Watson: uma voz para a arte ou uma cara para a tecnologia?


25/4/17 às 13h25

Vale muito visitar a Pinacoteca do Estado de São Paulo. Vale, inclusive, se você mora em outra cidade que não São Paulo e pode reservar um tempo para vir até aqui. Mesmo quando a Pinacoteca não abriga uma grande exposição com obras que não lhe pertencem, a visita é oportuna. Com a presença do Watson, da IBM, então, torna-se quase imperdível.

O acervo permanente do museu é magnífico e conta com uma vastíssima área expositiva. O prédio também é um atrativo à parte: depois do restauro e das intervenções do arquiteto Paulo Mendes da Rocha, o local ficou melhor e à altura dos grandes museus do mundo. O edifício, que hoje atrai tantos fãs de arquitetura, nunca foi concluído, como atestam os tijolos expostos na fachada e nos pátios internos. De certa forma, o inacabado se tornou o verdadeiro charme da Pinacoteca do Estado de São Paulo.

E se você precisa de mais um motivo saiba que até o dia 5 de junho o acervo permanente conta com uma nova possibilidade: você pode pegar emprestado um dos 25 smartphones da Pinacoteca e da IBM — um iPhone 7, diga-se — e conversar com algumas obras. O projeto, que recebe o nome de “A voz da arte”, permite que o visitante faça perguntas à Inteligência Artificial da IBM, o Watson. Basta parar perto de uma das sete obras identificadas com o selo do projeto — e com beacons que percebem a sua presença — e perguntar o que você bem quiser.

Para escrever este texto resolvi me concentrar em um único quadro, o “São Paulo”, de Tarsila do Amaral. Pedi ajuda para a minha sobrinha, de 12 anos, para formular algumas questões sobre o mesmo quadro. Já a levei na Pinacoteca em outro momento, logo, ela conhece bem o lugar e do que se trata. Também achei válido que uma criança fizesse perguntas a partir do seu repertório ainda em formação.

Mandei uma imagem do quadro por WhatsApp e esperei pelas perguntas que vieram uns dias depois (ela parecia estar tão atarefada com deveres quanto um adulto, infelizmente). As questões formuladas pela jovem, no geral, foram respondidas. Apenas uma delas precisou ser reformulada por mim, porque a resposta dada pelo Watson não fazia muito sentido.

Seguem as perguntas e respostas:

1 – Com qual finalidade a obra foi pintada?

2 – Quanto tempo levou para ela ser pintada?

e

3 – Por que ele usou cores tão vivas na pintura?

4 – O que a obra representa, exatamente?

5 – Em que ano ela foi pintada?

6 – Por que ele pintou apenas este “lugar” (representado na obra)?

7 – O que mais chama a atenção nesta obra?

Quanto às minhas questões, bem, resolvi ir além do quadro e perguntar coisas como “o que é arte?” ou “o que é criatividade?”. Não cheguei a ficar totalmente frustrado porque, pelas respostas dadas pelo Watson às perguntas da minha sobrinha, não esperava muito, mas preciso dizer que algumas das minhas questões ficaram sem respostas. E, de um modo geral, as resposta eram, digamos, de um nível enciclopédico. Um educador humano conseguiria fazer um trabalho muito melhor e, sem titubear, oferecer saídas criativas e imprevisíveis às minhas perguntas e, principalmente, de crianças e do seu universo tão imaginativo.

Seguem as minhas perguntas e respostas:

1. O que é arte?

2. Quem é Tarsila?

3. O que é a semana de arte moderna de 1922?

4. Por que não há pessoas no quadro?

5. Quantas cores há no quadro?

6. Qual o tamanho do quadro?

7. Quem escolheu a moldura do quadro?

8. Porque este quadro está num museu?

9. Quanto vale este quadro?

10. O que significam aqueles números?

11. O que é criatividade?

12. O que é IBM?

13. Quantos habitantes havia em São Paulo?

14. Qual técnica utilizada para pintar o quadro?

15. O que é vanguarda?

16. Quantos prédios há no quadro?

17. Quem é Watson?

18. Por que a árvore é redonda?

19. Há um trem no quadro?

20. Por que não há pessoas no quadro? [Repetida sem querer, mas finalmente veio a resposta]

A Inteligência Artificial Watson foi treinada por seis meses por curadores e pedagogos da Pinacoteca conforme indicam os realizadores do projeto. Segundo a IBM, o Watson foi treinado em mais de 50 intenções diferentes por obra, o que resultou em um banco de dados de mais de 12 mil questões no total. E, ainda assim, o resultado ficou num nível enciclopédico. Até mesmo a Wikipedia, com informações não tão confiáveis, faria esse trabalho, só que sem voz, é claro. E é aí que entra a minha maior decepção em relação ao poder computacional do Watson: acreditei que ela daria conta de algumas perguntas triviais, que qualquer um poderia fazer ante um quadro como o da Tarsila e suas formas bem pouco convencionais.

