Como é usar iPhone e Mac juntos.

Mergulhado no ecossistema Apple: As vantagens de se usar iPhone e Mac juntos


9/3/16 às 22h01

Estava me preparando para escrever sobre a experiência de usar a dobradinha Mac e iPhone, aquilo que a Apple vende como ideal e faz questão de exibir em suas apresentações de produtos, quando uma onda de críticas ao iOS e OS X tomou conta de sites estrangeiros.

Dizem os críticos que o software da Apple não está em sua melhor forma. Além de bugs ocasionais e alguns bem graves em certos cenários, o polimento e a liderança em inovação, marcas da empresa, teriam sido deixados de lado. O que está acontecendo?

Software, a parte que você xinga

Antes do mérito, é preciso entender a natureza do software. Friamente falando, é um punhado de linhas de código executadas numa máquina para cumprir determinada função. É muito simples, até para leigos em programação, entender um algoritmo que tire a média simples de alguns valores. Já o outro extremo, um sistema operacional, envolve mais complexidades e está fora do alcance da maioria. Nesse caminho não é só a compreensão que fica mais difícil; a manutenção e os acertos, também.

Há outros dilemas envolvidos na criação de software. Diferentemente do hardware, “a parte que você chuta”, é mais difícil escalar a produção de software. No hardware podem ocorrer constrições nas linhas de produção, como já vimos acontecer com o iPhone, fornecedores que dão cano, investimentos que afetam o fluxo de caixa e colocam a operação em risco. Essas e outras barreiras, porém, são mais difíceis de serem atingidas e têm soluções que, embora nem sempre sejam fáceis ou baratas, são bem claras: acrescente mais funcionários à folha de pagamento, erga uma nova fábrica, aumente e/ou diversifique os pedidos junto aos fornecedores. Resultado: mais hardware para vender.

Toda essa lógica não se aplica ao software. Dobrar a quantidade de programadores não se traduz necessariamente no dobro de linhas de código produzidas. E, com mais mãos mexendo em algo tão sensível a erros, elas aumentam substancialmente as chances de que software problemático chegue às mãos dos consumidores.

Por fim, e voltando à Apple especificamente, raramente o software caminha com suas próprias pernas depois de pronto. É preciso dar manutenção, corrigir bugs, oferecer mais recursos a fim de se manter competitivo e, na medida em que o hardware se expande e varia, criar mais software, aumentando toda essa carga de trabalho recorrente.

Após nove versões do iOS e onze grandes do OS X, com mais dispositivos do que jamais teve usando os dois sistemas, sem falar no watchOS, tvOS e em todos os apps que povoam esses sistemas, a Apple tem bastante software para cuidar. O ciclo anual de atualizações auto-imposto gera uma pressão que, em alguns casos, resulta em lançamentos precoces. A regra de ouro do Windows, de atualizar para uma nova versão somente após o primeiro Service Pack ser disponibilizado, de certa forma passou a valer para a Apple nos últimos anos — só migre de versão após a X.0.1 sair. Não é o único paralelo com aquela Microsoft histórica, quase caricata, e a Apple atual.

casos pontuais de catástrofes ocorridas no uso de software da Apple, bem como pequenas queixas em funções corriqueiras que, sanadas, tornariam a vida dos usuários mais agradável. É inegável que problemas existem, da mesma forma que muita coisa que pode ser melhorada. O bom e, ao mesmo, tempo, ruim do software é a capacidade de disparar atualizações a fim de corrigi-lo (ou assim se promete) e/ou melhorá-lo. É isso o que todos esperamos não só da Apple, mas de todos que produzem software.

