Leica, China e a nossa impotência diante das injustiças

Frame do comercial da Leica que gerou problemas com o regime chinês.

Há muitos anos desisti de escrever sobre tecnologia. Ao menos, escrever rotineiramente. Quando você se acostuma a falar de alguma coisa como tecnologia de consumo, não há muito mais que te incomode ou motive. Costuma ser mais do mesmo: mais um novo telefone celular, mais um novo processador, mais uma nova TV que faz exatamente a mesma coisa, mas um pouquinho mais rápido. Basicamente, para a maioria são raros os avanços que justifiquem o transtorno e o preço — idealmente, compraríamos um novo somente quando o velho quebrasse. Sua vida não será 50% melhor se você trocar o seu atual celular por outro que, garante a fabricante, é 50% mais rápido (com um asterisco informando, em letras miúdas, que o ganho se dá em condições bem específicas e irreais).

Mas então aparecem umas notícias que… incomodam. E, aí sim, dá vontade de escrever porque algumas coisas acabam entaladas na garganta. São notícias que fazem algumas engrenagens saírem da inércia.

Na última sexta-feira (19), a China baniu a palavra “Leica” de suas mídias sociais.
Leica, como sabe o distinto leitor, é uma renomada fabricante alemã de câmeras fotográficas, lentes e microscópios ópticos. A marca é lendária. Talvez menos famosa entre os millennials, mas respeitada por fotógrafos e profissionais do meio jornalístico.

O pontapé inicial de toda a controvérsia foi o excelente vídeo promocional The Hunt produzido pela agência de publicidade brasileira F/Nazca Saatchi & Saatchi. Obviamente, o motivo é a alusão ao episódio que ficou conhecido como Massacre da Praça da Paz Celestial, na Pequim de 1989, quando estudantes, intelectuais e populares protestavam por maiores liberdades políticas e econômicas. Lembra algo?

O governo chinês da época reconheceu a morte de “apenas” algumas centenas de pessoas. Número e opinião dignos do país.

O protesto gerou uma foto icônica de um chinês que se posicionou em frente a uma fileira de tanques, com sacolas de compras nas mãos, bloqueando a passagem dos pesados veículos blindados do Exército (veja o vídeo completo). Jeff Widener fez a fotografia capa da revista Time a que o vídeo alude. A câmera não era Leica.

A icônica foto do "tank man" na Praça da Paz Celestial, em Pequim, 1989.
Foto: Jeff Widener/Associated Press.

O vídeo da F/Nazca retrata outras situações onde o fotojornalista enfrenta situações ameaçadoras à sua integridade física, mas nenhuma é tão evidente ou tem tanto apelo emocional quanto a do chamado “tank man”.

Eu já estive na China. Conheci algumas indústrias, um pouco do tratamento dado aos trabalhadores do “chão de fábrica”, das relações de empresários com o governo e da grandiosidade imposta pelo vigoroso crescimento econômico de uma economia planificada. Nem tudo são flores, como acontece em qualquer lugar do mundo.

Cabem aqui duas histórias dessa viagem. Na primeira, havia uma chinesa trabalhando em uma prensa hidráulica de 320 toneladas de pressão. Tinha os cabelos presos em um rabo-de-cavalo e calçava chinelos de couro puído. Questionei o dono da fábrica1 o motivo de ela não estar usando equipamentos de proteção nem seguindo as normas internacionais de segurança no trabalho. Afinal, “o que aconteceria se ela se machucasse?”

Pasmo, me olhando como se o próprio Mr. Spock tivesse se materializado em frente dele, a resposta dele foi: “Eu contrataria outra.”

Minha segunda história aconteceu em Cantão — ou Guangzhou, como preferem os locais. No grupo de viagem estava uma moça, responsável pelo marketing e, consequentemente, pelas fotos. Ela pediu licença durante o café da manhã para registrar os arredores do hotel. Voltou em menos de uma hora, tremendo e chorando. Depois de vários copos d’água com açúcar, conseguiu explicar que havia fotografado o prédio vizinho que, para seu azar, era uma das sedes do Exército. Mal havia tirado os olhos do visor, foi abordada por três militares chineses que a obrigaram a entregar os cartões de memória, vasculharam sua bolsa, confiscaram a câmera (que devolveram depois de inspecioná-la) e ameaçaram detê-la. A câmera não era Leica.

Pois bem, o tal vídeo da F/Nazca não foi do agrado de Pequim por motivos óbvios. Aliás, na internet dentro da Grande Muralha, não há nenhuma menção ao incidente da Praça. Eu procurei.

Um chilique chinês significa o bloqueio ao segundo maior mercado do planeta. (O primeiro, dependendo do instituto de pesquisa.) Isso, claro, faz estremecer a direção de qualquer empresa com negócios lá.

