O WhatsApp como um bar

Montagem. Um bartender mexendo um drink atrás do balcão de um bar, com várias bebidas ao fundo, mas com o rosto colado de Mark Zuckerberg sorrindo.

Analogia é o recurso linguístico mais preguiçoso que existe para explicar algo. Peço desculpas antecipadamente para fazer uso de uma nesta breve análise do WhatsApp às vésperas da entrada em vigor da sua nova política de privacidade.

Costumo encarar apps e sites sociais como se fossem bares. Essa é a analogia, e me parece tão redonda que, embora preguiçosa, gosto de usá-la vez ou outra. O principal ponto de contato dos dois, redes sociais e bares, é o chamado “efeito de rede”: quanto mais gente frequenta esses lugares, mais imperdíveis eles se tornam.

Um bar chamativo, com bons drinks, música no volume certo e ambiente agradável, é convidativo, mas não entrará na sua rotina se seus amigos preferirem aquele boteco pé sujo dos tempos da faculdade. Ninguém troca um bar ruim com os amigos para ir sozinho a um bar melhor. Quando o “nosso bar” é definido, quase sempre tacitamente e por motivos que fogem à razão, esse bar precisa piorar muito, mas muito mesmo, para que outro seja cogitado.

A mesma coisa acontece com apps de mensagens e redes sociais. Os evangelizadores do Telegram gastam muito teclado e saliva alardeando os mil e um recursos dele, mas o WhatsApp tem conseguido reter praticamente todos os brasileiros que têm um celular sem oferecer nem metade do que é possível fazer no Telegram. É o nosso boteco pé sujo, que todo mundo conhece e frequenta.

Eu não tenho muito problema com os frequentadores do WhatsApp, na real. O meu problema é com a direção desse bar. Os donos do bar WhatsApp não cobram, é tudo de graça, mas em troca ficam bisbilhotando com quem eu converso e o que eu faço, e a todo momento parecem estar tentando tirar vantagem de mim. Agora, com a nova política de privacidade, eles estão propondo aumentar essa vigilância, compartilhando algumas das minhas conversas com outras empresas e aumentando as coisas em que repara quando eu apareço por lá, como o nível da bateria do meu celular (isso é real, não é uma hipérbole).

A nossa analogia quebra quando colocamos na conversa o fato de que o WhatsApp é um estabelecimento virtual. E, no virtual/digital, tempo e espaço são obliterados, eles deixam de existir. Em outras palavras, aqui alguém pode estar no bar WhatsApp, no bar Signal e no bar Telegram ao mesmo tempo, sem qualquer prejuízo.

A virtualidade deveria tornar mais fácil trocar de bar quando o dono de um pisasse na bola, mas a direção do WhatsApp é esperta, sabe disso. Para evitar a debandada, ela gasta muito dinheiro em marketing e, numa jogada tão genial quanto desleal, paga o equivalente ao Uber para buscá-lo na porta de casa — esta é outra analogia, no caso com o “zero rating” das operadoras móveis, um acordo em que o uso do WhatsApp não é descontado da franquia de dados do usuário, gerando uma vantagem artificial ao app do Facebook, mas que, para o Cade, uma que não fere a neutralidade de rede.

A partir de 15 de maio, o WhatsApp começará a piorar o serviço de quem não aceitar a sua nova política de privacidade. Àqueles como eu que ainda não a aceitaram, ele não vai nos barrar na entrada, mas nos colocará num cercadinho distante das outras pessoas e orientará os atendentes a nos ignorar cada vez mais, até sermos chutados para fora.

Tenho alguma experiência em abandonar bares populares — saí do Instagram em 2018, por exemplo. Quando alguém faz isso, é provável que uma ou outra oportunidade se perca e que contatos esporádicos com pessoas que nos são queridas, mas com quem não conversamos muito, rareiem.

Decisões do tipo sempre implicam em perdas, mas gosto de pensar nessas coisas como naquela frase do Dr. Ian Malcolm, personagem de Jeff Goldblum no filme Jurassic Park: “A vida, ahn… encontra um caminho”, no que quero dizer que existem outros apps (Signal, Telegram) e meios de comunicação digital (semi-)instantâneos (SMS, e-mail). A informação importante sempre lhe alcançará, ainda que com algum atraso.

