Um viciado em telas no divã

Foto em close de uma tela, mostrando os pontos luminosos RGB.

Alguns meses atrás, em uma sessão da terapia, comentei a hipótese de ser viciado em telas. A psicóloga perguntou o que eu faço quando não estou olhando para elas. Consegui elencar poucos itens — todos simplórios, alguns patéticos, como “lavar louça”.

Ela disse que é comum que viciados, ao reconhecerem o vício, se vejam em um vazio existencial. Acho que não há margem para dúvidas em reconhecer “lavar louça” como sinal de um enorme vazio, não?

Dei-me conta desse problema ao ler estes três parágrafos publicados pelo Dave Rupert, que tomo a liberdade de traduzir:

Tive uma pequena e incômoda epifania dia desses: computadores e internet provavelmente me fazem mal. Digo, para além do conselho genérico de “sair da frente da tela”. Do ponto de vista do TDAH e da ansiedade generalizada, computadores e internet viraram fornecedores infinitos de veneno para o meu cérebro — feeds cheios de doses constantes de dopamina com catastrofismo por todos os cantos.

É difícil aceitar isso porque grande parte do meu trabalho, hobbies, formação, entretenimento, notícias, comunidade e curiosidades estão na internet. Eu amo a internet, ela é uma parte grande de quem sou hoje, mas entendo como suas estruturas de incentivos me prejudicam. Ainda não planejo me desconectar e viver no mato, mas isso me inspirou a criar uma “ordem de prioridades” para minhas mãos ociosas e os momentos de descanso:

Instrumentos musicais acima de blocos de papel, acima do notebook, acima do tablet, acima do celular.

Mais gente se identificou. Jim Nielsen:

Pelo comentário do Dave, tenho essa sensação lá no fundo de que a internet e os computadores não necessariamente se alinham com a minha própria visão do que é uma vida bem vivida para mim. Meu entusiasmo e atração por eles também costumam me deixar com a sensação de que “fui longe demais nisso”. Ainda não encontrei um equilíbrio saudável (mas também estou bem).

Sites especializados em tecnologia têm uma estranha obsessão por dispositivos que prometem nos dissuadir de telas, em especial as de celulares. São “dumb phones”, modelos que se parecem com o Kindle, aplicativos para restringir o acesso a apps viciantes e por aí vai. Passada a empolgação inicial, nada disso funciona. É quase um mantra neste Manual afirmar que mais tecnologia não costuma ser a saída para problemas causados pela tecnologia.

Por coincidência, o último episódio do podcast vibes em análise abordou o tema “compulsões digitais”. Elas se manifestam de várias maneiras, das manjadas (redes sociais) às mais recentes (bets/apostas).

Eu não me encaixo nos tipos debatidos pelo André e Lucas, apresentadores do podcast. Mal uso redes sociais porque não me atraem mesmo, e nunca apostei em nada — na verdade, tenho ojeriza a apostas de qualquer natureza.

Para mim, o prazer da tela decorre da “contenção” do espaço que ela exibe: meu computador, meu celular, meu site, minha lista de coisas para ler. Por vezes me pego obcecado com tolices, do tipo organizar diretórios e arquivos, processar itens não lidos em vários apps, mexer no leiaute deste blog. Em doses moderadas, elas funcionam como reguladoras de humor. Ainda que “inútil”, são calmantes.

O problema é quando exagero na dose. A já folclórica inquietude com o leiaute deste blog, por exemplo, atingiu níveis críticos no final de 2024. Vi-me ignorando a escrita para ficar ajeitando píxeis em que ninguém repararia.

Também tenho alguns arroubos morais relacionados a consumo, os quais não consigo justificar e que, como efeito indireto, me grudam ainda mais às telas, levando a uma “ressaca” carregada de arrependimento.

Virou piada aqui em casa o tanto de vezes que prometi trocar o iPhone por um Android e o MacBook por um notebook com Linux, porque são softwares abertos, ao contrário dos da Apple, proprietários. Quando entro nessa piração, passo dias pesquisando modelos, aplicativos alternativos, tentando encontrar soluções para problemas hipotéticos, imaginado “como seria/será”. Até que desisto. Muito complicado, não vale a pena; não tenho do que reclamar das coisas que uso.

