O descaso da Meta com a moderação de conteúdo é visível na Meta AI, inteligência artificial generativa que apareceu no WhatsApp e outras plataformas da empresa. / about.fb.com

A Folha de S.Paulo notou que ao ser questionada sobre o segundo turno da eleição para prefeito em São Paulo, a Meta AI fornece informações erradas e até sem sentido, como atribuir a liderança nas pesquisas a um candidato que não está na disputa. / folha.uol.com.br

Repliquei o experimento com os candidatos de Curitiba. A Meta AI começa a responder, mas no meio da “digitação” o texto some e é substituído por uma mensagem padrão, que direciona o usuário ao site do TSE. Veja o vídeo.

E pensar que a mesma Meta que libera uma IA que pode dar “respostas imprecisas ou inapropriadas” (palavras da empresa) a uma semana do segundo turno em várias capitais, em 2022 adiou em meses o lançamento das comunidades no Brasil para não zoar as eleições.

Meu primeiro contato com a Meta AI foi em um grupo de amigos no WhatsApp, que perguntaram o que ela sabia do “Rodrigo Ghedin”. Para a IA, sou “conhecido por sua participação em programas de debate e análise política” e tenho “uma longa trajetória profissional, tendo atuado em jornais, revistas e emissoras de televisão”. Nem eu sabia dessas coisas!

Mudança na forma de salvar contatos no WhatsApp tem duas consequências concorrenciais

O WhatsApp agora permite salvar contatos no próprio WhatsApp, ou seja, independente da agenda de contatos do celular. / blog.whatsapp.com

Além disso, a empresa prometeu para “em breve” a possibilidade de adicionar e gerenciar contatos pelo WhatsApp Web e app do Windows, e suporte a nomes de usuários a fim de dispensar o número de telefone ao adicionar alguém. (O Signal tem isso desde fevereiro de 2024.)

Segundo a Meta, os contatos salvos em seus servidores usando um novo sistema de armazenamento criptografado, chamado Identity Proof Linked Storage (IPLS). / engineering.fb.com

Há dois desdobramentos concorrenciais que, por óbvio, a Meta não comenta no comunicado à imprensa.

Primeiro, ao restringir os contatos ao WhatsApp, o “povoamento” de outros apps de mensagens que competem com ele se torna mais difícil. A agenda de contatos do celular é compartilhada por todos os apps, a critério apenas do usuário; os contatos salvos no WhatsApp nesse novo modelo, por outro lado, ficam limitados ao WhatsApp.

O segundo diz respeito a uma novidade em privacidade que a Apple implementou no iOS 18:

A permissão do app Contatos foi aprimorada e permite que você escolha quais contatos compartilhar com um app. / support.apple.com

Até o iOS 17, um aplicativo como o WhatsApp tinha acesso a todos os contatos ou a nenhum. No iOS 18, existe a possibilidade do acesso seletivo — como já existia com a permissão das fotos, por exemplo.

Curioso para ver se essa mudança no WhatsApp disparará algum alerta em órgãos antitruste.

O mercado de tecnologia empurra soluções capengas e baratas como substitutas às reais. Por que, por exemplo, falar com um ser humano no atendimento de empresas se robôs podem fazer o mesmo serviço custando menos, ainda que sejam piores?

A IA segue a mesma lógica.

Na quinta (10), tempestades solares “baixaram” a aurora boreal, trazendo o show de luzes natural a regiões onde ele não costuma ser visto. / g1.globo.com

No Threads, o perfil da Meta sugeriu, a quem perdeu o espetáculo, que “fizesse o seu próprio com [imagens artificiais d]a Meta AI”. O texto é acompanhado por algumas feitas pela IA. Um dos posts mais deprimentes da história dos posts ruins de marcas (todos) em redes sociais. / @meta@threads.net

Sai o WhatsApp, entra o… BraZap?

A não-notícia da Folha de S.Paulo, que atribuiu supostos ilícitos à conduta do ministro do STF e ex-presidente do TSE, Alexandre de Moraes, no enfrentamento dos atos golpistas de 8 de janeiro, reverberou no governo federal.

Segundo o próprio jornal, Ricardo Capelli, presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), “decidiu fazer uma licitação para contratar empresas nacionais que possuem aplicativos similares ao WhatsApp”.

O objetivo é nobre, mas a motivação carece de fundamento. Que pese o WhatsApp ser de uma empresa estadunidense e um software proprietário, ele usa o protocolo de criptografia do Signal, padrão ouro da área, sem histórico de brechas ou violações.

(Sempre é bom lembrar que criptografia de ponta a ponta não tem serventia quando uma das pontas é comprometida. Joesley Batista que o diga.)

O que me incomoda nessa proposta é ter como critério principal a nacionalidade do fornecedor. É preferível que seja uma empresa brasileira e poderia ser um requisito, mas o que mais beneficiaria a segurança e privacidade das comunicações seria a adoção de um protocolo aberto e confiável, como o Matrix.