A força de um bar ou de uma rede social/app de mensagens está nos seus frequentadores. Quanto menos gente estiver em um, mais fácil é para os que ficaram saírem também. Sei que muitos literalmente dependem do WhatsApp para trabalhar ou até viver — de pronto, me ocorrem donos de pequenos restaurantes e educadores. Quem tem menos a perder pode puxar a fila, num ato de revolta e protesto contra as sistemáticas práticas abusivas do Facebook. Existem outros bares mais legais e menos invasivos por aí. Vamos para lá?

Para aprofundar-se no assunto:

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Montagem do topo sobre foto de Kike Salazar N/Unsplash.

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13 comentários

  1. O Telegram lhe da a os caminhos para que você mesmo e outras pessoas o Denuncie canais,grupos,bots,e Usuários, que estejam Fazendo qualquer tipo de ato Ilícitos, ou algo que você não Goste!

  2. Já entrei nessa fila desde 2018 (incluindo google, parcialmente, pois este está tão entranhado nas nossas vidas que será mais difícil). Prefiro ficar de fora dessas redes e da falsa sensação de inclusão do que ser conivente com tanto abuso. Aliás, graças ao face e google os extremistas conseguem até eleger bolsonaros…

  3. ghedin, o telegram tem moderação fraca e com equipe pequena e é casa de gente extremista que segue Bolsonaro e Trump que usam para espalhar fake news com mais facilidade por haver meios de espalhar os fake news e ódio.

    enfim eu ficarei em WhatsApp pq meus parentes usam e uso para combinar com lojas e verificar se tem produto ou algum animal disponível para eu adotar caso seja preciso.

    eu entendo e que estou ciente que o WhatsApp fica vigiando tudo mas pelo menos consegue controlar os extremistas e fake news mesmo pessoal perca a privacidade, nada é de graça eu sei disso na vida.

    afinal o empresa Facebook já é gigante e será difícil fazer o Facebook manter ao lado do privacidade se fazer focar em privacidade como Telegram faz, só que a moderação não olha direto quem está postando ou falando no caso de extremistas que poderiam usar como desculpa para espalhar fake news sem serem vigiados. só precisam ter moderação séria para controlar os extremistas que usam para espalhar fake news e ódio, o Telegram nem tem isso e tem pequena equipe pequena para conseguir controlar os loucos.

    https://nucleo.jor.br/especiais/2021-02-18-telegram-extrema-direita foi que eu entendi sobre isso.

    1. Com qual base você afirma que não existem extremistas no WhatsApp? É virtualmente impossível saber o que se passa ali dentro, graças à criptografia de ponta a ponta. Se o critério de escolha de um app de mensagens é que só pessoas boas e bem intencionadas o usem, você vai acabar… falando sozinho.

      A escolha entre privacidade e segurança é um falso dilema, reforçado por empresas que levam vantagem ao emplacarem-no. Você pode (e deve querer!) ter os dois.

      A lógica de que um estado (ou app) policial é melhor porque seria capaz de controlar discursos dissidentes é perigosa. Essa é a base de regimes ditatoriais — você pode discordar do Kim Jong-un ou do Maduro, mas eles seguem e acreditam exatamente nessa lógica para justificar os abusos que cometem.

      1. os extremistas não gostam de terem meios vigiados por tentarem espalharem fakes news e msgs de ódio e crimes que cometem contra minorias por isso saíram de whatsapp.

        A escolha entre privacidade e segurança é um falso dilema, reforçado por empresas que levam vantagem ao emplacarem-no. Você pode (e deve querer!) ter os dois.

        nem é falso dilema se pensar bem em privacidade esconde os atos de extremistas que cometem e grupos privados com conteúdo pedofilia e crimes nojentos que acontecem ás escondidas todo dia em telegram sem vigiar direto só piora mais por isso a segurança vigia para que tudo mundo siga a regras para manter a paz e evitar crimes que extremistas cometam.

        acho triste ter paranoia de ter privacidade e ficar com medo tempo todo pensando em 1984 e fazendo ficar mais paranoico! não é saudável!!! me pergunto qual é lógica viver com paranoia? isso quem quer esconder tem paranoia de privacidade, vc justifica usando medo sobre perda da privacidade colocando paranoia em tudo mundo.

