O Procon-SP aplicou uma multa de R$ 11 milhões ao Facebook devido à pane de 4 de outubro nos aplicativos da empresa. A justificativa oficial do órgão é “má prestação de serviço” e que, embora os apps sejam gratuitos, a empresa lucra com eles.

O que me intrigou mais foram os números de usuários afetados: “[…] mais de 91 mil consumidores brasileiros do Facebook, mais de 90 mil do Instagram e mais de 156 mil do WhatApp.” O WhatsApp tem cerca de 120 milhões de usuários no Brasil; mesmo considerando apenas a cidade de São Paulo, o número de pessoas afetadas pela indisponibilidade foi bem maior.

O Facebook pode (e vai) recorrer. Via Procon-SP, Poder360.

O Facebook lança no Brasil, nesta quinta (2), o Facebook Protect, programa de proteção adicional a usuários e administradores de páginas mais suscetíveis a ataques — em especial, gente envolvida com eleições.

Os principais aspectos do programa são:

  • Forçar a adoção da autenticação em dois fatores;
  • Dar maior atenção a tentativas de invasão dessas contas; e
  • Garantir a autenticidade de quem posta em páginas.

Não tem como se candidatar a ele; é o Facebook quem determina perfis elegíveis e envia uma notificação/convite para o Facebook Protect. Via Uol Tilt, Facebook.

Lembrete: autenticação em dois fatores não é exclusividade dessa iniciativa, está disponível para todos os usuários. É, de longe, a melhor medida que alguém pode fazer para proteger sua conta. Veja como ativá-la no Facebook.

A cada semestre, o Facebook (agora chamado Meta) faz uma pesquisa interna junto aos funcionários, chamada Pulse, para saber a percepção deles em relação à empresa. O Insider obteve a última, divulgada internamente neste mês de novembro, e o moral está baixo nos domínios de Mark Zuckerberg.

Pouco menos da metade (49%) dos funcionários confiam na liderança da empresa, um tombo de 7 pontos percentuais em relação ao primeiro semestre. Outro dado curioso é que a fatia dos funcionários que pretendem continuar trabalhando no Facebook segue caindo, agora é de 47%, queda de 2 pontos percentuais.

Respostas positivas em relação ao Facebook, como “otimismo” e “orgulho”, também caíram — “otimismo” capotou 11 pontos percentuais para 51% e orgulho, caiu 7 pontos para 55%.

Perguntas relacionadas a superiores diretos divergiram do padrão e receberam respostas bem positivas — 85% positivas para pessoal, 83% para colaboração e 85% para impacto das equipes. Via Insider (em inglês).

Metáfora do corpo e da presença

por Andressa Soilo

Nossas relações sociais, emoções, experiências e percepções sobre o mundo são constantemente remodeladas por bilionários. Estes delimitam novos espaços a serem habitados, assim como ampliam o repertório do que entendemos como “presença”. Nossos modos de existir, seja em gravidade zero ou a partir da ausência de carne e osso, são atualizados por quem detém recursos de produção tecnológica de ponta — fenômeno que ocorre com mais intensidade nos últimos anos.

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Em 2019, o Facebook anunciou que levaria a criptografia de ponta a ponta, até hoje presente apenas no WhatsApp, a seus outros mensageiros — Instagram e Messenger — em 2022. Nesta segunda (22), a empresa avisou que a mudança levará mais tempo e só será implementada em 2023. Motivo? Para “fazer a coisa direito”, segundo Antigone Davis, diretor global de segurança do Facebook. Grupos de defesa da criança alegam que a mudança dificultará o combate ao assédio e outros abusos contra menores que ocorrem nessas plataformas. Via BBC News (em inglês).

No Twitter, David Thiel, ex-engenheiro de segurança do Facebook (trabalhou lá entre setembro de 2015 e março de 2020), deu uma (agora não tão rara) visão de dentro. “A direção decidiu mover todas as mensagens dentro das propriedades do Facebook em um sistema E2EE [criptografado de ponta a ponta] em um cronograma absurdamente acelerado. […] O esforço foi anunciado sem qualquer ‘roadmap’ de como alcançá-lo”, escreveu.

Nessa época, disse David, os sistemas automatizados do Facebook para coibir assédio e abusos contra menores “estavam operando com efetividade menor que 10%”. “Estava claro que a maior parte dos estragos escapava da detecção”, disse Thiel. A direção do Facebook sabia disso e mesmo assim avançou, o que levou a demissões na equipe de segurança infantil. “É um trabalho inimaginavelmente difícil e a perspectiva de piorar 90% nele é super desmoralizante”, disse.

