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Bloco de notas 20#9: Coronavírus coloca a nossa privacidade em xeque

Notinhas, impressões pessoais e curiosidades do mundo da tecnologia.


Olá,

Segunda-feira fui ao mercado. (Da série eventos ordinários que viraram grandes aventuras em 2020.) Apesar dos funcionários e uns poucos clientes usando máscaras, de resto a situação aparentava normalidade. Comprei mantimentos para duas semanas, o dobro do que costumo levar, e por isso pedi um carro para voltar para casa.

Livros recomendados pelo Manual do Usuárioo

Fui atendido por um motorista muito solícito, que me ajudou a colocar as compras em uma caixa a fim de facilitar o desembarque. Antes mesmo de começar a corrida, ele reclamou da Medida Provisória publicada pelo presidente na véspera, na calada da noite, com um artigo que permitia às empresas dispensar funcionários por até quatro meses sem direito a salário. (Horas mais tarde, o artigo foi revogado pelo próprio presidente após uma chuva de críticas.) Não era algo que o afetava diretamente, mas a notícia o deixou visivelmente preocupado.

Perguntei ao motorista como estava o movimento. Péssimo, ele respondeu, estimando uma queda de 80–90%. Era perto das 11h da manhã e eu era apenas o seu segundo passageiro do dia, que ele havia iniciado às 6h. O aplicativo no qual o chamei dará uma ajuda de custo de R$ 300 para os motoristas que ficarem de quarentena. Para os demais, saudáveis e na ativa, nada.

Histórias como essa já são comuns e deverão ganhar contornos de dramaticidade na medida em que a crise da pandemia se desenrola e seus efeitos, se acentuam. É difícil imaginar alguma categoria que esteja tranquila; talvez os acionistas do Zoom, o app de vídeo conferência que explodiu em popularidade desde o início da pandemia. De qualquer forma, se existe alguém tranquilo, é uma minoria formada por gente muito rica e/ou gente muito ignorante.

Penso muito nisso, em como o impacto social — que vem numa segunda onda, após a sobrecarga na saúde — será brutal. Penso nos que serão afetados, naqueles sem reservas de emergência ou redes de apoio. Esqueço-me sempre que o meu negócio tampouco passará incólume e que, longe (muito longe) de ser um gasto de primeira necessidade, as assinaturas, que são a base da receita já deficitária deste site, poderão minguar.

O Manual do Usuário pensa além dos bits, do hardware e das cifras. A preocupação com o ser humano e o social está presente em tudo que eu publico, gravo e indico aqui. Mais que isso, é o que move este site, é o que me move. Tal postura transcende o editorial; está, também, no modelo de negócio. Desde o reinício de 2019, abdiquei da publicidade invasiva, que é padrão hoje na indústria e tanto mal nos faz, para apostar em assinaturas pagas pelos leitores mais interessados e em melhor condição financeira. Criamos, assim, uma relação direta e de confiança, reforçada diariamente nos comentários e conversas que mantemos e, a cada mês, com o envio dos relatórios de transparência.

Como dito, estamos entrando em um momento turbulento para toda a economia. Se você tiver o menor receio de que qualquer trocado fará falta nos próximos meses, ignore esta mensagem e siga comigo aqui no Manual; superaremos essa fase. Mas, se a sua situação permitir, considere assinar o site.

A assinatura custa a partir de R$ 9 por mês, te dá acesso aos bastidores e — novidade! —, a partir de abril, a concorrer ao sorteio de um livro por mês. Pagando a partir de R$ 16, você ganha acesso ao grupo do Telegram, onde conversamos sobre tudo.

A assinatura pode ser feita no Catarse ou no PicPay; o preço não muda, mas no PicPay as minhas taxas são bem menores (1,99% contra 13% do Catarse).

Obrigado!


Coronavírus coloca a nossa privacidade em xeque

Alguns países até agora bem sucedidos no achatamento da curva de contágio do SARS-CoV-2 alcançaram tal resultado com uma arma moderna controversa: vigilância digital pesada da população. Ao mesmo tempo, já há vários registros de abusos diversos, como o vazamento de dados pessoais de pessoas com COVID-19 por membros do governo. Situações excepcionais pedem medidas diferentes, e é sob esse pretexto que alguns direitos de privacidade têm sido suprimidos [New York Times, em inglês]. Essas suspensões podem até ser eficientes, mas elas carregam o risco de que medidas originalmente temporárias se tornem permanentes e que países conhecidos pelo autoritarismo com que lida com a população, como a China, se tornem modelos para o novo futuro que está se desenhando.

→ Muito me surpreendeu ver gente como o ativista de privacidade digital Maciej Cegłowski [Idle Words, em inglês] e o filósofo Byung-Chul Han [El País] defender sistemas massivos de vigilância estatal para enfrentar o coronavírus. Tem que haver outro caminho.

→ No Brasil, a TIM está compartilhando dados de localização dos seus clientes da cidade do Rio de Janeiro com a prefeitura [Reuters].


Golpes de WhatsApp

Queria muito entender o que passa pela cabeça da pessoa que se aproveita de uma situação tão delicada para criar um golpe de WhatsApp [Estadão]. Já são vários com o tema coronavírus, alguns bem verossímeis por usarem como gancho notícias urgentes legítimas, como a ajuda de R$ 200 que o governo federal prometeu aos informais.

→ Tenha à mão a lista de checagens relacionadas ao coronavírus do Aos Fatos.

→ A Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou um chatbot para WhatsApp que tira dúvidas do coronavírus [Folha] no número +41 79 893 1892. Até o momento ele só fala inglês, mas 20 novos idiomas [Bloomberg, em inglês] devem ser disponibilizados ainda esta semana.