        1. Olha, eu não me considero paranóico e acho bem razoável cobrar privacidade nas minhas comunicações pessoais. Você não? Você se sentiria confortável com alguém bisbilhotando todas as suas conversas, até as mais íntimas, em troca de “segurança”?

          E, novamente: extremistas não saíram do WhatsApp. É virtualmente impossível saber como os +2 bilhões de usuários do WhatsApp o usam. Poderia apostar que, em meio a tanta gente, tem muitos usos ilegais, reprováveis e desprezíveis. Imaginar que uma plataforma desse tamanho seja capaz de monitorar tudo é irreal e distópico. Vide o próprio Facebook, onde nada é criptografado de ponta a ponta e, ainda assim, o Facebook não consegue (e/ou não quer) moderar tudo o que rola lá dentro.

          1. e como fica com telegram e signal onde também fazem usos ilegais com equipe menor? onde tudo é criptografado como evitar os crimes rolam sendo como moderar se rola em grupos privados ou chat privados? me parece utopia tentar manter privacidade e segurança equilibrada.

            lhe pergunto como descobrir os criminosos sem violar a privacidade e ter segurança e conseguir moderar muita gente em outros apps já que telegram e signal dia vão virar empresas grandes?

          2. @ vontontu

            Esse é o grande desafio. De qualquer forma, a investigação de qualquer crime não tem (nem deve ter) poder absoluto. Um policial não pode invadir sua casa, por exemplo, se suspeitar que você cometeu um crime. Ele precisa de um mandado e, sem ele, há exceções como o flagrante, mas regra geral o domicílio é inviolável. Mesma coisa com correspondências e ligações telefônicas — embora não sejam criptografadas, não podem ser violadas salvo com autorização da Justiça.

            Quando você coloca essa “segurança” em primeiro lugar, joga o bebê fora junto com a água suja. A privacidade é um direito importantíssimo e, como tal, deve ser respeitada em todos os contextos. A polícia que lute para investigar sem violá-lo, ou só violá-lo quando houver indícios e com autorização judicial.

            Esse estado que você almeja não difere muito da União Soviética stalinista, ou da Alemanha Oriental. Utopia é achar que autoridades se limitarão à investigação de crimes se tiverem tanto poder sobre as nossas vidas e não incorrerão em abusos, intimidação e controle absoluto da população. Muito cuidado com o que você deseja.

      1. pórem os extremistas de whatsapp saíram de whatsapp para ao telegram assim eles podem ter mais facilidade de espalhar mais fakes news e repassar msgs de ódio e poder planejar coisas ruins como manter negacionismo e manipular tudo a favor de bolsonaro e cia.

          1. eu entendi ghein, talvez duas ferramentas são complicados de moderar os pessoas virtuais.

            agora vamos ao problema de fake news e extremismo na redes sociais e apps vide whatsapp e telegram deveriam ter moderação séria mas que não retire a privacidade e evitar passar pano, não deixar os extremistas se esconderem em apps ou redes sociais.

            esse moderação é algo difícil de se obter para manter a internet em paz para que a vida real não seja afetado infelizmente a vida real vai para internet e vice-versa maior problema da internet é o anonimato que garante privacidade porém garante impunidade qnd vc comete crime na internet sendo anônimo fica difícil saber quem cometeu crime.

            então gente percebeu que a internet virou terra sem lei, as pessoas virtuais se sentem poderosos com anonimato podendo cometer crimes na internet com facilidade de criar conta, usar tor com vpn sem controle nenhuma assim criando as problemas sem fim,
            como resolver o problema?

            talvez possamos tentar com reeducação com sistema da punição justa e a inclusão digital das pessoas na vida real…claro criar uma moderação justa que não mate privacidade tente seguir com segurança e o privacidade de forma equilibrada é o ponto mais difícil pode parecer impossível atualmente.

            me pergunto como a justiça vai respeitar privacidade e garantir a segurança?

      2. Concordo que nenhuma das duas ferramentas sejam as melhores. Acredito que uma moderação de fake news retiraria a privacidade mas seria mais saudável.

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