Etc

5 jogos que parecem ridículos ao serem descritos porém na real são legais

Pessoas jogando video game em um notebook velho em uma cozinha.

Quem joga videogame certamente já passou pela constrangedora situação de comentar um jogo legal que, em palavras, parece uma ideia bem errada. E, veja, às vezes não importa quem esteja falando. Por mais articulada ou persuasiva que essa pessoa seja, é difícil “vender” um jogo criado em cima de uma premissa… estranha. Nesse momento, o melhor a se fazer é concluir dizendo “sei que parece estúpido, mas acredite em mim: é legal”.

Contrariando o conselho que acabei de dar, neste post reuni alguns jogos desse tipo e, não bastasse isso, tento explicar o que os torna legais. É uma missão fadada ao fracasso, mas hey, o importante é tentar. Deixei de lado os jogos absurdos que são muito populares, como aqueles em que sua missão é literalmente assassinar com armas de fogo o maior número de pessoas, e que por algum motivo doentio e incompreensível são considerados “normais”.

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Dadish

Quadro do jogo Dadish no mundo da praia.
Imagem: CatCup Games/Divulgação.

Dadish é o mais novo da turma e, em muitos aspectos, o mais convencional também. A parte complicada é explicar que… bem, você controla um rabanete, pai de vários rabanetinhos rebeldes que se perdem em cenários meio perigosos. Seu objetivo, pois, é resgatar seus filhos desviando de inimigos perigosíssimos como fatias de pizza que pulam, hambúrgueres com um espeto na cabeça e latas de refrigerante que explodem. Sacou o ~subtexto? Rabanetes contra junk food? É… um… jogo educativo… LEGAL. Não me lembro de outro do tipo, e este talvez seja legal apenas porque a parte educativa é tão sutil que só me dei conta dela agora, enquanto escrevo estas linhas.

Dadish é um jogo de plataforma com uns quebra-cabeças simples e cuja dificuldade está na medida certa para o celular. Caso queira aumentar o desafio, é possível pegar a estrela escondida em cada nível — embora, sinceramente, não saiba dizer qual a diferença entre pegá-las ou não. O melhor do jogo são os diálogos entre o rabanete pai e seus filhos ao final de cada fase (apenas em inglês, infelizmente). A maioria é hilária! Jogo curtinho, mas muito legal.

Realismo: ⭐️
Insanidade: ⭐️⭐️⭐️

Diversão: ⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️

Disponível em: Android (grátis, R$ 13,99 para remover anúncios), iOS (grátis, R$ 10,90 para remover anúncios)


Job Simulator

Quadro do jogo Job Simulator mostrando um computador em um cubículo dentro de um escritório.
Imagem: Owlchemy Labs/Divulgação.

Este, que eu não joguei, talvez seja o que melhor sintetize a lógica “ideia idiota que vira um jogo até que legal”. Afinal, Job Simulator escancara o que outros jogos da lista deixam subentendido: a ideia de que, ao jogá-los, você está se esforçando em algo que, talvez, poderia ser de fato um trabalho, mas sem as recompensas que um trabalho real te dá e com o bônus de que você pode desligar o videogame e vida que segue. A Owlchemy Labs, desenvolvedora do jogo, tem como slogan a frase “Jogos absurdos e muito bem feitos!”

Não que precisasse de qualquer contexto, mas Job Simulator tem um. O jogo se passa em 2050, quando todos os empregos que hoje humanos desempenham foram remanejados para robôs. O objetivo da simulação é dar aos seres humanos do futuro um gostinho do passado. O jogo oferece quatro trabalhos: cozinheiro, um genérico de escritório, caixa de loja de conveniência e mecânico automotivo. Ah, e é um jogo de realidade virtual, então é tudo meio desajeitado, o que não contribui muito para o realismo, mas ajuda um bocado a compor a atmosfera avacalhada.

Em nota relacionada, recentemente a Owlchemy Labs lançou um novo título: Vacation Simulator. Sim, um simulador de férias.

Realismo: ⭐️⭐️⭐️
Insanidade: ⭐️⭐️⭐️⭐️

Diversão (expectativa): ⭐️⭐️⭐️⭐️

Disponível em: Oculus Quest (US$ 19,99), PlayStation 4 (R$ 83,50) e Windows (Steam) (R$ 37,99). Exige óculos de realidade virtual


Mini Metro

Mapa de Mini Metro com rios e algumas linhas de metrô criadas.
Imagem: Dinosaur Polo Club/Divulgação.