Vi algumas crianças utilizando o dispositivo acompanhada de seus pais e elas não pareciam se divertir tanto quanto na propaganda do projeto. Creio que as resposta demoravam um pouco para chegar e que era meio chato não poder se afastar da obra por conta do sensor. Crianças são inquietas, vale lembrar. Os criadores do projeto dizem que ele é mais voltado para adultos do que para crianças, mas esse é um controle que mesmo o museu não poderá ter: como prever quem vai se interessar pelo projeto, não é mesmo?

Acrescentar essa camada tecnológica a um museu pode, sim, funcionar para atrair um novo público (o nerd, talvez?). Afinal, museus são considerados lugar de velharia e, não à toa, são sinônimo de ofensa para falar de alguém preso ao passado. Mas a questão aí é que um museu é um lugar riquíssimo, e não só por abrigar obras preciosas como o milionário quadro da Tarsila — que o Watson diz ser inestimável, fugindo das armadilhas do misterioso mercado de arte–, mas por permitir uma verdadeira compreensão da nossa sociedade (antiga e, principalmente, a atual). Pelo menos nesse quadro da modernista Tarsila do Amaral, estão lá, ainda que pela ótica vanguardista, os problemas com os quais a cidade se debate até hoje.

Foto do Fábio.

Na minha opinião, essa força criativa, que ainda emana só de humanos, não cabe nas respostas estanques de uma voz sintetizada que apela ao seu banco de dados ainda mirrado de relações complexas. Quem já teve a chance de ver um esquema de banco de dados sabe que eles podem ser extremamente intrincados. Não duvido que os bancos de dados utilizados pelo Watson também o sejam, num nível ainda maior, mas não respondem a perguntas um pouco mais abertas, ou seja, de contexto. O que é um paradoxo, visto que o Watson é uma Inteligência Artificial que aprende com base em contextos.

O Watson é uma inteligência artificial que entende as expressões humanas. Faz mais ou menos uns dois anos que o sistema começou a “aprender português”, bancado pelo Bradesco. Para o projeto “A voz da arte”, IBM e Pinacoteca colocaram também funcionários seus para fazerem perguntas a respeito da sete obras. Cada pergunta que chegava era analisada por uma curadoria de arte que verificava se aquela perguntava estava ou não no banco de dados do Watson e, caso não estivesse, essa nova intenção e seu respectivo contexto de resposta eram cadastrados. O Watson aprende a partir do seu próprio aprendizado: é por isso, por exemplo, que ao final de cada resposta que ele dá aos visitantes há o questionamento de se a resposta foi satisfatória ou não. Nesse sentido, é uma pena que a exposição vá durar tão pouco tempo.

O vídeo institucional (aliás, todos os vídeos institucionais são um ótimo material de escrutínio quando se quer desconstruir um discurso ou entender o que está por trás das intenções de determinados eventos), criado pela agência Ogilvy, revela um posicionamento de superioridade do aplicativo que deixa, por exemplo, os áudio-guias tradicionais dos museus com cara de ultrapassados… Mas não fala dos educadores humanos, curiosamente. Deve ter sido melhor evitar, por ora, esse embate homem-máquina, afinal, a máquina ainda está no período em que depende da cooperação de seres humanos.

Uma das pessoas no vídeo institucional diz que pode existir uma certa vergonha em fazer perguntas sobre arte no museu — apesar de não tem lugar mais adequado para se questionar a arte do que em um museu, mas ok — e que a Inteligência artificial pode ajudar nisso. Bom, quando se está em grupo de visitantes, em visitas guiadas, de fato, você pode ficar meio receoso em fazer perguntas banais ou totalmente desconectadas da obra e que pareçam tolas aos demais, mas nem todo mundo pode ficar assim tão à vontade em fazer perguntas aos smartphones emprestados pela IBM.

Nessa interação sempre há alguém por perto — no dia que fiz a visita, por exemplo, havia muita gente — e que pode ouvir a sua pergunta que não pode ser sussurrada, uma vez que precisa ser dita de modo alto e claro para ser captada pelo dispositivo, justamente o oposto da sutileza envolvida numa conversa entre humanos. Você não pode, por exemplo, dar a volta no grupo e fazer uma pergunta discretamente ao educador no app do Watson.

Uma outra coisa que me soa estranho é o Watson ter uma voz feminina quando seu nome é tido como masculino (caso seja um primeiro nome, claro). Qual o sentido de usar uma voz feminina no projeto “A voz da arte”? É para facilitar o caminho até a arte ou é por que há muitas mulheres trabalhando na área educativa dos museus? Pode ter sido ainda uma questão de gênero ou por que já estamos condicionados a ouvir instruções de GPSs por vozes de mulher? Eis uma pergunta que não fiz ao (ou a) Watson, mas que também provavelmente ficaria sem resposta.

Ainda assim, me parece haver, uma tentativa, por parte da Pinacoteca, de fazer algo novo. Atrair os mais jovens e adultos de todos segmentos sociais é o desafio de todos os museus do mundo, que sofrem com a concorrência de tantas outras fontes de conhecimento e que geralmente só possuem êxito quando as exposições são mais próximas de uma arte que poderia ser confundida com puro entretenimento. Como foi o caso de Ron Muek ou de Patricia Piccinni, por exemplo.