David demonstra o caráter apressado do anúncio com a falta de direcionamento (qual sistema/tecnologia usar?) e a indiferença aos desafios peculiares de cada plataforma. O WhatsApp, que tem criptografia de ponta a ponta desde 2016, é um serviço muito diferente do Messenger e do Instagram. Vale uma citação completa aqui:

O WhatsApp não recomenda pessoas para fazer amizade e interagir. Ele não hospeda grupos secretos de tamanho infinito. Ele não oferece uma pesquisa global de cada usuário. Ele não agrupa pessoas por localização ou instituições como escolas.

Enquanto isso, o Facebook tenta pegar redes sociais existentes, fundi-las e criar novas. Isso levou a situações absurdamente inapropriadas (incluindo, literalmente, recomendar vítimas a seus abusadores), em particular quando combinado à sincronia de contatos [do celular] e ao rastreamento de pixels “offsite” [em outras propriedades que não são do Facebook].

Colocar a criptografia de ponta a ponta sem mudar o modelo sempre foi uma ideia ruim. Então é óbvio que ela foi adiada, e continuará sendo. Ninguém — defensores da privacidade ou da segurança infantil — deveria se contentar com as coisas como elas estão.

David se diz favorável à criptografia de ponta a ponta, mas quando o objeto muda de uma plataforma de conversas privadas entre pessoas conhecidas para um modelo de rede social, seu entusiasmo se enfraquece. “Esses sistemas [criptografados de ponta a ponta] são mais seguros e funcionam melhor quando separados da descoberta, dos algoritmos de recomendação e dos incentivos do marketing.” Via @elegant_wallaby/Twitter (em inglês).

Em mais uma prova da sua incapacidade de criar sucessos, o Facebook confirmou ao TechCrunch que até o fim do ano descontinuará o Threads, aplicativo lançado em 2019 repleto de ideias diferentes para o Instagram, a princípio focado em mensagens e stories para os “Melhores amigos”. Não se preocupe se não conhecia ou se lembrava dele; é justamente por isso que o Facebook o encerrará. Via TechCrunch (em inglês).

Em julho, o Facebook (ou Meta, como preferir) prometeu que passaria a segmentar anúncios a menores de idade apenas pelos critérios de idade, gênero e localização. Em outras palavras, que deixaria de mostrar anúncios por interesses ou hábitos de navegação a esse público.

Uma pesquisa conduzida pela Fairplay, Reset Australia e Global Action Plan demonstrou a promessa não está sendo cumprida.

As pesquisadoras Elena Yi-Ching Ho e Rys Farthing criaram perfis fictícios de três jovens, de 13 e 16 anos, e descobriram que embora suas atividades dentro dos apps do Facebook não sejam gravadas, o que eles faziam fora, em outros sites e apps, sim. Esses dados seriam utilizados, segundo materiais promocionais do Facebook, para o direcionamento automatizado de anúncios, por inteligência artificial.

“Usando esses dados do Pixel do Facebook, o Facebook consegue coletar dados de outras abas e páginas do navegador que as crianças abrem e capturar informações como em quais botões elas clicaram, quais termos elas pesquisaram e quais produtos compraram ou colocaram nos carrinhos (‘conversões’)”, escreveram elas no relatório (PDF). “Não há motivos para armazenam esse tipo de dado de conversão exceto para abastecer o sistema de entrega de anúncios.”

Ao The Guardian, Joe Osborne, porta-voz do Facebook, confirmou a coleta de dados, mas, sem apresentar qualquer evidência objetiva, garantiu que eles não são usados para direcionar anúncios. Via Fairplay (em inglês), The Guardian (em inglês).

Da inevitabilidade do metaverso

Dia desses a Samsung anunciou um novo tipo de memória, a LPDDR5X. Ela traz vantagens como consumir 20% menos energia sendo 30% mais rápida que o modelo anterior, e deverá ser usada em celulares e outros dispositivos conectados. Embora seja um negócio legal, é enfadonho. O tipo de coisa que jamais seria destaque no Manual, não fosse por um detalhe: de algum modo, a Samsung enfiou o termo “metaverso” no comunicado à imprensa da memória LPDDR5X.

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O Facebook está tendo o seu momento “big tobacco reconhece que fumar faz mal”. Em uma publicação no blog de negócios da Meta, holding dona da rede social, Graham Mudd, vice-presidente de marketing  de produto e anúncios, anunciou que a partir de 19 de janeiro de 2022 a empresa removerá as “opções de direcionamento detalhado relacionadas a tópicos que as pessoas possam considerar sensíveis” no Facebook e no Instagram.

