TikTok inaugura nova era da internet em que os Estados Unidos não são protagonistas

Celular em primeiro plano, com a tela escura e o logo do TikTok, e ao fundo a bandeira da China.

Milhões de adolescentes dançam diariamente no TikTok. E milhares de adultos mais velhos têm se preocupado muito em não dançar. Você pode dar de ombros para o TikTok como se fosse uma onda passageira, bobeira de jovens sem importância para o mercado de tecnologia. “Ah, Guilherme, eu não sou mais jovem: tenho saudades do MSN, minhas ressacas duram três dias e eu já vacinei”. Ok, eu também, bonitinho e bonitinha — com exceção do MSN. Agora, deixe de ser um velho azedo que acha que as únicas coisas que prestam são aquelas da sua geração — esse é um dos piores caminhos para envelhecer.

No Tecnocracia desta quinzena, eu vou apresentar argumentos para fazer você reconsiderar sua posição e não cair na armadilha de virar o vovô Simpson esbravejando para as nuvens. O TikTok já é um dos principais fenômenos não apenas de tecnologia, mas de cultura jovem no mundo. Esse sucesso todo não tem consequências apenas para quem tem entre 12 e 25 anos. O mercado de tecnologia B2C está passando por um momento inédito, em que não são empresas dos Estados Unidos que dão as cartas. São elas que estão correndo atrás de um fenômeno global gestado longe do Vale do Silício.

Para entender melhor o fenômeno, voltemos a um dia específico: 19 de setembro de 2014. O Brasil ainda lambia as feridas do 7 a 1 quando o sino tocou fechando o pregão da New York Stock Exchange. Ali, encerrou-se o maior IPO da história do capitalismo global: o Alibaba levantou cerca de US$ 25 bilhões. Nenhuma outra oferta inicial de ações, seja de petrolífera, banco ou mineradora, atraiu tanto dinheiro. A gente já falou da história do Alibaba no Tecnocracia — foi no episódio #31, sobre como a SoftBank colocou os unicórnios em coma —, mas vale uma breve recapitulação para entedermos o tamanho do feito.

Em abril de 1999, um professor de inglês chamado Jack Ma juntou um punhado de alunos e abriu uma empresa em seu apartamento para facilitar as transações financeiras entre fabricantes chineses e compradores globais. Ma não tinha qualquer treinamento como empreendedor ou executivo. Ainda assim, o Alibaba atraiu o interesse — e o capital — da SoftBank, que investiu US$ 20 milhões em troca de um terço da empresa. Ma e seus funcionários souberam conectar não apenas os fornecedores com compradores globais, mas também os consumidores chineses com as marcas, o que fez o negócio crescer imensamente. O Alibaba e seus serviços, como o marketplace TaoBao, se transformaram no maior varejo digital do maior mercado consumidor do mundo. Graças às belezas da economia de escala, o site se transformou em parada obrigatória para qualquer comprador ou fabricante internacional que quisesse negociar com fabricantes e fornecedores de matéria-prima da China, mas achava as vias tradicionais complicadas demais. Ao protagonizar o maior IPO da história, o Alibaba se consolidou como uma das maiores empresas do mundo, Ma ficou bilionário e a SoftBank registrou uma taxa de retorno tão alta que passou a acreditar que tinha o toque de Midas. (Anos depois, o WeWork mostrou que a sensação de onipotência era só ilusão — tal qual todos nós, a vida é formada de erros e acertos.)

Empresas chinesas como o Alibaba e a Tencent, dona do WeChat, ficaram tão grandes por representarem ou portas de entrada para o polpudo mercado chinês ou por monopolizarem partes importantes da economia local com uma ajudinha do governo. É o famoso modelo de capitalismo de estado: há uma relação pouco transparente entre o governo e os empresários. Com políticas que “reservam” o mercado para empresários locais, o governo acaba “direcionando” o maior mercado consumidor do mundo para longe do capital estrangeiro. Com esse protecionismo radical, Tencent, Alibaba e Didi acabam tendo uma providencial ajuda ao rivalizar com as maiores empresas do mundo. Não à toa, nomes que dominam o mercado global não repetiram na China o mesmo sucesso. Facebook? Bloqueado. Twitter? Bloqueado. Google? Operou durante alguns anos, mas acabou banido ao bater de frente com o governo. Uber? Tentou operar, mas vendeu operações para Didi. Amazon? Ainda opera, mas encolhida — em 2019, fechou sua operação local de marketplace. Se você não é chinês ou chinesa, competir em tecnologia na China é duro.