Em duas oportunidades — início de 2024 com um celular Android e fevereiro deste ano com um ThinkPad com Linux —, eu não me adaptei. Digo, eu conseguiria me adaptar e usá-los, mas com os dispositivos à mão bateu uma preguiça violenta. Por que me dar essa trabalheira desnecessária? Tenho tanta coisa mais útil ou agradável para fazer…

Estou fugindo do assunto. Voltemos.

Como em todo vício, acho que tomar consciência do problema é o primeiro passo para tentar saná-lo.

Consigo identificar alguns avanços nesses dois meses desde que aceitei a minha adicção por telas. Ajuda que esse combate engloba outro que já travo há mais tempo, o de desacelerar e tentar viver em uma velocidade mais humana, menos maquínica. A meditação também tem ajudado.

Talvez não seja coincidência que tanta gente esteja se dando conta disso quase ao mesmo tempo. E é por isso que decidi desengavetar este rascunho meio tosco, meio embaraçoso, que estava juntando poeira digital há uns dois meses, e publicá-lo.

Não estamos sozinhos. Não somos esquisitões. (Ok, talvez um pouco.) O meu caso é ameno comparado a drogas mais pesadas, como redes sociais e bets. Seria até deselegante compará-lo a elas. Temos, porém, um ponto em comum: o digital, a internet e todo o aparato criado para nos segurar o máximo possível olhando para telas, vivendo um episódio particularmente ruim de Black Mirror.

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9 comentários

  1. Sou da opinião de que o problema vem antes do smartphone: a Internet não fez bem pra humanidade. Ela resolveu uns 50 problemas enquanto criu 10 mil que não existiam.

    Depois veio smartphones e a coisa ficou pior…

    Vi uma frase não sei onde outro dia:
    “Quando os telefones estavam presos na parede, a humanidade estava livre”.

  2. É ao mesmo tempo bom e ruim saber que nós e vários outros estamos lidando simultaneamente com o vício em telas.

    Tenho compilado reflexões sobre vida digital vs analógica, que pretendo ir publicando no blog.

    É mais difícil ainda para quem trabalha na internet, com a internet. Iniciativas similares à Small Web (Kagi) parecem promissoras porque propõem que as porções da internet feitas por e para humanos deem as mãos

  3. “São ‘dumb phones’, modelos que se parecem com o Kindle, aplicativos para restringir o acesso a apps viciantes e por aí vai. Passada a empolgação inicial, nada disso funciona. É quase um mantra neste Manual afirmar que mais tecnologia não costuma ser a saída para problemas causados pela tecnologia.”

    Como usuário de dumb phone a mais de um ano (completo 2 anos em setembro) acho meio errado generalizar. “Nada disso funciona” pra quem? E talvez seja uma posição meio específica. Só penso isso pq funcionou pra mim, mas acho que da pra dizer o mesmo da posição do texto.

    Acho legal que pessoas tentem diferentes métodos, não acho que tem uma bala de prata, o que funciona pra uns não funciona pra outros. Melhor então ir tentando tudo. Até porque, parece que o vício em tela tem motivos bem diferentes. No texto, você fala que não usa redes sociais. Será então que a solução para seu caso vai ser a mesma de uma pessoa que usa?

    No meu caso, meu problema era simplesmente procrastinação. O uso de tela me incomodava por roubar o tempo que eu gastava fazendo atividades que gosto, tipo cozinhar, ler e até jogar (pra mim usar tela só é um problema quando é uma atividade passiva, cada um resolve o problema que tem). Ter um dumbphone ajudou nisso tanto quanto ter um DSi, que é uma tela mas por ter um uso muito limitado meio que me obriga a usar ela pra fazer algo que considero produtivo.

  4. Sinto o mesmo. Vivi o momento áureo de conectar à Internet com um modem US Robotics, lembro até hoje da sensação de abrir o site do ‘Cadê?’ pela primeira vez. Momentos marcantes de uma revolução tecnológica que não existem mais.

    A hiperconectividade que tanto me admirou, hoje me assusta. É muito fácil estar em contato com alguém do outro lado do mundo, mas ao mesmo tempo tão dificil se conectar com quem está por perto.

    É normal com a idade e com as responsabilidades (trabalho, filhos, contas) nos sentirmos meio perdidos na vida, mas acredito que com o excesso de conectividade isso tem se intensificado, e cada vez mais cedo: fico me perguntando o que será da mente das crianças de hoje que raramente se encontram fisicamente para brincar após a escola, pois ficam mergulhadas no mundo das telas desde muito cedo, replicando o mundo conectado dos pais.