O “direcionamento detalhado” refere-se a critérios de segmentação de anúncios com os quais um anunciante pode inferir características íntimas do público-alvo. Por essas referências, ele poderia direcionar ou ocultar anúncios a certos públicos, como homossexuais, negros, fiéis de certa religião e filiados a partidos políticos. Graham lista alguns exemplos de direcionamento detalhado no texto:

  • Causas de saúde (por exemplo, “Conscientização do câncer de pulmão”, “Dia Mundial da Diabetes”, “Quimioterapia”).
  • Orientação sexual (por exemplo, “casamento entre pessoas do mesmo sexo” e “cultura LGBTQIA+”).
  • Práticas e grupos religiosos (por exemplo, “Igreja Católica” e “feriados judaicos”).
  • Alinhamentos políticos, questões sociais, causas, organizações e figuras políticas.

Até hoje, o Facebook adotava uma “estratégia whac-a-mole” para os inevitáveis problemas causados por esse tipo de direcionamento: sempre que um escândalo estoura na imprensa, a empresa tapa o buraco, mas mantém o restante da estrutura problemática intacta. Foi explorando o “direcionamento detalhado” que anunciantes conseguiram, no passado, direcionar anúncios a antissemitas e ocultar anúncios de imóveis e de vagas de emprego de negros, hispânicos e outras etnias. As denúncias foram feitas pela ProPublica.

Como lembra o The Verge, o movimento pode ser visto como uma antecipação à União Europeia, que prepara novas regras para a internet com o objetivo de proibir esse tipo de publicidade direcionada. Mais detalhes no TechCrunch (em inglês).

Graham, o executivo da Meta, lembra que ainda continuará sendo possível segmentar anúncios de diversas formas nas redes sociais da empresa, Facebook e Instagram. Via Facebook para Empresas, The Verge (em inglês).

Atualização (19/1/2022): A redação original informava que as novas proibições do Facebook passariam a valer em 22 de janeiro, e não em 19 de janeiro.

De acordo com o New York Times, o Facebook cogita abrir uma rede de lojas físicas para apresentar os produtos do Reality Labs, a divisão da empresa responsável pelo ferramental do metaverso — óculos e capacetes de realidade virtual, no momento.

Um documento obtido pelo jornal detalha que as lojas seriam úteis para “instigar emoções como ‘curiosidade, aproximação’, bem como uma sensação de ‘bem-vindo’ enquanto experimenta fones de ouvido em uma ‘jornada livre de julgamentos’”. Um porta-voz do Facebook não confirmou os planos de abrir lojas físicas. Via O Globo.

Em 2018, um executivo da Oculus, subsidiária de realidade virtual do Facebook, usou o termo “meatverse” para se referir ao mundo real — “meat” significa carne em inglês. É no mínimo irônico, e talvez diga muito, que para alardear os benefícios do metaverso o Facebook precise criar uma presença opulenta no “meatverse”. Via CNBC (em inglês).

Em nota mais ou menos relacionada, fiquei impressionado com a presença de publicidade do Facebook nos jogos do Campeonato Brasileiro neste fim de semana. Placas do Instagram e inserção do WhatsApp na narração da Rede Globo. Fica a sensação de que é uma resposta às investidas do TikTok. A disputa pelo usuário, afinal, se dá no “meatverse”.

Isto talvez te surpreenda, mas o Facebook (a rede social) tem um programa de incentivo para criadores, uma espécie de Patreon/Catarse próprio. Nesta quarta (3), Mark Zuckerberg anunciou que os “criadores” participantes ganharão uma nova ferramenta para burlar a taxa de 30% que a Apple cobra de qualquer pagamento feito em apps no iOS (e, de quebra, os 15% do Google na Play Store também).

(A pira dele com metaverso está tão intensa que, de algum modo, conseguiu enfiar o assunto neste anúncio. Em seu perfil no Facebook, Zuckerberg disse que taxas como as que a Apple cobra dificultam desbloquear oportunidades para criadores “à medida que construímos para o metaverso”. Ok?)

Não se trata de uma tecnologia das mais avançadas. Segundo o CEO da Meta, o recurso é “um link promocional para criadores”. Esse link leva o usuário/assinante à web, onde ele pode fazer o pagamento usando o sistema do Facebook, livre de taxas extras (as do pagamento em si ainda são cobradas).

