Revisitando o Facebook

Em março deste ano, num raro momento de sobriedade da droga “inteligência artificial”, um reformulado Mark Zuckerberg — correntona de ouro no pescoço, cabeleira rebelde — prometeu que o Facebook, ou uma parte dele, voltaria a tempos mais simples, quando a rede social era… bem, uma rede social. Uma época inocente, em que o próprio parecia um boneco de cera e não um dublê de rapper.

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Uma abordagem menos afetuosa da tecnologia

É quase impossível escapar do WhatsApp e muito difícil livrar-se do Instagram. Para muitos, é também indesejável. Amigos, parentes, pessoas queridas e toda a presença de muitos comércios só estão disponíveis em um ou outro (ou em ambos).

Em 2022, quando escrevi a respeito da “abordagem mais afetuosa” com a tecnologia, havia pouco tempo voltara a usar essas e outras plataformas comerciais. Baixei as defesas numa tentativa de estar mais presente, de participar mais.

O problema com empresas como a Meta é que toda concessão do nosso lado é explorada ao máximo.

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Este botão desativa o Meta AI e aumenta a privacidade em conversas no WhatsApp

Lembra quando o WhatsApp era só um aplicativo de mensagens levinho? Saudades. Hoje há tantas funções, tantos anúncios de novidades que, às vezes, algumas úteis passam batidas.

Por acaso, dia desses topei com a “Proteção avançada da conversa”, disponível nas opções de grupos e de conversas individuais. Foi lançada em abril deste ano.

Ao ser ativada, três coisas acontecem:

  • Desabilita a exportação da conversa. Isso dificulta o repasse das mensagens para terceiros e o processamento delas por IAs externas, como o klinsmann ensinou no Órbita.
  • Desabilita o download automático de mídias.
  • Por fim, desabilita o acesso à Meta AI, a irritante IA da Meta que, por padrão, pode ser invocada digitando @meta em uma conversa.

Infelizmente (mas não surpreende), não existe um botão geral para ativar a proteção avançada em todas as conversas; só dentro da opções de cada conversa.

Diante da impossibilidade de usar um aplicativo melhor, como o Signal, é uma boa opção para ativar quando assuntos sensíveis estão sendo debatidos.

Entre a Meta anunciando que sua IA, Meta AI, atingiu 1 bilhão de usuários e o Google que os AI Overviews são usados por 1,5 bilhão, fico curioso em saber quantas dessas pessoas fazem o uso intencional do recurso, ou que preferem-no àqueles que a IA substitui.

Os AI Overviews aparecem no topo das buscas, sem opção de desligamento. O Meta AI suspeito que muita gente aciona sem querer ao tocar naquele botão horrível no WhatsApp, nos resultados da pesquisa dos três apps ou ao tentar marcar uma pessoa em um grupo digitando uma arroba.

Muito fácil chegar a números enormes quando já se tem uma plataforma gigante. Acho que isso nem entra na discussão. A questão é alardeá-los como tais números fossem conquistados, e não impostos.

O julgamento que pode separar Instagram e WhatsApp da Meta

Os julgamentos de casos antitruste nos tribunais estadunidenses talvez sejam a maior contribuição do país à humanidade depois dos ovos beneditinos e da Hollywood dos anos dourados.

Nesta segunda (14), teve início um dos mais aguardados dos últimos tempos, em que a Federal Trade Commission (FTC, espécie de Cade dos EUA) acusa a Meta de monopolizar o mercado de redes sociais pessoais, barrando concorrentes em potencial com as aquisições bilionárias de Instagram e WhatsApp. Um dos possíveis “remédios” é o desmembramento da empresa, restabelecendo Instagram e WhatsApp como alternativas independentes e rivais do Facebook.

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O Governo Federal continua se enroscando mais e mais no WhatsApp.

Por se tratarem de serviços de utilidade pública, faz sentido a adoção do aplicativo da Meta — de longe o mais popular do tipo no país. Ainda assim, fica aquele ~retrogosto ruim de ceder cada vez mais espaço ao WhatsApp em nosso dia a dia…

E, sim, estou ciente de que a assinatura do Manual tem, entre seus benefícios, o ingresso em um grupo fechado no WhatsApp.

O alerta de Yuval Harari aos perigos da inteligência artificial e do… stalinismo?