Metrôs são maravilhas da engenhosidade humana e embora muita gente os ache fascinantes sob diferentes ângulos — técnico, sociológico, urbanístico etc. —, um jogo de construir metrôs não seria, à primeira vista, associado a momentos de diversão e relaxamento. Mini Metro, da Dinosaur Polo Club, é exatamente isso. Óbvio que a dinâmica é extremamente simplificada, afinal um jogo que exigisse cálculos complexos e projetos no AutoCAD (ou seja lá qual software os engenheiros usem para isso) restringiria um bocado o público-alvo, mas a premissa é essa mesma, construir metrôs.

Em Mini Metro, você precisa construir e gerenciar as linhas de metrô em cidades que não param de crescer e com usuários bem exigentes. Você perde quando o descontentamento deles fica insustentável. O visual minimalista do jogo me lembra o trabalho do designer italiano Massimo Vigneli no metrô de Nova York, em 1972. Em 2018, o jogo ganhou esse exato mapa em uma atualização gratuita.

Realismo: ⭐️⭐️⭐️
Insanidade: ⭐️

Diversão: ⭐️⭐️⭐️

Disponível em: Android (R$ 4,39), iOS (R$ 14,90), macOS (R$ 37,90), Nintendo Switch (US$ 9,99), PlayStation 4 (R$ 41,50) e Windows (Steam) (R$ 19,99)


Papers, Please

Quadro do jogo Papers, Please, mostrando a interface principal com um imigrante e vários documentos sobre a mesa.
Imagem: 3909/Divulgação.

Esse é bem difícil de explicar porque é um jogo bem interessante. Em Papers, Please, você trabalha na fronteira de um país autoritário que lembra muito, esteticamente e em outros aspectos, os da velha União Soviética. O clima na região é tenso e seu trabalho, como funcionário do setor de imigração em uma fronteira seca, é liberar ou negar vistos aos cidadãos dos países vizinhos do bloco que tentam entrar na grande Arstotzka.

Papers, Please começa meio modorrento, quase mecânico, mas a tensão vai aumentando junto ao número de pedidos e a complexidade deles, gerando dilemas morais que realmente questionam o jogador. Os imigrantes tentam enganá-lo, comprá-lo ou comovê-lo com suas histórias; em várias situações não há “certo” ou “errado”, e mesmo assim você precisa tomar decisões. Criado pelo desenvolvedor independente norte-americano Lucas Pope, Papers, Please é um interessante (e instigante) exercício de ética em forma de jogo.

Realismo: ⭐️⭐️⭐️⭐️
Insanidade: ⭐️⭐️

Diversão: ⭐️⭐️⭐️⭐️

Disponível em: iPadOS (R$ 29,90), Linux e Windows (GOG) (R$ 16,99)


PC Building Simulator

Quadro do jogo PC Building Simulator mostrando um computador sobre uma mesa, com monitor, teclado e mouse.
Imagem: The Irregular/Divulgação.

(Por onde começar?) Existe uma cena de montadores de computadores no YouTube e em outros cantos da internet. É uma galera que monta computadores caríssimos e, em geral, meio bregas, cheios de luzes e tal. Tem gosto para tudo, né? PC Building Simulator reproduz esse estranho hobby. É um meta jogo: você constrói computadores usando computadores para… porque… não consigo e não me esforcei muito em entender.

Como é um título que evidentemente nunca joguei, fui dar uma olhada em vídeos do jogo. Surpreendi-me ao notar que o jogador pode criar uma loja de conserto de PCs e aí seu desafio passa a ser consertar computadores de clientes. Dá uma olhada nesta agenda de um jogador, como parece divertida:

Quadro de PC Building Simulator mostrando uma agenda cheia de compromissos.
Imagem: Steam/Reprodução.

A The Irregular, desenvolvedora do PC Building Simulator, firmou parcerias com diversas marcas fabricantes de componentes de PCs, o que transforma um jogo estranho em uma grande propaganda. Porém, é digno de nota a atenção aos detalhes: pelo trailer, os PCs acumulam poeira e se você monta eles errado ou exagera no overclocking, dão tela azul.

Realismo: ⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️
Insanidade: ⭐️⭐️⭐️⭐️
Diversão (expectativa): ⭐️

Disponível em: Nintendo Switch (US$ 19,99), PlayStation 4 (R$ 83,50), Xbox One (R$ 67,45) e Windows (GOG) (R$ 37,99)

Foto do topo: Vincent Diamante/Flickr.