Já existem indícios suficientes mostrando que o governo chinês ganha mais com essa estratégia mais do que perde com o afastamento de multinacionais estrangeiras — há cooperações no que diz respeito ao consumo de dados. Guarda essa ideia. O ponto principal do meu argumento é que as grandes empresas de tecnologia B2C (ou seja, para consumidores finais) eram sempre frutos do monopólio local para consumo local (quem usa o WeChat fora da China?) ou facilitadoras de acesso ao mercado chinês, como o Alibaba.

O TikTok, não. O TikTok nasceu na China, mas se converteu em um fenômeno global sem estar necessariamente atrelado ao monopólio local ou ao acesso ao mercado chinês. É a primeira vez que uma empresa de tecnologia B2C chinesa faz um sucesso enorme globalmente sem estar com raízes fincadas na China. Da maneira como tomou o mercado global, o TikTok poderia muito bem ter saído do Vale do Silício — o Twitter, inclusive, perdeu a chance ao matar um app de vídeos curtos chamado Vine em cujas pegadas o TikTok claramente pisa. É assim que o TikTok tem que ser entendido, o que levanta algumas questões interessantes sobre geopolítica.

Toda quinzena (de vez em quando um pouco mais que isso), o Tecnocracia junta dados, análise, piadas de tio e um pouco de pistolagem para explicar alguns fenômenos em que você, na casa dos 40, não está prestando atenção por se sentir saudoso das salas de chat da NutecNet. Eu sou o Guilherme Felitti e, no último mês, o Tecnocracia virou o podcast de tecnologia mais ouvido do Spotify no Brasil. É MUITO acima das expectativas que eu e o Rodrigo Ghedin tínhamos quando bolamos o podcast. Meu muito obrigado! Se você quiser ajudar o Tecnocracia, ele está no programa de assinaturas do Manual do Usuário. Quem assinar a partir do plano II (R$ 16) pode ver o Tecnocracia Balcão, um programa ao vivo feita uma vez por mês, e ainda ganha um adesivo do podcast para colar no laptop, na lavadora ou na geladeira.

No mesmo 2014 em que o Alibaba abria capital, um aplicativo musical era lançado em Xangai. Era o Musical.ly. Ele fez um relativo sucesso permitindo que os usuários gravassem vídeos curtos com danças ou dublando músicas de sucesso. Dois anos depois, a também chinesa ByteDance, que ganhou projeção por um app de agregação de notícias chamado Toutiao, lançou um serviço similar na China chamado Douyin. Em menos de um ano, o Douyin foi capaz de atrair mais de 100 milhões de usuários na China e na Tailândia, segundo a BBC. No Brasil isso seria impressionante, mas nos dois países é um café da manhã. “A ByteDance decidiu que tinha um potencial sucesso nas mãos e queria expandir o serviço sob uma marca diferente — TikTok. Então, em 2018, ela comprou o Musical.ly, descontinuou o app e começou a expansão global”.

Em novembro de 2017, a ByteDance pagou US$ 1 bilhão pelo Musical.ly por duas coisas específicas: a marca e a penetração no mercado norte-americano. Sabe-se lá Deus por quê, o Musical.ly fazia um enorme sucesso nos EUA. Ao comprá-lo, o ByteDance adotou uma estratégia “cavalo de Tróia” de ter acesso direto ao mercado norte-americano em vez de passar pelo doloroso e lento processo de construção de imagem. Àquela altura, o Musical.ly era cinco vezes menor que o Douyin — em 2018, o primeiro tinha 100 milhões de usuários mensais ativos e o segundo, 500 milhões, segundo a Reuters. Mas lembre-se: os 100 milhões eram fora da China.

Isso te lembra alguma coisa? Imagens: Musical.ly/Divulgação.

Aí começa a se formar a onda que nós estamos surfando hoje. Por que o TikTok faz tanto sucesso? A explicação mais simples é que o app é extremamente popular entre os jovens por: 1) seus conteúdos musicais; e 2) não ser o Facebook. O TikTok hoje é uma peça fundamental do mercado musical global — alguns dos maiores hits dos últimos três anos bombaram ajudados pelas versões e dancinhas no TikTok. A gente teve músicas da Adele que viralizaram em vídeos do TikTok, mas nenhuma outra canção sintetiza o poder que o app tem na indústria fonográfica do que Old Town Road, do Lil Nas X.

