Em várias partes do mundo, com maior incidência nos EUA, empresas de tecnologia vão aos tribunais regularmente reclamar da concorrência. Não por estratégias de marketing ou táticas de vendas agressivas, mas por infrações de patentes. Indo na contramão dessa tendência, sexta-feira Apple e Google anunciaram um cessar fogo que pode, em última instância, beneficiar a todos.
Nos últimos anos a Apple apareceu bastante no noticiário pelo afinco com que recorreu aos tribunais para defender suas propriedades intelectuais. O caso mais famoso, ainda em trâmite, foi o processo movido nos EUA contra a Samsung, uma rixa quase pessoal do ex-CEO Steve Jobs, que a classificou como “guerra termonuclear” e foi motivada principalmente pelas similaridades entre o Galaxy S, da concorrente, e seu iPhone.
Batalhas judiciais paralelas se desenrolaram contra HTC, Motorola e outras, as quais somadas com imbróglios alheios, transformaram o setor da alta tecnologia de consumo em uma intrincada rede de acusações. O infográfico abaixo, do começo de 2012, dá uma boa dimensão do emaranhado que são essas relações:
Quem processava quem em janeiro de 2012. Infográfico: Verizon/PCMag.com.
Em 2010 a Motorola, então independente, acusou a Apple de infringir algumas das suas patentes, incluindo relacionadas à 3G e essenciais ao funcionamento de um smartphone. A Apple contra-atacou, e a disputa vem se desenrolando desde então em uma corte na cidade de Chicago. Ou vinha, já que o anúncio da última sexta pôs um fim nela e em outras envolvendo as duas.
Com a compra da Motorola Mobility em 2012, o Google levou seu portifólio de patentes e herdou as disputas judiciais da empresa adquirida. O Google atua em processos de fabricantes que usam sua tecnologia, como no talvez maior caso do gênero nos EUA, a já mencionada disputa entre Apple e Samsung, mas nesse caso se viu envolvido diretamente como parte — e como a venda da Motorola Mobility à Lenovo ainda não foi finalizada, ela continua respondendo nele.
Na declaração conjunta que encerrou essa disputa, as duas se comprometeram a, além de retirarem as acusações (cerca de 20, nos EUA e Alemanha, segundo o GigaOm), cooperarem na reforma do sistema de patentes. A mensagem foi a seguinte:
“Apple e Google concordaram em remover todos os processos em trâmite que existem diretamente entre as duas empresas. Apple e Google também concordaram em trabalhar conjuntamente em algumas áreas da reforma de patentes. O acordo não inclui trocas de licenças.”
O sistema de patentes norte-americano é duramente criticado pela abrangência e facilidade com que aprova pedidos, mesmo os mais absurdos. Um caso recente foi a patente conquistada pela Amazon para fotografias de coisas contra um fundo branco. Outra, mais antiga, foi a conversão para links de certas mensagens encontradas em mensagens de e-mail, base de um dos processos da Apple contra a HTC. Para além dos smartphones, encontramos coisas ainda mais descabidas, como a patente da roda (?) e a de um penteado para disfarçar a calvície.
É por essas e outras que a decisão conjunta de Apple e Google transcende as implicações jurídicas que decisões do tipo têm. Na real, essas disputas são mais sobre intimidação do que reparação monetária; alguns milhões de dólares não fazem nem cócegas em quem lucra bilhões a cada trimestre. A consequência mais importante desse anúncio é o desejo compartilhado de reformar um sistema que invariavelmente tira o foco da inovação e drena recursos que, de outra forma, poderiam ser investidos no aperfeiçoamento e barateamento da tecnologia.
Benefict Evans fez um curioso exercício: comparou, em um gráfico, as vendas de Macs e dispositivos iOS (iPhone e iPad) com as de PCs e smartphones rodando Windows e Windows Phone, respectivamente. Resultado? As linhas e a barra ficaram bem próximas em dezembro último:
Gráfico: Benedict Evans.
A Quartz decretou: “É oficial: a Apple vende mais computadores do que todos os PCs Windows combinados”. Polêmica. Tem gente es estapeando em discussões online, defendendo seu ponto, seja pró-Apple ou contra ela.