Entre uma desculpa esfarrapada da Leica e um posicionamento dúbio da F/Nazca, fica a curiosidade de um vídeo celebrando a coragem de alguém se posicionar em defesa da verdade (ou, ao menos, da sua versão da verdade) e a concessão aos caprichos de um governo autoritário.

Não é o caso de nos prendermos apenas à China. Acontece em todo canto do planeta e é um dos temas mais antigos da humanidade: a integridade moral versus o ganho pessoal. Exemplos existem aos montes. Não faz muito tempo tivemos o escândalo do “Dieselgate” com a alemã Volkswagen. Citar os norte-americanos Facebook e Google, a essa altura, é chutar cachorro morto.

A internet nos passa a ideia de que temos liberdade de expressão, de que nos posicionamos de acordo com as nossas crenças, de que temos informação suficiente para formar opiniões plausíveis. Podemos achar o caso Leica comum, sério, absurdo ou condenável. Em qualquer desses cenários, a única certeza é que a nossa opinião passará por um equipamento chinês: do celular ou computador a roteadores, distribuidores de fibra óptica, servidores e, quem sabe, rastreadores automáticos de opiniões. Um misto de Admirável mundo novo e 1984. E acontecendo agora.

Teríamos a coragem de não comprar um produto “made in China”? Pense nisso: se a história da Leica te incomoda, se te ofende, você teria coragem de boicotar produtos chineses como forma de protesto, tipo um #deleteUber, mas para um país continental prestes a se tornar a maior economia do mundo?

Mas pense bem: estamos discutindo algo mais profundo aqui. Assim como não basta sua empresa de cosméticos preferida parar de usar animais como cobaias, é preciso que toda a cadeia de fornecedores também o faça. Portanto, não basta que seu forno de micro-ondas seja fabricado na Zona Franca de Manaus; os componentes eletrônicos que o controlam também não podem ter vindo de uma fábrica chinesa.

Topa o desafio?

Duvido muito.

E é isso o que me incomoda. O que me incomodou tanto a ponto de redigir este texto, que por si só já é um absurdo. Escrever alguns parágrafos não é o mesmo que pegar em armas e rumar para a Normandia ou, para ficar em algo mais tempestivo e menos dramático, abolir os produtos chineses da minha vida.

Talvez você conheça o Richard Stallman. Ativista, “hacker”, idealizador do movimento GNU e fundador da Free Software Foundation. Sem ele, não teríamos os milhares de programas gratuitos e abertos que sustentam grande parte da infraestrutura da internet. Apesar de todos essas realizações, ele é visto como um “esquisitão”, um nerd que grita aos quatro ventos que foi ótimo que Steven Jobs tenha partido. Mas ele vive segundo sua filosofia. Estritamente.

Todos nós sabemos que a China (só para continuar no exemplo; há muito mais casos em outros países) não é o melhor modelo de respeito aos direitos de seus próprios cidadãos, muito menos de livre concorrência e de livre mercado. Menos ainda no tocante à liberdade de imprensa. E isso é condenável, vai contra tudo o que a maioria de nós acredita ou deseja.

E, mesmo assim, não temos a coragem de nos posicionarmos contra. Posicionarmo-nos, veja bem, fora desses pixels, fora das nossas “mídias sociais”, dentro do que realmente importa, ou seja, mexendo no bolso das empresas chinesas (e, por tabela, do governo chinês).

Vivemos “o silêncio dos justos”? Não sei. Vou pesquisar no Google, usando meu notebook da chinesa Lenovo. Ao menos os fones de ouvido são japoneses.


Marcellus Pereira é desenvolvedor de sistemas embarcados, acompanha o mercado de informática desde quando a Gradiente fabricava micros de 8 bits, já escreveu em alguns sites de tecnologia. Mineiro, 42 anos, casado, pai de uma filha.


  1. “Dono” talvez não seja o melhor termo; o governo é um grande sócio dos empresários chineses.

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6 comentários

  1. Marcellus, bom ler um texto seu novamente!

    Quanto ao desafio de cortar completamente os produtos chineses de nossas vidas, não creio nem ser possível, atualmente. O exemplo do forno fabricado no polo industrial de Manaus, mas ainda montado com componentes fabricados na china talvez seja o mais emblemático disso, uma vez que o país asiático não apenas tem preços baixos por explorar mão de obra barata/desvalorizar sua própria moeda/subsidiar as fábricas, mas também porque alguns minerais utilizados na fabricação destes componentes só são extraídos por lá e o governo não permite a exportação do minério, só do componente fabricado com o minério.

  2. É especialmente simbólico isso ser com a Leica.