A minha ideia de pauta original continua valendo. Quando me vi usando o combo Mac e iPhone no dia a dia, decidi experimentar o que a Apple oferece em sua plenitude. Quis mergulhar nesse ecossistema e descobri que, se não há nada de outro mundo ali, nenhuma vantagem muito esmagadora sobre o que Google, Microsoft e apps de terceiros oferecem também, no mínimo tudo funciona bem e, vez ou outra, com alguns recursos realmente de ponta, ela é capaz de mostrar por que, apesar da fama que tem hoje com seu hardware, a Apple ainda é capaz de surpreender com software também.

O que a Apple tem?

Craig Federighi na WWDC 2014.

O acervo de apps da Apple é bastante completo. Quem se dispõe a fazer o que estou fazendo se vê bem servido, sem muitas lacunas para preencher nas lojas de apps e sites de downloads. Para as tarefas mais mundanas existem apps nativos tanto no OS X quanto no iOS; em muitos casos os mesmos nas duas plataformas — e isso é importante a fim de propiciar uma boa integração entre ambas.

Escrevi este texto inteiro no Pages. Navego na web pelo Safari1, acesso meus e-mails no Mail e controlo minha agenda pelo Calendário. Notas rápidas e listas vão nos apps Notas e Lembretes, respectivamente. As fotos passei a organizar pelo Fotos e, com um upgrade barato de espaço no iCloud, somado a uma boa dose de paciência, migrei todas elas do Dropbox para a nuvem da Apple.

Alguns apps nativos acabaram deixados de lado. O iMessage tem pouco apelo num lugar onde +90% dos smartphones vendidos são Android e o WhatsApp é meio que onipresente. Nossa localização também me impediu de abdicar do Google Maps em prol do Apple Maps no iPhone. O iTunes acumula poeira em tempos de streaming e, pelo custo, o Spotify acaba sendo mais vantajoso que o Apple Music. A Lista de Leitura do Safari, embora faça mais ou menos a mesma coisa que o Pocket, faz de modo muito pior, não justificando a troca.

No geral, porém, estou usando mais apps da Apple do que de terceiros para funções que já são contempladas de fábrica pelos sistemas iOS e OS X.

O maior elogio e, ao mesmo tempo, grande crítica a ser feita é que eles são competentes e funcionais, mas não muito mais que isso. São apps contidos, sem muitos malabarismos, sem funções realmente avançadas salvo uma ou outra exceção. O Mail, por exemplo, carece de funções de triagem que em apps como o Mailbox são o núcleo da experiência. Mas ele funciona, de forma consistente e sem o risco de ser descontinuado amanhã ou depois. Essa é, aliás, uma das grandes vantagens dos apps first-party: a garantia de um futuro.

Em certos casos esse estilo contido é uma virtude — o famoso “não mexa no que está funcionando”. O Safari não tem todos os recursos avançados que o Chrome oferece, mas isso, nem de longe, faz dele um navegador inferior. Às vezes dizer “não” a uma função é melhor no quadro geral e no longo prazo. Se o objetivo for qualquer coisa diferente de usar o navegador como sistema operacional simbionte, um papel que o Chrome tem e que já assumiu de formas bem declaradas no passado, a lista de prioridades muda. No meu caso, renderizar páginas comuns com velocidade e sem impactar o desempenho geral e a autonomia da bateria está acima de rodar os últimos web apps que desempenham tarefas pesadas via web. Para esse cenário o Safari é melhor.

E tem-se os casos de apps simples que seriam beneficiados com funções avançadas mas que, sem elas, passam bem. Entendo perfeitamente quem precisa de listas de tarefas mais complexas, preparadas para métodos GTD e afins, ou apps de anotações com pesquisa automática de imagens via OCR ou integração com terceiros. Para mim, porém, só o básico já satisfaz. Para colocar em perspectiva, antes do Notas e Lembretes eu usava o Simplenote (e o Notation no Windows) para tudo — ele é praticamente um bloco de notas com pesquisa avançada e sincronia de dados na nuvem.

App Notas no iPhone 6s.
No iPhone…
App Notas no MacBook Pro.
…e no MacBook Pro.