→ Enquanto isso, o Google segue pagando canais de extrema-direita que compartilham notícias falsas do coronavírus no YouTube [The Intercept].


Regras do Twitter funcionam, afinal

O Twitter tem regras, aceita denúncias, mas é muito raro vê-las aplicadas, especialmente quando a conta infratora é de uma figura pública. Nessa semana, o Twitter surpreendeu o mundo e — prenda a respiração — fez cumprir as suas próprias regras. A rede social apagou vídeos descontextualizados [Folha] publicados pelo senador Flávio Bolsonaro e pelo ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, e, posteriormente, suspendeu por 12 horas [Folha] as contas dos dois e a do produtor de notícias falsas Allan dos Santos.

→ Os três descumpriram regras criadas especificamente para lidar com a crise do coronavírus. No dia 18 de março [em inglês], o Twitter passou a excluir postagens que:

  • Negam orientação especializada.
  • Encorajam tratamentos, prevenções e técnicas de diagnósticos falsos.
  • Veiculam conteúdo enganoso que se passa por especialistas ou autoridades.

→ Flávio repostou o vídeo descontextualizado em seu canal no YouTube. O autor do original, o médio Drauzio Varella, pediu ao YouTube para que removesse o vídeo da conta do senador. Foi atendido [Folha].


Redução na qualidade do streaming

As principais plataformas de streaming estenderam a redução na qualidade padrão das transmissões para a América Latina — em alguns casos, como o do YouTube, ao mundo inteiro: Facebook [Folha], Globoplay [G1], Netflix[Estadão] e YouTube [Estadão].

→ A menos que você assista aos vídeos grudado na tela, resoluções menores como 720p são boas o bastante para ter uma boa experiência. Não se preocupe, não é como se de repente estivéssemos voltando à era das TVs de tubo.


Um zoom no Zoom

Em um mercado saturado de opções como o de videochamadas, o sucesso explosivo do Zoom desde o início da crise do coronavírus chama a atenção. Para muita gente, a explicação para o furor em torno do app se resume a um número: 150 milissegundos. É a latência máxima para que uma conversa em vídeo soe natural e, segundo esta reportagem [Protocol, em inglês], uma obsessão lá dentro.

→ A Folha também falou do Zoom.

A política de privacidade do Zoom é controversa [Input, em inglês]. Além da coleta de dados para revenda, o aplicativo é bastante intrusivo, a ponto de detectar quando o usuário tira ele de foco por mais de 30 segundos e dedurar isso ao interlocutor, e enviar dados ao Facebook mesmo de pessoas que não têm conta no Facebook [Vice, em inglês]. Em julho de 2019, um pesquisador descobriu que o app do Zoom para macOS instalava silenciosamente um servidor web no sistema [MacMagazine] que era mantido mesmo após a desinstalação do app. Precisou que a Apple liberasse uma atualização do sistema operacional para removê-lo.


Leituras de fôlego recomendadas


Suporte a mouse no iPadOS 13.4

A Apple liberou a versão final do iPadOS 13.4 na última terça (24). A principal novidade é o suporte completo a mouse e trackpad — funciona com qualquer iPad compatível com a atualização. Neste vídeo [YouTube, em inglês], uma explicação dos gestos e outras firulas do novo recurso.

→ Outra novidade importante, que se estende ao iOS 13.4 e ao macOS 10.15.4, está no Safari. Agora, ele bloqueia por padrão todos os cookies de terceiros [WebKit, em inglês]. O Safari também apagará, após sete dias sem acesso pelo usuário, dados gravados localmente por sites. Muitas empresas estavam usando este recurso como alternativa à supressão de cookies de terceiros para continuar rastreando as atividades dos usuários. Por outro lado, outras tantas empresas que usam esse recurso corretamente em seus web apps offline também serão afetadas [Aral Balkan, em inglês].

→ Esta leva de atualizações no ecossistema da Apple também ativa as “compras universais” [MacMagazine], ou seja, a venda de um único app que funciona no iPhone, iPad e macOS. Até então, a App Store do iOS/iPadOS era totalmente desvinculada da do macOS.


Descontos para os apps Affinity

Os aplicativos da linha Affinity, da Serif, tiveram seu prazo de degustação estendido para 90 dias e estão sendo vendidos com 50% de desconto[Affinity]. Foi a maneira que a empresa encontrou de apoiar a “comunidade de criação de conteúdo” durante a pandemia.

→ Os apps Affinity são alternativas aos da Adobe. Além de mais leves e fáceis de usar, eles são comprados com um único pagamento. A Adobe, já faz algum tempo, só comercializa os seus via assinatura mensal. Para iPadOS, macOS e Windows.


iPhone em notebooks Dell

A Dell liberou, para notebooks de 2018 e mais recentes, um novo aplicativo que permite espelhar e interagir com um iPhone dentro do ambiente do Windows 10 [The Verge, em inglês]. A solução já contemplava o Android; agora, donos de iPhone com notebooks Windows da empresa podem desfrutar da mesma facilidade.


Eu no podcast do Nigel Goodman

O roteirista e comediante Nigel Goodman tem um podcast homônimo que ajuda as pessoas a dormir. Durante o auto-isolamento, ele está publicando novos episódios praticamente todos os dias, sempre com “patrocínios”. Fiz uma ponta no episódio sobre home office para divulgar o Guia Prático. Ouça no Apple Podcasts ou no Spotify.


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Atualização (27/3, às 8h): O nome do produtor de notícias falsas punido pelo Twitter saiu errado na publicação desta coluna. É Allan dos Santos, não Allan de Abreu — este, o ótimo repórter da revista piauí. Peço desculpas pelo equívoco a você, leitor(a), e ao Allan de Abreu. Agradecimento ao leitor Erick Bruno, que apontou o erro.

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