É possível contar uma mesma história de diferentes maneiras, partindo de múltiplas premissas. Em seu último livro, Yuval Noah Harari adotou as redes de informação como fio condutor da história humana — e base de uma visão apocalíptica da nascente inteligência artificial. Apertem os cintos: o ChatGPT vai nos matar!

Em Nexus: Uma breve história das redes de informação, da Idade da Pedra à inteligência artificial (Companhia das Letras, 2024), Harari surfa a onda da IA com alarmismo. É tudo culpa nossa, humanos insolentes, que ousamos criar “a primeira tecnologia capaz de tomar decisões e gerar ideias por si mesma”, “a maior revolução da informação na história”. Hm, ok.

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A Meta baixou pelo menos 81,7 TB (terabytes), por torrent, de materiais piratas em sites como LibGen, Anna’s Archive e Z-Library, para treinar inteligência artificial. O número apareceu em novos documentos revelados no processo que autores estadunidenses moveram contra a empresa.

O pior é que a Meta teria agido para “‘semear’ [compartilhar] o mínimo possível” a fim de cobrir os rastros do uso ilegal do material, protegido por direitos autorais.

Gente que só baixa e não faz seeding: piores usuários de torrent.

Via Ars Technica.

Nas poucas horas em que o TikTok ficou indisponível nos EUA, os rivais Bluesky, X e até Flipboard (com o novo app Surf, em testes) lançaram “feeds de vídeos” tentando capitalizar o momento. Concorrência justa, como se sabe, é um dos pilares do capitalismo estadunidense. / @bsky.app/bsky.app, @X/x.com, techcrunch.com (todos em inglês)

A Meta entupiu o Instagram de novos recursos — que, de verdade, quem se importa? — e anunciou um clone sem vergonha do CapCut que só será lançado em março. / @mosseri/threads.net (em inglês)

A grande ironia é que o TikTok voltou ao ar por iniciativa da mesma pessoa que, muitos anos atrás, deu início à caça às bruxas que culminou no seu banimento. / g1.globo.com

Desmonte da moderação nas plataformas da Meta vai doer, mas pode ser bom no longo prazo

O anúncio da Meta nesta terça (7) de que, entre outras ações, encerrará as parcerias com agências de verificação de fatos nos EUA, trocando-as por “notas da comunidade”, e relaxará as restrições a certos tipos de conteúdo, alarmou muita gente. / about.fb.com

De um jeito meio torto e não sem causar danos, talvez seja uma boa medida (para nós) a longo prazo.

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Meta complica, mas libera usuários do Threads para seguirem pessoas no fediverso

A Meta deu mais um passo na integração do Threads ao fediverso, ou seja, na compatibilidade com o ActivityPub e plataformas que usam esse protocolo, como o Mastodon: agora é possível a pessoas no Threads seguirem perfis de outros servidores do fediverso que já tenham interagido com o Threads. / @zuck@threads.net (em inglês)

Achou complicado? Calma, ainda estamos na parte simples.

Adam Mosseri, executivo que lidera o Threads, deu mais detalhes:

Você pode ver as postagens deles [pessoas do fediverso] navegando até seus perfis e também pode optar por ser notificado quando eles postarem em seus servidores. / @mosseri@threads.net (em inglês)

Em outras palavras, os posts vindos do fediverso/Mastodon não aparecem no feed e em outras linhas do tempo públicas.

Para piorar, o caminho para de fato seguir alguém de outro servidor/instância é cheio de pedras. O site We Distribute deu uma fuçada e explica:

O Threads oferece um link especial que pode ser usado para procurar perfis específicos [de outros servidores], desde que cumpridos estes requisitos:

  1. Você tem o “Compartilhamento no fediverso” definido como Ativado em sua conta no Threads. [Ative-o aqui.]
  2. Essa pessoa não te bloqueou.
  3. Essa pessoa ou quem administra o servidor não bloqueou o threads.net. / wedistribute.org (em inglês)

Ficarei surpreso se aparecer algum seguidor do Threads no meu perfil no Mastodon

De mudança para o WhatsApp (sim, o WhatsApp)

O balanço do uso do Signal para a nossa comunidade rendeu bons comentários (por e-mail!) de apoiadores.