Para mim esses números dizem mais sobre a Microsoft do que a Apple. Mais sobre PCs e dispositivos Pós-PC do que empresas específicas. Acredito que Evans tenha achado conveniente pegar dados de uma empresa que vende muitos dispositivos Pós-PC do que vasculhar e consolidar vários números esparsos de quem fabrica e comercializa gadgets que rodam Android — afinal, o sistema do Google vende mais que iPhones e iPads, e por uma grande margem.
A principal mensagem que se extrai da comparação é como a Microsoft está enrascada. O Windows não vende mais como antes, as reservas que analistas faziam do Windows 8 se foram, tem muita gente falando abertamente em “fracasso” e, para piorar, o Windows Phone ainda não decolou em market share — e lá se vão quase quatro anos tentando. É de se preocupar. É isso que o gráfico aponta.
É errado comparar smartphones e tablets com computadores completos? Para fins mercadológicos, não. A manchete da Quartz é meio sensacionalista, mas pense bem: tanto Apple quando as OEM que usam Windows disputam o mesmo consumidor. Pessoas que, em sua maioria, querem um dispositivo para navegar em sites, ver as fotos das férias, acessar o Facebook.
Coisas triviais, mas não só. O poder computacional da safra atual de smartphones e tablets está longe do de um PC capaz, mas é suficiente para fazer muito. Quer editar vídeo, áudio? Tranquilo. Jogos elaborados, com gráficos bonitos e dinâmicas inteligentes? Sem problema. Até aplicações comerciais, antes um terreno onde o Windows reinava, já se renderam à agilidade das telas sensíveis a toques.
Para uma parcela restrita de usuários, gente que trabalha com audiovisual, gamers hardcore e ambientes corporativos com um grande legado, usar Android ou iOS é, no mínimo, inadequado. O ponto é que, relativamente falando, esse público é pequeno. Para a maioria o GarageBand e o iMovie dão conta, o Flappy Bird é diversão na medida certa, nenhum aplicativo específico ou exclusivo do Windows é essencial.
É esse grosso da base de usuários que, nos EUA, já usa mais o smartphone do que PCs convencionais em seu tempo livre. É ele que aponta a computação pessoal para os dispositivos móveis, para a Era Pós-PC.
Este outro gráfico de Evans mostra as vendas de PCs Windows plotadas sobre as de dispositivos com Android e iOS entre junho de 2007 e junho de 2013:
Gráfico: Benedict Evans.
Computadores sumirão? Claro que não. Mas eles serão menos populares. Converse com várias pessoas com menos de 20 anos e você provavelmente encontrará algumas que não têm computador, mas que têm um smartphone. Esse cenário deverá ser cada vez mais comum futuramente.
A Era Pós-PC é sobre uma troca de papéis: de coadjuvante, o smartphone passa a ser protagonista. Ele troca de lugar com o PC que, ainda por aí, mas com as vendas estagnadas e margens de lucro baixíssimas, encontra refúgio em ambientes onde ele é imprescindível.
O lançamento oficial dos novos iPhones no Brasil será na sexta-feira, mas os preços do iPhone 5s e 5c já foram revelados. Prepare-se: eles são assustadoramente caros.
A tabela foi divulgada pela TIM e ratificada pela Saraiva — que já tirou do ar a página onde ela aparecia. Confira:
iPhone 5c (16 GB): R$ 1.999
iPhone 5c (32 GB): R$ 2.399
iPhone 5s (16 GB): R$ 2.799
iPhone 5s (32 GB): R$ 3.199
iPhone 5s (64 GB): R$ 3.599
Talvez algum esteja escapando da minha memória, mas não me lembro de outro smartphone recente, com exceção do iPhone 5 de 64 GB vendido diretamente pela Apple, que tenha chegado aos R$ 3.000.
O Felipe fez as contas e o aumento no preço do iPhone 5s em relação aos valores cobrados no lançamento do modelo anterior, o iPhone 5, ultrapassa a valorização do dólar no período. A variação fica entre 16,7% e 20%, enquanto a moeda estrangeira, normalmente apontada como culpada pelos valores salgados dos gadgets por aqui em conjunto com os impostos, subiu 11% no mesmo período.
Comparar os novos preços com os dos iPhone 5 é um exercício curioso:
Haverá festas de lançamento em shoppings à meia noite de quinta para sexta-feira, com distribuição de brindes e ofertas especiais para os corajosos que enfrentarem fila para pagar tão caro por um smartphone. Os locais podem ser vistos no Giz.