  5. Também tenho esse vício. Ainda é meio constrangedor pra mim admitir.
    A conexão que faço com minhas insatisfações psicológicas é que computador ou eletrônico em geral são um campo paradisíaco control freak. Como tudo ali, teoricamente, é exato, seria possível chegar num nível de controle (ajustes e customizações) impossível na vida real. No fundo, isso é uma compensação ridícula (falando de mim) para a insegurança com a vida. Depois que reconheci isso, ficou muito mais fácil reduzir esse suposto hobby.

  6. Legal o texto Ghedin mas eu tenho ressalvas quanto a ideia de tratar como vício esse tipo de atitude que temos em relação à telas. Me soa muito como o tratamento ao vício em drogas e pornografia: muito achismo e muito ruído pra algo que sempre existiu (escapismo) só que tinha outras ferramentas (jornais, livros, puteiros, trabalho) antes de termos acesso à internet. E eu digo isso porque essas questões indiretas do suposto vício em telas é algo que percorre a humanidade desde os pré-socráticos. A mente humana é desenhada assim (talvez?) e em cada geração surge algo novo pra ser o nosso vício. Como eu disse já foi jornal, livro, puteiro, religião; o comportamento compulsivo (que é o mais correto de usar aqui ao invés de vício) em relação a algo parece (achismo sem base intelectual) algo humano mais do que capitalista ou moderno. Provavelmente vemos esse problema de telas e acesso à internet como muito maior do que ele realmente é porque, atualmente, somos nós inseridos nesse contexto. Damos muita importância aquilo que nos afeta diretamente ou que vivenciamos diariamente (nesse caso, o acesso à telas).

    Vale a reflexão quando isso interfere na nossa vida pessoal e rouba tempo com família (filhos, companheira, pais) ou interfere diretamente na nossa parca capacidade de viver em uma sociedade, mesmo que doente, que nos cobra um alto preço biológico (acordar, consumir, comer mal, ser produtivo por 8h diariamente etc).

    1. Isso. Não chamaria de vício a não ser que esteja atrapalhando a fazer outras coisas. E mesmo assim “vício em telas” parece muito genérico. Redes sociais, games, leitura de ebook, filmes… Tudo é tela, mas cada uma é uma coisa diferente.

    2. Importante esta reflexão.

      Eu costumava dizer que o computador não melhora nem piora ninguém, só amplifica.

      Tu é desorganizado? Vai ficar mais desorganizado (tinha um amigo que salvava todos os arquivos do Word na área de trabalho sem mudar o nome padrão — 0001.doc, 0002.doc…). É paranóico? Vai ficar mais paranóico? Tem TOC de organização? Vai achar mais ferramentas para isso.

      Eu sou viciado em informação. Eu assinava a Veja e devorava assim que chegava (falei em voz alta? Ok, 30 atrás, tá, tenham compaixão). Ou um jornal. Eu lia bula de remédio, cartaz de instruções de incêndio em hotel, enciclopédia verbete por verbete. Com a internet isto se amplificou exponencialmente, mas não nasceu com ela.

      Não é limitando o tempo no celular, usando o tablet só para livros que melhoro isso. É parte do que sou, e se pretendo melhorar (para fazer outras coisas que gosto) preciso trabalhar a raiz do problema, não os meios. O complicado: trabalho na frente do computador conectado todo dia. Eu lembro quando programava offline, sei que minha produtividade e foco eram outros.

      Matar o traficante não acaba com o vício nem com a droga. Só muda o trajeto.

      Tanto que eu consigo passar uma manhã sem olhar o celular, ou manter horas de conversa sem nem tirar do bolso. Mas se estou trabalhando a tentação de F5 no hackernews ou no Órbita está a uma aba de distância. Preciso tirar um cochilo, o celular vai junto. Enfim, há gatilhos demais.

  7. Nossa como tem sido complexo reconhecer que possivelmente o vício em telas possa estar me conduzindo para uma vida diferente daquela que gostaria. É triste perceber que somos cada vez mais passageiros em nossa própria existência, navegando de acordo com a maré, sem forças para nadar contra ela.
    Escelente texto, me arrisco a dizer que é uma reflexão necessária nos dias atuais e também uma triste realidade que não se pode evitar sem muito esforço, abdicação e se arriscando a parecer estranho em comparação aos outros.