A imagem trincou

Ícones de redes sociais vistos através de uma tela trincada.

Foi quase uma melancólica coincidência. No mesmo mês em que Julian Assange, a cara do Wikileaks, foi preso, escancarou-se o desconforto de alas progressistas, decididamente pró-liberdade de expressão, com o descaso das plataformas norte-americanas de redes sociais com princípios básicos da democracia. No início da década, movimentos como o Ocuppy Wall Street, o Wikileaks e, principalmente, a Primavera Árabe encheram de esperança aqueles que anseiam por mais transparência governamental e um aperto na fiscalização dos poderosos. Naquele cenário, as redes sociais eram aliadas na luta que, embora inglória, afinal parecia estar surtindo efeito. Hoje, a sensação é de que estamos vivendo em distopias particularmente ruins. Onde foi que o trem descarrilou?

Quase imediatamente após a deflagração dos atentados coordenados contra a minoria cristã no Sri Lanka que mataram mais de 300 pessoas, no domingo de Páscoa (21), o governo local bloqueou o acesso ao YouTube, às redes sociais e a apps de mensagens instantâneas no país, temeroso de que a desinformação acirrasse a tensão étnico-religiosa e culminasse em novas tragédias.

Do outro lado do mundo, na costa Oeste dos Estados Unidos, Kara Swisher, uma das jornalistas de tecnologia mais proeminentes do mundo, escreveu em uma coluna no New York Times que encarou o bloqueio virtual no Sri Lanka como algo “bom”. Em vários outros veículos tradicionais, como o Washington Post e a Folha, especialistas ouvidos pelas reportagens divergiram quanto à atitude do governo srilanquês. Até pouco tempo atrás, tal reação mista teria sido impensável, pelo menos em setores progressistas da sociedade que têm a liberdade de expressão como um valor quase sagrado.

É como se a imagem das plataformas de redes sociais, que já estava desgastada, cheia de riscos aqui e ali, tivesse enfim trincado. Algo mudou na percepção pública em relação a elas — e não dá para dizer que foi uma mudança repentina ou sem motivo.

Não é de hoje que essas empresas, representadas pelo trio Facebook, Google (YouTube) e Twitter, têm negligenciado os problemas que suas poderosas ferramentas criaram e potencializam. Sobram exemplos de decisões equivocadas e negações inacreditáveis, do YouTube priorizando crescimento à custa de um algoritmo de recomendação de vídeos com tendências conspiratórias ao descalabro em série do Facebook, que vai da influência perniciosa em processos eleitorais de países democráticos a genocídios étnicos no Mianmar e linchamentos fatais na Índia. Poderia-se argumentar que é da natureza humana criar e disseminar a desinformação que leva a esses desfechos dramáticos, mas nessa escala e com toda a facilidade dos últimos tempos, só com a ajuda da tecnologia — ironicamente, a mesma que permitiu articular os protestos da Primavera Árabe em 2011 e que está no núcleo das estratégias de muitos grupos ativistas e de resistência.

“É o que alguns cientistas políticos hoje chamam de ‘armorização’ [‘weaponization’] das redes sociais: a capacidade que alguns movimentos tiveram de enxergar as redes como armas nas guerras da informação e cultural”, explica Rafael Zanatta, doutorando na Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador da Rede Latino-americana de Estudos de Vigilância, Tecnologia e Sociedade (Lavits). Para ele, a atuação quase monopolista dessas plataformas somada à incapacidade de conter desvios que levam à desinformação e até a atos de violência gerou uma mudança significativa da percepção pública sobre elas nos últimos anos.

Yasodara Córdova, fellow da Digital Kennedy School da Universidade de Harvard, concorda e cita um caso específico que intensificou a desconfiança nas empresas: “Esse impulso, de que pode ter sido ‘bom’ [o bloqueio no Sri Lanka], foi algo que todo mundo teve porque existe ainda um trauma do ato terrorista que aconteceu na Nova Zelândia. Está todo mundo meio ressabiado porque as plataformas não conseguiram tirar os vídeos do ar a tempo”. Ela se refere ao massacre perpetrado por um atirador em Christchurch, Nova Zelândia, que o transmitiu ao vivo pelo Facebook e convocou os espectadores a seguirem um famoso youtuber de jogos que, não faz muito tempo, perdeu contratos com a Disney e com o próprio YouTube por conta de piadas antissemitas veiculadas em seu canal. Facebook e Google (YouTube) não conseguiram barrar todos os vídeos do massacre neozelandês enviados às suas plataformas.

Uma unanimidade nesta discussão é a de que o assunto é complexo e que os termos variam de acordo com as peculiaridades de cada país. O Sri Lanka vive em constante tensão religiosa. O bloqueio às aplicações de internet da Páscoa não foi novidade; em março de 2018 ele já havia sido imposto em resposta a ataques de grupos budistas (maioria no país) de extrema-direita contra a minoria muçulmana. Desta vez, pela magnitude dos ataques, o bloqueio ganhou mais atenção internacional e estabeleceu um precedente. Zanatta diz que ele pode contaminar democracias mais estáveis, como algumas europeias que vivem em tensão permanente, receosas de que novos atentados terroristas aconteçam — França e Alemanha, por exemplo.

