Opinião

Sobre empresas que capitalizam suas ações para conter o coronavírus — ou: o álcool gel da AmBev

Garrafinha de álcool em gel da AmBev com a marca da cervejaria censurada por uma tarja preta.

Já faz algum tempo que Marc Benioff, cofundador e CEO da Salesforce, um titã norte-americano do software corporativo, prega a ideia de um “capitalismo consciente”. Nunca deram muita bola a ele. A pandemia do coronavírus pode ser a ocasião dramática em que, se não sua voz, sua ideia ecoará por aí. Adianto já que não é a conversão de fábricas de cerveja em produtoras de álcool gel que mudará nossa percepção. É mais complicado que isso.

As grandes empresas de capital aberto, naturalmente sob os maiores holofotes e com mais poder econômico, estão se mobilizando para ajudar a conter a pandemia. São ações internas, como liberar funcionários para trabalharem de casa, e externas, como a criação de fundos milionários de apoio a colaboradores e pesquisadores e as já notórias linhas de produção de suprimentos essenciais na linha de frente do combate, como álcool gel, máscaras e jalecos, criadas do dia para a noite.

Muitos governantes, como a chanceler alemã Angela Merkel, estão comparando — acertadamente — a atual crise às das duas grandes guerras do século XX. Naquelas ocasiões também, o empresariado atuou ativamente no apoio dos esforços de guerra. Hoje o inimigo é outro e, consequentemente, são outras as armas para derrotá-lo. Outra diferença é o papel das empresas neste cenário. Há oitenta anos, elas eram muito menos poderosas e influentes.

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Em 2020, várias empresas têm faturamento superior ao PIB de muitos países. Declarações de CEOs das maiores companhias têm o peso das de chefes de estado. Seus produtos e serviços alcançam populações maiores que a da China, país mais populoso do mundo, e, dessa forma, moldam o comportamento humano de maneira inédita em nossa história. Com uma indiscutível ajuda de alguns presidentes e primeiros ministros perigosamente inaptos, hoje as pessoas confiam mais em empresas do que em governos. Vivemos em um mundo S/A, como sugere — provavelmente não do modo literal como defendo aqui — o título daquela revista.

É curioso, no mínimo, que muitas das ações tomadas por essas empresas decorram de problemas criados por elas mesmas. As plataformas de carona e entrega de refeições, por exemplo, gastam toneladas de dinheiro com advogados e lobistas a fim de garantirem, nas esferas legislativa e judiciária, que seus motoristas e entregadores não sejam classificados como funcionários.

À luz do coronavírus, essas mesmas plataformas — 99, iFood, Rappi, Uber — anunciaram fundos para bancar “parceiros” contaminados ou que tenham que ficar em quarentena. Fossem funcionários de fato, eles já teriam, por padrão, garantias que há décadas a legislação trabalhista provê, como o afastamento remunerado por doença. Garantir uns trocados a quem dirige de dia para jantar à noite e que, de repente, se vê impedido de trabalhar, é o mínimo do mínimo. Esses pagamentos, porém, não alcançam os muitos que não ficarão doentes, mas terão uma queda brutal de renda decorrente das medidas pró-quarentena que reduzem a mobilidade nas cidades.

Essas empresas merecem aplausos?

Outra faceta da crise é a maneira como a publicidade permeia ações ditas voluntariosas. Não há ganho direto, mas um impulso na imagem da empresa. A AmBev, fabricante de bebidas alcoólicas, fabricou 500 mil garrafas de álcool gel para distribuir, sem custo, a hospitais públicos das cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Fez o maior estardalhaço, uma campanha publicitária para divulgar a ação e, nos bastidores, convocou outros empresários para bancarem os custos de novos lotes. Em troca, eles poderiam estampar suas marcas nos rótulos. Fosse filantropia de fato, não deveria ser desinteressada, ou seja, desprovida de qualquer contrapartida?

A situação das empresas de redes sociais é ainda mais flagrante. A postura historicamente negligente delas ajudou a dar voz a movimentos negacionistas de toda a sorte, dos antivacinas ao da Terra plana, sem falar nas influências indevidas a eleições democráticas espalhadas pelo globo que levaram ao poder pessoas que, neste momento crítico, pioram sobremaneira um cenário que seria difícil mesmo com grandes líderes no comando. Tudo isso está sendo ignorado temporariamente porque essa mesma tecnologia nos aproxima, algo que não tem preço quando abdicar do contato físico é a maior contribuição que cada um de nós, indivíduos, pode fazer na contenção da crise. Apesar de tudo, seguimos usamos o Facebook, o Twitter, o WhatsApp.

Em outra área dentro da tecnologia, perdi as contas de quantos serviços por assinatura — de streaming, jogos, exercícios físicos, cursos online, ferramentas de trabalho remoto — abrandaram ou mesmo removeram os custos de acesso para, em tese, tornar mais palatável o auto-isolamento e o trabalho remoto. O que não encontrei, ainda, foi um desses serviços fazendo a oferta sem pedir cadastro, com dados que se transformam em “leads” (clientes em potencial) e que, passada a pandemia, certamente serão explorados para converterem os agraciados com a benesse em assinantes pagantes.

(Não coloco na discussão os empresários que ameaçam funcionários de demissão e os genocidas que encaram milhares de mortes como externalidades que não deveriam afetar os negócios. Aqui cruzamos a linha do inaceitável e a esse povo, desejo apenas o ostracismo.)