A perspectiva de que os estoques iniciais, provavelmente limitados, deverão sumir em poucas horas tem respaldo nos modelos anteriores. Todo ano o iPhone chega aqui mais caro, todo ano a história se repete. É aquela velha questão: enquanto houver quem pague, por que fugir dessa precificação maluca? Comentamos isso, aliás, no último podcast.
Uma das alternativas a pagar tão caro em um iPhone novo é trazer de fora. Com a questão do 4G, não é todo iPhone que é compatível com a infraestrutura brasileira — embora no 3G qualquer um funcione sem problemas. Mesmo que o 4G não seja um fator importante para você no momento, a diversidade de modelos de um mesmo iPhone afeta a garantia: a Apple local só presta suporte aos modelos que são comercializados aqui. O MacMagazine explica bem quais países vendem o mesmo iPhone vendido no Brasil e que, portanto, pode recorrer à garantia local.
Além de comprar de fora, uma última saída para quem não considera um Android ou Windows Phone no bolso é apelar para modelos usados de iPhone 5. O hardware é virtualmente o mesmo do iPhone 5c, ou seja, ainda tem fôlego para gastar, e de segunda mão os valores ficam mais digeríveis. E, questão de gosto, o visual do iPhone 5 para muita gente é mais bacana que o do 5c. (Eu também acho!)
Foi isso o que fiz para ter um “iPhone da redação”:
Na hora de mostrar a família de iPads com os novos membros recém-apresentados, na terça, a Apple manteve à venda o iPad 2, um senhor que todos achávamos estava prestes a se aposentar. Com especificações defasadas e sem alteração no preço, a pergunta que todos se fazem é: por quê?
Não é estranho à Apple manter versões antigas de seus dispositivos à venda em paralelo com as novas. Na realidade, é praxe. Normalmente a empresa mantém três iPhones e dois iPads à venda. Um lançamento, seguido de modelos dos anos anteriores com preços mais em conta.
As coisas mudaram em 2013. O iPhone 5c tomou o posto que, na antiga tradição, seria do iPhone 5, situação viabilizada com o lançamento simultâneo de dois iPhones, algo inédito até então. (O iPhone 4S continua à venda, de graça com contrato nos EUA, e por um preço mais camarada, mas ainda salgado, em outros mercados.)
No caso do tablet, até a manhã desta terça havia três modelos à venda: iPad “4”, iPad mini e iPad 2. Esse último, apesar de duas gerações atrasado, era compreensível porque a terceira e quarta gerações são muito próximas, tanto que o intervalo entre os anúncios de ambas foi de alguns poucos meses. Dois iPads grandes, um com tela Retina, outro não. Tudo ok.
O mais natural, então, era que o iPad 2 se aposentasse terça e o iPad “4” ocupasse seu lugar como opção de baixo-custo. Não foi o que rolou. O penúltimo modelo saiu de linha e o idoso iPad 2 segue firme e forte, e sem alteração no preço — continua custando cada vez mais caros US$ 399.
Novamente: por quê?
Foto: Apple/Reprodução.
O espanto, e até indignação que a manutenção do iPad 2 causou, se explica olhando para os lados.
Pelos mesmos US$ 399, o consumidor em potencial interessado em um tablet da Apple leva o novíssimo iPad mini com tela Retina, SoC A7 e outras novidades compartilhadas com o iPad Air — a escolha entre os dois é uma questão meramente de gosto e de se ter US$ 100 sobrando na carteira.
Se o custo for o norte para a compra do equipamento, o iPad mini de primeira geração é imbatível por US$ 299. Embora a tela tenha a mesma resolução e o SoC seja o mesmo do iPad 2, um Apple A5, ele é mais avançado com conector Lightning, câmera melhor, suporte a 4G e Siri.
Tentaremos entender o que leva a Apple a continuar oferecendo o iPad 2, mas a menos que você precise especificamente desse modelo, é difícil argumentar favoravelmente à sua compra. As alternativas são melhores.
Tentando justificar o iPad 2 em 2013
Um dos exercícios mais populares desde terça é tentar justificar a manutenção do iPad 2 no varejo. São diversas teorias, nenhuma comprovada, já que a Apple não fala e os números que divulga tampouco ajudam a entender a situação — quando divulga a quantidade de iPads e iPhones vendidos, ela não quebra esses números por modelo, dá apenas valores agregados.
