Apple, em algum momento, decidiu que ciclos anuais para grandes atualizações era “melhor” (não disse para quem).

Foi-se o tempo em que atualizações de sistemas operacionais, o software básico de qualquer computador, eram espaçadas (de três a cinco anos) e, por isso, representavam grandes rupturas. Hoje, esses ciclos são mais curtos, anuais, e lembram mais uma esteira de novidades e alterações que nunca é desligada.

Não se trata de ser avesso a toda e qualquer mudança. Mesmo nos últimos anos, beneficiei-me de várias delas no iOS e no macOS. (E, tenho certeza, quem usa Android, Windows ou Linux também deve ter curtido uma ou outra novidade das versões mais recentes.) Adorei o indicador de volume do iOS 13 e o sistema que “dedura” apps que coletam dados pessoais do iOS 14/14.5, por exemplo.

Por outro lado, demorei a atualizar o computador para o macOS Catalina porque ele quebraria a compatibilidade com aplicativos 32 bits, forçando uma despedida precoce do aplicativo abandonado, mas eficiente, que usava para editar podcasts. Na versão seguinte, Big Sur, vimos um redesenho drástico da interface, agora parecida com a de um celular porque sim, e falhas graves em alguns computadores mais velhos atualizados de imediato. Por isso, demorei outra vez a atualizar o meu. Tem coisas do iOS que eu nunca usei, como aquela Biblioteca de Apps do iOS 14, e outras que pretendo não usar, como os novos perfis de “Foco” do vindouro iOS 15.

No evento desta semana, muitas novidades vieram com dependências e condições que desnorteiam até quem acompanha tudo isso mais de perto, como é o meu caso. Na ânsia de integrar e justificar seu ecossistema, a Apple parece disposta a centralizar ainda mais todas as atividades que se desenrolam em suas plataformas e nos dispositivos mais novos. Você terá esse e aquele recurso novo apenas se tiver um computador com chip M1, e essa outra coisa legal exige que você tenha um Apple Watch, e essa outra que se use o iMessage e… ufa.

Como disse no calor do momento, todos aqueles anúncios parecem ótimos, mas só se você estiver totalmente mergulhado nesse ecossistema a ponto de usar o iMessage para conversar com família e amigos. Se não for o caso, sobram migalhas interessantes e, entre elas, um ou outro caroço mais difícil de engolir.

Veja, atualizações são importantes, diria até que necessárias. Não só pelas correções e melhorias técnicas, mas para refletirem mudanças sociais e as expectativas das pessoas e, ao mesmo tempo, para responderem a concorrência. (Chamou-me a atenção o tanto de coisas que a Apple mostrou que são versões suas de produtos e serviços do Google.) Lutar contra isso seria míope, desconectado da realidade. Mas talvez pedir ao motorista para pisar menos no acelerador… não? Ou assim espero?

O lado bom dessa história é que, pelo menos até agora, boa parte dessas novidades tem sido ignorável. Apesar da carinha diferente do macOS Big Sur, ele não difere muito no modo de usar do Catalina, a versão anterior. Nem sempre é o caso. Para ficar em um exemplo externo, a última versão do Gnome (40), um ambiente gráfico para Linux muito popular, reformulou radicalmente a interface e, com isso, o modo de usar o computador.

Muita gente defende que software é ferramenta. Eu discordo dessa premissa, por vários motivos, mas às vezes gostaria que meu computador se assemelhasse mais a uma marreta do que a um organismo vivo: sempre ali, do mesmo jeito, pronto para a ação, da maneira como eu me lembro e acostumei-me a usá-lo.

PS: Foi um evento tão extenso e atulhado de recursos que as tradicionais edições resumidas que sites norte-americanos fazem ficaram enormes. O do The Verge tem 23 minutos, o maior desde que eles começaram a fazer isso, em 2013, e bem acima da média dos oito anos anteriores (13min30s). Pode ser que o editor tenha se empolgado em 2021, mas, enquanto assistia às quase 2 horas de evento, pensei no trabalho que ele teria em resumir tanta coisa em tão pouco tempo.