Diz o BuzzFeed News: “A música foi lançada em 3 de dezembro de 2018 e Lil Nas X teve a ideia desde o começo de tentar transformá-la em meme. O rapper, então com 19 anos, tinha experiência em viralizar e criar memes pelo uso compulsivo do Twitter quando era adolescente. Foi o próprio Lil Nas X quem publicou a música no TikTok. ‘Eu promovi a música como um meme durante meses até que pegou no TikTok e se tornou gigantesca’, ele disse à revista Time”. O principal meme que conduziu Old Town Road foi o “yee yee juice”: basicamente, o usuário bebia um gole do tal suco e virava instantaneamente um caubói com a música tocando ao fundo. Eu sei, eu sei: se você tem mais de 30 nada disso faz o menor sentido, mas é nesse mundo que a gente vive, então acostume-se. A partir do “yee yee juice” no TikTok, a música virou um fenômeno, chegou ao topo da Billboard Hot 100 e roubou de Mariah Carey o posto de música que mais tempo liderou a parada. Você, com mais de 30, dá uma respirada aliviada por finalmente ouvir um nome familiar. Com o sucesso, Lil Nas X assinou com a Columbia, fez um clipe com o Billy Ray Cyrus e o Chris Rock que já tem quase 600 milhões de visualizações e desencadeou uma das carreiras mais interessantes do pop atual.

Em 2019, o TikTok se consolidou como um pilar fundamental da cultura jovem não apenas para a música. Áreas como gastronomia, fitness, beleza e até recursos humanos migraram em peso para o TikTok. Um sinal claro da dominância do app aconteceu em junho deste ano. A VidCon, conferência sobre vídeos online que virou o maior evento para influenciadores do mundo, teve um novo patrocinador principal: após anos, saiu o YouTube e entrou o TikTok. Os alemães chamam isso de “zeitgeist”.

Uma das razões do sucesso do TikTok é a ultrapersonalização do feed e uma das razões para essa ultrapersonalização do feed é a forma como o algoritmo do TikTok opera. Quando você entra em outras redes sociais, a primeira coisa que te incentivam a fazer é adicionar amigos e seguir interesses. A partir desses amigos e interesses, o algoritmo da rede social vai montar seu feed. No TikTok, o algoritmo não funciona assim. Primeiro que, ao entrar, ele não pede para você adicionar contatos. Você pode, mas o que vai influenciar a montagem do seu feed são outros dados exclusivamente seus, como, por exemplo, quantos segundos você assistiu ao vídeo com cachorros de pé ou enfermeiros/as gostosos/as. Em vez de depender do seu grafo social (ou seja, sua rede de contatos), o TikTok se apoia no seu grafo de interesses, algo que o YouTube também faz, embora não tão bem assim. O Vox fez um vídeo muito bom que explica essa distinção entre grafo social e grafo de interesses. Isso faz com que o algoritmo te apresente gente com interesses muito parecidos aos seus, ainda que você nunca tenha visto a pessoa ou pisado no país onde ela vive. É uma rede realmente global com um apelo universal, o que ajuda a explicar por que, ao contrário de apps da Tencent e do Alibaba, o TikTok se tornou um fenômeno realmente global. Nenhum outro serviço digital alcançou um bilhão de downloads tão rápido como o TikTok. Pode pensar em qualquer uma, vai: Facebook, Instagram, WhatsApp, Snapchat, Twitter…

É com todo esse sucesso que o TikTok deixa de ser só um aplicativo de danças e vira o centro de uma tensão geopolítica entre China e EUA.

Em 6 de agosto de 2020, o ex-presidente norte-americano Donald Trump divulgou uma ordem executiva (correspondente aos decretos presidenciais no Brasil) anunciando restrições a dois aplicativos chineses: o TikTok e o WeChat. A ordem entraria em vigor após 45 dias. “As ordens diziam que os dois apps seriam bloqueados de processar transações de cidadãos norte-americanos e de serem baixados das lojas de aplicativos nos EUA após 45 dias, ou em 20 de setembro. Em 14 de agosto, Trump disse em uma ordem executiva separada que o TikTok seria completamente banido dos EUA se não se vendesse para uma empresa norte-americana até 14 de novembro”, segundo o jornal britânico The Guardian.