Frente aos melhores apps de terceiros para as mesmas funções, os da Apple quase sempre perdem em quantidade de recursos e grau de avanço desses. Em elementos de interação também é raro ter alguma coisa da Apple que se destaque e dite tendência. O caminho costuma ser inverso: quando algo muito legal aparece num app de terceiro, numa próxima atualização do OS X e/ou iOS essa (já não mais tão) novidade acaba implementada.

Pessoalmente, não vejo nada de errado nisso. Hoje, com atualizações frenéticas enviadas a ambientes de produção em intervalos cada vez menores, um maior entre os apps que mais uso no dia a dia chega a ser desejável. São mínimas as chances de eu abrir um deles num dia qualquer e me deparar com algo radicalmente diferente, potencialmente prejudicial à minha rotina, do que acontece com um web app, ou com os apps do Google ou da Microsoft. Claro, tem o outro lado: problemas de usabilidade e carência de recursos demoram na mesma medida a serem resolvidos. Não existe abordagem perfeita.

Fotos, Continuidade e mais

Nesses poucos meses de uso, algumas funções chamaram a minha atenção. Tentarei listar as mais legais.

No app Fotos, a simplicidade impera. Ele tem algumas ferramentas simples de edição, mas é bom mesmo em organizar e manter salvas as imagens. Algo que pode ser encarado como vantagem ou não é a forma como o Fotos se apropria dos arquivos. Ao importar imagens para o app, elas deixam de aparecer no Finder como arquivos esparsos. Em troca, porém, o Fotos organiza as fotos segundo diversos critérios úteis, como álbuns, datas e rostos, e a interface facilita a navegação por grandes coleções.

Configurações do app Fotos.
Fotos + iCloud = WIN!

Combinado ao iCloud, o Fotos fica ainda melhor. Existe uma forma de automatizar o espaço local usado por ele nos dispositivos, então se o seu iPhone tiver apenas 16 GB, o app ajustará o espaço usado de acordo com quantos gigabytes estiverem disponíveis — os meus 15 GB de fotos, por exemplo, se convertem em 2 GB no iPhone. Em vez de ter as imagens e vídeos na íntegra, o Fotos pega apenas uma miniatura, bem menor, para exibir na galeria; ao abrir uma dessas imagens parciais em tela cheia, o app baixa uma versão de resolução maior. É um recurso similar aos placeholders do OneDrive no Windows 8, só que exclusivo para fotos.

O vai-e-vem entre Mac e iPhone também reserva alguns facilitadores. Desde o Yosemite e o iOS 8 a Apple oferece uma série de recursos abrigada sob o nome de “Continuidade”. Tendo os dois dispositivos cadastrados com a mesma Apple ID, pode-se alternar entre eles sem perder ou recomeçar o que quer que se esteja fazendo. Com o Handoff, continuo escrevendo um e-mail, por exemplo, no Mac, do exato ponto onde parei quando estava no iPhone. Isso vale para a maioria dos apps nativos, embora não seja exclusivo deles.

Handoff do Safari num iPhone 6s.
Abrindo uma aba do Safari do Mac no iPhone…
Handoff do Safari num MacBook Pro.
…e abrindo uma aba do Safari do iPhone no Mac.

Recursos obviamente exclusivos de telefonia do iPhone, ligações e mensagens SMS, podem ser realizadas pelo Mac também graças ao Continuidade. Ao receber uma ligação, a mesma toca no Mac via notificação e pode ser atendida dali, usando o microfone e saída de som do notebook. Mensagens podem ser respondidas e enviadas da mesma forma.

Atendendo ligações do iPhone no MacBook Pro.

O último recurso do Continuidade é o Instant Hotspot, que compartilha a conexão móvel do iPhone com o Mac sem que eu precise fazer qualquer coisa. É prático, mas é preciso tomar cuidado — uma distração e o Mac, que em regra consome mais dados que o iPhone, pode acabar com a franquia de dados.