Assim, o bloqueio de aplicações, antes impensável, passa ao campo das possibilidades em casos extremos a fim de mitigar os efeitos corrosivos da rápida disseminação de desinformação nas plataformas de redes sociais, algo na linha “dos males, o menor”. E coloca em xeque o modelo de redes sociais norte-americano/Ocidental, o que pode nos direcionar a outros menos suscetíveis ao mau uso, porém com seu conjunto próprio de problemas — alguns muito mais danosos ao ideal democrático que vige na maioria dos países de cá. Nas redes sociais chinesas, por exemplo, o governo detém o poder de eliminar quaisquer vestígios de assuntos e termos que toquem em feridas do regime. Estaríamos dispostos a nos submetermos a isso em troca de mais “segurança”?

A situação no Brasil é incompatível com bloqueios gerais dessa natureza. É o que preconiza o Marco Civil da Internet (MCI), que até prevê o bloqueio de aplicações, mas por um motivo bem específico: quando a aplicação viola a privacidade ou os dados pessoais dos usuários. Note que os bloqueios do WhatsApp em anos recentes nada tiveram a ver com isso. Eles foram determinados pela Justiça como sanção pela recusa do Facebook em fornecer o conteúdo criptografado de conversas relacionadas ao cometimento de crimes, pedido esse embasado, equivocadamente segundo Zanatta, em um dispositivo do MCI. Além dessa falta de previsão legal, a sociedade civil, órgãos como o Comitê Gestor da Internet e a própria atividade econômica que se desenvolve nas redes colocariam “muitos freios para uma emulação da experiência do Sri Lanka”, diz ele. Nesse mesmo sentido, Córdova diz que “temos uma massa crítica suficiente para impedir [bloqueios de redes sociais]”.

Passamos por um grande teste no primeiro semestre de 2018, quando ocorreu a paralisação dos caminhoneiros articulada via grupos no WhatsApp. Zanatta lembra que as jornadas de junho de 2013 e a Copa do Mundo deixaram um legado de tecnologias à disposição das autoridades para efetivamente bloquear, de diversas maneiras, o uso da internet e que “curiosamente [esse aparato] não foi utilizado nos protestos da greve dos caminhoneiros, ainda que a possibilidade técnica exista”.

Talvez uma solução drástica não tenha sido utilizada porque esta é uma guerra perdida. De Colombo, centro financeiro e maior cidade do Sri Lanka, o escritor e cientista de dados srilanquês Yudhanjaya Wijeratne escreve que “em um país com rígido controle governamental sobre as mídias tradicionais, as redes sociais são uma faca de dois gumes, porém necessárias”. Sem liberdade de imprensa, sufocar meios alternativos de comunicação apenas piora o problema. Ainda que conceitualmente a ideia possa parecer “boa” deste lado do mundo, na prática os efeitos podem ser mais danosos do que benéficos. E, justiça seja feita, Swisher concede, no final da sua coluna, que a medida é ineficaz: “Desligar as redes sociais em tempos de crise não vai funcionar”.

Zanatta destaca que as plataformas de redes sociais estão sob pressão em três contextos: o da desinformação, que é o caso do Sri Lanka e das “fake news” de modo geral; o do direito autoral, que passa pela diretiva recém-aprovada pela União Europeia; e o concorrencial, que questiona o poder descomunal que permite a algumas poucas empresas comprarem ou esmagarem rivais e manterem estruturas lobistas pesadíssimas junto a governos do mundo inteiro.

Nesta quarta-feira (24), o Facebook divulgou em seu último balanço financeiro que provisionou US$ 3 bilhões para pagar uma vindoura multa recorde a ser aplicada pelo governo dos Estados Unidos por violações reiteradas à privacidade dos usuários. As ações subiram quase 8% no after market. É praticamente um deboche. Temos aqui o raro caso de uma multa bilionária que não faz cócegas no negócio do multado e tampouco ajuda a melhorar junto ao público a desfigurada imagem da empresa que, para o bem e para o mal, é o símbolo maior de rede social.

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1 comentário

  1. “Nesta quarta-feira (24), o Facebook divulgou em seu último balanço financeiro que provisionou US$ 3 bilhões para pagar uma vindoura multa recorde a ser aplicada pelo governo dos Estados Unidos por violações reiteradas à privacidade dos usuários. As ações subiram quase 8% no after market. É praticamente um deboche. Temos aqui o raro caso de uma multa bilionária que não faz cócegas no negócio do multado e tampouco ajuda a melhorar junto ao público a desfigurada imagem da empresa que, para o bem e para o mal, é o símbolo maior de rede social.”

    pra quem vibrou com a mobilização virtual que propiciou o OWS e o 99% em 2011, ouvir isso é um soco no estômago e um tapa de realidade

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