Aí a novela começou a ganhar personagens e contornos bem esquisitos, quase criminosos. É um momento bastante confuso, sem quase nenhuma transparência e com o dedo de um sujeito — Trump, que não restem dúvidas — que já demonstrou se comportar segundo o código da máfia.

Àquela altura, a operação norte-americana do TikTok estava sendo cortejada pela Microsoft. A negociação com a Microsoft chegou a um beco sem saída e a empresa divulgou um comunicado num tom passivo-agressivo, uma coisa que não costuma acontecer em negociações do tipo. Há alguns anos, um ex-chefe me contou uma frase que o presidente de um banco lhe falou ao comentar impasses com rivais: “quem briga é namorado”. Nos negócios, não tem muito espaço para drama, essas acusações meio juvenis. A negociação não deu certo? É isso, termina e pronto. A divulgação do comunicado num tom ressentido era um sinal.

Com a Microsoft fora da jogada, o acordo mais avançado previa que a operação norte-americana do TikTok se separaria da global em uma nova empresa chamada TikTok Global (confuso, eu sei). A nova empresa seria apoiada pela Oracle em infra-estrutura de nuvem e pelo Walmart em ferramentas para e-commerce. Qual seria a estrutura acionária? A ByteDance ficaria com 80% da empresa e as empresas norte-americanas (Oracle, Walmart e alguns fundos) com os 20% restantes. O que mudaria? Nada. Conforme a negociação foi avançando, a novela ficou mais intrincada: Oracle e Walmart contestaram a versão, dizendo que seriam majoritárias, um discurso que posteriormente Trump endossou.

Vamos parar com a novela só para esclarecer um ponto: a questão aqui não é dinheiro. Em algum momento, o TikTok vai fazer um IPO, que deverá ser um dos maiores da década. Se fosse por dinheiro, Trump mexeria no Alibaba. Ele nem precisou, o próprio governo da China fez isso. A questão aqui é propaganda.

São dois os principais pontos: os dados e os algoritmos que organizam o feed e alimentam os vídeos para os usuários.

  • Dados: quem tem acesso aos dados produzidos no TikTok? Há uma preocupação do governo norte-americano de que o TikTok esteja repassando ou facilitando o acesso aos dados de milhões de norte-americanos para o governo chinês fazer análises e criar perfis demográficos sobre eles.
  • Algoritmo: a partir das análises, o TikTok pode empregar seus algoritmos de machine learning para mostrar os vídeos que sugeririam uma visão de mundo particular. Se a preocupação do governo norte-americano é válida, pode-se imaginar a tentativa de usar o TikTok para pintar uma imagem mais positiva da China entre os jovens que usam o TikTok.

O TikTok nega as duas acusações, dizendo que os dados dos usuários norte-americanos não são processados na China e que a companhia não dá ao governo chinês acesso às informações pessoais dos usuários norte-americanos. Não é bem verdade: em junho, ex-funcionários da ByteDance revelaram à CNBC que não existe separação entre a operação chinesa e os dados norte-americanos, ao contrário do alegado pela gigante chinesa.

Vamos voltar à novela: no modelo que os jornais New York Times e Wall Street Journal reportaram, nada mudaria. As alterações só abririam um negócio crescente para amigos do presidente. E aí a história ganha contornos criminosos. No meio da negociação, Trump sugeriu que o governo norte-americano deveria ganhar uma fatia do negócio, uma sugestão inconcebível. Fundador e CEO da Oracle, Larry Ellison é um republicano antigo e promoveu um evento para levantar fundos para Trump meses antes da negociação. Scott Galloway definiu bem: o governo norte-americano abandonou o capitalismo e fundou uma espécie de socialismo de compadres, em que ganha benesses não quem está mais bem equipado, mas quem é amigo(a) do rei. É o tipo de negociata que o Tony Soprano analisaria e falaria: “pô, Trump, segura um pouco, aí é demais”.

Além da tentativa atabalhoada e semi-criminosa do governo Trump, está faltando alguém nessa crise geopolítica: o governo chinês. Ao mesmo tempo em que o Trump divulgava as ordens executivas, o governo chinês também divulgou novas regulamentações que dificultavam a venda da tecnologia principal do TikTok sem uma licença do próprio governo. Em outras palavras: a China se deu o direito de bloquear qualquer negócio envolvendo uma das empresas locais mais bombadas. Depender da aprovação do alvo de sanções é sempre complicado.