Dito isso, parto da premissa mais simples: o iPad 2 continua à venda porque… vende. Com linhas de produtos tão enxutas, a Apple não teria por que manter um produto tão datado se ele não estivesse ajudando a elevar faturamento e lucro. Um antigo como o iPad 2, especialmente por US$ 399, hoje deve ter margens saborosas. Para quem domina a linha de montagem e relação de fornecedores tão bem quanto a Apple, atender essa demanda deve ser algo que é feito de muito bom grado. E estimativas recentes, como as da Consumer Intelligence Research Partners, apontam que o iPad 2 ainda respondia, pelo menos até setembro, a quase 30% das vendas de iPads. Não é pouca coisa.
Outro aspecto muito citado e que faz bastante sentido é a compatibilidade. O iPad 2 é o único modelo ainda à venda com o conector de 30 pinos e o que à primeira vista é desvantagem (e é mesmo, pelo tamanho e problemas que pode dar), acaba sendo interessante para quem investiu muito em homologação, infraestrutura e acessórios baseados nessa interface.
Nos textos lá de fora são comuns relatos de escolas e empresas como potenciais compradores de iPad 2. Adaptar ambientes com centenas, milhares de usuários a um dado equipamento não é uma coisa simples, ou barata, logo US$ 399 em cada tablet para substituir um ou outro problemático ou quebrado sai, no geral, mais barato do que trocar toda a infraestrutura e a base para o novo conector Lightning. Mesmo nas compras em lote esses US$ 100 de diferença para o Air pesam no final.
Cedo ou tarde a migração para uma versão mais atual acontecerá, mas com os orçamentos limitados das escolas e a mentalidade econômica de empresas de pequeno e médio porte, adquirir tecnologia conhecida, ainda que obsoleta, acaba sendo a melhor saída.
O comparativo entre iPads que a própria Apple oferece também dá algumas pistas de padrões observados. Os dois novos iPads têm telas Retina, os dois antigos mantidos, não. Os dois novos, SoC A7, os dois antigos, A5 — também usado no iPhone 4S e Apple TV (versão single core), ambos ainda vendidos.
Embora frágil, existe uma simetria entre os modelos de ponta e os antigos, e o tamanho físico do iPad 2 pode ter apelo junto a alguns consumidores, gente para quem Giga hertz e telas Retina não diz muito. Como explicou Patrick Moorhead, analista da Moor Insights & Strategy, ao The Verge:
“É o tamanho que importa. Um monte de gente entra em uma loja com suas mentes já decididas por um tablet de 10 polegadas ou um de 7 ou 8, e eles partem disso. Para muitos deles, aquela uma polegada extra de espaço diagonal é de uma importância tremenda.”
Outra linha, essa menos comum, diz que o iPad 2 é um agente infiltrado cujo único propósito é impulsionar as vendas dos demais modelos, estratégia baseada no Efeito Decoy, ou triangulação. Nesse caso, o iPad 2 se apresenta não para ser vendido, mas para tornar mais atraentes os preços do novo iPad mini e iPad Air. Um exemplo prático e mais palpável: o Xbox One brasileiro por R$ 2.200 é caro, mas quando a Sony anunciou que o PlayStation 4 custará R$ 4.000 por aqui, ele imediatamente pareceu um negócio melhor do que era antes. Viu?
(Duvido que a Apple manteria uma linha de produção inteira apenas para mexer com o psicológico dos compradores forçando-os a comprar modelos melhores, mas com tanta teoria maluca passeando por aí, fica o registro de mais essa.)
O mais engraçado nessa pequena polêmica foi a reação agressiva de parte da imprensa internacional. “É uma trapaça”. “Se você tiver qualquer impulso em comprar um iPad 2 de 16 GB por US$ 399, você provavelmente deveria ir a um hospital e fazer um exame da cabeça“. “Eu o tacharei de idiota se você comprar um iPad 2 por US$ 399″. É bom saber que existe tanta gente preocupada com o bolso e a sanidade alheia :-)
Como é o iPad 2 em 2013?
Foto: Rodrigo Ghedin.