A Patrícia disse:

O Telegram parecia mais animado #imho… (mais interações de assuntos mais diversos)

O Leandro manifestou a situação de — imagino — muitos que estão ali:

Meu único uso do Signal é o grupo do Manual, mas olhando de curioso na minha lista de contatos, estão os mais aleatórios possíveis: [lista de contatos aleatórios]

O comentário do Vinícius me levou a uma nova camada de reflexão:

Particularmente achei que a mudança do grupo para o Signal, embora entenda os motivos, tirou um diferencial da assinatura do manual. O grupo antes era bem movimentado, acessava sempre, com muitas conversas sobre cultura, comportamento, etc. Após o Signal ficou mais morno, com menor volume de mensagens e conversas mais nichadas em questões de programação/pessoal da TI. Acredito que muitas das pessoas, como eu, só instalaram o mensageiro pelo grupo do manual. Daí entro quando lembro, às vezes passo alguns dias e menos assim há poucas mensagens “atrasadas”, algumas dezenas.

Após ler o texto, agora, abri o app (que, pelos registros do meu celular, tinha aberto na segunda-feira — há 4 dias — e há 40 mensagens não lidas. Claro que quantidade não é um dado que indica muita coisa sozinho, o ponto é a diminuição mesmo na interação. O que, para mim, era um chamariz da assinatura, meio que morreu. Concordo que os rumos que o Telegram tomou são questionáveis e repito que entendo os motivos da mudança, mas para mim o resultado foi esse. =(

O “rumo questionável” que o Telegram tomou foi transformar o aplicativo em veículo para criptomoedas. É… uma pena.

Por fim, o do Paulo em resposta à edição de domingo da newsletter (que envio a assinantes):

Eu entendo a relutância de muitos (eu às vezes tenho isso) de usar o WhatsApp, mas seria interessante centralizar tudo em um único app (pra mim, no caso) com os grupos e contatos pessoais. O Telegram era mais fácil porque, ainda que não seja o meu app primário, ele concentra muitos robôs de serviços que eu uso, além de poder guardar conversas/anotações/listas de forma simples, coisa que o WhatsApp ainda não faz (de forma simples, faz mas de forma meio capenga). O Signal “ostracizou” ainda mais o grupo pra mim, porque não ter um app web/tablet dificulta muito pra mim de ler ou de me lembrar de ler o grupo. Não é nada demais, mas eu sinto que o Signal é uma barreira pra lembrar do grupo do Manual.

Estamos aqui para experimentar, por isso, à luz desses e outros comentários de assinantes que não estão no ou não curtiram o Signal, decidi migrar o grupo para o WhatsApp. Por alguns motivos:

  • Goste dele ou não, é o app mais usado no Brasil;
  • Apesar das investidas da Meta para transformá-lo em SAC 2.0 e cavalo de Troia para a inteligência artificial da empresa, a Meta AI, conversas entre indivíduos e em grupos ainda são criptografadas de ponta a ponta;
  • O recurso de comunidades é um pouco complexo, mas não para o público do Manual, que pode se beneficiar da organização;
  • Tenho revisto a minha política de boicote às big techs. Embora ainda priorize tecnologias que contornam as grandes do setor, por coerência não há problema em adotar o WhatsApp — já usamos/lido com Apple, Amazon, Oracle, Automattic… a lista é longa e inescapável, se quiser dialogar com um público mais amplo.

Antes de tomar essa decisão, perguntei aos três insatisfeitos (haha) das mensagens acima o que achavam do WhatsApp, hipótese que foi bem recebida.

Quem já apoia o Manual receberá, ainda hoje (11), o link de convite para o grupo no WhatsApp. Se você ainda não assina o projeto, faça isso agora para participar.

O lucro trimestral somado das cinco big techs estadunidenses (Alphabet, Amazon, Apple, Meta e Microsoft), que divulgaram seus relatórios nesta semana, chegou a US$ 96,7 bilhões. O faturamento no período foi de US$ 448,1 bilhões. / businesswire.com (Amazon), abc.xyz, businesswire.com (Apple), investor.fb.com, microsoft.com (todos em inglês)

Embora o grosso da receita venha de negócios tradicionais, essas empresas estão apostando alto na inteligência artificial generativa.