Embora a Justiça norte-americana tenha obrigado a Apple a permitir que aplicativos anunciem meios de pagamento alternativos no iOS, o prazo ainda está correndo — a Apple tem até 9 de dezembro para virar essa chave.

O Facebook também permitirá que os criadores baixem uma lista de e-mails dos seus seguidores e pagará um bônus, entre US$ 5 e US$ 20, para cada novo assinante pago. Via Mark Zuckerberg/Facebook (em inglês), Facebook for Creators (em inglês).

A Meta anunciou que desativará o sistema de reconhecimento facial automático do Facebook. O recurso era um dos epítomes do mote “move fast, break things”: anunciado em 2010, foi ativado automaticamente aos (à época) milhões de usuários da rede social, que passaram a ter suas fotos identificadas e etiquetadas.

A justificativa dada pelo Facebook é a mesma que ativistas e especialistas dão desde o começo: o emprego dessa tecnologia pode ter consequências imprevistas desastrosas.

O Facebook removeu todos os “templates” de rostos em seu banco de dados e não etiquetará mais os rostos automaticamente. Em vez disso, estimula os usuários que marquem seus amigos e familiares em fotos de modo manual.

Fora o comunicado oficial, há outros motivos e detalhes relevantes em torno da decisão. Em fevereiro deste ano, o Facebook concordou em pagar US$ 650 milhões para encerrar uma ação civil pública nos Estados Unidos que acusava a empresa de usar a tecnologia de reconhecimento facial sem o consentimento dos usuários. Ao Gizmodo, a Meta confirmou que a decisão só afeta, a princípio, o Facebook, ou seja, o reconhecimeno facial no Instagram e Spark AR, sem falar na inteligência artificial DeepFace, criada especificamente para esse fim, continuam existindo. Não deixa de ser uma boa notícia, ainda que tardia e parcial. Típico do Facebook. Via Meta (em inglês), Associated Press (em inglês), Gizmodo (em inglês).

Eu não tenho nada a ver com o que quer que o FB [Facebook] esteja fazendo relacionado ao metaverso, além do fato óbvio de que eles estão usando um termo que eu cunhei em Snow Crash. Não houve qualquer comunicação entre mim e o FB e nenhuma relação comercial.

— Neal Stephenson, autor de Snow Crash e criador do termo “metaverso”.

Em 1992, Neal Stephenson cunhou o termo “metaverso” em seu romance Snow Crash. Quase três décadas depois, a palavra virou a nova obsessão do Facebook, o que obrigou o escritor a se posicionar.

O metaverso de Snow Crash é um ambiente viciante, violento, que libera os piores impulsos das pessoas, mas ao mesmo tempo é um entretenimento barato e a base da economia de um país devastado pela pobreza e violência, controlado por empresas. (Tipo o filme Ready Player One, de Steven Spilberg.) Não é à toa que o Facebook não procurou Neal para promover o seu metaverso. Via @nealstephenson/Twitter (em inglês).

Logo do Meta, nova marca da empresa Facebook, contra fundo branco.
Imagem: Facebook/Divulgação.

Confirmando os rumores, Mark Zuckerberg acabou de anunciar o novo nome da empresa Facebook: Meta. De “metaverso”, sacou? É, pois é, muuuuito criativo.

O novo nome reflete a aposta de Zuckerberg de que o futuro da humanidade será ainda mais digitalizado e, em vez de perdermos tempo em celulares, usaremos capacetes de realidade virtual. Parece distópico porque é. Boa sorte com isso.

No que importa, o Facebook informou que não mexeu em sua estrutura corporativa, mas que a partir do próximo trimestre divulgará seus resultados financeiros divididos em dois segmentos: Família de Aplicativos (Facebook rede social, Instagram, WhatsApp) e Reality Labs (Oculus, realidades aumentada e virtual).

Para saber mais: o site meta.com, o comunicado à imprensa, uma carta de Zuckerberg e o making of da nova marca (todos em inglês). Fala sério: isso tem um ranço de empresa do mal de ficção científica de qualidade questionável, não? Tipo aquela do livro/filme O Círculo. Eu, hein…

As coisas novas e as coisas boas do Facebook Papers

Na condição de leitor, fiquei paralisado diante da quantidade de reportagens publicadas desde a última sexta-feira (22) com base nos documentos vazados do Facebook pela ex-funcionária Frances Haugen, um esforço coletivo da imprensa batizado de “Facebook Papers”. É muita coisa.

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