Mas digamos que por qualquer motivo você resolva que quer o iPad 2. Sei lá, a tela não-Retina é vintage, bacana, você tem aversão a velocidade ou quer uma tela de 9,7 polegadas em um tablet novo, lacrado, mas aqueles US$ 100 extras do iPad Air estão em falta. Enfim, não importa o motivo: você tem um iPad 2 novo em mãos. Como ele se sai?
Eu posso responder essa pergunta, mas porque comprei um iPad 2 lá atrás, quando ele ainda era o melhor que a Apple podia oferecer. Ainda hoje, aliás, do ponto de vista estético, ele impõe certo respeito: com exceção do iPad Air, é o modelo grande mais leve (601 g) e fino (8,8 mm) de todos. A título comparativo, o iPad 3/4 pesa 652 g e tem 9,4 mm de espessura. (Todos os valores para as versões com apenas Wi-Fi.)
Quarta-feira fiz a primeira restauração do meu iPad 2 nesses dois anos. Ele estava com o iOS 6-ponto-alguma-coisa e, entre joguinhos que minha afilhada curte e apps que instalei só de curiosidade, faltava espaço para viabilizar a atualização para o iOS 7. A trabalheira que daria apagar apps e espremer espaço livre não compensava; de quebra, com uma restauração pude ver como é o desempenho de um iPad 2 (teoricamente) novo hoje.
Não é dos piores, viu? Mas, sim, está longe de ser tão ágil quanto um tablet moderno. Veja bem: são dois anos e meio, três gerações que o separa do iPad Air. Até apps pouco intensivos, como os clientes oficias do Twitter e Facebook, pedem alguns segundos após abertos para ficarem funcionais. A multitarefa, agora com miniaturas das janelas, só consegue manter as imagens das três ou quatro primeiras. Há uns glitches mínimos em algumas animações, mas o belo efeito de paralaxe funciona em toda sua glória. É bonitão esse efeito, né?
A lentidão não é um empecilho grande, não chega a irritar. A restauração fez bem à saúde do iPad 2 e esses pequenos engasgos iniciais estão mais curtos agora. Vídeos e navegação web funcionam bem, sem qualquer dificuldade. Sou um usuário bem conservador, de poucos e bem definidos hábitos, e que não joga, então não exijo muito do equipamento. Talvez eu seja exceção, mas para mim o iPad 2 ainda está ok.
Foto: Rodrigo Ghedin.
Fora o desempenho, outra característica que entrega a idade do iPad 2 é a tela. Não é retina, e por não sê-lo, a tipografia mais delicada do iOS 7 fica estranha nos 1024×768 pixels do painel. Em alguns apps, como no oficial do Twitter, o serrilhado da (pequena) fonte fica bem aparente, a ponto de dificultar a leitura mais de perto. Aquela máxima de que dá para se virar bem sem telas de alta densidade desde que você nunca veja uma continua válido. Mais do que o desempenho, é a baixa resolução da tela a minha maior queixa.
Não, não compensa pagar US$ 399 em um iPad 2 hoje. Ele ainda segura as pontas, mas já mostra sinais claros de cansaço e… poxa, acho que é bem seguro dizer que de 2014 a aposentadoria não passa. Além disso, por valores menores (nos EUA) se consegue modelos usados de iPad 4, melhor em praticamente tudo.
Há situações bem peculiares em que a compra de um se justifica e se você quiser, também, quem sou eu para julgar? Muita gente ainda usa o primeiro iPad, seriamente limitado pelos seus 256 MB de RAM, e está contente. Talvez até mais do que os chatos linkados acima que reclamam com tanta raiva do que os outros compram.
Quando as carcaças de iPhone vazadas por Sonny Dickson apareceram no palco do penúltimo evento da Apple, mês passado, elas meio que validaram as dos futuros novos iPads, também divulgadas antes da hora pelo jovem australiano, como verdadeiras. Não havia convite para evento, não havia anúncio oficial, nada vindo da Apple, mas quem duvidaria de uma fonte que acabara de se provar confiável?
