Como destruir um pequeno negócio digital
Em março de 2022, tomei a liberdade de publicar uma notícia no Manual de uma empresa que não opera no Brasil e nem deve ter muitos usuários por aqui. Era o Bandcamp, uma pequena plataforma de venda direta de música digital, adorada por músicos e fãs.
Na ocasião, ela havia sido adquirida pela Epic Games, a poderosa dona da máquina de fazer dinheiro Fortnite, àquela altura em uma disputa ferrenha contra a Apple nos tribunais norte-americanos devido ao “pedágio” de 15–30% que esta cobra de itens digitais na App Store.
Na época, o discurso pós-aquisição foi o de sempre, de que o CEO do Bandcamp continuaria à frente da operação, que continuaria independente, nada muda.
Pensei alto: “Quando foi a última vez que esse arranjo deu certo? É, também não me recordo.”
A Epic se desfez do Bandcamp no final de setembro, em meio a uma onda de demissões. Essa foi rápida — a promessa durou menos de dois anos.
A nova dona do Bandcamp, Songtradr, especializada em licenciamento de músicas, deixou os 118 funcionários da aquisição no escuro, por duas semanas. Na segunda (16), confirmou a demissão da metade deles.
No e-mail aos que sobraram, o CEO da Songtradr, Paul Wiltshire, disse que as mudanças seriam necessárias devido à situação financeira do Bandcamp. O que é curioso, porque até 2021 o Bandcamp era lucrativo havia mais de uma década, crescendo lenta e consistentemente desde a sua fundação, em 2008.
Mudam os personagens e as circunstâncias, mas o desfecho é sempre igual. A ganância do grande capital segue fazendo vítimas, destruindo pequenos negócios saudáveis que de outra forma poderiam existir por muito tempo.