Edição 20#20

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8 comentários

  1. Um jogo que não é exatamente estranho mas que, por conta de um MOD virou algo regional e nichado é o Euro Truck Simulator. Hoje em dia existe uma comunidade grande e ativa de brasileiros fazendo as linhas, tanto de ônibus como de frete, usando MODS que emulam os ambientes brasileiros – rodovias, postos de parada, empresas de carga, empresas de passageiros.

    1. Esses jogos de caminhão estavam na versão preliminar da lista. Não sei qual é a do público-alvo, mas eu acho o ato de dirigir bastante cansativo/estressante, daí estranhar a ideia de simular realisticamente uma profissão cujo objetivo é dirigir da maneira mais correta e previsível possível.

      1. Eu ia sugerir que procurasse justamente esta comunidade se um dia fosse fazer alguma matéria sobre games – como não colaboro como assinante, sei que não tenho como acompanhar caso você adiante uma pauta ou pede sugestões na sua comunidade restrita. Mas blz.

        Não sei se tu sabe, mas tem um jogo de ônibus feito no Brasil por um entusiasta. http://proton.viamep.com

        E acho que existe dois pontos quando se fala nesta comunidade. Há a galera que vai por causa mesmo dos caminhões / ônibus (visual, querer apenas brincar, etc…) e tem a galera que leva a sério para treinar caso um dia vire motorista. Acredito que recaí na mesma ideia da comunidade de “pilotos virtuais” em um Flight Simulator.

        1. Parece uma iniciativa bacana! Realmente, poderia ter entrado no post.

          Embora eu tenha zoado o PC Building Simulator, ele também tem uma vertente educacional que ensina a estudantes como computadores funcionam. É meio difícil conciliar esse aspecto com o fator diversão, mas alguns jogos conseguem, né?

          1. Entendo que muitos jogos servem como ponto inicial para educar para algo.

            Simuladores de trânsito (por exemplo), ao meu ver, deveriam ser voltados a justamente educar para o trânsito. É legal a diversão de ziguezaguear em ruas, “escutar o ronco do motor” e tal, mas a cultura automotiva, hoje, ao meu ver, está tão tóxica quanto a de gamers. Isso devido justamente a ter se tolerado por muito tempo comportamentos erráticos no trânsito. Dirigir é um ato estressante para quem não gosta. Mas tem algum certo prazer para quem curte (como eu).

            No caso do simulador que citei, ele foi feito por um entusiasta de transporte público que resolveu criar uma plataforma “do zero”, dado que antes ele fazia como muitos na matéria da Andressa: criava mods e deixava o jogo ao jeito dele. Somou o conhecimento dele de tecnologia a paixão pelo transporte e nasceu o jogo, que tem uma comunidade razoável (apesar de que ainda alguma toxidade e cobranças absurdas). Creio que vale a pena fazer uma matéria sobre ele, assim expandindo o seu texto sobre “Flogrs” que tinha sido feito no passado.

            Indo ao seu primeiro comentário, tu falou da questão de “simular algo estressante”. Tinha me esquecido de falar sobre. Entendo que se a pessoa tem o prazer em algo, não o estressa ou a estafa não vira negativa, dado que a pessoa tem a noção que o faz por ter prazer em fazer, por assim dizer devido ao fato que é bem simplório este argumento.

            O jogo de “montagem de PCs” queria pegar um dia para joga-lo, mas não tenho máquina para isso. No entanto, me lembro que existia um “jogo em flash” da Intel que era uma espécie de quiz com imagens que tinha a mesma intenção de ensinar sobre computadores.

            E me lembrei também que há diversos jogos educativos que seriam interessantes se fossem mais públicos, porém por serem plataformas fechadas ou feitas para nichos, acabam renegadas. Por exemplo, “Edison”, que é um simulador de circuitos elétricos / eletrônicos, mas serve também como jogo educacional para ensinar como funciona a eletrônica (e me lembro vagamente que era instalado em computadores da rede pública paulista). http://www.edisonlab.com/Portuguese/edison/

        2. Uma vez fiz uma longa viagem de Uber (Eldorado do Sul POA) e o motorista me contou da comunidade do ETS e dos MODs (foi como eu fiquei sabendo disso inclusive).

          A justificativa dele, um pessoa que passava o dia todo dirigindo como profissão, pra ter um hobby que simula direção era exatamente que ele não tinha dinheiro pra ser caminhoneiro (é muito caro ter carteira) e esse tipo de jogo saciava um pouco da vontade.

    2. Tal qual o ETS considero a franquia Spintires outra digna de citação pela bizarrice da premissa (executar as missões enquanto supera atoleiros e terrenos inóspitos dos mais variados tipos) e por acabar sendo tão técnico que também ficou restrito a um nicho. Sou fã das duas!

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