Todos esses conflitos éticos não surgiram com o coronavírus. Respiramos capitalismo e da mesma forma que não notamos o oxigênio que nos é vital, também ignoramos essas relações espúrias, normalizadas em nossa sociedade, mas nem por isso justas. É irônico, até tragicômico, ver um banqueiro ir a público para dizer que o governo deve investir quantias obscenas de dinheiro público para que problemas sociais como o desemprego e a fome não nos levem ao colapso. Ele está parcialmente certo. Estaria por completo se reconhecesse que ele e a sua empresa são uma parte enorme do problema. Sempre foram e, se nada mudar, sempre serão.

Trégua

O filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard lançou as bases do movimento que, mais tarde, seria chamado existencialismo. Em linhas bem gerais (não sou filósofo nem me dedico a esses estudos, então releve o meu jeito), ele se debruçava sobre a impossibilidade de tomarmos decisões éticas ante as incertezas do mundo. Kierkegaard dialogava muito com a Igreja para debater a ética. Àquela altura, meados do século XIX, a Igreja era a grande força moral da sociedade. Fosse vivo hoje, é bem provável que o filósofo se voltasse a outra deidade moderna para filosofar, o mercado. Os paralelos estão ali, evidentes — a adoração ao capital, os rituais dogmáticos das bolsas de valores; basta acreditar e se esforçar que você será recompensado.

Em um dos seus escritos, Kierkegaard analisou a ética por trás do pedido de Deus a Abraão, exemplo de homem ético, para que ele sacrificasse seu filho como prova de fé. Se Abraão se negasse a fazê-lo, estaria negando a seu Deus; se cumprisse a promessa, cometeria um ato condenável dentro da ética que lhe norteava. Não havia espaço para discussão e não se tratava de um problema sanável com heroísmo — quando sacrifícios são feitos, mas sempre dentro do plano ético.

A saída encontrada por Kierkegaard a este paradoxo foi o que ele chamou de “suspensão teleológica do ético”, uma situação excepcional que anula preceitos éticos e se resolve com o já citado “salto no escuro”. Abraão estava determinado a matar seu próprio filho, mas Deus o impediu no último instante, revogando o pedido que lhe fizera, satisfeito apenas com a decisão que seu seguidor demonstrou.

A pandemia de proporções bíblicas criada pelo coronavírus seria, ao nosso fictício Kierkegaard de sapatênis e celular na mão, um caso de “suspensão teleológica do ético” em relação às grandes empresas. O modo como elas se estruturaram e cresceram para, hoje, serem protagonistas na luta contra uma terrível ameaça deve ser questionado? Sem dúvida. Elas vão se aproveitar da situação para lucrar, fazer publicidade, implementar boas ações sempre esperando algo em troca — em resumo, agir como sempre agiram? Sim. Mas é o que tem para hoje, é o que o mundo que criamos nos permite. É uma lástima.

Essa suspensão temporária não significa capitular, nem mesmo dar carta branca às empresas. É preciso redobrar a atenção para que ações tomadas no calor do momento não gerem consequências danosas de longo prazo. Porque, depois que a pandemia passar, será imperativo voltar a combater a incursão violenta do capitalismo em todas as esferas da vida, uma marcha que ameaça nos transformar em consumidores 24 horas por dia e moldar cidades — “smart cities” — aos interesses de poucas grandes empresas. Não precisa ser assim; estaremos melhor se não for assim. Agora, porém, aquele álcool gel da cervejaria com patrocinadores no rótulo poderá salvar vidas. E é isso o que importa no momento.

Edição 20#9

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3 comentários

  1. Não podemos perder de vista que capitalismo, socialismo, comunismo e outros”ismos” do tipo são categorizações que fazemos a posteriori, para melhor entendermos e estudarmos como as sociedades se organizam.

    Por isso dentro dessa categoria que chamamos de capitalismo cabe vários sistemas que podem até ter mais pontos de diferença do que de semelhança. Em uma análise muito superficial e direta, eu diria que o capitalismo é extremamente poderoso em gerar riqueza, concentrar riqueza e exaurir os recursos naturais.

    O desafio de todos os países é aumentar ao máximo a distribuição de riqueza e diminuir ao máximo o uso de recursos naturais sem diminuir a capacidade de gerar riqueza. Como fazer isso e qual o peso de cada um desses fatores é uma receita individual de cada país e ainda sujeito às características de cultura e limitações e/ou potencialidades de cada um. Ou seja, uma mesma “receita” aplicada a países diferentes geram resultados diferentes.

  2. Fala Ghedin,

    Sobre uma outra forma de capitalismo ou capitalismo “consciente” (se é que isto existe ou vai existir um dia, se existir, o momento é agora) tem duas fontes que me agradam muito: o documentário do Robert Reich “Salvando o Capitalismo” (original Netflix) e o livro da economista Kate Raworth “Economia Donut”.

    Não são sonhadores, ambos tem currículos impecáveis e idéias provocativas, que valem conhecer.

    Até,

    Ricardo

  3. Por incrível que seja, o único exemplo que encontrei de oferta de serviço por assinatura (streaming) que não exige cadastro ou login é o Audible Stories, da Amazon: https://stories.audible.com/start-listen .
    Obviamente a Amazon possui outros meios para obter os dados dos usuários, mas a não exigência de cadastro torna possível usar o serviço de forma anônima.

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