    A empresa ostenta orgulhosamente o “Made in Germany”, deixando claro a importância de não vir da China e até “justificando” os preços exorbitantes em comparação aos concorrentes. Além disso, como a própria propaganda deixa claro, parte da lenda da merca é sua importância histórica como equipamento de fotojornalistas.

    Hoje, provavelmente essas câmeras devem ser adquiridas em grandes volumes pelos chineses ricos, então eles preferem baixar a cabeça assim como todos nós.

  3. O problema dos dilemas morais não precisamos nem recorrer aos grandes exemplos para pensar sobre isso. Podemos ver nosso “pequenos crimes”, corrupções e tolerâncias a vizinhos com comportamentos prejudiciais a sociedade. O farol vermelho ou o limite de velocidade ultrapassado, o troco a mais, a fila furada, o som alto incomodando o vizinho, o lixo acumulado onde não deve…

    E nem sabemos discutir direito sobre isso, dado que entramos nos dilemas entre o bem estar próprio e o bem estar de uma sociedade.

    Não vivemos exatamente “o silêncio dos justos”: sabemos que a natureza básica humana é caçar, ocupar e dominar. Mas ao mesmo tempo sabemos também que dado nossas culturas, podemos dizer que “estamos quase domesticados” – as guerras diminuíram um pouco, a qualidade de vida foi razoavelmente melhorada para muitos, mas ainda assim com muito abuso ao próximo e problemas sociais ainda não combatidos.

    Continuando nos exemplos locais. Quantos de nós não sabemos de políticos locais (vereadores, prefeitos, etc) que desviam verbas? Ou até de amigos e parentes que entraram na política apenas pelo dinheiro? Quantos de nós não sabemos dos grandes terrenos ocupados por famílias que brigam entre si, enquanto falta moradia?

    O Pilotti, em um dos “Post Livre”, tinha falado sobre a queda de Notre Dame (ele desdenhava do incêndio), dado que ele lembrara que a Europa foi uma região de invasores/colonizadores, inclusive ocupando onde muitos de nós nascemos e/ou estamos (Brasil), e até mesmo regiões da China (não sou bom de história, mas sei superficialmente que houve algo). A China mesmo já vem brigando há séculos com outros países lindeiros à ele, seja para ocupa-los, seja para vencer conflitos.

    Somos muitos de nós frutos do cenário das invasões europeias aos outros países. Só pensar: e se nossos antepassados não tivessem vindo de outro país, ou se relacionado com alguém por aqui no Brasil. Não é exatamente uma questão de “aceitar o fato” apenas, mas sim de analisar que o contexto social anterior gerou esta situação que vivemos hoje.

    Não sei exatamente como é a China culturalmente e socialmente. Superficialmente, sei que há uma perseguição étnica dentro do país, dado que há uma etnia que se acha superiora a qualquer outro. Além de que ao invés do que pensamos, não é bem uma ditadura, mas sim uma autocracia, dado que é tolerado por grande parte da população que aceita as ideias do dito “partido”.

    Não dá para gritar contra um país inteiro exatamente, mas se houver inteligência o suficiente, é possível quem sabe mudar conceitos de políticos.

    Mas não nasce Ghandi, Obama, e outros políticos com poder de retórica e negociação com facilidade…

    1. bem se pensamos direto a china adotou o autocracia para poder acelerar tudo rapidamente, já que pode tomar decisão fáceis e rápidas mas será que dá certo mesmo? porque adotar autocracia as vezes é complicado, sim atacar o china pelo ideologia não dá dá direto mas se soubemos usar o dialogo poderia ajudar muito, já que a china nos conhece por seremos parceiros comerciais devido ao nossa soja certo? mas nosso governo novo ainda não sabe ser diplomático com outros países…e além disso pode afastar a china por causa de base que vai ser alugada para eua mas não sabemos qual é verdadeira intenção que o eua querem usar o base brasileira aqui. mas vamos ver que o tempo vai nos mostrar.

      1. Então. A autocracia chinesa, pelo que vejo, é o que no final agiliza as coisas para eles ganharem em poder, relevância e valor. Ao mesmo tempo, limita quem participa deste ganho. Esse acaba sendo o problema.

        Brasil sabia dialogar um pouco antigamente, pois tinha lideranças razoavelmente articuladas. E sabe também de seu próprio poder para ganhar em alguns mercados de commodities.

        As relações BR atuais são baseadas na nossa amalucada relação política que ganhamos pós eleições 2018/2019. Estados Unidos aproveitando um teco de nossas tecnologias (de fato, a Base de Alcântara estava com problemas de uso por sei lá que motivo) e a China já deu um susto diplomático que fez todo mundo do *verno tentar se redimir com ela, sem não antes perder algo para outro mercado. O *verno também levou outro susto diplomático com os países árabes.

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