O risco de responder sob pressão uma ameaça inexistente é trocar o WhatsApp por algo muito pior, mas com o selo “made in Brazil”. Quais as chances disso acontecer?

77%

Um estudo da Upwork, plataforma estadunidense de ofertas de emprego, descobriu que 77% dos trabalhadores de empresas que adotaram soluções de inteligência artificial disseram que a tecnologia diminuiu a produtividade e aumentou a carga de trabalho. Ao mesmo tempo, 96% dos executivos entrevistados acreditam que a IA vai aumentar a produtividade. Vários dados reveladores nesse estudo. / upwork.com (em inglês)

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US$ 1,4 bilhão

A Meta concordou em pagar uma multa de US$ 1,4 bilhão ao estado do Texas, nos Estados Unidos, por coletar e usar dados biométricos de milhões de cidadãos sem autorização. / folha.uol.com.br

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US$ 25 bilhões

Entre 2017 e 2021, a Amazon amargou prejuízo de US$ 25 bilhões com sua divisão de dispositivos, como as caixas de som Echo e outros cacarecos com a assistente de voz Alexa. A reportagem do Wall Street Journal não conseguiu dados de antes e depois. / wsj.com (em inglês)

WhatsApp: cada vez mais complexo e inescapável

O WhatsApp, aplicativo mais popular do Brasil, é inescapável. Os poucos que prefeririam não usá-lo, por qualquer motivo, se veem cada vez mais impossibilitados à medida que o app da Meta se transforma em uma espécie de utilitário, um pré-requisito para interações das mais diversas. Ao mesmo tempo, vem sendo desfigurado para abrigar novas funcionalidades que deixam seu uso mais difícil.

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ANPD proíbe Meta de treinar IAs com dados pessoais no Brasil

A Autoridade Nacional de Proteção de Dados Pessoais (ANPD) enfim mostrou os dentes e determinou que a Meta suspenda o tratamento de dados pessoais para treinar inteligências artificiais.

A proibição, determinada em caráter cautelar, baseia-se em quatro pilares: ausência de base legal para tratar os dados com essa finalidade; falta de informações sobre as mudanças na política de privacidade; dificuldade excessiva aos usuários para negarem o uso de seus dados; e tratamento de dados de menores de idade sem as devidas salvaguardas.

Vale mencionar o “timing” da determinação, como lembrou Carlos Affonso Souza em sua coluna no Uol: na semana em que estavam previstos o lançamento dos recursos de IA do WhatsApp no Brasil e em que o projeto de lei 2338/23, o PL da inteligência artificial, teve movimentações no Congresso.

A Meta se disse “desapontada” com a determinação. Os argumentos da ANPD me pareceram razoáveis — já viu o labirinto para negar o uso de dados pela Meta?

Carlos Affonso acredita que a determinação, ao focar em uma empresa (e das maiores), passe um recado a toda a indústria. Afinal, existem outras além da Meta fazendo o mesmo tipo de treinamento com dados, incluindo os pessoais.

A ojeriza à IA de (parte) das pessoas não é a única explicação do sucesso repentino — ainda que limitado — da Cara. A toxicidade do Instagram talvez seja um incentivo ainda maior.

Nesta semana, a Meta confirmou que está testando anúncios não puláveis no feed. Para estarem cogitando isso, significa que estão confiantes de que os usuários engolirão mais essa.

A Meta é uma versão moderna daqueles testes bizarros que Skinner e Milgram faziam nos anos 1960. “Que prática abusiva e/ou repulsiva a gente vai colocar no Instagram hoje a fim de determinar o máximo que as pessoas toleram antes de desinstalarem o aplicativo?” Pelo visto, isso ainda vai longe.

A autoestima inabalável do homem branco hetero etc. do Vale do Silício

Se deus criou o ser humano à sua imagem, não é de se estranhar que as IAs generativas falem de tudo, até do que não sabem, como a autoestima de especialistas no assunto. Afinal, foram criadas por startupeiros do Vale do Silício que se acham deuses.

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Para o seu azar, Zuckerberg está fascinado com IA

Mark Zuckerberg está fascinado com inteligência artificial, o que talvez seja má notícia para os usuários do Facebook, Instagram e WhatsApp.

Na conferência com acionistas, quarta passada (24), Zuck deu um banho de água fria na audiência quando disse que os investimentos pesados em IA levarão anos para dar retorno.

Até aí, tudo bem — quem liga para acionistas. A questão é como a IA dará retorno. Fala do próprio (via The Verge):

Existem várias maneiras de construir um negócio enorme aqui, incluindo escalar [apps de] mensagens para empresas, introduzir anúncios ou conteúdo pago em interações de IA e permitir que as pessoas paguem para usar modelos de IA maiores e acessar mais poder computacional. E além disso, a IA já está nos ajudando a melhorar o engajamento do aplicativo, o que naturalmente leva a mais visualizações de anúncios e a melhorar os anúncios em si para oferecer mais valor.