A disputa acerca do TikTok foi uma entre várias de uma relação crescentemente tensa entre a China e o governo Trump em seus últimos meses. “Em meses recentes, oficiais da administração Trump desafiaram a China na sua repressão a Hong Kong, suas reivindicações territoriais no Mar da China Meridional e seus esforços para produzir campeões globais de tecnologia. A campanha foi provocada em parte pela postura mais assertiva da China, mas também pelo desejo de Trump de convencer eleitores de que era duro com a China conforme a eleição se aproxima”, escreveu o jornal New York Times em agosto de 2020.

A teoria ganha corpo quando consideramos o que aconteceu depois: nada. Conforme as eleições se aproximavam, Trump esqueceu a questão. O TikTok era só uma tentativa de alimentar aquela narrativa nacionalista que sustenta a extrema-direita ao redor do mundo. A data final para bloqueio do TikTok nos EUA chegou em novembro e nada aconteceu, já que a questão foi parar em um limbo: a ordem executiva continuava valendo, mas o governo abriu mão de acompanhá-la. Como não havia consequências ou punições tipificadas, a data passou sem que nada acontecesse. Em uma linguagem que o público do TikTok entenderá, o governo Trump largou. Em nenhum momento o TikTok ficou indisponível ou parou de processar dados de usuários norte-americanos.

Joe Biden ganhou em novembro, assumiu em janeiro — ainda que Trump tenha tentado dar um golpe de estado — e a questão morreu. Em 9 de junho, Biden oficialmente revogou as ordens executivas de Trump, ao mesmo tempo em que ordenou uma nova análise dos riscos de segurança que o TikTok representa. “A ordem de Biden direciona o Departamento de Comércio a monitorar aplicativos como TikTok que possam afetar a segurança nacional dos EUA, assim como fazer recomendações dentro de 120 dias para proteger dados norte-americanos adquiridos ou acessíveis por empresas controladas por adversários estrangeiros”, segundo a Reuters.

Há um outro fator que precisa ser levado em consideração sobre essa ultrapersonalização do TikTok. Redes baseadas no grafo social ajudam a quebrar essa câmara de eco — quando sua mãe ou sua avó estão vendo o que você publica ou publicando conteúdo que você consome, é mais fácil não entrar no buraco do coelho. No TikTok, baseado em interesses, isso não existe. Cria-se uma câmara de eco individual em que a pessoa fica consumindo só aquilo que o algoritmo manda. E o algoritmo, a gente sabe, vai mandar coisas que mantenham o usuário vidrado na tela. Tal qual vimos no YouTube, isso tende a aumentar o grau da fervura constantemente. Há uma séria preocupação sobre os efeitos que essa câmara de eco individual, longe do alcance de qualquer outra pessoa, tem na radicalização dos jovens. A gente já viu isso no YouTube — é uma dinâmica muito parecida, com a diferença que o algoritmo de customização do TikTok é ainda melhor.

Trump, de costas, aperta a mão de Mark Zuckerberg no Salão Oval da Casa Branca.
Foto: @realDonaldTrump/Twitter.

As ordens escalafobéticas de Trump foram comemoradas pela Big Tech, principalmente por (quem mais?) Mark Zuckerberg. Nos depoimentos que deu ao Congresso norte-americano no ano passado, uma das principais linhas de defesa de Zuckerberg envolvia alegar que empresas norte-americanas deveriam operar sem qualquer restrição ou regulamentação já que rivais estrangeiros poderiam ameaçar a soberania dos EUA. É o puro FUD. Ao mesmo tempo em que se enrola na bandeira dos EUA e come uma torta de maçã e um cachorro-quente para a câmera, Zuckerberg faz o que o Facebook faz de melhor: copiar apps de sucesso para ver se consegue ter sucesso. Deu certo com os Stories no Instagram, cópia do Snapchat. Dessa vez, porém, o lobby geopolítico parece ter mais potencial: o Facebook já lançou, pelo menos, três clones do TikTok. Teve o BARS, teve o Lasso e o principal é o Instagram Reels (de novo, o Instagram é o veículo escolhido para tentar desossar o rival).