Dickson, esse fenômeno da esteira de rumores, é o ápice de uma indústria paralela à da tecnologia de consumo que, ao mesmo tempo em que sacia a ânsia por informações antes da hora e em primeira mão e conjecturas baseadas no “ouvi dizer”, acaba com o fator surpresa que todos sempre cobram e, cada vez menos, recebem de eventos como o de ontem. O que não chega a ser exatamente ruim. Apesar das previsões apocalípticas dos comentaristas de blogs (não os do Manual! :-) e da reação negativa dos investidores ao final de cada anúncio, dificilmente algum dispositivo recém-lançado da Apple empaca nas prateleiras.
Ontem foram apresentados a nova linha de tablets, composta pelo iPad Air e o novo iPad mini, MacBooks Pro com tela Retina atualizados, data e preço do Mac Pro e a versão final do Mavericks, nova versão do OS X. Abaixo, o que me chamou a atenção.
iPad Air ou iPad mini?
Foto: Apple/Reprodução.
O iPad mini que deveria ter sido lançado em 2012 foi apresentado ontem. Ele muda pouco, mas o que importa é que ele muda onde mais precisava: na tela. Sai a de baixa resolução do modelo de estreia (1024×768), entra uma Retina com resolução de 2048×1536.
A lacuna fechada pela Apple no seu tablet pequeno veio acompanhada de melhorias internas inesperadas. Poucos achavam que o SoC A7, que também equipa iPhone 5s e iPad Air, estaria nesse tablet — a versão anterior era equipada com o A5, de dois anos atrás. O módulo Wi-Fi com suporte a MIMO, o microfone extra para melhorar a qualidade do áudio e o co-processador M7 fecham o pacote de melhorias do novo iPad mini.
Algo ruim? Duas coisas que aumentaram: preço e peso. O iPad mini ficou 23 g mais pesado (29 g na versão com suporte a 3G/4G), chegando a 331 g e 341 g, respectivamente, e seu preço inicial, para o modelo de 16 GB com apenas Wi-Fi, subiu US$ 70 — começa, agora, em US$ 399. O iPad mini original segue à venda e teve um corte, passando a custar US$ 299.
Esse valor do novo mini se aproxima bastante dos US$ 499 que, desde a primeira geração, a Apple cobra pelo modelo inicial do iPad grande, com tela de 9,7 polegadas. Ontem ele chegou à quinta iteração e ganhou novo nome para combinar com sua leveza: chame-o iPad Air.
Foto: Apple/Reprodução.
A dieta pela qual ele passou impressiona. De 652 g, o peso do tablet caiu para 469 g (no modelo com apenas Wi-Fi). O iPad Air também encolheu, tem apenas 7,5 cm de espessura, contra 9,4 mm do modelo anterior. As bordas verticais ficaram mais estreitas, o desenho agora segue o padrão do iPad mini. É a mudança mais radical no iPad desde a segunda versão — que continua à venda, por sinal, ao custo de US$ 399, e deve ser um modelo ainda bastante procurado; só isso justifica a sua manutenção — e um assombro da engenharia de Cupertino. Mesmo menor e mais leve, ele é mais rápido que a geração anterior e mantém a mesma duração estimada de bateria.
Não que seja um detalhe muito relevante, mas esse “Air” no nome soa meio estranho. É um artifício de marketing válido, reforça as boas características físicas (é o tablet de ~10 polegadas mais leve do mundo e o segundo mais fino; nesse quesito fica atrás do Tablet Z, da Sony) e dá um frescor que deverá fazer bem às vendas. Mas ele não inaugura uma nova categoria, como fez o MacBook Air em 2008; embora muito melhor, ele continua sendo o mesmo produto de três anos atrás. O “Air” também rompe com uma convenção recente, a de abdicar de indicadores que denunciam a “idade” do iPad, prática que durou apenas duas gerações (os dois iPads lançados em 2012). Enfim, detalhes.
De resto, o iPad Air vem com as mesmas melhorias vistas e listadas acima do mini. A tela tem a mesma resolução, inclusive, o que lhe confere uma densidade de pixels menor — 264 DPI contra 326 do modelo com tela de 7,9 polegadas. Porém, pesa a seu favor a área real de tela para uso, e por mais que a portabilidade do iPad mini seja tentadora, a 1,8 polegada extra do Air tem seu apelo.