Hoje, imagens de Jesus feito de camarões e garrafas pet geradas por IA já infestam o Facebook, mas ainda são pedidas por seres humanos. Nem quero imaginar o futuro dos usuários da Meta quando a IA tomar o controle.

Um dia antes do papo com acionistas, a Meta expandiu o Meta AI, seu rival do ChatGPT, para uma dúzia de países onde o inglês é predominante.

O Meta AI está na busca do WhatsApp e do Instagram, em grupos do WhatsApp, em grupos do Facebook. Em um grupo no Facebook de pais de crianças especiais, o chatbot despirocou e disse ser pai de uma (via X).

Nos grupos do Facebook, o Meta AI entra na conversa quando é invocado por um ser humano ou em posts que não recebem respostas até uma hora após a publicação — foi o caso da insanidade acima.

Nem os clientes da Meta — anunciantes — escaparam. Desde meados de março, campanhas automatizadas por IA, alardeadas como sendo do tipo “configure e esqueça”, estão torrando a grana alocada em anúncios até 10 vezes mais caros que a média e ninguém sabe o porquê.

A Meta anunciou a expansão do Meta AI (equivalente ao ChatGPT da OpenAI) para os populares apps da empresa, como Instagram e WhatsApp, e o Llama 3, nova versão do seu grande modelo de linguagem (LLM) de código aberto.

É a maior investida da empresa em IAs generativas até agora, um movimento que leva a previsões… estranhas, como a feita pelo Casey Newton em sua Platformer:

A primeira era do Facebook foi para conversar com amigos e familiares. A segunda, influenciada pelo TikTok, está mais focada em conteúdo de criadores e outras pessoas que você não conhece.

Nesta semana, tivemos um vislumbre da era ainda por vir: uma em que interagiremos regularmente com pessoas e robôs — talvez nem sempre cientes, ou nos importando, com qual estamos falando.

Um avanço significativo é o gerador de imagens do Meta AI. Ele responde a alterações no enunciado quase em tempo real. Dave Winer gravou um vídeo demonstrando o recurso — que, a exemplo das outras novidades, ainda não está disponível no Brasil.

Talvez a Meta esteja meio certa em ignorar jornalistas e notícias no Threads. (O que não significa que a empresa esteja certa em outras coisas, ou no geral.)

A crise transnacional envolvendo o dono do X (ex-Twitter) e a Justiça brasileira levou muitos tuiteiros, incluindo jornalistas, a procurar abrigo no Bluesky. E, mesmo sem seguir novos perfis, meu feed foi tomado de… notícias. E notícias específicas: do Elon Musk, de política, de desgraças no geral.

Nada contra notícias e jornalismo em geral, é só que nesses ambientes — Twitter e agora Bluesky — a abordagem se dá com o fígado em vez do cérebro. Pesa o clima e cansa um pouco.

Quase ninguém liga se seu site não está nas redes sociais

Em março de 2024, fiz um experimento no Manual do Usuário: parei de distribuir o conteúdo do site em redes sociais e aplicativos de mensagens.

O resultado foi que… pouca coisa mudou.

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Como bloquear o Threads no Mastodon

Agora que o Threads começou a federar com o fediverso (ainda de modo capenga), chegou a hora dos incomodados bloquearem a instância da Meta.

No Mastodon, dá para bloquear um domínio/instância inteiro apenas em sua conta, independentemente de quem administra a instância. (Por outro lado, uma instância bloqueada pelo administrador não pode ser liberada por um usuário desta.)

Se a sua instância não bloqueou o threads.net e você deseja fazer isso, siga estes passos:

  • Acesse um perfil de alguém de lá, como o do Zuckerberg (coloque @zuck@threads.net na busca);
  • Clique no ícone das reticências, no topo da tela; e,
  • No menu que se abre, clique em Bloquear domínio threads.net.

Caso se arrependa, é só seguir o mesmo caminho para desfazer o bloqueio. As relações anteriores ao rompimento (quem você seguia e quem te seguia), porém, não voltam automaticamente.

Atualização (10h40): Uma opção melhor para gerenciar instâncias bloqueadas é abrir o seu próprio perfil, tocara no botão de reticências () e, em seguida, em Domínios bloqueados. Obrigado pela dica, João!

Print de conversa no Mastodon: Zuck dizendo que fez seu primeiro post no fediverso, Rodrigo Ghedin respondendo com o meme do “awkward party”.
Pensa num cara chato. Via @manualdousuario@mastodon.social.

Nesta quinta (21), a Meta liberou a integração (ainda capenga) do Threads com o fediverso. Por ora, só quem está no Canadá, EUA e Japão consegue ativar a opção no Threads. Via TechCrunch e @zuck@threads.net (ambos em inglês).