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10 comentários

  1. Eu compartilho da mesma ideia, principalmente sobre a “marreta”. Um dos motivos de eu ter abandonado a área de TI foi justamente este, o da mudança abrupta do rumo das coisas. Reconheço que sempre tive dificuldade em me adaptar a mudanças (só um exemplo engraçado, minha mãe conta que quando chegava o verão eu não queria tirar as roupas de inverno, e vice-versa) e muitas vezes me sentia “perdido”. Quando estava começando a dominar uma coisa, algo novo surgia e eu me sentia meio que sem saber o que fazer. Novamente reconheço que a culpa, em parte é minha, por criar estas confusões mentais. Mas não me sentia confortável, e com isso caí fora, pulei de galho em galho até chegar na minha atual profissão (marceneiro). Na área da marcenaria as coisas não mudam do dia para a noite. A marcenaria clássica é a mesma há séculos, e isso me faz ficar bem mais tranquilo.

    Mas, mesmo tentando ver a situação “tirando de campo” os meus sentimentos, ainda assim acho que realmente as coisas são muito aceleradas e bagunçadas, todos querem fazer o que os concorrentes fazem para não perder nada. Todos copiam tudo, Apple copiando Google, Google copiando Instagram, Facebook copiando Spotify, Instagram copiando o “aplicativo do fantasminha que não lembro o nome”… e com isso ao invés da gente ter “novidades” mais pontuais, somos mergulhados em trocentas atualizações que na grande maioria das vezes não nos interessam e acabam por apenas “inchar” e bagunçar o que já conhecemos, usamos e gostamos.

    1. Diego, que maravilha saber de alguém que trocou a TI pela marcenaria, e que você está mais feliz hoje. Penso um bocado sobre isso, viver uma vida e uma profissão mais analógicas.

  2. Eu gostei dos perfis até: com o trabalho em casa, acabei acumulando alguns apps no celular obrigatórios (bater ponto, ser notificado de eventos, etc), então gostei da ideia de ter apps focados pra certas horas do dia mesmo. Mas também admito que foi a única coisa que eu aproveitei desse evento – as novidades à lá Google Lens são meio indiferentes pra mim, e a parte de Shortcuts no Mac não me afeta muito – eu ainda não sei direito como aproveitar de uma forma útil os atalhos do iOS.

  3. Falando em preguiça, acho que quem tá morto de preguiça é o designer de wallpapers da Apple. A cada ano só piora.

  4. “Muita gente defende que software é ferramenta. Eu discordo dessa premissa, por vários motivos…”

    Eu gostaria de ler um post seu falando mais sobre isso.

    1. Uhhh, esse assunto é um daqueles fundamentais e complexos de se abordar. Posto de outra forma, rejeito a premissa de que software é ou possa ser “neutro”, que a gente costuma ouvir, por exemplo, quando alguém reclama de estar viciado no Instagram ou no Twitter, como se o software não tivesse papel nesse problema e a culpa fosse só do usuário.

  5. Isso tem um outro motivo muito forte: vender! Você precisa de hardware novo para aproveitar a novidade! precisa de novos gadgets para ter todas as funcionalidades! Você precisa do ecossistema completo para ter “A experiência” (lembram dessa?? hahaha).
    Eu sempre achei isso tudo uma bobagem! Pulei pro KDE justamente por que o Gnome tornou-se muito obtuso… virou um ambiente que preciso adaptar-me ao invés de adapta-lo ao meu modo de trabalho.
    E quanto a Apple já vejo a algum tempo o pessoal reclamando que o OSX tá ficando cada vez mais pesado

    1. O ímpeto de “vender” está na raiz de tudo que a Apple — e, convenhamos, que qualquer empresa — faz. Não encarei a abertura da WWDC por esse viés, porque isso sempre ocorreu e, consideradas as circunstâncias, a Apple preserva hardware antigo por mais tempo que praticamente qualquer outra empresa — vide o iPhone 6S, de 2015 (!), que ainda receberá o iOS 15.

      O que mais pegou em mim, fora o volume de novidades, foi a centralização de recurso e dependências extras para que eles funcionem como o pretendido. Para usufruir dos recursos do iOS, por exemplo, não basta mais ter apenas um iPhone; você precisa de um Apple Watch, usar os aplicativos da própria Apple e assinar os vários serviços que a Apple oferece.

  6. Entre em um grande site de e-commerce nacional ou desses chineses que invadiram nas propagandas da TV e fique espantado se não achar nenhum banner ou anúncio com a palavra “promoção”, “XX% off”, “últimos dias de oferta”, “liquidação”, etc.
    As empresas de tecnologia estão assim também, grandes mudanças que eram anuais agora são pequenas mudanças com grande frequência. Querem roubar nossa atenção (e dinheiro) o tempo todo.

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