Fora do Continuidade, mas também útil no uso dos dois dispositivos (e para terceiros, também), existe o Air Drop. Alguns podem argumentar que é a reinvenção da roda, que Bluetooth já fazia isso no Windows XP com smartphones rodando Symbian, mas… ok, é verdade. Se existe algum mérito nessa solução da Apple, é que ela é bem mais fluida e fácil de usar. É um negócio direto, sem complicações e que, no pouco uso que faço, geralmente para transferir fotos mais rapidamente entre o iPhone e o Mac (em vez de esperar a sincronia do Fotos), funciona exemplarmente.

O iCloud coloca a nuvem na mistura e é a cola que junta partes menos diretas do iPhone e do Mac. Além do Fotos, apps como Notas e Lembretes são sincronizados via em tempo real, sem qualquer demora ou problema.

Qualidade, percepção e tranquilidade

Boa dobradinha.

A onda de críticas ao software da Apple provocou reações. Muitos dizem, e parece-me uma resposta consistente, que se trata mais de um problema de percepção do que de qualidade. Não existe software perfeito; como as reclamações são bem abrangentes, elas abrem espaço para toda a sorte de pequenos inconvenientes que vão além de bugs, que se tratam de decisões de design de novos produtos que, no fim, não agradam os usuários mais aficionados. Este comentário, pescado por Alexandra Mintsopoulos no Medium, resume a ideia:

Existe um motivo pelo qual o post “Functional high ground” do Marco [Arment] decolou, é porque ele era vago o bastante para que qualquer um pudesse projetar qualquer bug que estivesse acontecendo consigo.

O referido post é de janeiro de 2015, o que demonstra que essa agenda é cíclica e, nem de longe, nova. Meses depois o próprio Arment admitiu que boa parte da motivação para escrever aquele post era um bug na interface de rede do OS X, corrigido na versão 10.10.4.

Percepção ou qualidade à parte, o único aspecto decididamente ruim de se jogar no ecossistema da Apple é que o caminho de volta se torna difícil. Não são só as fotos que ficam “presas”, sem que os arquivos soltos estejam ao alcance do usuário através do Finder. Os arquivos de texto do app Notas também não são exportáveis ou salvos em um formato simples2, os contatos salvos no iCloud só funcionam com dispositivos Apple, os formatos de arquivo da suíte iWork (Pages, Numbers, Keynote) são proprietários. Sair dali com todos os seus dados não é algo impossível, mas certamente é mais difícil do que de outras soluções menos opressivas nesse sentido.

É um investimento que vai além do (alto) custo que os próprios equipamentos têm. Em troca de comodidade e das vantagens da integração, é preciso ceder um bom pedaço da autonomia dos seus dados. Eles são seus e não há motivos para achar que a Apple ou algum terceiro vá fazer bobagem com eles, mas tudo fica mais nebuloso em formatos e apps proprietários. Há que se dar um voto de confiança maior e, até que se acostume, é meio estranha a sensação de ter menos controle sobre algo que esteve sempre ali, ao alcance de um pen drive e exportável para qualquer outro sistema.

Se indico isso a alguém? Sim. Da mesma forma que indico as soluções equivalentes do Google, da Microsoft e diversos apps de terceiros como Dropbox, Everalbum (para fotos), Simplenote (anotações)… Nunca estivemos tão bem servidos de sistemas que automatizam e facilitam a captura, acesso, guarda e proteção dos nossos dados. Tanto que a maior dificuldade, hoje, é escolher entre tantas boas opções. Faça a sua aposta, trabalhe um pouquinho a fim de configurar esses sistemas e relaxe — se conseguir fazer isso, terá sido uma boa escolha.

  1. A única coisa realmente frustrante no Safari é um bug estranhíssimo para resolver links encurtados do Twitter (t.co). Às vezes demora minutos para que um funcione.
  2. Embora exista um app para isso, o gratuito Exporter for Notes.

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