Levantamento da Bloomberg apontou que quatro delas (Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft) caminham para um “capex” recorde de US$ 200 bilhões em 2024, puxadas pela corrida da IA. / bloomberg.com (em inglês)

Pesquisas na web com IA são inevitáveis

Queiramos ou não, parece que o futuro (ou o presente?) das pesquisas online será indissociável de IAs generativas. A Open AI lançou o SearchGPT na quinta (31/10), integrado ao ChatGPT. Por ora, apenas para usuários pagos; em breve, para todos. / openai.com (em inglês)

O SearchGPT se junta a uma profusão de serviços similares, de gigantes como Google (Gemini) e Microsoft (Copilot) a startups (Perplexity, The Browser Company). A Meta também está se juntando ao bando, com a Meta AI no WhatsApp/Instagram em vias de ganhar acesso a conteúdo fresco pego na web. / theverge.com (em inglês)

Preciso dar o braço a torcer que para consultas triviais, sem muito aprofundamento, resultados gerados pelas IAs costumam ser satisfatórios. Ao dar links para as fontes da informação, como o SearchGPT e os demais fazem, elas deixam de ser respostas que se pretendem definitivas para virarem pontos de partida.

“Qual a melhor maneira de colher manjericão: cortando folha a folha ou cortando ramos?” Exemplo de dúvida trivial que tive dia desses.

Os dois primeiros resultados do DuckDuckGo são ok. / pt.wikihow.com, agrorural.net

O texto da wikiHow vai muito além da minha dúvida boba e, apesar de não ter sido escrito em português, resolve. Poderia ser mais sucinto; não queria uma aula de jardinagem, só saber onde cortar o manjericão. Eu estava no meio do preparo de uma pizza!! (Exemplo fictício. Ou não.)

O da Agrorural exemplifica o mal dos sites que lideram os resultados de busca e que abriu caminho para buscadores de IA, ou tornou-os palatáveis.

Ele traz a resposta no meio de uma parede de texto, com direito a índice, para azeitar a página para o SEO do Google. Note que a estratégia funciona… mais ou menos: a página está bem posicionada no DuckDuckGo, mas sequer aparece na primeira tela de resultados do Google.

O Google, aliás, exibe uma “Visão geral” do Gemini que vai direto ao ponto, com link para o blog corporativo da Brota Company, uma empresa moderninha de… vasos? Acho que é isso. Não sei dos vasos, mas SEO eles sabem fazer. / blog.brotacompany.com.br

O ChatGPT “puro”, sem pesquisa, também faz um bom trabalho. / chatgpt.com

Estava pensando a respeito e talvez — à parte as questões éticas e ambientais — isso seja bom para a web. Se os incentivos para despejar textos insossos, como exibir anúncios e criar topos de funis, diminuírem, talvez sites despretensiosos e mais humanos voltem a ganhar terreno.

Mesmo que seja difícil encontrá-los, estaremos por aí e temos ferramentas para nos acharmos, do boca a boca ao Control + D (essa só o pessoal que nasceu antes da web vai sacar).

Meta AI no WhatsApp: Privacidade e desativação da inteligência artificial

Para muita gente, a Meta AI que pipocou no WhatsApp é a primeira interação com IA generativa. O encontro tem causado algumas frustrações e gerado ansiedade.

Sem rodeios: não é possível desativar a Meta AI.

Poderia ser, mas não é do interesse da Meta, que quer, com esse movimento, tomar a dianteira na corrida da IA generativa. Acostume-se com aquela rodinha colorida na busca.

Há relatos de que dá para remover a bolinha que aparece no topo da tela, ao lado dos botões de câmera e iniciar conversa. A opção Mostrar botão Meta AI estaria na área Conversas, nas configurações do WhatsApp. Aqui, porém, não a encontrei. / idec.org.br

Neste site, é possível impedir o uso de interações com a Meta AI para treinar as IAs da Meta.

Note que conversas pessoais e em grupos são criptografadas de ponta a ponta e não são usadas para esse fim. A solicitação acima diz respeito apenas a conversas com a Meta AI e a mensagens em que a IA é invocada em um grupo. / faq.whatsapp.com

Curioso que esse comportamento acabou sendo uma frustração para alguns, como o Gustavo. Não dá para agradar a todos. / manualdousuario.net/orbita