O Facebook não é o único a tentar copiar o TikTok: o YouTube mudou seu app para dar destaque ao YouTube Shorts no menu principal. E nem estamos considerando os clones independentes, como Zynn, Triller, Josh ou Byte. Sabe quem não entrou na onda (pelo menos diretamente)? A Microsoft. Foi um ótimo negócio não ter levado — a Microsoft não está no olho do furacão da regulamentação da Big Tech ainda que seja a segunda maior empresa do mundo em valor de mercado (a Microsoft vale quase um trilhão de dólares a mais que o Facebook). Comprar a operação do app mais popular do mundo nos EUA a colocaria, sem dúvidas, sob um escrutínio maior. Indiretamente, a Microsoft investiu num clone indiano do TikTok, o Josh.

O sucesso inédito de um app chinês no resto do mundo levanta uma série de questões sérias sobre tecnologia e geopolítica. A preocupação original do Trump não era maluca. A questão é que: 1) havia uma hipocrisia enorme no argumento, já que o governo norte-americano foi pego com o Prism fazendo exatamente o que ele acusava a China de fazer; e 2) a execução foi terrível, mafiosa, de corar Tony Soprano.

Há um argumento que ganhou força nos últimos anos com o sucesso do TikTok: se a China fecha o imenso mercado interno para soluções locais, por que outros países com bases enormes de usuários deveriam deixar seus mercados grandes livres para empresas chinesas? Pode-se entender os estudos e as sanções como uma espécie de pilar da diplomacia global: a reciprocidade. A diplomacia sempre operou baseado no “se você fizer comigo, eu faço com você”. É uma espécie de regra não escrita que raramente não se aplica — você, brasileiro, pode ver esses episódios raros neste exato momento, já que o Brasil apoia os EUA em uma série de questões sem ganhar absolutamente nada em troca. O Itamaraty já foi mais sério e competente. Enfim, voltando ao TikTok. O modelo de protecionismo digital da China foi copiado pela Índia, o segundo país mais populoso do mundo. Existe um risco de entrarmos em uma fase de internet local, com grandes países, à la China, se fechando apenas para empresas locais? Improvável. Parece uma resposta extrema. Mas algum desdobramento deveremos ver.

A questão é como fazer isso. Estamos em águas nunca antes navegadas ou, como diria a Luciana Gimenez, “uncharted waters”. Vetar o app é fora de cogitação — o TikTok já é conhecido o suficiente para desengatilhar uma reação, principalmente entre os jovens, monstruosa. Forçar a venda, como mostrou Trump, é um delírio. O espaço de ação é limitado, ainda mais agora com Biden, que já deu indícios claros que seu foco em tecnologia não são serviços estrangeiros, mas o monopólio da Big Tech puramente norte-americana.

Faltou alguma coisa nesse comentário, né? A gente falou de uma questão geopolítica envolvendo China e Estados Unidos, mas, ao que me consta, esse não é um podcast chinês ou norte-americano, ainda que seja acusado de comunista por uma galera abilolada por aí. Como entra o Brasil nessa história? Tal qual o camarão com sono do clássico samba, o Brasil nessas questões se comporta conforme a dinâmica da onda — dada a falta de relevância nacional em fenômenos globais de tecnologia de consumo (talvez um pouco menos em pagamentos, mas esta é outra história), essa é uma mesa da qual a gente não participa.

Há, porém, algo curioso a se notar. Com o TikTok e a quebra do monopólio norte-americano do extrativismo de dados no planeta, os Estados Unidos acabam vivendo um pouco como o Brasil. Claro, existem diferenças fundamentais de soft e hard power na hora de responder aos chineses. Mas os EUA estão na incômoda posição, inédita para eles, de uma empresa de crescente sucesso entre seus cidadãos cujos donos e controladores não escolhem quem ocupa a Casa Branca e que empresários locais não conseguem vencer pelo caminho tradicional da competição. O TikTok colocou os EUA na situação de ser mais um país do mundo alvo da extração desenfreada de dados pessoais — e com muito pouco que possa ser feito.

Foto do topo: Solen Feyissa/Unsplash.

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1 comentário

  1. Parabéns Guilherme.
    A clareza com que esclarece o app é decisivo para a compreensão dos interesses de bastidores.
    Só me senti culpado cada vez que dizia: você que tem mais de 30, você que tem mais de 40…
    Estou com 64…
    Mayara Carry é meu limite…

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