Com uma diferença tão curta, de apenas US$ 100, e configurações tão próximas, inclusive o peso, escolher entre iPad Air e iPad mini é uma questão mais de gosto do que de fatores técnicos, mais coração do que razão. Ainda restam dúvidas sobre a quantidade de RAM de cada um (não faria muito sentido diferenciá-los nisso), ou se a frequência do processador será mais alta no Air (provável), mas fora isso, quem está em busca de um novo tablet se vê num dilema dos bons.
Acredito que o padrão de uso deva ser o fator decisivo no caso. A maioria que comprou e gosta do iPad mini original destaca a portabilidade dele: menor e mais leve, dá para carregá-lo para todo canto numa boa. O abismo que o separa do Air em peso diminuiu, mas o tamanho permanece inalterado, de modo que o parâmetro que, pessoalmente, tomo aqui é o seguinte: se você usa tablet em casa, deitadão no sofá, o Air é mais negócio. Se ele te acompanha nas aventuras urbanas longe do aconchego do lar, aí o mini parece mais adequado.
Ambos parecem, no papel e pelos hands-on publicados ontem, tablets espetaculares. Não quero desmerecer o trabalho de engenharia dispendido na dupla, mas deve ser mais fácil surpreender dessa maneira quando se parte de um produto tão bom quanto o iPad sempre foi. De qualquer maneira, kudos para a Apple.
A versão final do Mavericks, ou OS X 10.9 se você prefere números, foi lançada ontem mesmo. E, o mais importante, de graça.
O preço das atualizações do OS X vinha caindo sistematicamente, de US$ 129 para US$ 29 e, agora, para zero. A oferta alcança versões anteriores à penúltima (Mountain Lion), é compatível com basicamente todo Mac lançado a partir de 2007. É diferente do que rola no Windows 8.1, da Microsoft, gratuito apenas para quem estiver rodando o Windows 8.
John Paczkowski nos lembra que essa estratégia de software gratuito é, na realidade, um retorno às origens. Até o System 7, a Apple não cobrava pelo software. Na Wired, publicação acostumada a sentenciar a morte de coisas, Ryan Tate disse que a era dos sistemas operacionais pagos chegou ao fim. E é bem provável que seja isso mesmo.
“O preço de US$ 0 está ligado à tendência de integração vertical. Uma empresa que faz tanto o hardware quanto o software de um dispositivo pode escolher onde colocar suas margens de lucro. Dado o poder mágico que [a palavra] ‘grátis’ tem nas mentes dos consumidores, é melhor colocar todo o lucro em uma só cesta. Hardware gratuito é difícil de conceber, então a missão fica com o software: compre nosso hardware, obtenha nosso software de graça.”
Foto: Apple/Reprodução.
E não bastasse o Mavericks gratuito para todo mundo, as suítes iLife e iWork também passaram a não custar nada, mas só para quem comprar novos dispositivos (vale para iOS e OS X) desde 1º de setembro deste ano. Serenity Caldwel explica os detalhes das ofertas na Macworld.
O alvo, ou grande prejudicado com esse desprendimento pelo software, aliás, parece ser a Microsoft. Na Época, Guilherme Felitti explica como essa inversão de valores entre hardware e software pode machucar a empresa de Steve Ballmer. E é de se pensar, mesmo, o que a Microsoft fará agora sendo a única das três grandes a cobrar pelos seus sistemas — Android e Chrome OS, do Google, também não custam nada a fabricantes e usuários.
Desta vez acompanhei o evento com certo distanciamento, um pouco longe do calor do momento — e definitivamente longe dos comentários de blogs e portais. Até recorri às contas em redes sociais do Manual para tentar, com uma amostragem obviamente viciada e muito restrita, entender se aquela insatisfação generalizada comum a todo evento da Apple pós-apresentação do iPad original se repetiu. Pelo menos entre os que interagiram por lá, parece que a recepção foi menos hostil. Parece, não posso dizer com certeza.
O iPad Air é um feito de engenharia, o iPad mini foi além do que se esperava, os MacBooks Pro à venda, agora, são apenas modelos com tela Retina e ficaram mais poderosos, com chips Haswell, e mais finos, o poderoso Mac Pro cilíndrico chega em dezembro. Mavericks, iWork e iLife de graça. São novidades bem legais.
Dizem que em time que está ganhando não se mexe, mas quase sempre há, sim, espaço para aperfeiçoamentos. Bom para quem vê a beleza disso tudo — sem deslumbramentos, mas tampouco com desdém.