Uma última coisa que observo: dessa visita saí me sentindo vitorioso, com mais conhecimento de arte e perspicácia do que uma inteligência artificial que já derrotou até o mais célebre enxadrista do mundo. Nada mau para um reles humano rabugento.

*Colaborou: Emily Canto Nunes

Nota da editora: também tive a oportunidade de conhecer a exposição “A voz da arte” e me peguei pensando três coisas que talvez valha acrescentar: 1) é uma mostra sobre o que é uma Inteligência Artificial do que de arte. De fato, as informações que o Watson entrega sobre as obras seriam muito melhor recebidas pelos visitantes se viessem de um educador, pessoa capaz de fazer conexões entre essas respostas. Para mim ficou claro que o centro dessa exposição é “olha, mais ou menos, o que é uma inteligência artificial e o que ela pode fazer”; 2) O porquê da voz do Watson ser feminina é uma incógnita. Lá fora, há versões masculinas e femininas para o Watson, mas seguindo a lógica das demais inteligências artificiais, ele chegou com uma voz feminina por aqui. E quando perguntei porque todas as inteligências artificiais eram “mulheres”, os executivos da IBM tampouco souberam me responder (fica aí a dica de pauta). 3) Ao se propor a ser “a voz da arte”, IBM e Pinacoteca erram ao sintetizar uma voz que responde na terceira pessoa. Se é para ouvir a voz da arte, o Watson não deveria estar falando na primeira pessoa?

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10 comentários

  1. uma correçãozinha chata: o Watson venceu o Jeopardy. quem venceu o maior enxadrista foi o Deep Blue, que era outro tipo de inteligencia artificial, bem mais focada no processamento de movimentos do xadrez do q questões de linguagem.

    mas bem legal a matéria… como eu trabalho na IBM, boa parte do material sobre o q o Watson vem fazendo que recebo é bem parcial e, como não sei se teria oportunidade de ir até São Paulo durante a mostra, foi bem interessante ver como funcionou na pratica.

    1. Oi, Mariana. Valeu pela informação. Quando escrevi esse trecho final foi pensando num produto da IBM e não numa solução específica. Mas ser mais apurado é melhor, claro. Deixei meu contato pra tentar falar com alguém da mostra, mas não tive retorno, infelizmente. Queria saber um pouco mais do projeto. Mas, o q vc quis dizer com ‘boa parte do material sobre o q o Watson vem fazendo que recebo é bem parcial’?

      1. é que a gente recebe material interno sobre o que o Watson vem fazendo de bacana, que fica parecendo que ele é mais avançado q realmente é, mas quem não trabalha diretamente com o Watson não vê como ele responde na prática, que nem tudo ele entende conforme esperado ainda, essas coisas.

        1. Ah, sim. Questiono o próprio material de propaganda da agência, que faz parecer que estamos diante muito melhor do que realmente é (além do reforço de certos esteriótipos sociais, além de não vermos mulheres na equipe da IBM no vídeo)… Entendo que é um projeto em andamento e que tudo pode ser melhor no futuro, mas há essa ‘propaganda’, digamos, e não só da IBM, de convencimento de q as AIs estão num nível muito incrível e não é bem assim. Se a ideia desse projeto pensado pela IBM e pela Pina vai no sentido de atrair mais público vier de uma solução como essa, me parece estranho, pq não vai rolar… E, outra, eles tiveram vários recordes de público com algumas exposições q interessam mais às pessoas (a do Ron Muek eu nem consegui entrar tamanha a fila de horas e horas). Talvez eles tenham q, primeiro, questionar a arte e depois adentrar em outros terrenos (especialmente os tecnológicos q têm suas próprias questões). Pq a voz da arte, essa sempre existiu e nunca se calou (até sob censura pesada ela fala, é só ver os artistas perseguidos), desde a arte pictórica, e essa ‘voz da arte’ da Pina tá mais pra canto da sereia, por enquanto…

    2. Ah, e o lance do Deep Blue vencer o Kasparov marcou a minha adolescência de estudante de processamento de dados! Isso pesou na minha memória…

    1. Valeu pelo link. É uma discussão e tanto, mas são muitas possibilidades: ainda está em aberto o q leva as empresas a escolherem vozes femininas para seus assistentes…

      1. Realmente não se sabe o que acontece, mas parece que a preferência, no geral para vocês femininas é superior.
        Acho interessante no caso do Waze, vou comentar sobre a versão do Android, que a voz com instruções mais simples seja masculina. No caso da voz para instruções mais detalhadas e com nomes de vias a voz passa a ser feminina e ainda tem nome, Raquel. ?

      2. Realmente não se sabe o que acontece, mas parece que a preferência, no geral para vocês femininas é superior.
        Acho interessante no caso do Waze, vou comentar sobre a versão do Android, que a voz com instruções mais simples seja masculina. No caso da voz para instruções mais detalhadas e com nomes de vias a voz passa a ser feminina.